quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Crítica: Uma Família Feliz


Uma Família Feliz
por Joba Tridente
    
Uma vez que as animações que estreiam por aqui são dubladas em português (até por celebridades), poucos são os espectadores que se dão ao trabalho de saber a origem delas..., possivelmente imaginando que, por conta do título e trilha sonora em inglês, só podem ser made in USA. Outra contribuição ao equívoco é que, diferente das animações asiáticas, principalmente a japonesa, não é fácil para a criançada (público alvo) ou mesmo adulto distinguir alguma originalidade nos traços e conteúdos das produções europeias e latinas que, por questão de mercado, procuram se aproximar cada vez mais da “matriz”. Como, por exemplo, o curioso desenho animado alemão Uma Família Feliz (Happy Family, 2017), baseado no best-seller homônimo do premiado escritor e roteirista David Safier.


O enredo de Uma Família Feliz, dirigido por Holger Tappe, a partir da levíssima adaptação da novela, feita pelo próprio Safier e Catharina Junk, gira ao redor da disfuncional família Wishbones (Wünschmann, no original), formada por Emma, que tem uma livraria dispendiosa, Frank, escriturário que cumpre horas extras, Fay, a filha adolescente rebelde sem causa, e Max, o caçula nerd. Certa de que os Wishbones precisam urgentemente discutir a relação, Emma decide levar a estressada família a uma festa à fantasia. Porém, por conta de um apaixonado e galanteador Drácula, a família dá de cara com a bruxa Baba Yaga e cada um deles é transformado no personagem que veste: Emma em Vampira, Frank em Frankenstein, Fay em Múmia e Max em Lobinho. Daí, na caçada à bruxa, para reverter o feitiço, cada um enfrentará, em situações hilárias, seus próprios demônios: crise de identidade, medo, agressividade, relacionamentos, bullying, assédio, estudo..., no que chamamos de jornada do herói.


A mistura bem humorada de mitos europeus de Contos de Fadas (Baba Yaga) e de Contos Góticos (Vampiros, Lobisomem, Múmias, Frankenstein) dá a Uma Família Feliz ingredientes sólidos para o desenvolvimento de uma paródia repleta de ação e aventura e romance numa trama (terrir) que diverte educando a criançada e alertando os adultos sobre a possessividade nos relacionamentos amorosos e familiares. O que vai fazer muito espectador repensar seus conceitos é a motivação do “vilão” Drácula para o seu grande “ato de vingança” contra a humanidade. É algo até banal, entre homens e mulheres, mas doentio e na medida para sessão de psicanálise.


Com notáveis referências ao seriado americano Os Monstros (1964-1966) - onde Lily, a matriarca, é Vampira, o seu marido Herman é Frankenstein e o filho Eddie é Lobinho - e (inclusive nos traços) aos ótimos Hotel Transilvânia 1 (2012) e Hotel Transilvânia 2 (2015), o roteiro alterna assuntos adultos e infantojuvenis, em linguagem simples e de fácil compreensão para qualquer espectador. Apesar do tema “lúgubre”, Uma Família Feliz é engraçado, as gags são legais, e a edição é muito boa. Por falar em humor, nem todo mundo vai gostar da piada escatológica (ao gosto dos americanos), mas muita gente vai rir de uma cena pastelão inspirada na briga entre um mal-humorado super-herói verde e um egocêntrico vilão espacial, no filme Os Vingadores (2012).


Embora reconhecíveis de outras produções (ou por isso), os velhos personagens que desfilam jovialidade na saga de Uma Família Feliz, podem ser visto como se (atores) estivessem representando um novo texto, numa história contemporânea. Entre as figuras mais interessantes estão a impagável Múmia do Faraó Imhotep (que rouba todas as cenas), as adoráveis Baba Yaga e hippie Cheyenn e o charmoso “vilão” Drácula. Aliás, as sequências das Múmias (Imhotep e Fay) no deserto são antológicas.

A direção de arte é bastante observadora na paleta de cores. Indo na contramão dos coloridíssimos filmes infantis, opta por tons mais naturais e que variam conforme o segmento vivido pelos personagens na cidade, no deserto e ou no fantástico castelo futurista do sedutor Drácula. Afinal, é um filme de monstros disfuncionais e não de graciosos duendes.


Enfim..., ressaltando a ironia do título Uma Família Feliz, já que, na verdade, o que salta aos olhos é o cotidiano de uma família infeliz precisando desesperadamente encontrar a felicidade..., ainda que o seu alvo seja o entretenimento juvenil, esta é uma daquelas animações que podem surpreender o público adulto por causa do conteúdo familiar bem intencionado e, por vezes, ousado subtexto, ao tratar de relações conjugais. O seu estilo pode até não ser dos mais originais (ao apostar nas referências televisivas e cinematográficas), mas apresenta uma excepcional qualidade gráfica e um convincente 3D de profundidade e de avanço sobre a plateia. Um espetáculo com belas metáforas para toda a família refletir sobre seus próprios percalços.

*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

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