terça-feira, 31 de agosto de 2010

Crítica: Karate Kid


Karate Kid

Ao ouvir falar de refilmagem, muitos cinéfilos ficam de cabelo em pé. Principalmente os que ainda têm pelos na cabeça. Karate Kid, “releitura” do filme homônimo de 1984 (dirigido por John G. Avildsen), poderia ser mais uma bomba caça-níquel do gênero “não vale a pena ver de novo”, mas acabou provando o contrário. Quero dizer, continua um caça-níquel, porém, relevando os excessos em mais de duas horas de projeção, ele é um ótimo programa para (quase) toda a família.

Karate Kid (The Karate Kid, EUA, 2010), dirigido por Harald Zwart, com roteiro de Christopher Murphey, tem o mesmo começo chato, muda apenas o cenário. Se, anteriormente, Daniel Larusso (Ralph Macchio) e sua mãe, Lucille Larusso (Randee Heller), saiam de Nova Jersey para o sul da Califórnia, agora, Dre Parker (Jaden Smith) e sua mãe, Sherry Parker (Taraji P. Henson), saem de Detroit para Pequim, na China. Ontem e hoje, porém, Daniel e Dre não se adaptam à nova realidade; se interessam por uma bela garota Ali Mills (Elisabeth Shue) e Mei Yin (Wen Wen Han) atraem a ira de um ex-namorado Johnny Lawrence (William Zabka) e um pretendente Cheng (Zhenwei Wang), com as suas devidas gangues; apanham um bocado e (para se verem livres dos meninos malvados) conseguem ajuda de mestres de artes marciais: Miyagi (Pat Morita), no Karate, e Mr. Han (Jackie Chan), no Kung Fu. O interessante, nessa troca do japonês Morita pelo chinês Chan, é que o Karate (ou Caratê) tem a sua origem na China, mas foi aprimorado em Okinawa, no Japão. Coincidência?

Na China ele recebeu o título Kung Fu Kid, o que (me parece) é mais correto, já que Dre aprende e luta kung fu. As lutas e os ataques da gangue de Cheng são bem violentos, pode incomodar os mais sensíveis, principalmente na competição final. Fora isso, entre uma pancada e outra, a história se espalha (como se tivesse todo o tempo do mundo) e se estica (além da conta) em cenas turísticas, romance, treino, diversão, brigas, preconceito..., num drama juvenil que deve agradar fácil aos fãs (antigos) e fazer novos. O elenco está muito bem ensaiado e traz um Jackie Chan dramático, contido, talvez em sua melhor atuação. Numa divertida sequência, ao ser atacado por um grupo de garotos perturbados, ele desenha uma coreografia maluca, fazendo com que os meninos lutem entre si, sentindo no próprio corpo a dor que infligem (sem culpa e com determinação) em pessoas inocentes. Aparentemente há (ali) apenas humor, nonsense. No entanto, por trás de cada gesto, há uma lição clara sobre o autocontrole.


Apesar de extenso, o filme (que começa insosso, mas logo ganha ritmo) é bem realizado e emociona, com a sua mensagem de superação física e espiritual: “A vida pode te derrubar, mas você é quem decide se quer se levantar ou não.” Um dos bons momentos (o mais marcante), que sintetiza essa filosofia, se dá quando Dre (discípulo) e Han (mestre) são obrigados a enfrentar os seus próprios “demônios” e descobrem que um depende do outro, para se levantar e caminhar com as próprias pernas, ou continuar sendo um boneco. A construção de toda a sequência é de uma ternura e de uma ludicidade pouco vistas (com tanta força simbólica). A cena do solidário “treino” das sombras (realmente) é de arrepiar!

Tenho vagas lembranças do Karate Kid original. Não quis rever (ôps!) para fazer comparações, já que esta narrativa superou minhas expectativas. Se bem que, se “perdesse” (pelo menos) meia hora seria muito melhor. Recontar (no cinema) várias vezes a mesma história (mudando o sexo, a cor ou a cidade dos personagens) é algo que os norte-americanos não abrem mão. O chato é que, dependendo do gênero, assim que um filme começa a gente já sabe como termina. O bom é que, entre dúzias de diretores medíocres, um ou outro acaba escapando da peneira e dá conta do (velho) recado como se fosse novo. Foi o que aconteceu com este Karate Kid. Já que perguntar não ofende: Será que vai virar moda os longuíssimos metragens, mesmo sem ter cacife, estofo, material, história, roteiro para tanta lenga? Porque, a cada estréia, aparece um filme mais longo que o outro!

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Crítica: Origem


Origem

Origem (Inception, EUA, 2010), escrito e dirigido por Christopher Nolan, se depender da crítica (embevecida), será a nova sensação cinematográfica a marcar o ano, a década, o século. O drama de ação e aventura fala de um bando especializado em roubar informações sigilosas e valiosas da mente de uma vítima entorpecida. O grupo, chefiado por Don Coob (Leonardo DiCaprio), é contratado por Saito (Ken Watanabe), um rico empresário do setor de energia, para uma tarefa diferente: inserir uma idéia no subconsciente do executivo Robert Fischer (Cillian Murphy), provocando a desestabilização de seu monopólio. A turma muito mal intencionada é “incorporada” por um elenco muito bem intencionado: Marion Cotillard é Mal Coob, o espectro da mulher de Coob, sempre se metendo a onde não é chamada; Ellen Page é Ariadne, a arquiteta que projeta o labirinto usado no golpe final; Joseph Gordon-Levitt é Arthur, uma espécie de braço direito de Coob; Tom Hardy é Eames, um falsificador de aparência e ilusionista; Michael Caine, mestre e sogro de Coob. Mas o destaque fica por conta de DiCaprio que (apesar do papel ser parecido com o do agente federal Teddy Daniels, de Ilha do Medo) continua provando que é muito mais que um rosto bonito em Hollywood.



A narrativa, que parece uma cópia de segunda da excelente animação japonesa Paprika, de 2006, e também lembra outras produções cinematográficas de ficção científica, apesar da aparência frenética, é um tanto confusa e arrastada. Tem alguns efeitos especiais (realmente) fascinantes, mas veste uma história que carece de maior criatividade até mesmo quando envereda pelo romântico caminho do desejo. Pouco depois da metade parece perder totalmente o rumo, é a senha para que o espectador sonolento, que não consegue mais acompanhar o fio de Ariadne, digo da história, saia. Quem fica tenta (ao menos) se envolver com a mesmice (tapa buraco) da indefectível e tradicional violência gratuita (travestida de autodefesa). São raros (muito raros) os diretores que conseguem realizar um filme sem as costumeiras cenas de ação: perseguições a pé (trombando, derrubando gente e coisas, tiros a esmo), de carro (trombando, explodindo, voando, rolando), explosões diversas e tiroteio sem fim (atiradores ruins de pontaria e armas sem mira). Haja paciência!


A trilha sonora, de Hans Zimmer, é excelente, porém (se torna) irritante, pelo altíssimo volume e onipresença. Parece “estar em cena” mais para confundir (do que subestimar) a inteligência do espectador. Ou funcionar como uma lavagem cerebral (ou seria musical?) evitando que se pense a respeito do que está sendo projetado na tela e na mente (dos personagens e do espectador). Aliás são raros os segundos em que o filme não é embalado por alguma música condutora de emoções (vagas!). Chutado do princípio ao fim, por tanta modernidade instrumental, não consegui embarcar na induzida viagem onírica e contei os segundos pra acabar o (duplo) pesadelo. O curioso é que, assim como a personagem de Leonardo DiCaprio, a trilha de Origem lembra muito a de Ilha do Medo, dirigido por Scorsese. A diferença, aqui, é o excesso de inserção (ôps!). Pra mim, um verdadeiro onipresente de grego!

Gosto de experimentação e acho que a cada dia mais o cinema (que nos chega, evidentemente) precisa de uma boa chacoalhada. Porém, Origem (realmente) não me convenceu na sua grandiloquência. É provável que esta aventura onírica (com seu final terno e sombrio) conquiste uma seleta platéia fã de quebra-cabeças, mesmo que o jogo não passe da 1ª fase de discussão. Ou que o pião seja mera ilusão de ótica.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Crítica: O Último Mestre do Ar


Talvez por puro saudosismo, lembrança da adolescência vivida numa comunidade onde partilhávamos chá de camomila, pão integral com mel e manteiga de missô com tahine..., e buscávamos o equilíbrio das forças elementais: ar, terra, água, fogo e, acreditando que poderíamos dominar os elementos simplesmente vencendo uma ventania ou um terremoto ou uma enchente ou um incêndio, me simpatizei com O Último Mestre do Ar (The Last Airbender, EUA, 2010).


O filme, roteirizado e dirigido por M. Night Shyamalan, baseado na televisiva série animada Avatar: The Last Airbender, criada por Michael Dante DiMartino e Bryan Konietzko, não é nenhuma obra-prima, mas é agradável de se ver. Por desconhecer a série da Nickelodeon, não tive o ranço crítico de ficar comparando personagens, temporadas etc. Acredito que, por isso, curti (de verdade) esta boa história recheada de elementos pertinentes ao estilo oriental dos Contos Maravilhosos. Num tempo em que toneladas de lixo americano trafegam por rios caudalosamente contrários à maré do equilíbrio, na desenfreada busca da mesmice, faz um bem danado apreciar uma antiga mensagem com uma nova roupa.

Acredito que tanto o público infantil quanto os orientalistas se identificarão com a história, simples, que acompanha a evolução de Aang (Noah Ringer), um Avatar, ainda jovem, que por desconhecer o seu potencial (de equilibrar as forças elementais), teme o poder e as responsabilidades que vêm com ele. Compreender a vida é se libertar da morte anunciada, mesmo que não se concretize.  Ao despertar para um mundo em decadente transformação, onde a Nação do Fogo quer reinar sobre a Tribo da Água, o Reino da Terra e os Nômades do Ar, o jovem Aang, além da ajuda dos “Dobradores”, pessoas excepcionais que são capazes de manipular os elementos do seu grupo étnico, vai precisar conhecer a si mesmo, para finalmente ocupar o seu lugar (de fiel da banca) no mundo.


Se a direção de Shyamalan não é das mais memoráveis, também não é esse desastre todo que estão apregoando. Está dentro do razoável, principalmente num ano em que grandes diretores apostaram alto e afundaram com suas “pérolas” douradas. O Último Mestre do Ar tem lá seus excessos, como qualquer produção com o (pecaminoso) propósito de se concluir em três ou mais partes (que nunca esteve tão em voga). Mas os belíssimos efeitos especiais e as notáveis coreografias compensam os possíveis deslizes de um roteiro que, infelizmente, não se bastou num único filme, e até mesmo a “atuação” dos novatos que, por enquanto, não passam de promessas bonitinhas. É uma produção pra se ver sem pressa e em total relaxamento. Pode até faltar umas pitadas de humor (que dizem presente na série animada), mas não lhe falta bela cenografia, mesmo que digital.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Crítica: O Aprendiz de Feiticeiro


O Aprendiz de Feiticeiro

O Aprendiz de Feiticeiro (The Sorcerer´s Apprentice, EUA, 2010) é (mais) uma pretensa aventura bobinha dos Estúdios Disney que (se muito) aposta no público infanto-juvenil (6 aos 12 anos), mesmo que no Brasil a indicação seja para 10 anos. Talvez por conta das cenas de “formação de platéia” para filmes de “violência limpa”.

Remexe e revira e lá vêm os filhos do Tio (Patinhas? Donald? Walt?) Sam com mais uma viagem no tempo. Quando não vai gente (geralmente tola) do presente para o passado (medieval), vem alguém (geralmente tolo) do passado (medieval) para o presente. Na falta (contínua) de assunto (apostando mais no cifrão que nos neurônios além Tico e Teco) se refilma (produções próprias e alheias) ou se desloca no tempo. Se bem que, desta (não era uma) vez não há viagem, propriamente dita, mas uma continuidade de vida (aos modos Highlander de viver eternamente, se não perder a cabeça) através da magia peculiar de Merlin, aquele dos tempos do Rei Arthur e da malvada Morgana, a invejosa irmã do Mago.


O Aprendiz de Feiticeiro, dirigido por Jon Turteltaub, é mais um subproduto que se arrasta (cansativamente) atrás de Harry Potter, a falar de magos e aprendizes em luta para dominar o mundo de gente que acredita neles. A (requentada) história sem (nenhuma) criatividade e tão insossa que não tem elementos nem para dar asas à imaginação (dos pequenos). O elenco é encabeçado por Nicolas Cage, na pele do Feiticeiro Balthazhar Blake, que atravessa os séculos em busca de um novo discípulo e o encontra (vivendo nos dias de hoje) como (o chato nerd) Dave Stutler (Jay Baruchel). Porém, antes que o jovem choramingas esteja pronto para salvar o mundo, mestre e aluno (a contragosto) vão enfrentar a vingança ciumenta de outro feiticeiro, Maxim Horvath (Alfred Molina). Assim, de um lado há feiticeiros querendo destruir o mundo (por não ter um amor correspondido) e, do outro, feiticeiros querendo salvar o mundo (para ter um amor correspondido). Os atores não estão em seus melhores momentos e a canastrice é generalizada.


O Aprendiz de Feiticeiro só não fica abaixo da crítica por conta de alguns bons (nada excepcionais) efeitos especiais e a releitura da sequência mágica de O Aprendiz de Feiticeiro, protagonizada por Mickey, no clássico Fantasia (1940). Fora isso, é um torpor só! Nem a recorrente violência gratuita (sem sangue), que vai da tradicional maçante perseguição automobilística (carros batendo, voando, amassando etc) à morte sem cadáver, consegue despertar o espectador. E já estão pensando no Aprendiz de Feiticeiro – 2. Isso é que dá não ter bola de cristal.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Crítica: Sempre Bela (Belle Toujours)


Sempre Bela (Belle Toujours)

O excêntrico drama (?) Sempre Bela (Belle Toujours, França, 2006), dirigido por Manoel de Oliveira, se propõe uma “sequência” ao A Bela da Tarde (Belle de Jour, França, Itália, 1967) de Luis Buñuel (1900-1983), escrito em parceria com Jean-Claude Carrière..., mas acaba ficando apenas na vontade. A história, com um roteiro frouxo e diálogos insípidos, narra um (inconvincente) reencontro (40 anos depois) entre Henri Husson (Michel Piccoli) e Séverine Serizy (Bulle Ogier), personagens de Belle de Jour, com o próprio Picolli e Catherine Deneuve, que não se interessou em reviver o depois de Séverine.


A trama parece mais um fruto de esparsas lembranças daquele polêmico filme lá (bem) atrás, já que tanto a (re)construção de Husson quanto de Séverine resultaram em bonecos ocos e desinteressantes. Piccoli, que não teve problemas em se revestir de Henri Husson, sai do passado para voltar à cena e perversamente infernizar a vida de Séverine, com a promessa de uma revelação que vai dar paz ao espírito da velha senhora. Ele a vê num concerto de música clássica, onde a orquestra executa a Sinfonia nº 8 de Anton Dvorak, e a perde na saída do teatro. Alguns subornos, fofocas e coincidências depois, ele a encontra e marca um encontro para (finalmente) lhe dizer se contou ou não (ao marido dela) sobre a sua traição. Pra quem não de lembra ou desconhece, Belle de Jour, traz a belíssima Catherine Deneuve na pele de Séverine Serizy, uma dona de casa que trai o marido, passando suas tardes num bordel, em busca de prazeres sexuais.


Com prólogo, capítulos e epílogo (em aberto), Sempre Bela funcionaria melhor num palco de teatro. No cinema os velhos (e novos) personagens não inspiram a menor simpatia e nem despertam qualquer curiosidade. E isso não tem a ver com a forma vagarosa do diretor contar histórias e muito menos com a sua constante câmera fixa, um exercício que (às vezes) resulta em planos formidáveis. Os coadjuvantes (prostitutas e barman) do bar, onde o chato alcoólatra Husson vai encher a cara e fofocar sobre o passado, são insossos e repetitivos. Aliás, o que não falta em Sempre Bela é a repetição de texto. Como se não acreditasse que o espectador entendeu a primeira fala, mexe e vira lá vem ela de novo e de novo. Com uma referência aqui e outra acolá, ao filme do mestre Buñuel, percebidas apenas por cinéfilos expertos, a narrativa de Oliveira se arrasta, sem muita graça, por 68 minutos. O que fica desta “homenagem” fugaz (realizada com câmera fixa) é apenas a antológica sequência do jantar, à luz de velas, com uma ótima coreografia dos garçons, ruídos de talheres e mastigação da comida, sem nenhuma fala, por uns 10 minutos.


Confesso que não sou lá grande fã de Manoel de Oliveira. Os seus filmes nunca me tocaram da mesma forma exaltada que parece tocar a muitos críticos. A propósito da câmera fixa (que em Sempre Bela tem bons momentos), em uma entrevista coletiva, durante o 59º Festival de Berlim, publicada no site otempoonline, em 11/02/2009, Manoel de Oliveira, que é sempre questionado sobre o uso de tal recurso, disse: "Quando os Lumiére faziam fotografias, que eram imóveis, a ânsia deles era que as pessoas se movessem nessa fotografia. É exatamente como acontece quando se projeta um filme no cinema: a tela está sempre parada, mesmo que a câmera corra muito." Sobre ação e movimento ponderou: "Ser simples quer dizer também ser claro. Se movimento muito a câmera, estou a distrair. Ser claro é trazer à superfície o que é mais profundo. Ser realista é não fugir das possibilidades da câmera."
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