sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Crítica: A Suprema Felicidade


Crítica: A Suprema Felicidade

Com direção e roteiro de Arnaldo Jabor, nos chega A Suprema Felicidade. Resta saber de quem, já que o filme é de uma melancolia sem fim. Ou quase.

A “trama” gira, praticamente, em torno de Paulo, dos 8 aos 19 anos (Caio Manhente, Michel Joelsas e Jayme Matarazzo) e na conturbada relação com os pais, Marcos (Dan Stulbach), homem possessivo, ciumento e frustrado aviador da FAB, e Sofia (Mariana Lima), mulher submissa e frustrada dona de casa. O garoto só encontra algum alento na convivência com o espirituoso boêmio e músico avô Noel (Marco Nanini) que, ao seu modo, tenta lhe mostrar que a felicidade pode ser possível, nem que seja apenas por alguns minutos. Entre os anos 1945 e 1956 ele vai buscar (meio desencantado) o seu lugar no mundo carioca, aprender e amadurecer com novas e velhas amizades, amores fracassados, questionamentos morais e religiosos. Através dele conhecemos o falastrão pipoqueiro Bené (João Miguel), que só fala e pensa em sacanagem cabeluda, a “inocente” stripper, sósia de Marilyn (Tammy Di Calafiori), que arrebata corações, o amigo homossexual Cabeção (César Cardadeiro), que sai de cena de forma ridícula, a estranha desfrutável Deise (Maria Flor), entre outros tipos folclóricos de época (ou seria da época?).


A Suprema Felicidade é um dramalhão que vai se dividindo em dramas menores até que tudo vire pó ou uma “epígrafe”: As coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão (da poesia Memória, de Carlos Drummond de Andrade - 1902-1987: Amar o perdido/ deixa confundido/ este coração./ Nada pode o olvido/ contra o sem sentido/ apelo do Não./ As coisas tangíveis/ tornam-se insensíveis/ à palma da mão/ Mas as coisas findas/ muito mais que lindas,/ essas ficarão). As tramas (re)viram e (re)voltam a um passado (aparentemente nostálgico) meio que de lugar algum para lugar nenhum, pois nada muda no ciclo vicioso das personagens que ficam zumbizando entre si. O tempo cinematográfico da (in)felicidade (individual ou coletiva) também é insuficiente para causar qualquer empatia.


Com uma boa fotografia de Lauro Escorel e excelente direção de arte de Tulé Peake, ele “traça” um painel machofalocratista e depressivo de um tempo que se queria novo, no pós-guerra, em que se acreditava (só acreditava) que era melhor ser alegre que ser triste, apesar de ninguém parecer saber por onde andava a tal alegria contagiante. Segundo Arnaldo Jabor, o filme seria o seu Amarcord (1973), mas, de “felliniano” mesmo, com todas as ressalvas, só a sequência do levante das prostitutas. Enquanto as “recordações” nostálgicas, mágicas do mestre Federico Fellini (1920-1993) enchem os olhos e saciam alma, irradiando felicidade (em meio a questões políticas, sexuais e religiosas), as “recordações” melancólicas de Arnaldo Jabor (que toca nas mesmas questões) parecem cinzas a espera de um vendaval. Em Jabor falta a ironia que transbordava em Fellini. Sobra, então, ao espectador, como válvula de escape, desfrutar (?) dos números musicais, num fragmentado drama que prefere se esvair na dor, a esbaldar-se no prazer e na suprema felicidade.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

E-Card Megamente - Halloween


E-Card Megamente - Halloween

A animação Megamente (Megamind) só estreia no dia 3 de Dezembro de 2010, enquanto isso aproveite pra enviar divertidos e exclusivos e-cards no Dia das Bruxas (31 de Outubro) ou quando quiser. Para isso basta acessar o site Megamind Internacional.

Megamente (Megamind), que promete ser (também em 3D) o mais maluco dos filmes sobre super-heróis, conta a história de Megamente, um vilão magricela, cabeçudo (por causa do cérebro avantajado), que não consegue encontrar um herói à sua altura. É esperar pra ver. Em breve mais informações.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Crítica: Reflexões de um Liquidificador


Reflexões de um Liquidificador
pensar é moer ... moer é pensar

Reflexões de um Liquidificador, de André Klotzel, é uma daquelas obras universais que raramente são produzidas no Brasil e que, prazerosamente, ficam para sempre na memória, como o seu antológico Marvada Carne (1986).

Por um bom tempo o curioso e divertido trailer de Reflexões de um Liquidificador passou nas salas do Unibanco Arteplex e depois sumiu. Achei que jamais chegaria (como a maioria dos enunciados) aqui em Curitiba, apesar de ter sido exibido num dos Testes de Audiência da Caixa Cultural, em que não fui. Mas, para a minha surpresa, o filme estreou e, para minha tristeza, na sessão do Clube do Professor (cujos frequentadores praticamente odeiam filmes nacionais que fazem pensar ou, no mínimo, não subestimam a inteligência do espectador) tinha “meia dúzia” de professores e agregados pingados. O que é uma lástima!


É curioso destacar que muitos professores só conheceram cinema por conta do Clube do Professor do Unibanco Arteplex. Porém, desde o começo, tenho percebido que a maioria prefere os filmes da moda ou com atores globais da moda. As sessões com filmes nacionais são as menos concorridas. Na fila tem sempre um ou outro professor que enche a boca pra dizer que odeia filme brasileiro, mesmo não tendo visto nenhum, a não ser os recortados pra televisão que, evidentemente, não é CINEMA. Assim, por total ignorância, deixam de ver obras marcantes como: É Proibido Fumar! (de Anna Muylaert), Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo (de Marcelo Gomes e Karin Aïnouz) ou mesmo esta maravilha que é Reflexões de um Liquidificador.

Em São Paulo, Reflexões de um Liquidificador é (ou foi) precedido por um curta-metragem (num total de oito, cada dia um diferente), um show musical ou stand-up comedy, um bate-papo com o público - como se não bastasse a excelência do filme - na esperança de oferecer mais uma atração ao público que passa ao largo das salas de projeção do bom cinema brasileiro. Um cinema que, ainda que para o prazer de uma minoria cinéfila, não reza pela cartilha fácil e oportuna dos monopolizadores de um “padrão” comercial. Um cinema para alguém que quer ver algo mais que transposições de apelativas matérias violentas de telejornal ou séries televisivas (de gosto duvidoso), com os mesmos dos mesmos e para os mesmos. Em Curitiba o filme chegou cru. A mim, basta.


Reflexões de um Liquidificador fala de um velho liquidificador avariado (interpretado pela inconfundível voz de Selton Mello) que, ao voltar do conserto, com uma lâmina nova, não se sabe se por causa de um parafuso a mais ou a menos, percebe que se tornou um ser pensante, um eletrodoméstico consciente de tudo que se passa ao seu redor. Logo ele começa analisar os humanos e a tagarelar com Elvira (Ana Lúcia Torre), uma pacata dona de casa, às voltas com o desaparecimento do seu dócil marido Onofre (Germano Haiut) e com o enxerido investigador Fuinha (Aramis Trindade), destacado para averiguar o caso. Assim, o círculo de amizade de Elvira, que não vai além da fogosa vizinha Milena (Fabíula Nascimento) e o Carteiro (Marcos Cesana, falecido recentemente), ganha mais um curioso e questionador integrante.

Reflexões de um Liquidificador, baseado no inteligente e inusitado roteiro de José Antônio de Souza, é um filme irretocável, onde menos é sempre mais. O que não tem nada a ver com economia e sim com a essência do que é dito ou mostrado. É uma comédia de humor negro, cheia de sutilezas e surpresas, tão redondinha que nem se percebe o tempo passar. Se os atores estão inspiradíssimos (com destaque para Ana Lúcia Torre e Aramis Trindade, além do Liquidicador Selton Mello, é claro), os cuidados com a direção de arte (Jean-Louis Leblanc e Ana Rita Bueno) e com a fotografia (Uli Burtin) não ficam atrás. É evidente que pra atingir tal harmonia é preciso uma direção competente e, portanto, que saiba o quer e como quer que a sua história (maluca) chegue convincentemente ao público. Se bem que acho uma maldade e até desumano “hipnotizar” o espectador com uma trilha original tão deliciosa como a de Mário Manga e aquele assobio arrebatador.



Num longa-metragem, onde tudo funciona, é difícil destacar algum momento, mas creio que a sequência da mudança, quando o filosófico Liquidificador é encaixado num engradado de frutas e tem a oportunidade de olhar, conhecer e comentar o mundo ao seu redor é impagável. Tomara que os professores o “descubram” em tempo. É um excelente material para se discutir linguagem, fantasia, filosofia, antropologia e até taxidermia, com alunos adolescentes. Também porque, a fabulosa narrativa de Reflexões de um Liquidificador tem cara de adaptação de um excelente livro (que se fica louco pra ler após o filme) e não de uma idéia muito bem desenvolvida a partir de uma mera nota policial em um jornal.

domingo, 24 de outubro de 2010

Mostra: Dia Internacional da Animação


Eu queria ser um monstro cão
Dia Internacional da Animação

Para comemorar o Dia Internacional da Animação, a Associação Brasileira de Cinema de Animação - ABCA, realizará no dia 28 de Outubro de 2010, às 19h30, em mais de 400 cidades brasileiras, uma mostra de curtas-metragens nacionais e internacionais.

Em Curitiba, a apresentação, que tem entrada franca, será na Cinemateca de Curitiba (Rua Carlos Cavalcanti, 1174 - Centro), onde, paralelamente, ocorrerão sessões exclusivas para Portadores de Deficiência Auditiva e Visual. A programação completa, inclusive para os (adultos e crianças) portadores de deficiência, pode ser conferida no site D.I.A.


Dias de Sol

Conforme dados da ABCA, dos 73 curtas-metragens (de vários estados brasileiros) inscritos em 2010, foram selecionados 11, para apresentação no Brasil e nos 51 países membros da ASIFA. A seleção dos filmes da Mostra Nacional (em agosto de 2010) foi realizada pelo corpo de jurados indicado pela ABCA: Cândida Liberato (BA), Tânia Anaya (DF), Wilson Lazaretti (SP), Antônio Moreno (RJ) e Turla Arquete (PE).

A seleção para a Mostra Internacional foi realizada a partir dos filmes enviados por países integrantes da ASIFA - Associação Internacional do Filme de Animação e teve a curadoria de Marta Machado, atual presidente da ABCA. Foram escolhidos 3 filmes de Portugal, 3 do Egito, 1 dos EUA, 1 da Indonésia, 1 da África do Sul e 1 da Índia.


Curso de Animação e Caricatura


A propósito do D.I.A - Dia Internacional da Animação, vai acontecer nos dias 25, 26 e 27 de outubro, na Reitoria da UFPR, em Curitiba, a SELA - SEmana Local de Animação, com o Curso de Animação e Caricatura, orientada pelo premiado diretor e animador Tadao Miaqui (ver filmografia abaixo). Para inscrição e maiores informações, falar com Miriam, na Secretaria do Curso de Design (Sala 808, Ed D. Pedro I - Rua General Carneiro, 460)

Curso de caricatura: Características dos materiais; Estudo da forma e significado; Formato de cabeças; Comparações das formas de rosto; Volume, ângulos, expressões e aspectos humorísticos.

Curso de animação: Confecção do Zootroscópio ( aparelho primitivo de animação); Conceito da projeção do movimento; Técnica de animação 2D; Técnica de animação de massa de modelar; Técnica de pixilação (pessoas e objetos).

Filmografia - Direção: A Verdadeira Origem das Espécies, 1989; Projeto Pulex, 1991; Txau, 1992; O Tamanho que Não Cai Bem, 2001; Quando Jorge foi à Guerra, 2004; Os Brichos - 2006; Em 1972, 2008.

Filmografia - Animação: Brasileiros, 1986 - de Jaime Brustolinn; Jaw 24, 1987; O Vôo Maluco, 1987; Um Sonho Sonhado, 1987; O Reino Azul, 1989; Zé Gotinha Contra o Perna-de-Pau, 1990, de Otto Guerra e José Maia; Teko - Percorrendo a trilha Guarani, 1991; Novela, 1992, de Otto Guerra; O Arraial, 1996, de Otto Guerra; A Invenção da Infância, 2000, de Liliana Sulbach; Rocky & Hudson, 1994, de Otto Guerra; Wood & Stock, Sexo, Orégano e Rock'n' roll, de Otto Guerra; O Homem que Copiava, 2003, de Jorge Furtado; A Vontade, de Paulo Munhoz e Aluisio Barbosa; Os Brichos, 2004, de Paulo Munhoz e Tadao Miaqui; Série para TV: Alladin, 1994, da Walt Disney Production.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Cinema: Festival Internacional de Super 8


Festival Internacional de Cinema Super 8 de Curitiba

Nos dias 22 (19h00), 23 e 24 (17h00 e 19h00) de Outubro de 2010, será apresentado no Teatro da CAIXA Cultural (Rua Conselheiro Laurindo, 280), em Curitiba, o Curta 8 - Festival Internacional de Cinema Super 8 de Curitiba, com exibição de filmes produzidos exclusivamente em Super 8, reunindo produções de várias partes do mundo.

O Curta 8 é uma promoção da Caixa Econômica Federal, através da CAIXA Cultural Curitiba, e tem idealização e curadoria de Leandro Bossy. A entrada é franca e a programação está disponível no site: http://www.curta8.com.br/ .

Na sessão de abertura, dia 22 de outubro, sexta-feira, às 19h00, será apresentado Hachazos - performance/projeção com Claudio Caldini e Andrés Di Tella.

Cinema expandido ou documentário ao vivo?
Parte de um mesmo projeto mutante, em colaboração, que compreende um livro ilustrado e um futuro filme, esta “performance/projeção em formatos múltiplos” incorpora uma diversidade de materiais cinematográficos, textuais e musicais de ambos artistas: projeções múltiplas em Super 8 e vídeo digital, fotografias, imagens recentes e de arquivo, música eletroacústica, gravações magnéticas, leituras em voz alta. Claudio Caldini, pioneiro do cinema experimental, e Andrés Di Tella, referência no documentário em primeira pessoa, exploram, por caminhos diversos, um mesmo eixo: um experimento cinematográfico que é, ao mesmo tempo, um experimento de vida.

Andrés Di Tella (Santiago, 1958) dirigiu os longas-metragens Montoneros, una historia (1995), Prohibido (1997), La televisión y yo (2003), Fotografías (2007), El país del diablo (2008). Foi o fundador e o primeiro diretor artístico do BAFICI - Buenos Aires Festival Internacional de Cine Independiente (1999) e atualmente dirige o Princeton Documentary Festival, na Universidade de Princeton, Estados Unidos. Paulo Antonio Paranagua, em Cine Documental en América Latina, o destaca entre os 15 documentaristas mais significativos do continente. Em 2006 foi outorgado com a bolsa da Fundação Guggenheim. Em 2008 foram realizadas retrospectivas de sua obra na Cinemateca Espanhola, de Madri, e na Cinemateca da Catalunha, em Barcelona. Atualmente, está escrevendo um livro e realizando um filme sobre Claudio Caldini.

Claudio Caldini (Buenos Aires, 1952), cineasta experimental desde 1970. Estudou no Centro Experimental do Instituto Nacional de Cinematografia, na capital argentina. Sobre seu cinema o crítico David Oubiña escreveu, “Claudio Caldini produziu peças únicas sobre esse suporte (8mm); não é ao acaso, então, que insista em recuperar essa hipnótica textura através da tecnologia do vídeo”. Recebeu o 1º Prêmio da Primeira Semana de Cinema Experimental da feira ARCO, em 1991, e o Grande Prêmio da Mostra Franco-Latinoamericana de Vídeo-arte, em 1994. Ministrou a disciplina “Técnicas experimentais”, no Centro de Pesquisa e Experimentação em Cinema e Vídeo (CIEVYC), de 1995 a 2004. Entre os anos 1998 e 2004 foi o curador de cinema e vídeo do Museu de Arte Moderna de Buenos Aires. Foi distinguido com bolsas de diferentes instituições, como a da Fundação Antorchas, e participou como jurado em diversos festivais de cinema, como no de Oberhausen, Alemanha, em 2003.

Série: ficção sobre Álvaro Campos


Série de ficção sobre Álvaro Campos
e Fernando Pessoa estreia na Internet

A Elo Company está disponibilizando, desde 7 de outubro de 2010, em seu canal digital Elo Cinema, os três primeiros episódios da série de ficção Álvaro de Campos, sobre os poemas de um dos heterônimos mais conhecidos do poeta português Fernando Pessoa. As sete partes restantes serão apresentadas quinzenalmente no canal.

Estes primeiros episódios retratam a volta de Álvaro de Campos (Jefferson Primo) a Portugal, onde ele disserta sobre questões existenciais que a viagem lhe despertou, conhece figuras marginalizadas, encontra seu primo, troca palavras com uma garçonete e um operário.

A série Álvaro de Campos é produzida pelo Grupo Kino-Olho, em parceria com Cia Quanta de Teatro e TV Cidade Livre, tem direção de João Paulo Miranda Maria e roteiro de Alyne Arins. Os projetos realizados pelo Kino-Olho contam, desde 2009, com o apoio da Prefeitura de Rio Claro, na aquisição de equipamentos e na viabilização das produções.

O grupo de pesquisa e prática cinematográfica, fundado em 2006, pelo cineasta João Paulo Miranda Maria, é formado por voluntários interessados em ensinar técnicas de cinema, através de experiências práticas de produção. O Kino-Olho oferece, gratuitamente, oficinas introdutórias semanais, de noções básicas sobre cinema (cada mês num ponto da cidade: bairros, escolas, instituições etc), e permanentes, também gratuitas, no Centro Cultural Roberto Palmari, na cidade de Rio Claro/SP. Nesta, os participantes têm a oportunidade de se profissionalizarem, por meio de experiências e conceitos mais profundos de produção audiovisual.

O canal Elo Cinema também está apresentando, gratuitamente, grandes clássicos do cinema brasileiro, curtas, médias e longas-metragens premiados, além de todo o catálogo da Vera Cruz, curtas da produtora Ioiô Filmes, conteúdos do diretor Sérgio Bianchi e muitos outros.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Crítica: Como Esquecer


Como Esquecer

O que fazer quando uma relação amorosa termina? Partir para outra ou se afundar amargurado em si mesmo?

Júlia (Ana Paula Arósio) é uma professora universitária de Literatura Inglesa que, ao ser abandonada por Antônia, após uma relação de mais de 10 anos, perde o chão e desaba com a sua torre de “inviolável” felicidade. Se o amor não dura para sempre, ela vai buscar o porquê no seu conturbado âmago. Mesquinha, amarga, egoísta, na sua dor, a solitária mulher quer solidão e não solidariedade de raros amigos. Quer desaparecer em si mesma e sem planos de renascer tal qual uma Fênix. Para Júlia, a dor é a única coisa que importa, é incomparável, é maior que ela própria. No entanto, a sua vida continua, mesmo que ela não queira, mesmo que se envenene (corroída pela autocomiseração). Assim, ao se dar conta das dificuldades em manter o que antes era dividido, se permite (quase que inconscientemente) viver em uma república com outros dois desafortunados pelo Cupido: o ator Hugo (Murilo Rosa), que ainda sofre (mas busca dar a volta por cima) pela morte do companheiro, e a advogada Lisa (Natália Lage), abandonada grávida pelo namorado.


Tragédia demais pra um filme só, não é verdade? Mas, superado o trauma inicial, conhecidos os personagens com as suas idiossincrasias, assiste-se com interesse. Baseado no livro Como Esquecer: Anotações Quase Inglesas, de Myriam Campelo, o drama intenso (introspectivo ao extremo) e com boa direção de Malu Martino, infelizmente, é uma obra para uma minoria cinéfila, indiferente e independente de qualquer preferência sexual. Também porque esta, felizmente, não é uma obra panfletária gay, com todos os cacoetes e caricaturas que geralmente o clichê pede, para ser palatável aos mais “religiosos”. A redução de platéia, aqui, se deve apenas à questão da sua temática pesada, repleta de citações e discussões literárias (Cassandra Rios, Virgínia Woolf, Emily Brontë), cuja narrativa pode parecer arrastada demais. É curioso observar como a diretora trabalha o tempo de reflexão (à dor) de Júlia, Hugo e Lisa, que podem partilhar suas tragédias amorosas, mas não partilham os seus desejos e apostas futuras.


Como Esquecer (Brasil, 2010) é essencialmente um filme sobre amor e desamor. Um drama que explora o vazio na vida de Júlia, que perde a noção do afeto (possivelmente por conta de uma convivência submissa e possessiva com Antonia), mas também tange em outras formas de se encarar e reagir à perda ou ao abandono de quem se ama. Apesar do clima de melancolia, há algum humor (mesmo que ácido) na grosseria de Júlia, em resposta à insistente necessidade dos amigos em fazê-la feliz. Ela não quer (mais) a felicidade que vem de fora, já que precisa descobrir se há (ainda) alguma dentro dela mesma. Ela precisa aprender a esquecer. A sua catarse é lenta, como o ritmo da narrativa que inquieta o espectador (apressado), ao perceber que a personagem e a diretora têm a faca e o queijo nas mãos, mas parecem não (querer) encontrar a goiabada.


Como Esquecer talvez cause estranheza, pelo híbrido diálogo cinema/literatura. Ora se assiste o livro e ora se lê o filme. Tem uma fotografia naturalista agradável (muita gente é capaz de achar escura e sem vida) aos cuidados de Heloisa Passos, uma trilha boa e discreta e um final compatível com o enunciado. Realmente não poderia ser diferente. Ele traz uma Ana Paula Arósio que, longe da mesmice televisiva que a consagrou, surpreende num papel difícil e com o mérito de, apesar de toda antipatia da sua personagem, provocar empatia no espectador. Na verdade todo elenco está bem, Murilo Rosa convence ao fazer um amigo gay, nada caricato, assim como Bianca Comparato, na pele de Carmen Lygia, a insistente aluna de Júlia, e Arieta Correa, como a artista plástica Helena. É um filme pra quem quer alternativa (ôps!) ao cinema populista travestido em cine-denúncia à corrupção e outros tráficos brasileiros.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Crítica: Avatar - relançamento



Para quem ainda não viu (?) ou quer (re)ver, está sendo relançado a grande sensação cinematográfica de 2009: Avatar, apenas em versão 3D e com imperceptíveis 8 minutos a mais.

Esta belíssima produção dirigida por James Cameron, pode não causar o mesmo impacto, para quem vai rever, mas ainda emociona. Se não pela incomparável tecnologia usada na criação da obra futurista, então pela edificante história, que continua propiciando várias leituras. Inclusive a que nos remete ao tempo das grandes invasões, digo, descobertas, quando os europeus invadiam, digo, descobriam novos mundos e acabavam com toda e qualquer cultura que encontravam atravancando o caminho ao lucro fácil das riquezas naturais. Tudo, é claro, em nome de seu Deus todo Monetarioso, digo, Poderoso. Grandes “civilizações”, grandes problemas que só fazem crescer no mundo globalizado, onde a catequese do capitalismo (hoje) é mais importante que a sobrevivência (amanhã). Está aí o populista “jeitinho” brasileiro degringolando a região amazônica, o cerrado, a mata atlântica, o pantanal... Quanto às instituições religiosas cristãs, que fomentam a ganância desenfreada, dizimando o bem sem olhar a quem, estas continuam cada vez mais articuladas.



Avatar: uma fantástica experiência visual
publicada no Claque ou Claquete em Dezembro de 2009

Avatar, a mais nova investida cinematográfica de James Cameron, é de deixar qualquer espectador embasbacado com seu magnífico visual em 3-D estereoscópico. Usando e abusando do que há de mais avançado na tecnologia 3-D, o diretor (roteirista e produtor) transforma uma história sobre a exploração de minerais, em um planeta virgem (que para alguns pode até aparecer banal e piegas), num espetáculo contagiante e capaz de tocar o mais insensível crítico dos naturalistas.

Avatar é uma fábula ecologicamente correta. A história se passa em Pandora, uma lua orbitando o planeta gasoso Poliphemus, em Alfa Centauro. É um lugar deslumbrante, como a Terra já foi um dia, com densa vegetação que abriga, além de fantásticas formas de vida animal e vegetal, a civilização dos Na’Vi, pacífica raça humanóide. O seu equilíbrio é quebrado com a chegada de terráqueos em busca de um minério raro e caro. Os invasores, com todo o seu poderio bélico, só têm um propósito: a exploração a qualquer preço. Mesmo que este seja o da vida dos nativos e do perfeito equilíbrio da riquíssima fauna e flora. Como não podem sobreviver à atmosfera de Pandora, usam a manipulação genética para criar os híbridos humanos-Na´Vi (chamados de Avatares), controlados através da projeção de consciência, e se infiltrar entre os nativos e minar as suas forças. Jake Sully (Sam Worthington), um fuzileiro naval paralítico, e Grace (Sigorney Weaver), uma cientista, ambos comandantes de híbridos, serão o fiel da balança na batalha que se anuncia.


Parece uma história conhecida, não é? Na Terra, vemos e ouvimos diariamente do que a ambição desmedida do homem é capaz. Mas não vemos e nem ouvimos soluções..., apenas promessas ao vento. Avatar fala de um futuro ainda possível. Pelo menos na ficção ou no sonho, já que, por aqui, o que continua nos assombrando é o pesadelo diário imposto pelos senhores do mundo desenvolvido, em seus encontros datados para confabular sobre nada. Pois nunca há clima para se discutir uma solução para o clima. Temas como este (invasão, depredação, domínio, força militar, capitalismo, exploração) não são novidades no cinema (nem de animação), o que difere é o enfoque, a forma de tratar o assunto. Com seu tocante e profundo discurso humanista, é difícil não se deixar envolver pela história tão próxima da nossa realidade e torcer por um final diferente do conhecido, quando o que está em jogo é bem mais que a exploração irracional dos recursos naturais. Sociologia barata, dirão os detratores. Barata ou não (em Avatar saiu caríssima), o tema é tratado com precisão, nas entrelinhas. Jamais o cinema viu um assunto exposto com tamanha beleza e dor. Talvez um dia os homens de negócio consigam enxergar a Terra além das cifras.


Avatar é um filme de (muita) ação e com cenas de tirar o fôlego. Nele encontramos referências (ou lembranças) de outros filmes (e literatura) de ficção científica e fantasia. Mas nunca com tal qualidade tecnológica. Nunca tão palpável. O filme arquitetado por James Cameron só se tornou possível com o desenvolvimento de câmeras para a captação de imagens em 3-D estereoscópico. Ferramenta indispensável para o enriquecimento da narrativa e do espetáculo que se apresenta. Em Avatar o efeito 3-D não é mero exibicionismo de um brinquedo novo, mas um coadjuvante de luxo a serviço da história, do cinema, da arte. Ou seja, não basta ter toda essa tecnologia à mão se não se sabe o pra quê. Um bom argumento já é um começo, mas a qualidade do roteiro é imprescindível.

Vale lembrar que, para quem não tem fobia de altura (ou do preço do ingresso), assisti-lo em 3D-IMax pode ser uma experiência única.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Cinema: 1ª Mostra Online Outubro Independente


Favela no Ar

1ª Mostra Online Outubro Independente

A partir desta sexta-feira (15 de outubro de 2010) o canal ELO CINEMA exibirá gratuitamente, e com exclusividade, 19 filmes integrantes da mostra audiovisual do Festival Outubro Independente, promovido pela Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo.

Durante dois meses o público poderá assistir, gratuitamente, filmes como:
- Good Copy, Bad Copy, documentário dinamarquês sobre direitos autorais e cultura;
- Brega S/A, documentário sobre a cena tecnobrega de Belém do Pará e sua relação com a pirataria e a informalidade;
- Favela no Ar, uma co-produção internacional entre Brasil, Dinamarca e Suécia que retrata a consciência social no rap, na voz de seus principais expoentes: Dexter, Afro-X, Sabotage, KL Jay, Xis, Helião, Sandrão, Negra Li, DJ CIA.

Alguns dos títulos disponíveis nesta 1ª Mostra Online Outubro Independente integram a mostra presencial DVD-RW, na Galeria Olido, com curadoria de Alex Andrade, da Secretaria Municipal de Cultura.

Além da mostra online, a ELO COMPANY exibirá em seus ELO CHANNELS uma programação especial voltada para a valorização da produção independente, que poderá ser conferida em sua webtv .

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Crítica: Dois Irmãos


Dois Irmãos

O argentino Daniel Burman mais uma vez surpreende (redundância!) os cinéfilos ao roteirizar e dirigir o tocante drama cômico Dois Irmãos. As envolventes narrativas do diretor, recheadas de personagens “reais”, mesmo que “fictícios”, sempre desarmam o espectador, pela proximidade e verossimilhança. Foi assim com O Abraço Partido (2004), Leis de Família (2006), O Ninho Vazio (2008), e não é diferente em Dois Irmãos, baseado no livro Villa Laura, de Diego Dubcovsky, que colaborou no roteiro.

Marcos (Antonio Gasalla) e Rosana (Graciela Borges) são irmãos iguais e diferentes nos prazeres e nas dores de uma vida em família. Ele é um ourives e cuida da mãe doente, ela é uma trambiqueira que se arranja em qualquer ramo (imobiliário, gastronômico) onde sentir cheiro de lucro. O embate dos dois, que vem desde a infância, se agrava com a morte da mãe. Marcos é sessentão. Rosana é cinquentona. Ambos solteiros e com perspectivas diferentes de vida. Enquanto ele sonha em retomar o seu trabalho de artesão e finalmente ter um tempo para si, ela se apossa e se desfaz da herança dos dois, obrigando-o a viver em Villa Laura, no Uruguai. A índole tranquila de Marcos contrasta com a possessividade de Rosana. Quando o relacionamento se torna insuportável, percebe-se que as aparências enganam. Enquanto um ergue a sua fortaleza, o outro busca escapar dos seus próprios destroços. Verbo e gesto não mais se casam. É hora do espelho desenhar um outro reflexo. É hora do público rever a sua primeira impressão.


Dois Irmãos (Dos Hermanos, Argentina, Uruguai, França , 2010) é um filme que se vê com prazer e (mesmo) um leve sorriso nos lábios, apesar da melancolia que costura cenas e sequências e arremata tudo com um final pungente. A trama que enreda Marcos e Rosana é a que enreda a parábola do humilde Cedro e o prepotente Carvalho, nascidos lado a lado. Enquanto a maleável planta resiste a uma forte tempestade, a vigorosa árvore, incapaz de se curvar, não tem a mesma sorte. Dois Irmãos tem um roteiro enxuto e um acabamento técnico notável. A sutileza do enquadramento de Marcos e Rosana, no velório da mãe, durante uma discussão, cujo motivo parece irrelevante, é comovente. Aliás, todo o filme é carregado de sutilezas que, entre muitos desacatos, dão um contraponto perfeito. A direção de Burman é precisa e a interpretação dos veteranos Antonio Gasalla (humorista de teatro) e Graciela Borges (dama do cinema) é irretocável.

O filme Dois Irmãos lembra outro belo exemplar sul-americano, o brasileiríssimo É Proibido Fumar (2009), de Anna Muylaert, que também fala de solidão, insegurança e da frágil relação familiar que está sempre por um tênue fio. Na excelente produção brasileira, Glória Pires é Baby, uma solitária professora de violão (fumante compulsiva e à beira da histeria), sempre em pé de guerra com as duas irmãs, por causa de um sofá ou de um namorado. Mantidas as diferenças regionais, na pegada do humor e do drama, ambos têm muito em comum na forma de bem narrar uma história cheia de nuances e que, em mãos bobas seria um verdadeiro desastre.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Crítica: Eu e Meu Guarda-Chuva


Eu e Meu Guarda-Chuva

Eu e Meu Guarda-Chuva é uma grata surpresa no cenário infanto-juvenil do cinema brasileiro, que sempre trava à simples menção de uma produção de qualidade, pra essa faixa etária. É muito mais fácil investir em filmes cujo conteúdo é dispensável, como, por exemplo, os que exploram as facilidades da violência gratuita.


Eu e Meu Guarda-Chuva é levemente inspirado no projeto multimídia infanto-juvenil Eu e meu Guarda-Chuva (livro-CD com 10 canções), de Branco Mello e Ciro Pessoa (pioneiros da banda Titãs) e Hugo Possolo (do Grupo de Teatro Parlapatões), lançado em 2001, pela Editora Globo, e que virou Ópera Rock Infantil, com Andrea Beltrão e Marieta Severo, em 2002. Na literatura-musical Eugênio é um garoto sonhador, tem uns 9 anos e está na 3ª série. Ele herdou, do avô, um guarda-chuva que o acompanha nas mais fantásticas aventuras dentro do seu “mágico” quarto. No filme ele tem entre 11 e 12 anos (já que vai pra 6ª série) e, além do fiel guarda-chuva, vai poder contar com a amizade de Cebola e Frida para vencer um perigo fantasmagórico capaz de transformar um inocente sonho em um terrível pesadelo escolar.


Com direção de Toni Vanzolini, que também colaborou no roteiro escrito por Adriana Falcão, Bernardo Guilherme, Marcelo Gonçalves, a história se passa no último dia (e noite) das férias escolares de Eugênio (Lucas Cotrim), Frida (Rafaela Victor) e Cebola (Victor Froiman), que vivem um “drama”: como será o dia seguinte na escola onde começam a 6ª série? São jovens com personalidades bem distintas: Eugênio é o menino esperto, Frida a menina ingênua e romântica, Cebola o ignorante, mesmo já tendo passado da idade (escolar) em que seria (?) coerente tanta estupidez. Pra quem vai cursar a 6ª série, o seu nível de conhecimento (?) é de quem está na 2ª ou no máximo na 3ª. Enquanto eles tentam relaxar, pra aliviar a tensão, ou por pura traquinagem estudantil, os três decidem invadir o colégio, pra descobrir se é verdade que é assombrado pelo Barão Von Staffen (Daniel Dantas, excelente), o seu fundador e o mais “cruel” dos professores. A verdade vai tirar o sono dos três e transformar a noite deles num verdadeiro pesadelo, onde não faltarão personagens bizarros e situações surreais.


Eu e Meu Guarda-Chuva é um filme muito simpático e, com certeza, vai divertir os jovens que gostam de uma história bem contada e com alguns efeitos especiais bacanas. Ele lembra (só lembra) O Menino Maluquinho (filmes e série) e o Castelo Ra-Tim-Bum (filme e série), mas, o bom é que tem uma história própria deliciosa. No entanto, apesar da qualidade do roteiro e da produção, algumas coisas incomodam. Uma delas, pra lá de subjetiva, é o fato de apenas as três crianças viverem nos dias de hoje, enquanto tudo ao redor (personagens, cenários, figurinos, adereços, iluminação) está preso à década de 1950. Intencional? Não sei não. Outra é a fotografia estourada, que, em boa parte, parece fora de foco, como se captada em 16mm e copiada em 35mm (ou será problema de projeção?). Esquisitices (?) que podem ficar no inconsciente dos espectadores, mas não incomodar a compreensão da história que combina aventura, ação, e um romance juvenil que pode ir além de uma boa noite de sonhos.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Crítica: A Lenda dos Guardiões



A Lenda dos Guardiões (Legend of the Guardians: The Owls of Ga’Hoole, EUA, Austrália, 2010) não é apenas uma épica história de heróis geniais e grandes vilões, mas, também, uma das mais espetaculares viagens ao mundo da fantasia, em 2010. A animação, baseada nos três primeiros livros (A Captura, A Jornada e O Resgate) da série infanto-juvenil Guardians of Ga’Hoole, de Kathryn Lasky, dirigida por Zack Snyder, o competente diretor de 300 e Watchmen, é cheia de ação e de efeitos especiais de tirar o fôlego.

O filme conta a curiosíssima história do jovem Soren e de como ele descobriu a verdade por trás das épicas lendas contadas pelo seu pai Noctus, sobre os guerreiros alados Guardiões de Ga’Hoole, que se ocupavam em manter a ordem no Reino das Corujas. Numa memorável idade do bronze, Soren ainda não tem domínio de vôo, assim como seu ciumento irmão Kludd. Certo dia, num desafio, os dois caem da árvore e são “salvos” pelos Puros, grupo de corujas adultas (nada benevolentes) que sequestra as mais jovens para um terrível propósito. Caberá a Soren, escapar e iniciar uma longa jornada, rumo à Grande Árvore de Ga'Hoole, onde viveriam os lendários Guardiões, em busca de ajuda para libertar todas as corujas escravizadas e frustrar o plano maligno dos Puros. Além do seu bom senso, ele vai contar com o precioso apoio de Gylfie, um dos prisioneiros na Academia St. Aegolius para Corujas Órfãs, e dos novos amigos, Crepúsculo e Digger. Se a existência dos Guardiões é verdadeira ou não, o herói só vai descobrir ao fim da difícil viagem.


A Lenda dos Guardiões é daqueles filmes que encantam pela graça e veracidade dos personagens. A qualidade técnica (na criação minuciosa de cada coruja) é tão impressionante que ao final a gente espera que apareçam aqueles dizeres: nenhuma ave ou animal foi ferido ou sofreu maus tratos durante a filmagem. Ao vê-las agindo com tanta naturalidade, exalando graça ou violência, bondade ou malícia, é impossível não se agradar até mesmo do visual das corujas malévolas. São más, mas sem perder a beleza. O que faz lembrar um velho provérbio que sintetiza o belo, o feio e o “livre” arbítrio: Quem vê cara não vê coração.

A lenda de heróis e bandidos, protagonizada apenas por corujas, tem todos os ingredientes para agradar aos meninos, mas não deve dispensar as meninas, desde que elas fechem seus delicados olhinhos nas cenas fortes de combates aéreos. É um típico filme de capacetes (bem talhados) e garras de aço (bem afiadas), onde não faltam intrigas, batalhas espetaculares e, também, onde os sonhos, as fantasias se tornam reais e muito além da imaginação. E pra quem faz questão (não que isso importe), tem ainda mensagens edificantes sobre amizade, família etc.


Ao entrar na sala, esqueça aquela história de que bichinho engraçadinho carnívoro não come outro bichinho engraçadinho em filme de animação (ou não). Aqui também vale a lei natural. Não sei o quanto os roteiristas John Orloff e Emil Stern foram fiéis à série literária (que ainda não li), mas, vendo a cópia (em excelente 3D) dublada, e talvez por isso, senti falta de um pouco mais de humor na trama forte. A animação tem uma ótima narrativa (apesar de um ou outro entrave) e cumpre o seu papel de divertir, maravilhar e, com certeza, despertar o interesse pela leitura da obra original. Se houver continuidade cinematográfica (já que o final ficou em aberto) e a qualidade for mantida, o público espectador, de todas as idades, ficará muito agradecido.

Nota: a série A Lenda dos Guardiões, da escritora norte-americana Kathryn Lasky, começou em 2003 e terminou em 2008, totalizando 15 livros. Os três primeiros: A Captura, A Jornada e O Resgate, já foram lançado no Brasil pela Editora Fundamento.

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