sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Crítica: Tudo Pelo Poder



Em briga de cachorro grande, ou melhor, de burro grande, sedento de poder, o melhor a fazer é assistir de camarote. É claro que sair respingado de lama é uma possibilidade, mas quem entra num circo, com o picadeiro em chamas, é para se queimar, não é?
  
Baseado na peça teatral Farragut North, de Beau Willimon, Tudo Pelo Poder, dirigido por George Clooney, se passa em Des Moines, Iowa, a poucas semanas do partido democrata escolher o candidato ideal para concorrer à Presidência dos EUA. No primeiro ato o foco está nos bastidores da campanha do governador Mike Morris (George Clooney), um político liberal cujo discurso progressista vem despertando interesse em todos os segmentos da sociedade. Determinado a vencer este jogo ele confia na jovialidade e eficiência do diretor de comunicação Stephen Myers (Ryan Gosling) e na supervisão do experiente Paul Zara (Philip Seymour Hoffman), que travam um corpo a corpo com o maquiavélico Tom Duffy (Paul Giamatti), que trabalha para o candidato Senador Pullman. No segundo ato, a descoberta de fatos graves, um envolvendo a estagiária Molly Stearns (Evan Rachel Wood) e outro que relaciona Myers a Duffy, podendo comprometer toda a campanha, coloca em cheque o compromisso do jovem assessor com a verdade do candidato que defende e aquela em que ele acredita.


O drama, com todos os elementos pertinentes ao thriller político, faz um coeso exercício de reflexão sobre integridade humana. Clooney (o diretor), que escreveu o roteiro, com Grant Heslov e Beau Willimon, mergulha com maestria num assunto que sempre rende muito na imprensa americana: fidelidade (partidária e familiar), explorando bem o afiado papel das redes de comunicação nas investidas da dissimulada colunista política Ida Horowicz (Marisa Tomei).

Ao desenhar a (des)construção de um candidato ao governo americano, a narrativa (catártica para muitos espectadores) propicia uma leitura que vai muito além do “belo” discurso óbvio (dos sacrifícios nacionalistas) que embala o cinismo dos pretendentes ao cobiçado cargo de “senhor do mundo” e daqueles que o assessoram. Uma leitura que melancolicamente reforça o velho pensamento de que, quando se faz concessões, abre-se mão dos sonhos coletivos. Num jogo em que a dialética se torna retórica e se entorna em eloquência, e a única alternativa é ganhar, talvez o idealismo não seja tudo afinal.


No vale Tudo Pelo Poder, cabe a Sthephen Myers a função de abrir e fechar as cortinas do palco montado para o show impecável de Mike Morris, ambos prisioneiros do próprio discurso (moralizador?). Aí é que a excepcional fotografia de Phedon Papamichael faz a diferença. Sem ser redundante, compõe no cenário, através de luz e sombra, aquilo que o diálogo oculta ou o que não precisa (ou não pode) ser dito. É à meia-luz que, por duas vezes, somos apresentados a Myers. Na primeira, ele é o sujeito iluminado que sonha o sonho do seu candidato e sai das sombras (do poder) para testar o som (e não o discurso), num palco (à meia-luz), degustando as palavras. Na segunda, ele é o sujeito frio que volta às sombras (do poder) para falar sobre os rumos da campanha, num palco (à meia-luz), degustando o silêncio. Na política os refletores podem iluminar, com a mesma intensidade, sonhos e pesadelos. Mas, na penumbra, todas as falas são parcas.


Nas coxias, onde segredos são desvelados e tramas são tecidas, pode se perder a inocência, mas não o (bom ou mau) caráter. Quando a traição iminente alcança o ponto e muda a representação, já não importa quem “apunhalou” e ou se deixou “apunhalar”, uma vez que os despojos apenas mudarão (ou não!) momentaneamente de mãos. Não fosse a política brasileira repleta de escândalos explícitos que (provados e comprovados) dão em nada, e assim continuará enquanto o eleitor brasileiro (obrigado a votar) não se importar, o excelente Tudo Pelo Poder, na exposição crua do lixo (corrupção, mentira, blefe, chantagem) que nos embriaga, até causaria algum barulho. Com narrativa e atuações magníficas, ele é, sem dúvida, eficiente e (ainda) necessário (ao público jovem), mas no atual estágio do Paraíso da Impunidade, nem marola.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Crítica: Compramos Um Zoológico



Se há um “gênero” querido (e rendoso) no cinema americano é o sempre edificante baseado em uma história real. Todo ano é lançado ao menos um filme explorando o tema e, dependendo da intensidade do foco (relações sociais, familiares, religiosas, trabalhistas), acaba até indicado ao Oscar. Geralmente são produções com variações “biográficas” sobre um cidadão americano (ou quase) que, contra todas as adversidades da vida, torna-se um vencedor. Um exemplo heroico a ser seguido em todo o mundo.

Inspirado na vida de Benjamin Mee, um ex-colunista britânico do The Guardian e autor de We Bought a Zoo: The Amazing True Story of a Broken-Down Zoo, and the 200 Animals That Changed a Family Forever (algo como: Compramos um Jardim Zoológico: A Incrível História Verídica de um Jardim Zoológico Falido e os 200 Animais que Mudaram Para Sempre a Vida de Uma Família), o drama Compramos Um Zoológico, de Cameron Crowe, é o baseado em uma história real, da vez (de fim de ano). Ele “mostra” como a família de Mee comprou o falido Dartmoor Zoological Park, na Inglaterra, para onde o autor se mudou com a mãe, a mulher Katherine (que morreu três meses antes da reinauguração), os filhos Ella e Milo e o irmão Duncan, e o transformou em uma grande atração turística. A história dos Mee foi contada, anteriormente, em quatro episódios, no documentário Ben’s Zoo, do canal BBC2.


Na trama cinematográfica, a ação foi transferida para a região de Los Angeles, nos EUA. Lá acompanhamos o dia a dia de Benjamin Mee (Matt Damon), ex-colunista de um jornal da cidade que, na tentativa de superar a morte da esposa e melhorar o relacionamento com os dois filhos, Dylan (Colin Ford), de 14 anos e Rosie (Maggie Elizabeth Jones), de 7, se muda com a família para o interior, onde comprou uma casa que abriga, no quintal, o Rosemoor Wildlife Park, um zoológico falido. O desafio (e válvula de escape) de Mee cresce na medida em que seu plano de uma nova vida familiar esbarra nas dificuldades para restabelecer o zoo, precariamente administrado por Kelly Foster (Scarlett Johansson), que conta apenas com uma pequena mas abnegada equipe para cuidar de animais doentes e em extinção.  

O drama, com pitadas de humor, é simpático. Otimista ao extremo, e não poderia ser diferente (?), tem uma narrativa que anda na corda bamba do clichê fácil e da pieguice. É um filme linear que cumpre à risca o propósito do roteiro de Crowe e Aline Brosh McKenna, se bastando no retrato de pessoas comuns vencendo os percalços familiares e profissionais. Não se aprofunda na somatização da dor de Benjamin, que sofre pela morte da mulher e se culpa pela incapacidade de educar os filhos, principalmente o aborrescente Dylan, com quem não consegue dialogar. Tampouco no trauma do menino que se isola num mundo de figuras fantasmagóricas. O que motiva a história é a determinação do cidadão (americano) que (sempre) resolve os seus problemas naturalmente, na hora adequada.


Compramos Um Zoológico (We Bought A Zoo, EUA, 2011) tem boas performances de todo o elenco. Os melhores momentos são arrebatados pela graciosa e doce Maggie Jones (Rosie), que ilumina a tela com a sua inocência e carisma. As sequências mais descontraídas (e ternas) ficam por conta da bela Lily Miska (Elle Fanning) e Dylan, vivendo a “complicada” descoberta do primeiro amor. No acerto das contas pendentes, com a boa sorte sorrindo para todos (até para os animais), o enredo até desenha um flerte entre Kelly Foster e Benjamin Mee, mas, sinceramente, o casal (de atores) não tem a menor química. A trilha funcional, com boas músicas, é mais um complemento do que intrusão e a caprichada fotografia de Rodrigo Prietro emoldura bem o bucólico cenário. Um programa na medida para o público que gosta de se emocionar e ao final do espetáculo dizer: eu também posso!

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Crítica: Missão Impossível - Protocolo Fantasma



Ethan Hunt está de volta, agora com a promessa de chegar até ao fim da missão com uma confiável equipe de apoio. Quem conhece a série de televisão e ou vem acompanhando a franquia no cinema sabe que, na verdade, a tal missão título está mais para difícil do que para impossível, já que, de um a forma ou de outra, Ethan sempre resolve, até mesmo as traições. Mas nunca se sabe quando as coisas podem sair de controle.

Missão Impossível - Protocolo Fantasma começa com uma fantástica perseguição, em que o espectador é apresentado a três agentes de campo, Trevor Hanaway (Josh Holloway), Jane Carter (Paula Patton) e Benji Dunn (Simon Pegg), incumbidos de encontrar um arquivo com os códigos de um arquivo nuclear. Na sequência, logo após ser resgatado de uma prisão, em Moscou, Ethan Hunt (Tom Cruise) é incriminado por um atentado terrorista ao Kremlin. Por conta do “incidente” internacional o governo norte-americano decide extinguir a agência IMF (Impossible Missions Force), iniciando o Protocolo Fantasma. No entanto, um imprevisto coloca Hunt na pista do psicopata Kurt Hendricks (Michael Nyqvist) e da bela e furtiva assassina Sabine Moreau (Léa Seydoux). Sem o apoio oficial da agência, com um policial russo, Anatoly Sidirov (Vladimir Mashkov), na sua cola, ele vai poder contar apenas com os inexperientes agentes Jane, Benji e William Brandt (Jeremy Renner) para solucionar esta explosiva missão.


Apesar do ótimo elenco internacional, Missão Impossível - Protocolo Fantasma não tem um argumento dos mais originais na escalação do inimigo (russo) e no pomo da discórdia (míssil nuclear), mas o seu roteiro é redondo e os personagens (humanos) ganham em veracidade e muito bom humor. Com a “extinção” da agência, os superagentes não são mais “super”. A boa notícia é que eles ainda podem contar com algum equipamento que tinham em mãos e a má notícia é que nem tudo que têm em mãos funciona plenamente. Assim, largados à própria sorte (para delírio dos espectadores), eles terão que dar conta da missão contando apenas com algum conhecimento básico e o treinamento padrão. Nunca um improviso valeu tanto.

Nesta nova produção o importante não é o tema batido e sim a excelência da narrativa. Não fosse a ousada e competente direção de Brad Bird (Os Incríveis e Ratatouille), que parece desconhecer a palavra impossível, ele seria mais uma chatice com todos os clichês inverossímeis de filme americano de espionagem. Não é que MI-PF não tenha algum clichê, tem, mas quase não se nota. O humor é espontâneo e vai enredando o público desde o início. Ele surge nas mais diversas situações, principalmente através do agente Benji, e acaba partilhado por Brandt e Hunt. O bom é que humor nonsense não descaracteriza o clima de ação e aventura da trama, mas acrescenta muito mais emoção ao que já é de prender a respiração. Outro ponto positivo é que este quarto filme é independente dos outros. Não requer conhecimento prévio dos personagens e muito menos que se tenha visto os anteriores.
  

Missão Impossível - Protocolo Fantasma é pura adrenalina! As sequências no edifício Burj Khalifa (o mais alto do mundo), na belíssima Dubai, são “insanas”. Para realizá-las, Cruise (também) teria dispensado os dublês. Há todo um aparato técnico na realização dessa e outras tantas cenas empolgantes, mas o que se vê na tela é uma tecnologia a serviço de uma história e não o contrário. É, sem dúvida, o melhor e mais convincente dos quatro MI. Uma produção arejada onde até mesmo o enredo banal (mas bem resolvido) funciona. O único porém (nem tão porém assim) é que é um espetáculo para ser assistido (se possível) no IMAX. Dificilmente em outra sala de projeção provocará sensação tão vertiginosa. 

domingo, 18 de dezembro de 2011

Crítica: Alvin e os Esquilos 3



O primeiro Alvin e os Esquilos, em 2007, fez: Tcham! O segundo, em 2009, fez: Tchum! O terceiro, em 2011 vai fazer Tchabum! Pelo menos para os adultos acompanhantes das crianças fãs dos fofíssimos esquilinhos CGI (Computer Generated Imagery) e suas irritantes vozes de hélio.

A nova aventura de Alvin e os Esquilos 3 (Alvin and the Chipmunks: Chip-Wrecked, EUA, 2011), dirigida por Mike Mitchell,  traz Alvin, Simon, Theodore, na companhia das suas correspondentes Brittany, Jeanette e Eleanor, a bordo de um (cafona) cruzeiro de luxo, curtindo merecidas férias e se preparando para um evento internacional de música. Hiperativos, os célebres roedores logo estarão infernizando a vida dos passageiros e do compositor Dave Seville (Jason Lee), surpreso por encontrar o ex-produtor Ian (David Cross), vestido de pelicano, cuidando da segurança e diversão das crianças. Assim, já que problema pouco é bobagem, o galanteador irresponsável Alvin acaba aprontando uma confusão tão grande que, ele, os esquilos, Dave e Ian vão parar numa ilha tropical, onde vive a estranha Zoe (Jenny Slate). Ali, longe da civilização e em meio a acontecimentos bizarros (envolvendo Simon), a amizade e a confiança, que depositam um no outro, serão colocadas à prova.  


A comédia musical faz referências a filmes como Os Caçadores da Arca Perdida (1981), O Senhor das Moscas (1990), Náufrago (2000), Madagascar (2oo5)..., mas não consegue fazer graça com o drama alheio. Uma vez que o público alvo é o infantil, será que toda criança (até mesmo a que esquecer o seu “Tico e Teco” em casa, babando no sofá, diante da TV) terá informação suficiente para entender a paródia da náufraga Zoe e as suas bolas mal-humoradas, e ou o drama dos “humanizados” esquilos perdidos na selva? Se os pais ou acompanhantes forem cinéfilos, vão ter lição de casa. Não custa lembrar que muita gente não entendeu as irônicas tiradas literárias, musicais e cinematográficas presentes em Shrek (2001 a 2010), mesmo fazendo parte do contexto.


O live-action, que se acredita ao gosto (?) dos pequeninos, tem bagunça, aventura, romance, ação e, claro, muita musica e dança. No entanto, carece de um clima mais zombeteiro e, no olhar de um adulto, sobram falhas. Algumas devem passar batido pelo público infantil brasileiro, como a dublagem apenas dos diálogos. No Brasil, legendar músicas da trilha sonora, mesmo que extensão dos diálogos, é um tabu. Não creio que uma criança, sem domínio do inglês, entenda a razão das esquiletes cantarolarem (em versão alienígena) a “dramática" Survivor (imitação barata de I Will Survive), do Destiny’s Child, ao redor da fogueira, ou qualquer outra “canção” inserida na trama. E olha que a trupe de esquilos passa o tempo cantando (com voz de hélio) e dançando. Se bem que, uma vez que o inglês das canções é praticamente incompreensível (daí a importância da legenda), talvez não faça mesmo diferença, já que é a mise-en-scène dos roedores que entretêm a criançada de, no máximo, 10 anos.


Alvin e os Esquilos 3 pode ser considerado o menos ruim da rendosa franquia, mas (também) não resiste a uma análise simples, que vá além do mero entretenimento: bagunça, cantoria, bagunça, dança, bagunça. Pode ser irrelevante (?) para o público alvo, porém deve causar estranheza (aos pais?) o fato dos esquilos serem tratados como crianças (por causa do tamanho ou do desenvolvimento mental?), mas se vestirem e se comportarem como adultos, frequentando cassinos e boates, e serem especialistas na arte da sedução. Exagerada ou não esta sensação de desconforto, o fato é que, excetuando uma ou outra criancice de Theodore (porque só ele?), a maioria das coisas que os esquilos fazem é típica de jovens que já deixaram a adolescência para trás. Será um reflexo do atual cinema americano que explora, em comédias de gosto duvidoso, o comportamento adolescente tardio de homens e mulheres na faixa dos 30 anos?  


Alvin 3 e não é um filme totalmente à deriva, tem lá os seus acertos na animação dos graciosos (de boca fechada) esquilos e no argumento da mensagem que o fundamenta: a conquista da autonomia com responsabilidade. Infelizmente os desacertos são maiores e se fazem notar principalmente no desenvolvimento dos personagens esquilos versus humanos. Enquanto os bichinhos protagonizam os melhores momentos, Jason Lee (Dave) e o divertido David Cross (Ian), que poderiam dar um novo ânimo, um ritmo diferenciado, principalmente Cross vestido de pelicano, foram relegados a meros coadjuvantes, têm alguma importância, mas não têm a menor graça. Não deve ser fácil dirigir esquilos tão temperamentais, mas, como nem tudo na tela é CGI, alguma preocupação com a náufraga (de shopping) Zoe não faria mal. Com tal figurino e maquiagem não convence nem o mais “ingênuo” dos espectadores de que está perdida naquela ilha há quase dez anos. Um filme para fãs!


quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Crítica: Roubo nas Alturas



Sabe aquela sensação de déjà vu, que é cada vez mais notória no cinema popular americano? Pois é, pode ser que você a tenha quando assistir a “comédia de ação” Roubo nas Alturas, estrelada por Ben Stiller e Eddie Murphy. Na verdade, este filme dirigido por Brett Ratner, com base no roteiro de Ted Griffin e Jeff Nathanson, está mais para um drama de roubo, já que o humor é quase inexistente e a “ação” não empolga. É claro que tem uma ou outra piadinha escatológica (sem graça) de ocasião e a indefectível sequência (enfadonha) envolvendo carros, mas elas funcionam apenas como tapa buraco.

Meio que a reboque do escandaloso caso de fraude (em Wall Street) do megainvestidor Bernard Leon Madoff, o ex-presidente da Nasdaq (condenado a 150 anos de prisão) responsável por uma quebra de mais de 60 bilhões de dólares, em 2008, Roubo nas Alturas narra uma história possível, mas nada convincente. Alan Alda é o bilionário investidor Arthur Shaw, que aceita “cuidar” das economias dos funcionários do luxuoso prédio onde mora. Ben Stiller é o honesto Josh Kovaks, o gerente do condomínio e responsável por confiar a grana dos colegas de trabalho ao investidor. Quando descobre que foi enganado, Josh arranja um jeito de reaver pelo menos o dinheiro dos amigos, que investiu na esperança de um lucro fácil. Para burlar o “sofisticado” esquema de segurança do prédio e roubar o que acha que lhe é devido, ele contrata o gatuno Slide (Eddie Murphy), o seu afobado cunhado Charlie Gibbs (Casey Affleck), o ascensorista Dev’reaux (Michael Peña), a camareira Odessa (Gabourey Sidibe) e um falido ex-proprietário Sr. Fitzhugh (Matthew Broderick). Josh sabe que não pode esperar muito desta trupe de ineptos, e logo o espectador se dará conta de que não pode esperar muito deste burocrático filme.


A princípio, por conta do mirabolante planejamento de roubo, o argumento pode remeter ao curioso Um Plano Brilhante (Flawless, 2007), de Michael Radford, mas só a princípio. Roubo nas Alturas, que segundo Murphy começou a ser idealizado em 2005, carece de um bom roteiro com, no mínimo, diálogos inteligentes. Não há nesta “comédia” de, digamos, costumes, a ironia peculiar nos personagens humilhados (ao menos na ficção), o sarcasmo do populacho. O desconforto da periferia, do trabalhador imigrante que faz das tripas coração para agradar o “patrão padrão branco”, é tão civilizado que constrange. Falta ousadia e engenhosidade (além da sequência do elevador) ao plano do “justiceiro” Josh, travestido de Robin Hood de Nova York. Bem como uma boa dose de safadeza, para dar aquele gostinho de volta por cima, de virada de jogo na torre do xadrez, para o espectador entender o (óbvio) “trocadilho” que se anuncia no princípio da trama.


A produção tem alguns furos que atravancam a narrativa e sem o timing característico dos filmes do gênero, repete fórmulas gastas, sem ambições criativas e ou rendimento dos bons atores, que parecem perdidos em um ensaio final para se testar alguns cacos. A discutível justiça (final) à revelia da Justiça (final), a primária aula de roubo no shopping e os estereótipos do “negro marginal” e do “branco trouxa” (vistos até no abominável QueroMatar o Meu Chefe, 2011) podem incomodar aquele público do politicamente correto. Mas, nada que um banho de realidade, ao sair do cinema, não aplaque. Roubo nas Alturas é um filme escapista que se vê indiferente à previsível história com seus cacoetes e maniqueísmo. É uma pena que, num assunto financeiro, que ainda desperta interesse dentro e fora de Hollywood, seja tão evasivo no esperado olhar invasivo sobre a velha Wall Street e seus grandes e pequenos “poupadores”. 

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Crítica: O Gato de Botas



O ano de 2011, que já presenteou os fãs de animação com os excelentes: Operação Presente, Rio, Kung Fu Panda 2, Rango, Carros 2 e (por que não?) Os Muppets, vai chegando ao fim com a estreia de mais uma imperdível produção: O Gato de Botas.

Saído diretamente das páginas do livro Histórias ou Contos do Tempo Passado com Moralidades (1697), conhecido também como Contos da Velha ou Contos da Mamãe Gansa, de Charles Perrault (1628 - 1703), para o paródico e (claro!) irônico mundo de Shrek, o sedutor bichano de olhos pidões merecidamente retomou as rédeas de sua própria história, mesmo que o enredo seja outro. Com todo charme e safadeza ele volta às telas para viver uma aventura que tem nada a ver com a narrativa clássica de Perrault, mas é tão cheia de ação e fantasia quanto.


O roteirista Tom Wheeler, com base no argumento criado por ele, Brian Lynch e Will Davies, escreveu uma nova origem para O Gato de Botas (voz: Antonio Banderas) que, ainda na infância, trava profunda amizade com o problemático e vingativo Humpty Alexandre Dumpty (voz: Zach Galifianakis), o temperamental cara de ovo (de Aventuras de Alice no país das maravilhas & Através do espelho e o que Alice encontrou por lá), e já adulto conhece a bela e maliciosa Kitty Pata-Leve (voz: Salma Hayek), a maior ladra de toda a Velha Espanha. Juntos, este improvável e ambicioso trio de foras-da-lei vai enfrentar o temido casal de bandidos Jack (voz: Billy Bob Thornton) e Jill (voz: Amy Sedaris), para roubar os três grãos de feijão mágicos, que já pertenceram ao paupérrimo João, que terá um engraçadíssimo encontro com o Gato, numa prisão, ambos vítimas de um embaraçoso equívoco. O propósito do roubo dos feijões mágicos é até nobre: resgatar a honra perdida..., desde que consigam provar que os fins (realmente) justificam os meios.


O Gato de Botas (Puss in Boots, EUA, 2011), dirigido por Chris Miller, se passa antes do Gato conhecer Shrek e o Burro Falante, lá no Reino de Tão Tão Distante.  Como os autores não perdem nem a piada e nem a paródia, o espectador vai se divertir com a Gansa dos Ovos de Ouro, o temeroso Pé de Feijão cruzando vertiginosamente o espaço, no melhor estilo Avatar, e as referências ao Zorro (estrelado pelo Banderas) e à erva-do-gato, entre outras. Ah, e também se deslumbrar com os gatos instrumentistas, numa toca muito especial, e com a espetacular cenografia.


A engraçada animação ganha em agilidade, ao dividir a trama entre os três ótimos protagonistas, sem esquecer o pavoroso e hilário casal marginal e seus javalis, que chegam a roubar (Ôps!) a cena. É evidente que o bom ritmo, o tempo de cada um em cena e o entrelaçamento de todos, só é possível porque os novos personagens (heróis e bandidos) são cativantes, tanto no traço quanto na biografia. Assim fica fácil trabalhar uma narrativa inventiva repleta de humor, romance e aventura e (ainda) sutilmente falar de amizade, honestidade, família, honra, sem incomodar jovens e adultos. É redundância, mas, tecnicamente o filme (também) é irretocável, como as produções citadas acima. Quanto ao 3D (vi no IMAX), parece que somente as animações vêm acertando e apurando a tecnologia, salvo algum tremelique nas legendas, que não chega a incomodar.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Crítica: Noite de Ano Novo



Por conta da constelação de estrelas e celebridades, justificando a ordem alfabética dos créditos do elenco protagonista, Noite de Ano Novo (New Year’s Eve, EUA, 2011), de Garry Marshal, parece, mas não é uma continuação de Idas e Vindas do Amor (Valentine's Day, EUA, 2010), do próprio Marshal. Sai Los Angeles e entra New York com uma (nova?) trupe de solitários de ocasião, que têm até a meia-noite do dia 31 de Dezembro de 2011 para encontrar, conquistar e ou reconquistar um amor.

Baseado no roteiro de Katherine Fugate (de Idas e Vindas do Amor), Noite de Ano Novo se passa (também) em apenas um dia. São pequenas histórias, pinceladas na metrópole americana, com alguma coisa em comum: a esperança! Enquanto aguardam o grande espetáculo do réveillon, na Times Square, adolescentes e adultos fazem planos e balanço do ano e da própria vida. No baralho da sorte de cada um, as cartas alternam sonhos, desejos, culpas, encontros, desencontros, nascimento, morte..., como todo fim de ano, em qualquer lugar do mundo. Ah, as promessas!


Noite de Ano Novo é um filme leve, para quem não é exigente e não se cansa da mesma lengalenga piegas e ou amorosa, na certeza de um final feliz. A sua narrativa traz “personagens” demais e histórias de menos. O que é um complicador. Não há tempo para o espectador se envolver, partilhar dores e alegrias. Ele é linear e bem ao estilo do “politicamente” correto, enaltece a família, a amizade, o casamento, o trabalho. Pudico (?) e civilizado (?), não explora o sexo e nem a violência (bom, tem uns dois tapinhas de amor e uma tal de totoca). Para os eternos otimistas, pelo menos na tela, as resoluções cotidianas são de uma simplicidade ímpar.

Com seus inumeráveis clichês, Noite de Ano Novo é um drama romântico com pitadas de humor. Pitadas mesmo! Não tem baixaria, piadas escatológicas, trombadas, escorregões e coisas do gênero americano em filmes românticos, comédia ou não. Na verdade, tem um escorregão, logo no início. É uma metáfora óbvia(mente) e desnecessária, mas alguém deve ter achado que seria engraçada. A sequência está mais para tragédia anunciada. Algumas “tramas” amorosas, ao alcance do público juvenil, beiram o ridículo. Tudo é muito raso, na expectativa do beijo da meia-noite, na vida em condomínio, na comemoração e até na fatalidade.


A produção, que traz no elenco Jessica Biel, Jon Bon Jovi, Abigail Breslin, Chris "Ludacris" Bridges, Robert De Niro, Josh Duhamel, Hector Elizondo, Katherine Heigl, Ashton Kutcher, Seth Meyers, Lea Michele, Sarah Jessica Parker, Til Schweiger, Ryan Seacrest, Hilary Swank e Sofia Vergara, tem pelo menos uma história simpática que, se melhor desenvolvida, poderia resultar num filme bacana. Protagonizada por Zac Efron (Paul) e Michelle Pfeiffer (Ingrid), parece uma versão rasteira e às avessas do belíssimo Harold & Maude (Ensina-me a Viver, EUA, 1971), do diretor Hal Ashby, que narra a envolvente relação amorosa entre o destrutivo adolescente Harold (Bud Cort) e a alegre Maude (Ruth Gordon), uma mulher de 79 anos. Nesta, digamos, curiosa “releitura” (onde não falta nem, a motocicleta), Ingrid é uma cinquentona amargurada que acaba encontrando no jovem e animado Paul, a energia e a criatividade que precisa para dar um novo rumo à sua vida.

Ralo ou não (tudo na vida é uma questão de gosto), o que deve realmente incomodar muita gente, na romântica Noite de Ano Novo, é a quantidade de merchandising que pipoca pela tela, fazendo crer que pelo menos o elenco foi bem pago, independente da discutível “atuação” de cada um. O resto é padrão: técnica, trilha, fotografia etc. Agora é esperar para ver se, em 2012, fechando a trilogia, diretor e roteirista se animam em apresentar novos solitários comemorando o Amor no Dia das Bruxas.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Crítica: Operação Presente



Sabe aquela história de que Papai Noel é coisa de criança? Esqueça! A divertidíssima animação Operação Presente (Arthur Christmas, EUA, Reino Unido, 2011) está chegando para mudar estes e outros (pré e pós) conceitos. Ah, e também mostrar os percalços da reengenharia, da sucessão e da aposentadoria, em tempos de alta tecnologia e da perda da inocência.


Dirigido por Sarah Smith, que também escreveu o roteiro, em parceria com Peter Baynham, a animação narra as aventuras e as desventuras do 20º. Papai Noel (em vias de se aposentar) e seus dois filhos, o meticuloso Steve (em vias de sucedê-lo) e o distraído Arthur (em vias de mais uma trapalhada). Não necessariamente nessa ordem. Tudo parece ir muito bem, no quartel general da Família Noel e seus Elfos, mas, então, uma imperdoável falha do sistema ultra high-tech, desenvolvido e a coordenado por Steve, revela um presente sobrando e uma criança esperando por ele. Papai Noel e Steve não acham o problema tão grave assim e, enquanto discutem de quem é culpa, Arthur e o esclerosado e sarcástico Vovô Noel (de 136 anos), tentam arranjar um jeito de entregar o tal presente. Arthur, que adora o Natal e vê o seu pai (Noel) como um herói, é o responsável pela correspondência que recebe do mundo inteiro e ao se meter nessa inesperada missão, além de se divertir, como nunca, vai descobrir o verdadeiro significado do Natal.


Operação Presente é uma clássica história natalina, cheia de magia e nostalgia, onde o que não falta é sincronia, empenho, cumprimento do dever e muita confusão, colocando a Família Noel, Elfos, Renas e o resto do mundo em pé de guerra. As piadas são rápidas, oportunas, e, realmente, engraçadas. A sequência na África é impagável, talvez a melhor do filme. O bacana é que a narrativa brinca com a tradição (trenó/rena) e a tecnologia de última geração (trenó/computador), com a Mamãe Noel abusando da internet.

A história é simples (mas não é rasteira) e cresce por conta da simpatia dos personagens (todos muito bem desenvolvidos) e de uma atualização do tema, que passa longe da pieguice, chegando até a flertar com o politicamente incorreto (no drama e no humor). É irônico, mas também é ingênuo, gracioso. É um filme-família, com uma mensagem legal, que pode ser visto, sem sustos, até mesmo pelos adolescentes, que vão rir muito com as fobias do desastrado Arthur.


Operação Presente não subestima a inteligência do espectador. A produção (vi em 3D) é impecável (com boa dublagem brasileira). As texturas das roupas, com referências natalinas, são incríveis. É difícil imaginar que sejam computadorizadas. Os detalhes (curiosidades espalhadas pelo filme) são um show à parte: estampa na blusa de Arthur, “camuflagem” na roupa (assinada) de Steve (repare no corte da barbicha dele!), a minuciosa decoração da sala de correspondência. Talvez o grande público não repare em nada disso, mas com certeza vai se emocionar com a cena das velas (uma homenagem antecipada a Steve Jobs?). A animação tem, é claro, um final edificante, por conta do tema, porém, o que chama a atenção para ele, é a melancólica e arrepiante metáfora que o antecede, na polvorosa (ou seria pavorosa?) ação dos líderes mundiais, diante do que não conhecem (ou se esqueceram). 

sábado, 26 de novembro de 2011

Crítica: A Pele Que Habito


Quando me proponho a ver algum filme, não leio críticas e ou sinopses reveladoras. Prefiro fazer a minha própria leitura. Sei que apostar no diretor e ou no elenco pode não ser a melhor das alternativas, mas é pelo que vale arriscar, mesmo ciente de que nomes, passado e prêmios não garantem um bom espetáculo. Cinema (também) é uma cultura de risco! Assim, a sensação de ganho ou perda, de horas na sala, dependerá da minha expectativa. Vi A Pele Que Habito, bem depois do lançamento, na primeira de duas sessões, num cinema, praticamente, vazio.

Baseado no roteiro de Pedro e Augustín Almodóvar, A Pele Que Habito é uma ficção científica de horror B, inspirada no livro Mygale (lançado no Brasil pela Editora Record, com o título Tarântula), do escritor francês Thierry Jonquet (1959-2009). Em sua trama rasa e nada convincente, Antonio Banderas é o ilustre e inescrupuloso cirurgião plástico Robert Ledgard que, após duas tragédias em sua família e por razões pessoais, de dedica à pesquisa de uma pele artificial e às novas técnicas de cirurgia, usando como cobaia a paciente Vera (Elena Anaya). A sua governanta é Marilia (Marisa Paredes), uma velha conhecida, cuja intimidade será desvelada aos poucos.


Assisti a todos os filmes de Pedro Almodóvar que passaram no Brasil. Alguns perderam um pouco do encanto numa segunda vista, mas, no geral, continuo gostando da grande maioria. Talvez por isso a frustração diante de A Pele Que Habito (La Piel que Habito, Espanha, 2011), que me pareceu um cinema tributo ao próprio Almodóvar, por conta dos retalhos “referências” de outras produções suas costuradas aqui e ali. Os signos de cada autor são a sua assinatura e com Almodóvar não é diferente. Seus filmes são reconhecíveis pela ousadia, pelas cores, pelas personagens femininas (e atrizes), pela bizarrice, pelo humor (negro) ou melodrama, sem que se leia seu nome nos créditos. Porém, desta vez, nem ele e nem os atores e seus personagens convencem. Todos (!) os seus clichês estão ali, literalmente à flor da pele: tortura, sadomasoquismo, supressão da identidade, violência, submissão, crise familiar e sexual, vingança, mulheres, novelão, fetiche. Mas os elementos não têm liga. Se der continuidade, deu!


A produção flerta com a ficção científica (nem tanto por se passar em 2012, mas porque, a despeito da existência de uma pele artificial, a ciência médica ainda não criou aquele tipo de pele inviolável (imune a fogo, cortes, picadas) e tampouco tem tecnologia para modificar um esqueleto (da cabeça aos pés), como faz o Dr. Ledgard. Se já era difícil engolir a o troca-troca de rosto de John Travolta e Nicolas Cage em A Outra Face (Face/Off), de John Woo, aceitar a modificação da ossatura humana é pior ainda. Haja metáfora e imaginação! É mais fácil acreditar que Clark Kent e Superman são duas pessoas diferentes. Quanto ao horror B, ele se dá por conta do clima kitsch chic, beirando o trash, que a permeia: o “baiano brasileño” Zeca (Roberto Álamo), fantasiado de Tigre, seria hilário, não fosse ele uma ridícula caricatura bem ao gosto dos gringos que ainda pensam que samba é rumba.


Apesar de Almodóvar estar (ausente?) em tudo, do começo ao enfadonho e tolo final, A Pele Que Habito parece ter sido dirigido por um cover (dele) enroscado numa atadura. Todavia, nem tudo é um equívoco neste filme que se assiste bocejando. Há que se destacar a direção de arte, na minuciosa temática dos quadros espalhados pela casa-clínica de Ledgard, mas o que chama a atenção, mesmo, é o que se vê nas entrelinhas do leitmotiv, em duas belas sequências: a da releitura de Venus del Espejo, de Diego Velázques (1599 - 1660), transformada em Venus del Video, quando o doutor examina a sua paciente deitada nua, através de uma imensa tela de televisão (que remete ao belo Os Abraços Partidos); e o grito visual de Vera, ainda que prisioneiro, extrapolando a dor e se espalhando pela parede do quarto. Num melodrama sonolento e de pouco interesse, com uma óbvia “reviravolta reveladora” e um final, precedido de risível chantagem (!), pra lá de previsível, foi o que me valeu.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Crítica: Os Muppets



Candidato a uma das melhores comédias do ano, Os Muppets retornam aos cinemas literalmente em alto estilo, já que Miss Piggy, Caco, o Sapo (ou Kermit) e Walter, foram vestidos por grifes famosas. Mais ousados, dramáticos, cômicos e malucos do que nunca, estes famosos e adoráveis bonecos do mundo animado, criados pelo genial Jim Henson (1936 - 1990) fazem o espectador confundir as lágrimas do riso e da emoção. Vale muito cada um delas.

Esta sétima adaptação de Os Muppets (The Muppets, EUA, 2011), dirigida por James Bobin, baseada no roteiro de Jason Segel e Nicholas Stoller, traz um história muito bacana sobre a vida dos artistas de show de variedades, depois da fama. Ou melhor, sobre os bastidores da fama, quando cai o pano, o público deixa o teatro, e a mídia some. O que fazer quando não se é mais uma celebridade? Os Muppets parecem ter a resposta, mesmo que, a princípio, ela não faça muito sentido.


Tudo começa na adocicada Smalltown, EUA, um lugarejo onde os alegres moradores cantam felizes. É dali que o amigável e distraído Gary (Jason Segel) e a sua namorada Mary (Amy Adams) saem para passar as férias em Los Angeles, levando junto o pequeno grande Walter (fã número um dos Muppets e irmão de Gary), que acaba descobrindo uma armação do megaempresário Tex Richman (Chris Cooper) e dos rabugentos Statler e Waldorf, relacionada à posse do velho Teatro Muppet. Para evitar o pior, os três se juntam a Caco, na tentativa de conseguir reunir toda a trupe dos Muppets, montar um Programa Teleton, arrecadar US$ 10 milhões e recuperar a casa de espetáculos. Em se tratando de bonecos sonhadores e temperamentais, a busca aos antigos colegas de palco, o resgate dos talentos perdidos, não será nada fácil, mas será hilária.


Com uma ótima história repleta de confusões, deliciosos números musicais e excelentes canções, Os Muppets é um filme lúdico, mágico, bem humorado, que mata a saudade dos fãs e diverte até quem nunca ouviu falar dos bonecos mais adoráveis da televisão, cinema e (agora) internet. Em poucos minutos ele conquista todo e qualquer espectador. As piadas vão do nonsense ao surreal, sem esquecer a acidez dos oportunistas inoportunos e sempre rabugentos Statler (Nós não queríamos estar no filme, mas achamos que era nosso dever.) e Waldorf (É, alguém precisava alertar ao público sobre o que vão assistir. O mínimo que as pessoas podem fazer é compartilhar nosso sofrimento.) com suas tiradas sarcásticas sobre o espetáculo e principalmente sobre o elenco, se divertindo com o próprio desgosto cultural. Ele brinca com as mídias, as celebridades e os negócios artísticos, mas também fala sério, ao destacar a importância de cada integrante numa montagem teatral.


Como já é tradição em produções anteriores (desde a sua criação) Os Muppets traz, em situações inusitadas, astros como David Grohl, vocalista do Foo Figthers, tocando com Urso Fozzie na trash band Os Moopets, Jack Black, como parceiro de Animal, numa clínica de tratamento de gerenciamento de raiva, e Jim Parsons, num dueto (ou seria quarteto?) da bonita canção “Man or Muppet”, de Bret Mckenzie, com Gary/Muppet e Walter. Tem ainda, Whoopi Goldberg, Zach Galifianakis, Emily Blunt, entre outros, em rápidas aparições. No entanto, celebridades coadjuvantes à parte, as grandes estrelas são mesmos os irônicos bonecos que, livres das “amarras”, roubam as cenas, até dos outros bonecos, como a impagável Miss Piggy, na pele de uma impagável e elegantérrima editora de moda extragrande da Vogue Paris, ou o simpático Walter, arrasando (também) no final encantador. É ver para crer!



Os Muppets, infelizmente, não apresenta divertidos erros de filmagem, junto com os créditos finais, mas, em contrapartida abre a sessão com o engraçadíssimo curta Um Pequeno Grande Erro (Small Fry), do Toy Story, mostrando como os brinquedos enfrentam seus traumas, em uma Terapia de Grupo para Bonecos Abandonados em Parque de Diversão. Portanto, não chegue atrasado.

sábado, 12 de novembro de 2011

Crítica: Os 3



Os 3 (Brasil, 2011) é um filme brasileiro para quem gosta de cinema de qualidade e para restaurar a confiança do público que entrou de gaiato numa sala e acabou se atolando na pornochanchada em cartaz. Dirigido por Nando Olival, o drama cômico (e ou comédia dramática) narra o dia a dia de um divertido triângulo amoroso formado por três jovens universitários: Camila (Juliana Schalch), Cazé (Gabriel Godoy) e Rafael (Victor Mendes), recém-chegados a São Paulo, que se conhecem em uma festa e decidem dividir um apartamento. Eles são sonhadores, têm segredos, algumas frustrações, e estão virando a página da adolescência. Para conviver como novos adultos, a única regra é não se apaixonar uns pelos outros. Mas, como é mais fácil falar sobre relações (baseadas em amizade, amor, paixão, tesão) do que viver, eles vão ser obrigados a rever seus conceitos, quatro anos depois, quando um despretensioso projeto de graduação (do grupo) cai nas graças de uma grande loja de departamentos, e vira do avesso a vida da garotada. Ou melhor, expõe na rede a estranha vida deste adorável trio que já não sabe se a vida que leva é real ou pura encenação.


Por certo, alguns cinéfilos vão se lembrar que o tema já  propiciou a realização de clássicos e os jovens, menos informados, se muito, vão achar que tem a ver com aquela série chatinha: Aline. Bobagem, a coincidência está apenas no fato de ser um trio. Os 3 cheira a novidade e esbanja contemporaneidade. É deliciosamente juvenil e jovial. Com roteiro do próprio Olival, em parceria com Thiago Dottori, ele enreda o espectador, aos poucos, numa trama bacana, que brinca com a metalinguagem e também com a armação dos sem noção reality shows, surpreendendo o espectador duplamente voyeur. O elenco protagonista tem uma química toda especial e só o fato de não ser formado por “atores” celebridades, daquela tal rede de televisão, já é uma grande vantagem.


Os 3 é extremamente sensual e delicado ao tratar de flerte, amor e sexo. Sabe quando insinuar, o quê e quando mostrar, sem precisar explicitar gratuitamente. Ele tem bons diálogos e um humor saudável, sem escrachos e piadas de baixo calão. A sua comicidade desperta o riso fácil e não a gargalhada espalhafatosa. Ter e saber narrar uma boa história, já é meia metragem ganha, contar com ótimos atores, ajuda muito, mas Os 3 não se bastaria (nestes detalhes óbvios) sem a impressionante fotografia de Ricardo Della Rosa, com closes e enquadramentos inusitados, e a montagem especialíssima de Daniel Rezende, que dá leitura (e liga) às narrativas do filme dentro do filme, na internet e fora dela. Dispor de profissionais técnicos competentes, que fazem o difícil parecer fácil, é o ganho certo da outra metade da metragem.

Destacaria, ainda, a direção de arte de Clô Azevedo, pela habilidosa exploração cênica da atulhada locação, e a interessante trilha de Ed Côrtes, que chama a atenção por ser um complemento e não um incômodo condutor de emoções baratas.  Os 3 é daquelas raras produções nacionais que dão prazer assistir e recomendar. É, sem dúvidas, um dos melhores brasileiros do ano.

sábado, 5 de novembro de 2011

Crítica: A Casa dos Sonhos



O título e o cartaz de A Casa dos Sonhos podem até sugerir (mais) um filme sobre (mais) uma casa assombrada por fantasmas, demônios e outros “seres” correlatos, mas a ideia (mal resolvida) é a de um thriller psicológico. Em sua (batida) trama, Will Atenton (Daniel Craig) é um editor que espera unir o útil ao agradável: passar mais tempo com a família e finalmente escrever o seu adiado livro. Deixa o emprego, compra uma aprazível casa num bairro tranquilo e se muda com a mulher Libby (Rachel Weisz) e as filhas Dee Dee (Claire Geare) e Trish (Taylor Geare). No entanto, algumas coisas parecem fora de ordem na casa e na vizinhança. Logo Will descobre que uma aparente hostilidade dos vizinhos está relacionada com uma tragédia ocorrida há cinco anos, quando a mãe e duas filhas foram mortas naquela casa. Como em toda redondeza o assunto é tabu, disposto a viver em harmonia com a família e os vizinhos, ele decide pesquisar o corrido, cujo suspeito é o marido, e fica perplexo com as suas descobertas.

Se a sinopse desperta algum interesse, o mesmo não pode ser dito do claudicante roteiro-clichê de David Loucka, que até tenta confundir e parecer inteligente, mas não consegue (igual ao Will) sair do lugar comum. A obviedade é tanta que qualquer espectador, que já tenha visto outros filmes (melhores) de suspense, logo na primeira (re)virada da história sabe quem é o verdadeiro culpado pela chacina. O que não o impede de mudar de opinião, se achar propício. Ou esperar até o ridículo final e dizer: eu não falei? Também porque, quando em um filme dessa natureza os personagens decidem lavar sua honra, já se sabe o banho de água fria que virá. Como se diz, também, que quem entra no fogo é para se queimar, é torcer para que, das cinzas, não surja uma Phoenix Zumbi.


Todo mundo sabe que Hollywood adora se repetir e o público alvo adora (re)ver novos filmes velhos. É uma obsessão lucrativa, mas que, às vezes, dá com os burros n’água.  A Casa dos Sonhos é uma colcha de recordações do gênero. Percebe-se (no princípio) um cuidado na direção de atores e de arte, que cativam o espectador, por conta do trabalho dos protagonistas (Graig, Weisz e as crianças Claire e Taylor Geare), numa narrativa que quer voar alto. Mas, então, sem que nem mais porque, os fotogramas são arrombados e a Casa dos Sonhos vira uma Casa de “Surpresa” da Mãe Joana, abalando mortos e vivos (ou seria mortos-vivos?) com a quantidade de cacos sem qualquer importância, fazendo a história quicar de um lado para o outro.  

A Casa dos Sonhos (Dream House, EUA, 2011), do diretor irlandês Jim Sheridan, tem uma produção bacana até certa metragem, mas não se sustenta nem com o excepcional desempenho de Daniel Craig. E é difícil saber onde se deu o escorregão que levou Sheridan escada abaixo, se na leitura, correção e ou remendos do roteiro. A verdade é que ele perdeu o foco e quando tentou pular do barco, após o enxerto de cenas e a reedição do produtor Jim Robinson, que ainda distribuiu um trailer revelador, já era tarde até para o elenco. A Casa dos Sonhos é um filme que começa e não termina. Ele simplesmente para por não ter (e ou saber) para onde ir. 

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