quarta-feira, 30 de março de 2011

Crítica: Uma Manhã Gloriosa


por Joba Tridente

Já foram feitos dezenas de filmes tendo como pano de fundo a imprensa (escrita e falada). Alguns inesquecíveis e outros que não vale a pena lembrar. Mas sempre tem alguém achando que ainda falta dizer alguma coisa, de forma diferente do que já foi dito antes, e faz um roteiro com todos os clichês do gênero (só pra variar). Logo, mais um filme Bom Dia Qualquer Coisa, com uma historinha edificante de superação profissional e amorosa e etc e tal, voa de lá de Hollywood para cá de Hollywood.

Uma Manhã Gloriosa (Morning Glory, EUA, 2011), é baseado no (sempre) previsível roteiro de Aline Brosh McKenna e fala (mais uma vez), como já havia feito em O Diabo Veste Prada, da dedicação exaustiva de uma profissional (de Comunicação Social) para se firmar (e vencer) num mercado de trabalho que sonhou por toda a sua vida. Se antes a oportunista Andy Sachs (Anne Hathaway), era contratada como assistente da infernal editora-chefe, Miranda Priestly (Meryl Streep), agora, é a vez da dedicadíssima Becky Fuller (Rachel McAdams), uma ingênua (e atrapalhada, é claro!) garota do interior, mostrar a sua luta (matutina, vespertina e noturna) para vencer no competitivo mundo televisivo. Becky é otimista, é prestativa e não tem medo de cara feia. Becky é viciada no seu trabalho dos sonhos infanto-juvenis: produtora de um telejornal em Nova York. O noticiário matinal Daybreak (que é jogado nas suas mãos) tem a pior audiência nos EUA, mas, como ela sonha o grande sonho americano, vai fazer de tudo para transformar o programa em sucesso. Só faltou combinar com os egocêntricos Mike Pomeroy (Harrison Ford), um jornalista mal-humorado e em fim de carreira, e a falastrona apresentadora Colleen Peck (Diane Keaton), uma ex-miss.


Dirigida por Roger Michell, essa espécie de comédia sem graça, linear até nos nós, mas cheia de boa intenção feminina e feminista, é a típica produção que se vê com bocejo até numa sessão qualquer da tarde ou de uma tarde qualquer. Tem todos os elementos que o público que adora ver de novo o mesmo programa (novela, filme, show de piadas), mas com artistas diferentes, vai se identificar e torcer (mesmo que pela obviedade) não seja preciso, que tudo termine num final feliz, condizente com a entrega da personagem protagonista. Se bem que, em Uma Manhã Gloriosa, se muito, o único personagem que pode causar alguma empatia no espectador é o antipático Pomeroy (Ford), já que o resto do elenco parece ter se espatifado de paraquedas num programa de batidíssimas gags americanas (trombadas, escatologias, escorregões, palavrões, coitus interrompidus). Como nenhum raio cai na IBS, tirando a rede e o tal programete de “entretenimento” do ar, e sala de cinema não tem controle remoto para mudar o filme da tela, o lance é relaxar e esperar pelo fim da projeção.

Tem gente que faz cinema e tem gente que faz televisão. Tem gente que faz uma coisa pensando estar fazendo outra. Mas, o maior dos caras-de-pau (que não está nem aí para os cupins) faz um genérico glamourosamente brega, de ambos, e o exporta para o resto do mundo.

terça-feira, 29 de março de 2011

Crítica: VIPs


por Joba Tridente

É fácil encontrar pontos em comum entre o Marcelo Nascimento da Rocha (Wagner Moura) de VIPs (VIPs, Brasil, 2010), dirigido por Toniko Melo, e o Frank Abagnale Jr. (Leonardo DiCaprio) de Prenda-me Se For Capaz (Catch Me If You Can, 2002), de Steven Spielberg. Ambos são “baseados” em fatos reais e falam de jovens que através da farsa ou da falsificação, acabaram se dando bem (e mal) na vida. Mas esse é só um detalhe do filme brasileiro levemente inspirado no livro VIPS - Histórias Reais de um Mentiroso, de Mariana Caltabiano que, durante um ano, frequentou o Centro de Triagem de Curitiba, para entrevistar Marcelo Rocha, e foi a campo para checar a veracidade dos fatos. E não foram poucos os logros dele junto a artistas, traficantes, celebridades de ocasião.

VIPs não chega a ser uma cinebiografia do criminoso Marcelo Nascimento, já que o foco está em apenas dois dos seus muitos esquemas, o do envolvimento com narcotraficantes e o (mais famoso) que se faz passar por Henrique Constantino, o herdeiro da Gol, e é desmascarado ao aparecer no programa do Amaury Jr. Há, também, mais três citações rápidas e rasas do golpista: adolescente em sala de aula (ridícula!), piloto sem brevê (aceitável) e membro do PCC (apoteótica), que parecem mais um tropeção do que um equívoco. Elas pouco acrescentam à trama que opta pelo drama (psicológico), em vez do humor (mesmo negro).



O roteiro de Thiago Dottori e Braulio Montovani (querendo parecer neutro) tenta justificar as atitudes do estelionatário paranaense, que conseguiu se infiltrar no high society (do show business e do tráfico), mais como um caso de psicopatia (a ser desculpado e estudado?) do que de bandidagem mesmo: Fui preso porque não consegui mais sair do personagem. O Marcelo (real) tem consciência e domínio total dos seus crimes (até onde se sabe) nada leva a crer que a sua vida bandida seja fruto (podre) da ausência paterna. Ele não é um anti-herói, é bandido, mesmo.

Falar do talento de Wagner Moura (na pele de quem quer que seja) é tão clichê quanto chover no molhado. Em VIPs ele consegue seduzir, de tal forma, o espectador que é impossível não torcer para que a “malandragem” do (seu) simpático personagem (sacaneando os “famosos” ricos basbaques) dê certo. Bem, talvez a sedução tenha a ver com o fato de o Marcelo (do filme) estar mais próximo da ficção do que o Marcelo real, que ninguém da equipe quis conhecer. Um verdadeiro crime de autor (tornar palatável o que é indigesto), partilhado com as boas performances de todo o elenco.

VIPs é um bom filme brasileiro, tem produção competente e direção segura, porém, dura demais. Poderia “brincar” com o famoso jeitinho brasileiro da gente que sempre quer “levar vantagem em tudo, certo?!”, mas não sai da zona de conforto, quando a proposta cinematográfica exige um pouco de risco, de ousadia. Agora, quanto à veracidade dos fatos, é como se diz: uma lenda (recontada) pode ser muito mais interessante que a história (registrada). Desde que se saiba (re)contá-la, é claro! O que não justifica o redundante fato dos grandes estúdios comprarem os direitos de uma obra e, se muito, aproveitar apenas o título.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Crítica: Sucker Punck - Mundo Surreal


Finalmente estreia um filme, para meninas, que tem tudo para agradar (e assustar) os meninos. Bem, “filme para meninas” é modo de dizer, já que a coreografada violência, tipicamente masculina, rola solta (do começo ao fim) nessa nova empreitada de Jack Snyder, que brinda os fãs cinéfilos com um grupo de cinco garotas (em figurino sexy), muito boas de briga, num thriller psicológico: Babydoll (Emily Browning), Sweet Pea (Abbie Cornish), Rocket (Jena Malone), Blondie (Vanessa Hudgens) e Amber (Jamie Chung).

Sucker Punck - Mundo Surreal (Sucker Punck, EUA, Canadá, 2011) inicia com uma arrepiante versão de Sweet Dreams (Are Made of This), de David Stewart e Annie Lennox (na voz de Emily Browning), embalando a excelente abertura-prólogo do perturbador conto de fantasia, que narra os dias de terror vividos por Babydoll, na Casa Lenox para Insanidade Mental, onde está aprisionada. Apesar da temática pesada (violência contra a mulher, prostituição, estupro), como pano de fundo (ou por conta disso), o espectador logo se envolve com a causa da garota, que busca a liberdade através da força mental e física, e tudo parece mais aceitável. É difícil saber o que é mais delirante, se a crueldade do “tratamento” psiquiátrico, no manicômio, ou se a sua fuga, para sobreviver a esta doentia realidade, para o mundo dos sonhos (e da imaginação). A psique humana não é um tema fácil de se trabalhar, já que não se basta com as imagens que ilustram os transtornos mentais do paciente. E, por isso, provavelmente algumas sequências vão confundir o espectador mais impaciente e até aqueles que curtem Freud além da alma e Jung além do signo. Uma vez que Snyder está fazendo cinema e não terapia de grupo, não deixa de ser divertido (curioso e até “educativo”) esse seu painel de arquétipos do inconsciente coletivo, essa mistura exacerbada de libido e Dominus vobiscum.


Baseado no roteiro de Jack Snyder e Steve Shibuya, o filme tem e um visual fantástico, que mistura anime, quadrinhos e game. Se ele impressiona, não é apenas por conta da experimentalíssima fotografia de Larry Fong (que já havia mostrado categoria nas parcerias anteriores com Snyder: 300 e Watchmen), e edição de William Hoy, conta também com a competente direção de arte de Rick Carter e o fetichista figurino Michael Wilkinson, sob uma trilha sonora eletrizante. Não gosto das incômodas trilhas sonoras condutoras de emoção ou de susto barato, mas aqui é impossível o desenvolvimento da trama sem a trilha de Tyler Bates e Marius de Vries. Ela é 50% do filme. Todavia, esta mesma trilha (excessiva) pode cansar, pela exposição (visual) repetida nas “sequências videoclipe” das cinco “tarefas” a serem realizadas por Babydoll e suas amigas, para se libertarem de Blue (Oscar Isaac) e Madame Gorski (Carla Gugino).


Sucker Punck - Mundo Surreal é trágico e dramático, mas pode cair no gosto dos adolescentes e de muito marmanjão. Snyder (cada vez mais à vontade na direção) faz um curioso uso de (meta)linguagem em momentos essenciais da ótima história (atemporal), que parece confusa (a certa altura), mas que se justifica (com boa amarra) ao final. É um bom espetáculo para passar o tempo e também para refletir sobre os limites da maldade humana.

sábado, 19 de março de 2011

Crítica: Invasão do Mundo: Batalha de Los Angeles


por Joba Tridente

Se tecnologia fosse sinônimo e garantia de qualidade, depois de Avatar (2009) o cinema não seria palco de tanto abacaxi em “3D” e genéricos. De posse da mais nova tecnologia criada pela Sony, o sistema 4K, que melhora a qualidade da projeção (mas pouca gente vai notar), chega aos cinemas o bombástico Invasão do Mundo: Batalha de Los Angeles.

A ficção científica, dirigida pelo sul-africano Jonathan Liebesman, teria sido inspirada em um fato real ocorrido em 25 de fevereiro de 1942, na região de Los Angeles, no Estado da Califórnia, nos EUA. Conforme registros e publicações da época, milhares de moradores da região foram acordados, na fatídica madrugada, com o barulho das sirenes e dos disparos do Grupo de Defesa Aérea a um desconhecido alvo que brilhava no céu, sem ser abalado com a saraivada de balas. Conta-se que automóveis e residências foram danificados e que pessoas teriam morrido, atingidas pelos estilhaços dos disparos ou por ataque cardíaco. 69 anos depois, o mistério permanece como um dos casos mais curiosos da Ufologia. Para se informar melhor e conhecer fac-símiles e fotos do suposto OVNI, sugiro uma visita ao Fenomenum.


De volta ao Batalha de Los Angeles, o filme, baseado no “roteiro” frouxo de Christopher Bertolini, antecipa a ação dos ultranacionalistas “marines” americanos (quem mais?!) para salvar os civis da Terra, caso ela seja invadida por ETs inamistosos que cheguem atirando para matar os civilizados terráqueos. Se assim for, os sanguinários invasores espaciais não perdem por esperar! A história até que começa bem, apresentando os soldados e seus dramas (familiares e profissionais). A promessa de um bom programa continua com os militares deixando a base e enfrentando um inimigo desconhecido e invisível. Porém, a partir do momento que os extraterrestres se deixam ver (mesmo que desfocados) e a tropa é designada para salvar cinco civis, ele começa a degringolar até o previsível final. A queda é tão rápida que nem o heroico sargento Michael Nantz (Aaron Eckhart) e seus derradeiros tiros com uma pistola, na “gag-homenagem” ao John Wayne (sargento John M. Stryker) de Iwo Jima (Sands of Iwo Jima, 1949), e a referência ao Sete Homens e um Destino (The Magnificent Seven, 1960), conseguem salvar a trama da pasmaceira. Já que perguntar não ofende, se um soldado americano (em plena batalha) não sabe quem foi o mítico John Wayne, será que o público juvenil que for ao cinema vai saber?

Invasão do Mundo: Batalha de Los Angeles é (claro!) repleto de clichês explode tudo e de pieguice generalizada, embalados por uma trilha sonora horrorosa. A produção não economiza nos bons efeitos especiais, mas também não dá tempo (ou espaço) para o espectador adrenalinado pensar sobre o que vê na tela, além do tiroteio sem fim. Se bem que não há muito o quê pensar sobre esta batalha sangrenta e sem sentido. Os poucos diálogos são inócuos ou padrão, assim como as situações de “confronto” entre os próprios soldados ou o drama enfadonho dos civis refugiados. Todavia, quem não se importar com esses detalhes “bobos”, pode até se divertir com o explosivo espetáculo (que tem cara de querer virar franquia).


Baixada a poeira e retirados os escombros, a pergunta que fica (sem resposta) é: Por que, tendo a faca, a goiabada e o queijo nas mãos, com uma história original ou, no mínimo, curiosa, como esta de 1942, que poderia render um excelente thriller de guerra (dependendo do diretor e do roteirista, é claro!), a produção optou por um roteiro que se resume no contra-ataque e salvamento de alguns civis em uma Los Angeles sitiada por extraterrestres com sede (ôps!) de colonização? Sim, porque, o quê se vê, com ou sem a qualidade “K”, é mais uma versão do clássico Guerra dos Mundos (War of the Worlds, 1953), como foram o divertido trash Independence Day (1996) e o pretensioso Guerra dos Mundos (2005), só que sem os vírus (de computador e biológico). Ô gente que adora se repetir!

sexta-feira, 18 de março de 2011

Crítica: Sexo Sem Compromisso

por Joba Tridente

Se homem “faz” sexo e mulher “faz” amor, há algo muito equivocado na tola “comédia” romântica Sexo Sem Compromisso (além da falta de humor). Também pode ser que a “máxima feminina (ou seria feminista?)” não faça sentido para o conservador norte-americano. A mulher foi, é e sempre será (?) um “objeto” de consumo fácil e descartável no mundo das artes, porque ela assim o deseja (?). Por mais que algumas se emancipem e digam que os tempos são outros, a maioria continua sendo retratada como ingênua, sonhadora, carente e dependente (do amor) de um homem (que pensa com o sexo).

Sexo Sem Compromisso (No Strings Attached, EUA, 2011), de Ivan Reitman, com roteiro de Elizabeth Meriwether, é daquelas “comédias” que já se sabe o final, só de olhar cartaz. Mas, como tem gente que gosta de filmes previsíveis, sem graça e sem nenhuma originalidade (a não ser aquela copiada de outras produções), eles continuarão sendo feitos e (re)feitos às dezenas, até que o público finalmente (mumificado) se canse da mesmice (mumificante). Protagonizado por Natalie Portman, ganhadora do Oscar de Melhor Atriz, por Cisne Negro (2010), e pelo insosso Ashton Kutcher, essa “comediazinha” sem noção do ridículo deve fazer sucesso (?) com o público feminino, principalmente aquele que acredita em Papai Noel da Páscoa e Coelhinho de Natal.


Sexo Sem Compromisso, em sua (velha modernidade) narrativa, fala basicamente do “fugaz” relacionamento entre Emma Kurtzman (Natalie Portman) e Adam Franklin (Ashton Kutcher). Eles se conheceram há 15 anos e mal se tocaram. Depois se viram há 5 anos e mal ficaram. Hoje fazem sexo (em qualquer lugar), tão somente sexo (sem compromisso), na hora que bem entendem. Por que a vida deles se resume a esse sexo alucinado (sem compromisso)? Bem, não é porque Adam (um assistente de programa juvenil para TV) não queira algo mais sério (ele é até romântico), mas porque Emma (uma médica) não aceita nenhum tipo de relacionamento (além do sexo casual). Ela não quer sofrer (depois) por amor ou agir feito uma adolescente falando infantilices amorosas ou dividir uma casa ou qualquer outra coisa que não seja apenas prazer. Assim, acabou o sexo é cada um por si, ou deveria ser...

Pra quem acha que já viu história muito parecida, é só fazer um mínimo esforço e pimba: Sexo Sem Compromisso é, assim, uma “homenagem” velada (para não dizer remake?) ao Eu Odeio o Dia dos Namorados (I Hate Valentine’s Day, 2009) filme escrito, dirigido e protagonizado por Nia Vardalos, no papel de Genevieve, a “romântica” dona de uma floricultura, que cria as suas próprias regras para o amor. Afim de não aprofundar a relação “amorosa” (e sofrer depois), só “fica” com um sujeito por cinco encontros (com ou sem sexo). Ela vai levando a vida na flauta, descartando os seus (apaixonados) homens-objetos, até que conhece Greg (John Corbett), um sujeito charmoso que pretende abrir uma petiscaria em frente à sua loja de flores. Ele, é claro, cumpre as regras (dela) ao pé da letra, e Genevieve (pra não perder o bom partido e sofrer ainda mais) é obrigada a rever as suas próprias normas e seus conceitos sobre os homens.

As duas “comédias” são cansativas, previsíveis e de pouca graça. Salva-se uma coisinha aqui e outra acolá (difícil de lembrar) que não faz a menor diferença. São filmes para os fãs confirmarem se seus astros e estrelas são realmente bons no que fazem ou se o dourado não passa de ouro de tolo. Uma “comédia” pra ver e esquecer antes do último crédito subir, selando o destino de cada personagem que ousou aparecer na tela.

quinta-feira, 17 de março de 2011

Crítica: Animais Unidos Jamais Serão Vencidos


por Joba Tridente

A animação Animais Unidos Jamais Serão Vencidos (Konferenz der Tiere - Animals United, Alemanha, 2010), pode ter (diferente de ser) um grande título (na prolixa adaptação brasileira), mas, com todo o seu apuro técnico e apreciável 3D, ironicamente acaba tropeçando na temática grandiloquente.

Com direção de Reinhard Klooss e Holger Tappe, o filme, busca atualizar a obra infanto-juvenil Konferenz der Tiere (Conferência dos Animais), escrita, em 1949, pelo pacifista e escritor alemão Erich Kästner (1899 - 1974), um dos mais importantes do século XX, que teve seus livros queimados por Adolf Hitler (na famigerada fogueira de 10 de maio de 1933) e uma vida de desafios notáveis no jornalismo, na literatura, no cinema e no teatro. Muitas de suas obras foram adaptadas para o cinema, como Münchhausen (As Aventuras do Barão de Münchhausen), em 1943 e 1988, Fabian (Fabian), em 1980, e o próprio Konferenz der Tiere (Conferência dos Animais), numa versão animada, em 1969.


Animais Unidos Jamais Serão Vencidos relata as aventuras e desventuras de um grupo de animais (um canguru australiano, um diabo da Tasmânia, uma ursa polar, um casal de tartarugas das Galápagos e um galo francês) que, fugindo do seu habitat destruído, chega à África e acaba encontrando os animais locais em pé de guerra, por causa da falta de água. Com a situação fora de controle, o atrapalhado suricato Billy, que nem o filho leva a sério, sai em busca da água desaparecida. Ao descobrir onde ela se encontra, se dá conta de que não poderá agir sozinho, para fazê-la correr novamente pelo Delta do Okavango. Assim, mesmo desacreditado, vai precisar convencer os animais da savana a ajudá-lo na empreitada. A única certeza é que poderá contar com a colaboração dos estranhos animais estrangeiros, de um preguiçoso leão vegetariano, de uma girafa e de uma elefanta, mas não é o suficiente. A animação faz uma crítica ferina aos homens (de negócio governamental) que “decidem” o destino do mundo, com suas intermináveis (e intragáveis) reuniões internacionais, para discutir infinitamente as metas (que não se cumprem) de biodiversidade.


A história que pretende-se linear é cheia de saltos (furos) sem explicação ou coerência. Tudo bem que o espectador (assim como o leitor) infantil não se preocupa muito com a lógica. Senão, o que seriam dos Contos de Fadas e Maravilhosos? Mas não convêm exagerar! Apesar do relevante propósito, infelizmente, esta nova versão se perde no meio do caminho, entre a selva e a civilização (ou entre o selvagem e o civilizado), ao tratar de forma burocrática as inflamadas questões da biodiversidade que, no mundo real, apenas queimam palavras ao vento da discórdia e dos interesses de mercado. O foco cinematográfico não é novo e, com certeza, muitas crianças (e adultos) já viram outras produções que falam da preservação do meio ambiente (com maior ou menor seriedade) e, talvez, por isso é que Animais Unidos parece chegar atrasado na forma de tratar um tema tão importante. Assim, é fácil ver, no foco central (e paralelos) do roteiro de Oliver Huzly e Reinhard Klooss, resquícios de (entre outros) O Bicho Vai Pegar (Open Season, 2006), Os Sem-Floresta (Over the Hedge, 2006), Madagascar 2 (Madagascar: Escape 2 - Africa, 2008), Deu a Louca nos Bichos (Furry Vengeance, 2010), As Aventuras de Sammy (Sammy's Avonturen: De Geheime Doorgang, 2010) que trata o tema com muito mais sutileza e beleza.


Animais Unidos Jamais Serão Vencidos não é um filme de todo ruim, só é mal resolvido, já que fica pelo meio educativo, meio piegas, meio infantil, meio edificante, meio engraçado, meio entediante, meio moralista, meio confuso. Intenção pode ser muito boa, mas o resultado é pífio. Os personagens são bem desenhados e estão em cena não apenas para divertir, mas também para advertir o espectador dos males do mundo (humano). Ou melhor, para fazer o espectador pensar no drama que os animais vivem (por causa do homem) e não para se divertir com a solução do drama que eles vivem (por causa do homem). Falta-lhes o timing da comédia na maior parte da narrativa. Em alguns momentos eles demonstram mais humanidade (ou seria civilidade?) que os homens (o que não é novidade). No entanto, enquanto alguns animais são irracionais (segundo a ciência), como os conhecemos, outros são capazes de discernir sobre a nobre causa (da biodiversidade) que defendem com uma oralidade arrepiante. O incômodo não está na metáfora, mas em como ela é exposta. Pode estar ao alcance de um adulto “meio informado”, mas não sei o quanto estará de uma criança. Por mais que (hoje) ela esteja informada e empenhada (conforme a base escolar) em compreender e reagir às mudanças do “mundo” ao seu redor.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Crítica: Rango


por Joba Tridente

Pra quem gosta de animação, faroeste com boa dose humor, drama e suspense, um ótimo programa é o divertido Rango, desenho animado que homenageia (num passeio inesquecível pelo oeste americano) diretores (John Ford, Sam Peckinpah, Sergio Leone, Howard Hawks, Fred Zinemann), atores (Clint Eastwood, John Wayne) e seus grandes personagens.


Rango (Rango, EUA, 2011), dirigido por Gore Verbinski, conta, em ritmo de muita aventura, a saga de um imaginativo camaleão (Rango) que adora interpretar. Um dia, acidentalmente, cai no Deserto de Monjave e com a ajuda da adorável caipira Feijão, vai parar num vilarejo chamado Poeira. Lá, naquele lugar sem lei e sem ordem, ele se dá conta de que, se quiser sobreviver, vai ter que se passar por um sujeito (heroico) capaz de impor respeito. Só que as coisas não saem exatamente como ele imagina e é obrigado a provar que é quem diz ser, solucionando uma questão de vida ou morte dos moradores. Não vai ser nada fácil, principalmente com um Quarteto de Corujas cantando a sua triste sina e tendo ao seu redor os piores vilões do Velho Oeste. Rango, que é péssimo pistoleiro, mas é bom ator, vai tentar adiar o último ato (da sua morte cantada) enquanto puder contar com a sorte.



Narrado por um impagável Quarteto Mexicano de Corujas Cantoras do Deserto, o desenho explora bem a vida selvagem, a geografia local e os tipos peculiares dos filmes de faroeste: gente caipira e ingênua, miséria, corrupção, vilões apavorantes, boteco, índios, damas em perigo. Rango (encarnação mista de Ringo, Trinity e Pistoleiro Sem Nome) é um personagem bacana (meio sem noção) que reina soberano no desenho. Por melhor que sejam os coadjuvantes (Feijão, Tatu, Priscilla, Jake Cascavel), nenhum lhe rouba a cena, nem mesmo o Espírito do Oeste (homenagem ao ícone Clint Eastwood). A excelência do roteiro trabalha (e bem) a busca de identidade do protagonista, um ator camaleão ou camaleão ator, que pode “ser” quem quiser, mas que, na vida real, continua sem saber quem (realmente) é. Outro acerto é a maravilhosa trilha de Hans Zimmer que pontua com perfeição as desastrosas ações dos bandidos e mocinhos do Velho Oeste.


Recheado de tiradas espirituosas (até mesmo de autoajuda), mensagens ecológicas (sem ser piegas) e ações altruístas, capazes de fazer o cinespectador refletir sobre o seu papel no mundo, o desenho encanta pela plasticidade, tomadas espetaculares e carisma dos personagens. Sabendo que os pais cinéfilos são os que mais vão se divertir e, principalmente, se deliciar com as referências cinematográficas, vale lembrar que, como todo filme de ação (de tirar o fôlego), algumas cenas mais pesadas podem incomodar o público menor de 10 anos.
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