sábado, 28 de janeiro de 2012

Crítica: Os Descendentes



Geralmente filmes-família são produções melodramáticas cujo público alvo favorito (mas não exclusivo!) é o feminino, tamanha a choramingas, mensagens altruístas e de autoajuda etc. No entanto, tem sempre um ou outro diretor que consegue realizar filmes-família fugindo dos clichês e passando ao largo da tradição, família, patrimônio. Um desses caras é Alexander Payne, do divertido Sideways - Entre Umas e Outras (2004), que é chegado num humor (negro ou nonsense) inesperado e ou desesperado, em produções que agradam também o público masculino.

Os Descendentes (The Descendants, EUA, 2011), seu mais recente trabalho, é um drama que (por conta do humor juvenil) se desenvolve com a leveza de uma romântica crônica de costumes. Matt King (George Clooney) é um advogado bem sucedido que reside confortavelmente, mas sem ostentação, no Havaí. Excessivamente dedicado ao trabalho, ele só se dá conta de que vive alheio à família quando um grave acidente com a sua mulher, Elizabeth (Patricia Hastie), o obriga a cumprir integralmente o papel de pai de duas garotas, Alexandra (Shailene Woodley), de 17 anos, e Scottie (Amara Miller), de 10. Como se não bastasse a dificuldade em lidar com as filhas, Matt tem ainda que contornar a ansiedade da parentada que insiste na venda um belo e valioso pedaço de terra (sob sua guarda), que vai render uma boa grana para todos.


Baseado no romance de Kaui Hart Hemmings, o filme tem um argumento simples (até banal), mas o roteiro bacana (de Alexander Payne e Nat Faxon), com bons diálogos, e ótima direção, lhe dá um charme todo especial. O seu diferencial é que o foco da narrativa não está no velho clichê da mulher em crise tentando reverter o seu casamento (a favor da sagrada família etc), também porque a mulher (se for o caso) está em coma e indefesa. Ele agora intensifica o curto-circuito na cabeça de um homem/marido (ausente) que busca respostas para os acontecimentos que abalaram o seu casamento e a relação afetiva com as filhas.


Os Descentes é um filme bonito e envolvente o suficiente para provocar lágrimas e sorrisos. Payne é mordaz na leitura crítica do homem que, ausente de si mesmo, se refugia no trabalho, acumulando bens que não usufruirá, e daquele que usufrui o bem alheio, por capricho (ou herança). Mas também é singelo ao tratar das pequenas coisas que realmente importam na vida. Há um humor (negro) beirando o nonsense, na conduta impulsiva de Matt (enquanto marido) e ou prudente (enquanto advogado), e ironia, na paisagem paradisíaca que emoldura e na canção bucólica que embala o seu maior dilema.

Clooney encarna a Matt King com prazerosa naturalidade, dividindo excelentes cenas com o competentíssimo elenco jovem. Entre tantas boas sequências, vale destacar a hilária conversa de “aconselhamento” entre Matt (insone e angustiado) e o sonolento Sid (Nick Krause), um adolescente (meio sem noção) amigo de Alexandra. Quanto ao título, o espectador verá que ele se justifica do começo ao fim.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Crítica: J. Edgar



Nos últimos anos, o documentário biográfico, gênero que explora a vida de personalidades, celebridades, artistas e outros “famosos”, se “popularizou” no Brasil. Diversos diretores, principalmente iniciantes, fizeram, estão fazendo ou vão fazer o seu Doc-Bio. O “fazer” até que é fácil, o difícil é “ver” alguma das produções (que passar pela seleção!) além dos festivais. A informação de que um documentário nacional está em cartaz (num shopping?) talvez faça alguma diferença (para o espectador) se o biografado for “aquele alguém” muito (mas muito) conhecido. Caso contrário, ele será (?) projetado para ninguém. Na verdade, nem mesmo a cinebiografia é garantia de sucesso no Brasil ou no estrangeiro.  

Após tangenciar o gênero (biografia) em Invictus (2009), num breve retrato de Nelson Mandela (às voltas com o cumprimento dos Direitos Humanos na África do Sul), Clint Eastwood se aprofundou no estilo para beliscar John Edgar Hoover (1895 - 1972). Nada mais oposto que Mandela (noite) e Hoover (dia). Nada mais invictus que ambos, no desejo de servir a pátria amada (África/EUA). Porém, como na vida tudo é uma questão do ponto que se avista, atos de heroísmo e ou de crueldade podem variar no peso e na medida. O valor de cada um depende (mesmo) é do gesto do “beneficiador” e da satisfação do “beneficiado”.


Baseado no roteiro de Dustin Lance Black, o filme se desenvolve a partir de uma hipotética biografia que, em 1970, J. Edgar (Leonardo DiCaprio) dita a sucessivos agentes, exaltando tão somente os seus grandes feitos patrióticos à frente do FBI. A história vai e volta no tempo, ao ritmo de suas lembranças. Anos 20, 40, 60, 70 vão se desfiando num flashback que aos poucos tece e amarra a trama que aposta apenas na sua essência. O que se vê é uma dramatização que rela a intimidade profissional e doméstica de Hoover, buscando mais ilustrar do que comprovar fatos da vida deste enigmático (e obsessivo) senhor que, do governo de Calvin Coolidge (1920) a Richard M. Nixon (1970), por 48 anos consecutivos, dirigiu (com mãos de ferro) o FBI, praticamente, reportando os seus discutíveis atos a si mesmo.

Como toda biografia gera dúvidas, muitos questionam a veracidade desta versão sobre o homem do FBI que acreditava no seu dever cívico de proteger os norte-americanos dos (ataques) “bolcheviques comunistas”. A narrativa de J. Edgar (J. Edgar, EUA, 2011), é fragmentada e até meio confusa. O foco se divide entre suas “ações patrióticas”; a relação (e dependência) profissional e social com Clyde Tolson (Armie Hammer) e de segredos com a secretária Helen Gandy (Naomi Watts); e a submissa convivência com a mãe Anne Marie Hoover (Judi Dench). Clint não julga e ou enaltece as polêmicas atividades do lendário e temido “servidor público” que perseguiu artistas, chantageou autoridades (John F. Kennedy) e personalidades (Martin Luther King Jr.). Tampouco vai além do convencional ao abordar a especulação corrente de que ele era homossexual e amante de Tolson.


Justificando o primeiro parágrafo, a curiosa história de John Edgar, responsável pela modernização das técnicas de investigação científica criminal, resultou num bom filme, mas que dividiu a crítica. Parece que mesmo quem não tinha a menor ideia de quem foi ele, esperava algo mais escandaloso (?), mais gay (?), mais contundente (?). Ou seja, nem sempre menos (embromação) é mais (informação) para entreter o público combo. A direção de Clint Eastwood é segura e Leonardo DiCaprio delicia o espectador com uma atuação tão brilhante, ao “humanizar” J. Edgar, que pouco sobra para os ótimos desempenhos de Judi Dench, Armie Hammer e Naomi Watts. A excepcional fotografia “envelhecida” de Tom Stern e o belo figurino de Deborah Hopper (conforme a luminosidade da época) dão um maravilhoso tom nostálgico. O vacilo (?) fica por conta do exagero na impressionante maquiagem de envelhecimento que faz Clyde Talson e Helen Gandy parecem centenários (aos oitenta anos).

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Crítica: Millennium - Os Homens Que Não Amavam As Mulheres



Verdade ou mito de que o público americano só vê (e só gosta?) de filme falado (dublado) em inglês americano, parece ser a explicação mais lógica para a falta de lógica de refilmagens (e releituras) americanas de filmes não-americanos. Raramente alguma refilmagem americana vale o ingresso. Mera pretensão hollywoodiana em achar que tem algo maior a dizer ou frustração por não ter realizado a obra primeiro?

Millennium - Os Homens Que Não Amavam As Mulheres (The Girl with the Dragon Tattoo, EUA, Suécia, Inglaterra, Alemanha, 2011), de David Fincher é um drama revisionista, de suspense tipicamente americano, que parece feito só para mostrar aos europeus como se faz um thriller americano com matéria prima europeia. O filme que, para não parecer plágio, conta a mesma história, mas com alguns elementos (muito) diferentes do original Os Homens Que Não Amavam As Mulheres (Män Som Hatar Kvinnor, Suécia/Dinamarca/Alemanha, 2009), de Niels Arden Oplev, se baseia no primeiro livro da trilogia Millennium, de Stieg Larsson (1954-2004). Ele trata da investigação do jornalista Mikael Blomkvist (Daniel Craig) e da hacker Lisbeth Salander (Rooney Mara) sobre o desaparecimento de Harriet Vanger (Moa Garpendal), sobrinha-herdeira do megaempresário Henrik Vanger (Christopher Plummer).


Quem viu o filme sueco (ou leu o livro) não ficará indiferente a esta versão americana. A narrativa que vai se montando feito um quebra-cabeça, envolvendo assassinatos brutais, religião e intolerância, começa a todo vapor, mas o seu contínuo ritmo vertiginoso (puro exibicionismo) logo perde o interesse e a história parece não ter fim. Enquanto o Millennium de Oplev (com roteiro de Nikolaj Arcel) é conciso e vai direto ao assunto para contar uma boa história detetivesca em 152 minutos, o Millennium de Fincher (com roteiro de Steven Zaillian) parece uma mariposa dando voltas em volta da lâmpada para esquentar em seus 158 minutos. O primeiro (ainda que com alguns furos) aposta na inteligência do espectador, o segundo o subestima e passa o tempo todo antecipando,  explicando e justificando cada ato “insano” (a cena na loja do tatuador é constrangedora: saiba, espectador, que fazer tatuagem dói!).


Um opta pela sutileza e o outro se apega a situações-clichês. Como, por exemplo, as (questionáveis) sequências dos estupros, que têm uma força impressionante na versão sueca, e não passam de gratuidades (quase risíveis) na americana. Se em sua notável performance, o ator Peter Andersson imprime uma personalidade asquerosa no repulsivo tutor Nils Bjurman, o mesmo não pode ser dito da interpretação insossa de Yorick van Wageningen que (mal dirigido) só falta dizer para a vítima: com licença que vou estuprá-la e me desculpe, por ser de maneira não convencional, não ortodoxa, não papai-mamãe.


Para cada “caco” retirado do filme original, Fincher acrescentou dois ou três na sua leitura alucinada e videoclipista piegas. Perde tempo explicando e inserindo coisas dispensáveis (gato mensageiro: olha o que farei com você!; editora da Milenium: quer ser meu sócio?), situações descartáveis (reencontro de vítima e estuprador no elevador: tô de olho em você!) e passa a toda velocidade pelo que realmente importa. Dificilmente quem não conhece a obra original vai consegui entender os códigos (estilo Dan Brown) e sequer a “análise do material” que leva à solução do caso. Ao optar por uma versão mais romantizada, buscando a emoção fácil do espectador (que gosta de gatinhos e filhos abandonados), o diretor banalizou a história original, para o entendimento e aceitação do publico médio (americano?). Assim, o jornalista Mikael perde a perspicácia, a hacker Lisbeth a intensidade, e o espectador a paciência. Comparado ao original (e não tem como não comparar) esta versão burocrática e didática é um caça-níquel (de fãs) apenas razoável. Isso, por conta da excelente abertura e das boas atuações de Craig e Rooney que, ficam aquém dos atores suecos: Michael Nyqvist (Mikael) e Noomi Rapace (Lisbeth).

Em interessante entrevista à Mariane Morisawa, postada na RevistaÉpoca (online), em 22.01.2012, falando sobre violência, bilheteria e as significativas diferenças entre a versão europeia e a sua, o pretensioso diretor David Fincher disse: “Vi o original uma vez. Não tenho como comentar. Me lembro de achar que era muito bonito, muito arrumadinho. Acho que nosso filme é mais sujo, mais desleixado... E há mais flashbacks do passado. É provavelmente mais Hollywood.” 

domingo, 22 de janeiro de 2012

Crítica: Attack the Block - Ataque ao Prédio



A ficção científica inglesa Attack the Block é daquelas boas surpresas que você, praticamente, só fica conhecendo se conectado no troca-troca de mensagens na rede.

Ataque ao Prédio (Attack de Block, Reino Unido, Irlanda do Norte, 2011) do diretor britânico Joe Cornish, roteirista de As Aventuras de Tintim: O Segredo do Licorne, do Spielberg, é uma ficção científica diferenciada na proposta do terror. Em sua estranheza, não se compara ao excelente Distrito 9, de Neill Blomkamp, mas se aproxima, digamos, mais pelo humor inglês, ao ótimo Todo Mundo Quase Morto, de Edgar Wright, que também roteirizou Tintim.


Com roteiro do próprio Cornish, o filme apresenta protagonistas que, a princípio, não causam nenhuma empatia no espectador. Muito pelo contrário, o que ele sente é repulsa, diante de uma gangue de marginais adolescentes que apavora os moradores vizinhos ao seu prédio (bloco residencial), na periferia da periferia londrina. Socialmente alijados, os adolescentes Moses (John Boyega), Pest (Alex Esmail), Jerome (Leeon Jones), Biggz (Simon Howard), e Dennis (Franz Dameh) se impõem causando terror às vítimas. Assim, enquanto cometem seus delitos e fogem da polícia, cada garoto busca se destacar como o macho alpha do grupo que também desperta o interesse de dois meninos Mayhen (Michael Ajao) e Probs (Sammy Williams). É nessa necessidade de autoafirmação, demarcação de território, que os garotos acabam entrando numa confusão do cão.


Numa noite festiva os adolescentes estão “trabalhando” e logo após vitimarem a enfermeira Sam (Jodie Whittaker), dão de cara com uma criatura que despencou do céu. Em vez de deixar o assustado bicho quieto eles resolvem atacar e o resultado não poderia ser mais catastrófico. Sabe aquela história de que atrás de um a bola tem sempre um menino? Pois é, atrás deste alien tinha outros que não gostaram nada do que os garotos fizeram com um importante membro de sua espécie. Aí a vingança dos bichos peludos, tipo lobos negros como a noite e com dentes fosforescentes, é maligna, para a gangue e quem entrar no meio deles.


O bacana deste drama, com pitadas de humor negro e humor inglês, que o público brasileiro não é muito chegado (prefere a escatologia americana e brasileira), é que a sua história foge do clichê aliens conquistadores versus exército americano. Aqui é o pequeno grupo de moradores do bloco (onde convivem ladrões, traficantes, viciados, imigrantes, em sua maioria, negros) que tem que se defender, por conta e risco, dos “monstros siderais” que estão na Terra simplesmente por conta do seu instinto animal. Só por isso. O planeta com seus humanos não lhes interessa em nada. Genial!


Ataque ao Prédio (lançado apenas em DVD) é um filme de baixo orçamento, com efeitos especiais simples (mas não medíocres), bom roteiro e uma narrativa que foge das mesmices hollywoodianas.  Trama, que faz referência irônica ao conto do Lobo Mau e o Chapeuzinho Vermelho, de Charles Perrault, numa (in)versão (de interesse) bastante violenta, flerta com os bons filmes “B” e às produções de John Carpenter. É um drama envolvente que, em pouco tempo, num discurso que justifica mas não os isenta dos atos delinquentes, faz o espectador rever seu ponto de vista sobre os personagens marginais. Trazendo um elenco jovem e eficiente, com a participação de atores conhecidos, como Whittaker e Nick Frost (traficante), a produção despretensiosa, recheada de diálogos chulos (linguajar de guetos) e com sabor de pulp fiction, é a típica diversão rapidinha. Em pouco mais de 80 minutos e sem exigir muito, satisfaz o espectador. Já que os “arrasa-quarteirão” estão cada vez mais explosivo e cada vez menos criativos, variar faz bem, treina o olhar para analisar melhor o que vê por aí. 

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Crítica: As Aventuras de Tintim: O Segredo do Licorne



Quando Hollywood volta seus cobiçosos olhos para o mundo dos quadrinhos, em busca de inspiração, os fãs de HQs tremem na base, porque sabem que a Meca do Cinema pouco (ou quase) nada se importa com a fidelidade às fontes inspiradoras. Com o tempo eles até aprenderam que uma coisa (HQ) é uma coisa e outra coisa (Hollywood) é outra coisa. Não que isso satisfaça, mas é uma boa desculpa para não enfartar. No entanto, a simples menção de uma possível “releitura” de Akira (de carne e osso) causa arrepios em muita gente (inclusive em mim). Mas, e o que dizer de As Aventuras de Tintim, de Georges Remi, o Hergé (1907 - 1983), segundo Steven Spielbeg (direção) e Peter Jackson (produção)? Ah, com certeza vai dividir opiniões.


As Aventuras de Tintim: O Segredo do Licorne (The Adventures of Tintin, EUA, Nova Zelândia, 2011) de Spielberg, que a meu ver se sai melhor em filmes de aventura e ação, do que em melodramas piegas, já começou 2012 ganhando o Globo de Ouro, de melhor animação.  Se em cinema nem sempre um currículo conta pontos, aqui ele faz a diferença. Tendo por base três curiosas histórias de Hergé: O Segredo do Licorne (1943), O Caranguejo das Tenazes de Ouro (1941) e O Tesouro de Rackham, o Terrível (1944), a responsabilidade do excelente roteiro não poderia estar em melhores mãos: Steven Moffat (escritor de Doctor Who), Edgar Wright (diretor de Todo Mundo Quase Morto e Scott Pilgrim Contra o Mundo) e Joe Cornish (diretor de Attack the Block). Um escocês e dois ingleses que sabem muito bem como falar com o público infantojuvenil, principalmente com aquele adolescente que odeia mesmice.


Esta primeira animação (de três), que procura ser fiel aos quadrinhos (adaptando e não recriando), serve como um cartão de visitas, apresentando (principalmente para o público americano que não conhece Tintim) personagens importantes no universo do herói. Tudo começa numa bela manhã quando, em uma Feira de Artes e Antiguidades, logo após posar para um artista (Hergé), Tintim (Jamie Bell) compra uma bela maquete do navio Licorne e descobre que um sujeito estranho e o sinistro Sakharine (Daniel Craig) estão interessados na mesma peça. Tentando descobrir a razão de tanto interesse por um objeto relativamente barato, ele e o seu fiel fox terrier Milu acabam “embarcando” numa fascinante viagem, repleta de perigos, onde conhecem o beberrão e quase sempre ranzinza Capitão Archibald Haddock (Andy Serkis), que vai lhe fazer companhia em muitas outras aventuras, e a cantora de ópera Bianca Castafiore (Kim Stengel), que também vai dar o ar da graça futuramente. A única certeza que o corajoso jornalista tem é a de que, se (realmente) precisar e não tiver muita pressa, pode recorrer aos serviços dos desastrados agentes policiais Dupond (Simon Pegg) e Dupont (Nick Frost), os seus eternos coadjuvantes.


O Segredo do Licorne é uma animação belíssima, divertida, e com aquele ritmo de ação e aventura característico de Spielberg (correria e pancadaria com muito humor) em seus filmes meio família. Muita gente vai se lembrar do intrépido Indiana Jones, mas é bom que se diga: Tintim já era intrépido muito antes do Indiana. As características dos personagens de Hergé foram mantidas. Talvez haja algum exagero na bebedeira de Haddock, mas é dela e das trapalhadas de Dupond e Dupont que saem as melhores gags. A fantástica abertura do filme em 2D já diz a que veio. Ou quase. O deslumbramento visual da história que a segue, então, do primeiro ao último quadro, é indescritível.  É difícil saber se o que envolve o espectador é a excelência da narrativa de mistério ou os cativantes Tintim, Milu (espontâneos) e Haddock (dramático).


Segundo Hergé: “Sou eu, sob todas as formas! Tintim, quando quero ser heróico, perfeito; os Dupondt, quando sou estúpido; Haddock, sou eu quando tenho vontade de me exteriorizar.” O jornalista perspicaz, com cara de adolescente e audácia de gente grande, que ganhou a Bélgica em 10 de Janeiro de 1929, é um personagem que evoluiu à medida que o seu autor adquiria conhecimento real da geografia, da história, do comportamento sócio-político dos povos em todo o mundo. Alguns críticos e estudiosos ainda se debruçam sobre as publicações, analisando histórias como Tintim no País dos Sovietes, Tintim no Congo, Tintim na América, por se acreditar que elas caracterizam uma ideologia fascista, colonialista, racista. Bem, não deve ser fácil analisar obras de ontem com os olhos de hoje, num contexto completamente diferente.


Polêmicas à parte, a verdade é que, em pouco tempo, Tintim ganhou a Europa e, bem antes de chegar a Steven Spielberg e Peter Jackson, a suas aventuras investigativas ganharam o cinema e a televisão. Em 1947, Claude Misonne dirigiu a animação belga, feita com marionetes, de O caranguejo das tenazes de ouro. Nos anos 1960 foi a vez de duas adaptações com atores: Tintim e o mistério do Tosão de Ouro, dirigida por Jean-Jacques Vierne (1961), e Tintim e as laranjas azuis, por Philippe Condroyer (1964). Na virada da década o jornalista aventureiro voltou ao mundo animado com Tintim e os prisioneiros do sol, longa dirigido por José Dutillieu (1969), e Tintim e o lago dos tubarões, por Raymond Leblanc (1972). A televisão popularizou ainda mais o personagem. Entre 1958 e 1963 a Belvision produziu 104 episódios animados de As Aventuras de Tintim, por Hergé e, em 1991, a Ellipse Programmé (França) e a Nelvana (Canadá) lançaram As Aventuras de Tintim, uma série em 39 capítulos que fez a alegria da criançada. Esta última série passou pela TV Cultura e (re)estreia nesta sexta (20) no Canal Futura.


Em produções desse porte é até redundante falar de tecnologia (de cair o queixo) na captura digital de movimento, que tem em Andy Serkis (King Kong, Gollum, Cesar) um dos mestres na interpretação com "motion capture", técnica usada anteriormente (com eficiência) em animações como: O Expresso Polar (2004) e A Lenda de Beowulf (2007), de Robert Zemeckis; A Casa Monstro (2006), de Gil Kenan; Marte Precisa de Mães (2011), de Simon Wells. E ou destacar o bom uso da plataforma gráfica (e cenográfica) com um dos melhores aproveitamentos do 3D. Resta saber se a animação que tem tudo para agradar os fãs das HQs e seriados televisivos, continuará com a mesma qualidade na próxima aventura com direção Peter Jackson. Enquanto isso não acontece é sentar e curtir o ótimo passatempo (se possível em 3D).

sábado, 14 de janeiro de 2012

Crítica: Sherlock Holmes: O Jogo de Sombras



Quem se divertiu com a releitura de Guy Ritchie para o notável Sherlock Holmes e seu fiel parceiro Dr. Watson, não vai ter o quê reclamar desta segunda aventura de ação e mistério, com altas doses de humor, do ilustre morador da 221B Baker Street, London.

Sherlock Holmes: O Jogo de Sombras (Sherlock Holmes: A Game of Shadows, RU, EUA, 2011), com direção de Guy Ritchie, traz o astucioso Sherlock Holmes (Robert Downey Jr.), muito mais alucinado e cerebral, frente a frente com o seu maior inimigo, o gênio do crime conhecido como Professor Moriarty (Jared Harris). Os dois têm como arma de ataque e defesa o raciocínio lógico. O inescrupuloso Moriarty aposta na força dos seus capangas. O sagaz Sherlock conta com a valiosa colaboração de seu melhor amigo e bom de briga Dr. Watson (Jude Law), que por acaso é o seu biógrafo.


Baseado no roteiro de Michele Mulroney e Kieran Mulroney, levemente inspirado no dramático conto O Problema Final, de Arthur Conan Doyle (1859/1930), publicado em 1893, que pode ser lido em MundoSherlock , O Jogo das Sombras tem uma narrativa ágil e divertida. A sua trama, que se esparrama por Londres, França, Alemanha e Suíça, é mais complexa que a do primeiro filme e pode até confundir quem gosta de algo mais linear, mas jamais subestima a inteligência do espectador. Pelo contrário, aguça! Se ele gostar de enigmas (e não souber coisa alguma sobre o desenvolvimento da história) vai conseguir solucionar o caso juntamente com Sherlock. É que a narrativa espalha pistas em diversas cenas. Algumas são bem rápidas e outras parecem dizer: “Preste atenção em mim!”.


O grande mistério a ser desvendado se passa em 1891, quando funestos acontecimentos, envolvendo autoridades, abalam a Europa. Para um observador comum, seriam ações terroristas sem qualquer ligação. Mas, para Sherlock Holmes, os assassinatos e atentados a bomba (em período tão próximo) não são mera coincidência. Ele ainda não sabe qual é a real intenção dos atos criminosos, mas acredita que somente uma pessoa seria capaz de tamanha insanidade, o nefando Professor Moriarty. O único problema é que ele não tem como provar, já que o diabólico matemático do crime, que se passa por um cidadão acima de qualquer suspeita, não deixa rastros. Prevendo uma catástrofe mundial, ele “convoca” o Dr. Watson (usando as chantagens de sempre) para ajudá-lo a solucionar o complicado caso. Para apreciar o fantástico xeque-mate e saber quem afinal é o rei, a torre ou o cavalo, neste tabuleiro de intriga internacional, é preciso saborear o jogo de cena do esquentado Sherlock e do frio Moriarty. E acredite, não tem nada a ver com o jogo de xadrez ensaiado em Roubo nas Alturas, de Brett Ratner.


A produção de Sherlock Holmes continua impecável. Os efeitos especiais são impressionantes, principalmente as belas e nada gratuitas sequencias em câmera lentíssima. Downey Jr e Law são um show à parte, têm uma química impressionante e carisma de sobra para muitos outros capítulos da história. Jared Harris se sai muito bem na pele do vilão, mas quem rouba a cena é Sthephen Fry, interpretando (com seu peculiar humor inglês) Mycroft Holmes, o irônico irmão do detetive e que, segundo Sherlock, além de mais brilhante que ele próprio, possuía um senso de observação e de dedução muitas vezes superiores ao seu, apesar de lhe faltar a energia e a convicção para isso: “Ele não tem nem energia, nem ambição. Ele não se incomodará a ponto de sair da sua rotina para verificar suas próprias soluções. Preferirá se considerar errado a ter que provar que está certo. Diversas vezes submeti-lhe um problema e recebi uma explicação que, mais tarde, se comprovou correta. E, mesmo assim, ele se mostrou incapaz de analisar os pontos práticos do problema.” Mas o que deve intrigar o público são os novos e geniais disfarces de Sherlock. Impagáveis!

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Crítica: A Hora da Escuridão



Ali pelos anos 70, frequentando um cineclube, em Brasília, assisti ao magnífico Alexander Nevski (1938), de Sergei Eisenstein (1898 - 1948), um dos mais belos filmes que já vi.  Inesquecível! No final Alexander tem a sua fala mais memorável: “Vão e digam a todos, em terras estranhas, que a Rússia está viva. Que venham nos visitar. Mas, quem vier com ferro, com ferro será ferido. Assim é, e assim sempre será na terra russa.” Por que estou me lembrando deste clássico agora? Pelo patriotismo genuíno, quando da invasão dos Cavaleiros Teutônicos, em Alexander Nevski e o patriotismo de ocasião, quando da invasão dos ETs Fractais, em A Hora da Escuridão.


Hãããnnn? Explico: A Hora da Escuridão (The Darkest Hour, EUA, 2011) de Chris Gorak, narra as aventuras desastrosas de quatro jovens americanos e um sueco pelas ruas de Moscou, durante recente ocupação (também) alienígena da bela capital russa (que mais parece terra de ninguém). Hãããnnn? É o seguinte, Sean (Emile Hirsch) e Ben (Max Minghella) são dois web-empreendedores que vão à Moscou vender a ideia de uma Rede Social (que indica os melhores points em todo o mundo) e lá eles descobrem que um empresário sueco, Skylar (Joel Kinnaman), está negociando o mesmo projeto (engraçado, acho que já vi esse filme!). Estranhos numa terra estranha, os jovens resolvem afogar as mágoas no point dos points russos: Zvezda Nightclub, onde conhecem as turistas americanas Natalie (Olivia Thirlby) e Anne (Rachael Taylor), que iam para o Nepal, mas por um erro de escala desembarcaram em Moscou, e ainda dão de cara com Skylar, comemorando o sucesso do seu empreendimento.


Para encurtar, no melhor da festa um blecaute leva os frequentadores para fora do bar onde, maravilhados e estarrecidos (isso é possível?), eles assistem a uma chuva de algo parecido com fractais (tipo águas-vivas luminosas) que vaporizam todo ser vivo que tocam. Acredite, esses seres estranhos querem transformar todo mundo em cinza purpurinada. Até parece que generalizaram a fala creditada a Américo Issa (se não me engano), o cenógrafo do genial Dzi-Croquettes: “Bicha não morre, vira purpurina!”. Bom, entre milhões de pessoas os cinco protagonistas aparentemente são os únicos sobreviventes. Os americanos, feito bebês chorões, só querem saber de voltar para casa, para o colo da mamãe. O sueco não tem certeza de nada. Meio ao caos, nessa jornada do salve-se quem puder, eles acabam descobrindo que não estão sozinhos (oh!). É um “cientista” maluco aqui e uma versão russa de o Incrível Exército de Brancaleone (1966), de Mario Monicelli (1915 - 2010), acolá. Aí, o que era americanófilo vira russófilo e desanda de vez a patriotice sobre a importância da família e a união de forças na defesa da sua casa/terra (americana e russa). Então só resta ao cinéfilo se deixar levar por um tornado de emoções baratas e se render à enaltecedora fala de Dorothy, ao final de O Mágico de Oz (1939), de Victor Fleming (1889 - 1949): “There is no place like our home” - “Não há lugar como nosso lar”.


Baseado no roteiro de Jon Spaihts, o filme de ação e aventura, com algum suspense, até que tem alguns achados que são logo perdidos, já que o roteirista e o diretor não sabem o que fazer com eles. Por exemplo, criar ETs “invisíveis” é uma ideia bacana, pena que, antes de apagar, mostram a sua cara (adivinhe!) de Alien. Outra sacada legalzinha é a das lâmpadas. Tem mais uns dois lances, mas é melhor que o espectador descubra (se puder) por conta própria. E já que a criatividade não é o forte do argumento, lá vai ele para o lugar comum dos invasores: atropelar tudo que encontrar pela frente para roubar algo que poderia se pego (in natura) longe da vista de todos os humanos. Lógica que é bom, nada! Por falar nisso, a Terra está parecendo a Casa da Mãe Joana. É um tal de ETs dizimando gente para explorar a água (Invasão do Mundo: Batalha de LosAngeles), o ouro (Cowboys & Aliens), o minério (Guerra dos Mundos), o vegetal (ET)..., que não acaba mais. Caramba, tudo aqui, tudo aqui. Quer dizer, tudo nos EUA, tudo nos EUA. Ah, e agora também na Rússia! E só para situar, o ataque destes novos ETs, com seus tentáculos acesos, lembra um bocado o ataque daqueles velhos ETs do Spielberg que explodiam (ou será que vaporizavam?) os humanos em Guerra dos Mundos (2005). Será que desenvolveram ou negociaram a mesma tecnologia letal? Pode ser mera coincidência!


A Hora da Escuridão tem lindos enquadramentos de Moscou, mas (e daí?) a sua história (para) adolescente não empolga, não convence. Os “diálogos” óbvios são tão pavorosos quanto o roteiro frouxo. Algumas sequências (de tão ridículas) se tornam risíveis. Será que ao buscar a Embaixada Americana os jovens realmente acreditam que, por ser americana, ela não será atingida? Enfim, se fosse menos pretensioso A Hora da Escuridão até seria um bom trash. Infelizmente, na sua cara pirotecnia, não tem material suficiente para o lado mais “B” da ficção científica. Substituir o tradicional negro (cota) por um sueco e o latino (cota) ou asiático (cota) por uma loira burra, não fez nenhuma diferença étnica no descarte final, já que o elenco não têm química e não há performance alguma a destacar. Os efeitos especiais retrô dos ETs, aos modos das abstrações digitais dos anos 80, são fogo-fátuo. Pensando melhor, acho que tem algo memorável sim, o gato DJ Lance Rock e a sua teia luminosa. Pena que o seu tempo em cena seja tão curto (no circuito). Ah, enquanto isso, o tenso e divertido filme inglês de ficção científica Attack the Block, do estreante diretor Joe Cornish, saiu diretamente em DVD. Vai entender.
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