terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Crítica: Poder Sem Limites



O que você faria se descobrisse, de uma hora para outra, que tem superpoderes, tipo aqueles dos super-heróis das HQs e que, atualmente, infestam também os cinemas? Iria combater os marginais e ou (primeiramente) “dar um pau” naqueles seus “colegas” da escola (que te humilham) ou nos vizinhos “do mal” (que te esfolam)? Essa é a questão proposta pelo curioso Poder Sem Limites (Chronicle, EUA, RU, 2012).

Play: O filme de aventura e ação (desenfreada no final), com boas doses de melodrama e horror, é praticamente um filme de estreias: do diretor Josh Trank, do roteirista Max Landis e dos protagonistas Dane DeHaan, Alex Russell e Michael B. Jordan. A produção vem com aquela pegada “videogravação encontrada”, que consagrou A Bruxa de Blair, Atividade Paranormal e Cloverfield, mas que já está dando sinal de cansaço. Poder Sem Limites (ô titulozinho horroroso) é narrado tão somente do ponto de vista dos protagonistas, através de gravações digitais, às vezes interessantes e outras (me poupe!) impossíveis de acreditar, já que nem o mais geek adolescente, logado em redes sociais, é uma câmera em ação por 24 horas.


O roteiro é meio rasteiro, mas deve prender a atenção do público infantojuvenil que busca uma leitura diferenciada do fascinante (e catastrófico) mundo dos heróis. Andrew Detmer (Dane DeHaan) é um garoto introvertido e saco de pancadas em casa e na escola. Tem problemas com o pai alcoólatra, Richard Datmer (Michael Kelly), com a vizinhança delinquente e com alunos-clichês do colégio. A vida do adolescente não tem como ficar pior, já que não pode contar com o apoio da mãe (Bo Petersen), entrevada numa cama, esperando a morte chegar e não considera o seu primo Matt Garetty (Alex Russel), jovem intelectual que adora curtir a vida e citar filósofos (Schopenhauer, Platão), exatamente um amigo.

Certa noite, durante uma festa rave, Andrew, Matt e Steve Montgomery (Michael B. Jordan), o “rei da escola”, se aventuram por um buraco no chão, encontram “algo” bizarro e ganham poderes telecinéticos. A princípio eles se divertem movendo objetos, mas conforme vão dominando esses poderes, o perturbado Andrew começa a agir estranhamente, colocando em risco o segredo e a cumplicidade do trio. Apesar de superpoderosos (“grandes poderes exigem grandes responsabilidades”, lembra?) os três jovens não formam uma equipe (para livrar o mundo dos criminosos), nem estão preocupados com isso. Não são super-heróis, são apenas garotos deslumbrados com as suas novas habilidades, que precisam fortalecer os laços de uma amizade incipiente e confiar em si mesmos. Se para um adolescente comum descobrir o seu lugar no mundo já é difícil, para aquele com poderes extraordinários é fatal.


Poder Sem Limites guarda algum resquício de X-Men (principalmente de First Class), Heroes e Carrie (1976), mas tem uma lógica de entretenimento, digamos, própria. Na maior parte da trama a narrativa se dá através dos vídeos de Andrew, interrompida momentaneamente, por gravações feitas por Matt e Steve, pela blogueira (“o que está acontecendo?!”) Casey Letter (Ashley Hinshaw) e pela própria câmera (quarta parede), levitando em posição estratégica. Não é o 1984 (de George Orwell), mas a câmera (aqui) é o mais onipresente dos personagens. Essa constância, no entanto, ao mesmo tempo em que dá ritmo, fragmenta e torna a história um bocado cansativa. É que tudo acontece muito rápido e sem muita explicação, da descoberta do buraco misterioso ao conhecimento e evolução do poder dos adolescentes, das brincadeiras jocosas aos atos irracionais. 


Pause: O foco das “gravações” de Andrew não é o de exposição em redes sociais, mas, sim, de autoconhecimento. Ele filma a si mesmo, não apenas como arma de defesa, mas para compreender o porquê da autodefesa. A câmera é o seu divã, o seu diário crônico de somatizações. O porém é que, independente do ângulo que vê (o “inimigo”) e ou é visto (pelo “inimigo”), o seu monólogo nunca se transforma em diálogo. E aí, então, só resta ao verbo explodir e lançar farpas para todos os lados. No belíssimo filme sul-coreano O Homem Que Era O Super-Homem (2008), há uma frase: “Mesmo a força não abre portas grandes de ferro, mas uma pequena chave, sim. Todos nós temos essa chave dentro de nós... Para abrir a porta a um novo futuro.” A câmera de Andrew é, sem dúvidas, uma chave, o problema é que ele não consegue encontrar a “sua” porta.



Play: Poder Sem Limites tem alguns furos imperdoáveis e alguns desculpáveis (no roteiro), mesmo assim vale a pena dar uma olhada sem compromisso. A história é boa, os atores são ótimos, a direção é bacana e, para um filme que dizem ter custado míseros US$ 15 milhões, tem sequências espetaculares, como a do jogo de futebol nas nuvens ou das criações com Lego. Todavia, há uma cena (em especial) que vai ficar na cabeça de muita gente, tamanha a estética da maldade na sua realização: a da levitação de uma aranha (puro sadismo!). Ela é tão perturbadora quanto eficiente ao delinear a adolescente face de um terror anunciado. Vale ressaltar que o filme de Josh Trank tem nada a ver com o violentíssimo Kick-Ass (2010), de Matthew Vaughn, apesar da insanidade que o perpassa culminar numa batalha de acerto de contas típica das HQs. Aparentemente é o fim da história. Não há porque se pensar em continuidade. Mas em tempos de franquia..., nunca se sabe. Stop

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Crítica: Tão Forte e Tão Perto



11 de 09 de 2001 deixou marcas e mágoas nos Estados Unidos da América e preocupação em quase todo o resto do mundo. Muita gente morreu e ainda morre por conta do atentado ao World Trade Center (Torres Gêmeas), em Nova York, e da “caça” norte-americana aos “terroristas”. No cinema há pelo menos uma dezena de filmes embalados pela tragédia. Independente da qualidade, Hollywood é mestre em reciclar e partilhar alegrias e tristezas. Pela diferença, destaco o contundente e tocante 11’09’’01 (França, 2002), longa coletivo que apresenta, através de 11 curtas-metragens, de 11 minutos, 9 segundos e 1 frame, o ponto de vista de 11 diretores: Claude Lelouch (França), Ken Loach (Reino Unido), Youssef Chahine (Egito), Amos Gitaï (Israel), Alejandro González Iñárritu (México), Sean Penn (EUA), Shohei Imamura (Japão), Samira Makhmalbaf (Irã), Mira Nair (Índia), Idrissa Ouedraogo (Burkina Faso), Danis Tanovic (Bosnia-Herzegovina),  sobre o 11 de setembro no mundo, e o Fahrenheit 9/11 (EUA, 2004), documentário de Michael Moore.

Tão Forte e Tão Perto (Extremely Loud and Incredibly Close, EUA, 2011), de Stephen Daldry, é uma ficção que também tem o seu foco no dia 11 de setembro, mas de um ano depois da tragédia que vitimou Thomas Schell (Tom Hanks), comprometendo o processo de socialização do seu filho, Oskar Schell (Thomas Horn), inclusive com a mãe, Linda Schell (Sandra Bullock). O garoto de 11 anos é inteligente, porém aparenta o comportamento excêntrico e obsessivo de uma pessoa com Transtorno do Espectro Autista. Na maior parte do tempo (em cena) é agressivo, irritante (não fala, grita), grosseiro..., e praticamente ignora a mãe. No entanto, mantinha uma invejável relação amorosa e de cumplicidade com o pai, com quem partilhava jogos de desafio para vencer os seus medos: “sempre há pistas e tesouros a serem encontrados no mundo”. Dos pais de Oskar sabemos quase nada e dele, apenas que é um bocado maníaco.


Um ano depois do “pior dia”, são as boas lembranças, a saudade, a necessidade de encontrar um sentido para a ainda forte presença do pai ausente, que levam Oskar ao closet dele, onde encontra, por acaso, uma chave em um envelope onde se lê: Black. Uma palavra que pode significar tudo ou nada. Certo de que a chave faça parte de um jogo que seu pai não teve tempo de propor e de que Black é uma pessoa com alguma mensagem deixada para ele, Oskar elabora um minucioso cronograma, relacionando 472 moradores dos cinco Distritos de Nova York (Manhattan, Brooklyn, Bronx, Queens e Staten Island), traça uma estratégia de busca, e vai atrás de respostas que possam satisfazer a sua inquietação.

Solitário em sua dor que, às vezes, divide apenas com a avó paterna (Zoe Caldwell), o ansioso garoto, munido de uma mochila, com “itens básicos de sobrevivência”, anda por Nova York, “tentando” (impacientemente) se relacionar com as pessoas que têm Black no sobrenome. A jornada, repleta de tipos peculiares, acaba ganhando um novo foco quando ele se defronta com o inquilino idoso (Max Von Sidow) da sua vó, um sujeito que só se comunica através de mensagens escritas em pequenos bilhetes. O embate entre eles é o que segura e dá algum alento ao pesado drama, já que um fala pelos cotovelos e o outro é praticamente monossilábico em suas anotações.


Tão Forte e Tão Perto, baseado no romance Extremely Loud and Incredibly Close (Extremamente Alto e Incrivelmente Perto), de Jonathan Safran Froer, é um filme extremamente melodramático e incrivelmente choramingas (mais down é load impossível). Bem ao gosto do público que gosta de chorar copiosamente no escurinho do cinema: ô filme triste, sô! Nem a novelinha A Vida Da Gente É Um Mar de Lágrimas, se compara à choradeira induzida da primeira à ultima cena. A interessante história de um adolescente (com distúrbio comportamental) que busca compreender a si mesmo e o mundo ao seu redor, infelizmente não foge aos (desnecessários) clichês do cine-terapia e à pieguice exacerbada. É uma catarse sem fim (do filho, da mãe, do inquilino, dos Black). Ou melhor, tem um fim, sim, e os personagens nem precisam se deitar em um divã para sentir a reviravolta do destino “conspirando” pela felicidade geral de todos. Ah, o que faz uma boa conversa sobre o perdão!


Tão Forte e Tão Perto tem uma boa produção técnica e com alguns achados (ceno)gráficos bem bacanas. Porém, Daldry e o roteirista Eric Roth não se contentaram em apenas contar uma história (curiosa) que por si só já é triste (pela tragédia do pai e “doença” do filho), abusaram do sentimentalismo barato até mesmo em cenas que ensaiam alguma poesia. A trilha intrusiva é melodiosa além da conta, para o espectador emotivo não ter desculpas para não lacrimejar. Quem não for vacinado contra o gênero terapêutico certamente vai chorar com todos os traumas do menino (e demais personagens), com os “diálogos” e ou com a música, não tem escapatória. Por falar em personagens, o elenco protagonista está bem afinado, com destaque para Max Von Sydow, que nem a trilha chiclete de Alexandre Desplat consegue embaçar. Enfim, mais um filme-autoajuda para pais e filhos chorarem unidos e assim (?) permanecerem unidos.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Crítica: Reis e Ratos



É difícil saber se o mundo (da política) teve (e ainda tem) mais reis que ratos e ou mais ratos que reis. As duas espécies sabem camuflar muito bem os seus interesses (fisiológicos). Mas o povo, na sua “ingênua idade”, segue acreditando que um dia (será que em Dezembro de 2012?) virá alguém para salvar as dores da sua Pátria (amada, idolatrada, salve, salve quem puder!).


Não é fácil classificar o filme Reis e Ratos (Brasil, 2011), com roteiro e direção de Mauro Lima. A narrativa delirante, com seu humor velho e rasteiro, abusa da paródia e da caricatura. Está mais próxima (do clima) de uma Commedia dell’arte do que de um Film noir. O argumento é até curioso, na promessa de um thriller político, ao focar (às vésperas do Golpe de 1964) a trama de democráticos norte-americanos (e seus interesses escusos) para desestabilizar o democrático governo brasileiro. Mas (em vez de mistério) o que prevalece é a farsa. O que até seria interessante (e eficiente) se realmente fosse engraçada. Em tempos de Carnaval, lembra mais um samba dos conspiradores doidos tangendo o gado e bebendo parati, do que uma marcha rancheira da família pela liberdade dos ouros teus.

O ano é 1963. A cantora Amélia Castanho (Rafaela Mandelli) vai fazer a abertura da Gincana da Cidade de Bacaxá, no interior do Rio de Janeiro. Pouco antes de se apresentar ela ouve, no rádio do automóvel, uma estranha comunicação, feita pelo seu locutor preferido: Hervê Gianini (Cauã Raymond), alertando sobre a explosão do coreto. O que de fato acontece. A partir deste atentado a história vai se fragmentando (confusa!) em flashbacks, apresentando os responsáveis pelo ato criminoso: Troy Somerset (Selton Mello), um Agente da CIA; Skutch Sanders (Kiko Mascarenhas), Diretor da CIA para assuntos da América do Sul; o Embaixador Americano (Helio Ribeiro); o conspirador Major Esdras (Otávio Müller); o latifundiário anticomunista Esmeraldo Carvalhal (Orã Figueiredo); o assassino de aluguel Paulo Barracuda (Daniel Alvim); o vigarista Roni Rato (Rodrigo Santoro), entre outros.


Além do 3D, parece que o cinema vem redescobrindo também o recurso narrativo do flashback, nem sempre com bons resultados. Em Reis e Ratos ele é um “elemento” mais complicador do que facilitador da leitura da obra, digamos, apócrifa. É tanto “vai e vem” que o espectador pode perder a noção do tempo da ação (passada e presente). A falta de convicção na ideia e no desenvolvimento da história e dos cartunescos personagens também compromete. E tem nada a ver com baixo orçamento ou com (apenas) 17 dias de filmagem. A risível impostação de voz de Cauã Raymond, no desempenho do locutor Hervê Gianini e de Selton Mello, no seu Troy Somerset, destoando completamente do resto do elenco, causam estranheza. Pela bizarrice, ambos parecem intérpretes de novela de rádio e ou dubladores de seriados televisivos da Screen Gems apresenta, que fugiram de suas caixas-veículos de comunicação e diversão só para se meterem nas negociatas americanas.

O experimentalismo fotográfico, que varia na cor, no sépia e no preto e branco, e alguns descuidos técnicos (cadê a ferida de Roni Rato?), acabam chamando mais a atenção do que o zum-zum-zum que entorna a História (real?) atropelando a ficção. No entanto, se o público não for muito exigente e realmente não levar muito a sério a barafunda de Reis e Ratos, é capaz de se divertir com alguma piadinha perdida e ou, ao menos, com a excelente atuação de Rodrigo Santoro, irreconhecível sob a maquiagem. Caso contrário, em vez de um gracejo vai ser um bocejo.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Crítica: O Artista



O Artista é um filme para o cinéfilo que, a despeito das invenciones videoclipistas contemporâneas, nunca deixou de acreditar na magia do cinema. Uma história repleta de doçura e de amargura, colhida nas profundezas do pré-som e da pré-cor por quem ama o fazer cinematográfico. Um delicioso melodrama para lembrar (ou conhecer) o cinema em preto e branco e suas histórias singelas (mesmo quando trágicas), já formadoras de plateia nos idos de 1920/30, ao alcance daquele público cuja preguiça mental o faz preferir a dublagem à legenda. Se bem que, vez ou outra, ele será obrigado a ler alguma, tomara que ainda saiba ler. Aliás, é a questão da legenda versus áudio o motivo deste espetáculo. É interessante notar que, enquanto nos anos 20/30 discutia-se a transição entre o cinema mudo e o falado, hoje é CGI e 3D que resultam em acaloradas discussões.

O Artista (The Artist, França, Bélgica, 2011), de Michel Hazanavicius, é uma grande celebração. Uma viagem às incríveis produções cinematográficas dos anos 1920 e 1930, onde o carismático ator George Valentin (Jean Dujardin) faz fama e fortuna com seus personagens charmosos e aventureiros em filmes mudos de grande apelo popular. No entanto, o tempo não para e a modernidade vem atropelando tudo que parece obsoleto. É nesse clima novidadeiro que, após um ocasional empurrãozinho na carreira da iniciante atriz Peppy Miller (Bérénice Bejo), ele fica sabendo que o Kinografh Studios, para quem trabalha, irá produzir apenas filmes sonoros. Enquanto a determinada garota se entusiasma com a novidade, o inseguro Valentim é contra. Com o orgulho ferido (feito Charles Chaplin na defesa de sua pantomima), o consagrado ator (de pouca fala) passa a questionar o futuro da sétima arte sonora. O seu drama, de uma ternura arrebatadora, arranca risos, suspiros e lágrimas da plateia que aposta no seu talento e num esfuziante recomeço. Afinal, o cinema é feito de fases (e frases de efeito). Ou não ?!


O público mais antigo sabe que nos primórdios do cinema, para facilitar o acompanhamento e a compreensão da história, eram inseridas (entre cenas) cartelas com textos. A chegada do som (que revolucionou a sétima arte), no entanto, apavorou meio mundo artístico, até Charlie Chaplin (1889 - 1977) resistiu a ele por mais de uma década. O temor da classe (e de alguns produtores) era que o cinema sonoro, por conta das risíveis primeiras experiências, destruísse carreiras e estúdios, já que a maioria dos atores não tinha “aquela” voz imaginada pelos espectadores, como se pode ver no genial musical Cantando na Chuva (Singin’ in the Rain, 1952). Por outro lado, dependendo do talento da estrela, a novidade poderia consolidar o ofício, como aconteceu à diva Greta Garbo, indicada ao Oscar pelo desempenho em seu primeiro filme sonoro, Anna Christie (1930), cujo slogan era: Garbo Fala!  

Se antes do som a intenção da trama se bastava nos olhos, no gestual, com o seu advento ela ganhou destaque na voz, e para isso a interpretação era mais do que fundamental. O filme sonoro passou a exigir mais de todos os envolvidos, da concepção à finalização da obra. O irônico é que, para melhorar a qualidade do áudio, surgiu a dublagem (viciando o norte-americano, que não vê filmes estrangeiros por causa das legendas), mas que (de certo modo) acabou facilitando a disseminação do cinema em todo mundo (dublado - com alguma relutância - em outras línguas) e facilitando (depois) a sua exploração pela TV.


O Artista não é um filme de ontem, mas um filme (de hoje) sobre o cinema que se fazia ontem, em posse da alta tecnologia de hoje simulando a de ontem. Tudo nele remete ao passado, da extraordinária performance de Dujardin, com seu sorriso iluminado, à trilha magistral de Ludovic Bource. A nostálgica narrativa de Hazanavicius, que “fala” mais com imagens do que com “palavras”, do amor à arte e do valor da amizade (canina e humana), surpreende pela simplicidade. É impossível ficar alheio à cativante Bérénice Bejo e ao adorável cão (Uggy), parceiro de Valentin, dentro e fora das telas, lembrando a admirável relação de Chaplin com a sua cachorrinha em A Dog's Life (1918). A metalinguagem na “gritante” sequência inicial de lançamento do filme A Russian Affair (tela/plateia/tela/bastidores/tela) com o pedido de “silêncio” (na apreciação de um filme mudo) é mais que perfeita, é genial! Assim como o nocaute de algumas metáforas (principalmente) sobre a ascensão e a queda de astros e estrelas. Mas o ponto alto fica com a antológica sequência de Valentin enlouquecido com a sonoplastia real e incapaz de pedir ajuda. Não me lembro de casamento tão perfeito de áudio-imagem.

Um bom cinéfilo verá na fantástica trama de O Artista as muitas homenagens (conscientes) a clássicos como: Crepúsculo dos Deuses (Sunset Boulevard, 1950), Cantando na Chuva (Singin’ in the Rain, 1952), Nasce uma Estrela (A Star Is Born,1954), e a diretores como: Charles Chaplin, Orson Welles, Alfred Hitchcock, Fritz Lang.  Em um momento muito em especial, Peppy relembra Greta Garbo (1905-1990) em Grand Hotel (1932), com a famosa frase que a marcou pelo resto da vida: I want to be alone! (Eu quero ficar sozinha!). Michel Hazanavicius não é o primeiro e, com certeza, não será o último a homenagear o cinema, preto e branco ou colorido, mudo ou falado. Muitos diretores contemporâneos acreditam na carga dramática do silêncio, apostam na imagem (por mil palavras), na interpretação, na ausência de trilhas, mas não conseguem fugir do pejorativo filme de arte. Infelizmente nem todos tem a boa sorte de juntar qualidade e boca a boca, como O Artista, e traçar um destino premiado rumo ao grande público.


O mundo viu e riu diferente com as pantomimas do francês Jacques Tati (1907 - 1982) e com as paródias do norte-americano Mel Brooks. Ao ironizar (também) a modernidade retrô (e por tabela o público americano?) o ponto vai para Mel Brooks com a sua coloridíssima comédia A Última Loucura de Mel Brooks (Silent Movie, 1976), onde a única fala é um sonoro Non! (Não!), dito pelo mímico francês Marcel Marceau (1923 - 2007), ao ser convidado a estrelar o Silent Movie. Questionado sobre a resposta do artista, Mel responde: Eu não sei. Eu não falo francês! Dificilmente o americano fará filas para ver o filme francês, já que odeia ler legendas, mesmo que mínimas. Pior para os folgados, O Artista é inesquecível!

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Crítica: Histórias Cruzadas



De tempos em tempos, romancistas estadunidenses trazem a lume um velho tema: segregação racial na região sudeste dos EUA, nos anos 1950/1960. Os livros (geralmente ficção) ganham popularidade e (óbvio!) são adaptados para o cinema. Em 2008, The Secret Life of Bees (A Vida Secreta das Abelhas) da escritora Sue Monk Kidd, publicado em 2002, chegou às telas através da diretora Gina Prince-Bythewood. Em 2011, foi a vez do diretor Tate Taylor adaptar o romance The Help (Histórias Cruzadas), de Kathryn Stockett, lançado em 2009. Os dois livros (de autoras brancas) têm o seu foco em personagens femininos e narram as experiências de mulheres brancas (e futuras escritoras) na convivência com mulheres negras oprimidas pela sociedade branca. Os homens (brancos e ou negros), geralmente coadjuvantes, são protagonistas (apenas) nos pontuais atos de violência. Os palcos são a Carolina do Sul e o Mississippi.

Histórias Cruzadas (The Help, EUA, 2011), de Tate Taylor, situa-se nos buliçosos anos de 1960, em Jackson, uma pequena cidade onde as mulheres negras, sem opção, obrigatoriamente trabalham como serviçais de mulheres brancas “preocupadas” com a fome na África e o jogo de bridge. Elas ali são pouco mais que nada, mas mão-de-obra barata e indispensável para as dondocas. Algumas também acumulam a função de babá e, quando possível, ensinam valores humanos à criança: "Você é gentil! Você é inteligente! Você é importante!". Todavia, nem sempre o que se apreende na infância serve como moral na parábola futura.


O filme tem um bom argumento, mas derrapa no didatismo do roteiro. Skeeter Phelan (Emma Stone) é uma jovem branca (com pretensões literárias) recém-contratada pelo The Jackson Journal, para escrever sobre prendas domésticas. O problema é que ela entende nada do assunto e ao pedir ajuda a Aibileen Clark (Viola Davis, magistral), uma empregada doméstica negra, acaba encontrando, entre uma conversa e outra, um assunto palpitante que pode render um bom (e polêmico) livro. Com um título no papel: The Help (A Ajuda) e uma ideia na cabeça, ela parte para o impensável naquela cidade com resquícios escravocrata: entrevistar as serviçais negras e conhecer a origem delas, os sonhos, a família, o relacionamento com as patroas brancas. Apesar de relutante, Aibileen concorda em lhe dar um depoimento, mas não é o suficiente, e Skeeter tenta convencer a afável e atrevida Minny Jackson (Octavia Spencer), que sabe de coisas que até Deus duvida, a participar do audacioso projeto.

À primeira vista parece oportunismo uma jornalista branca se “apropriar” de histórias de mulheres negras e publicar o seu primeiro livro. No entanto, ao ver a capa da publicação todos os conceitos mudam. The Help (A Ajuda) é um título amplo e também pode significar troca de favores. Mulher branca realiza o seu sonho e mulheres negras (mesmo que anonimamente) ganham voz impossível de calar. A narrativa, às vezes nonsense (na instalação de vasos sanitários) às vezes amarga (na criação do filho alheio) ou mais irônica do que engraçada (na torta de Minny), também varia entre a beleza contagiante e a pieguice. Alguns exageros na composição vilanesca e ou heroica das personagens incomodam. É difícil imaginar um lugar pior que a provinciana Jackson, onde, com raríssimas exceções, branco é mau, branco manda e preto é bom, preto obedece. Pelo menos é o que nos faz crer este dramalhão capaz de afogar um espectador mais sensível em um mar de lágrimas, ou de refrigerante ou de pipoca, conforme a sessão mea-culpa, não!


Na excessiva boa intenção de traduzir a inquietação de mulheres negras, Histórias Cruzadas ganha veracidade na interpretação de três atrizes: Viola Davis que, numa contenção de gestos impressionante, expressa toda angústia e dor de Aibileen, através do olhar e do tom de voz; Octavia Spencer, na criação expansiva (e quase farsesca) de Minny; e a carismática Jessica Chastain, compondo na medida exata a desajeitada Celia Foote, a única branquela boa gente do lugar. Quanto a Emma Stone, a sua Skeeter Phelan não rende, não se decide entre a esnobada garota virginal e a independente universitária. Já a caricata Hilly Holbrook, de Bryce Dallas, é uma megera típica de Contos de Fadas.

Histórias Cruzadas dividiu a crítica americana e desagradou a Association of Black Women Historians, cuja diretora, Ida E. Jones, publicou uma carta aberta (leia aqui), dizendo que o livro e o filme distorcem, ignoram, e banalizam as experiências dos negros trabalhadores domésticos, não falam do assédio sexual sofrido pelas mulheres negras e mostram os homens negros como cruéis ou ausentes. Bem, os homens (pretos ou brancos), apesar da sociedade machofalocrata, raramente aparecem (não são o foco de interesse). Quanto aos atos de crueldade, o que se vê são os ferimentos, mas não o ato de violência dos negros, que é explícita apenas na ação truculenta dos policiais brancos.

Pode parecer irrelevante, mas quando se fala de cultura, não tem povo que não defenda a sua. Assim, só para constar, Kathryn Stockett é uma escritora branca, nasceu em 1969, em Jackson (Mississippi), e The Help seria uma homenagem a Demetrie, uma empregada negra que foi essencial na sua infância. Tate Taylor, roteirista e diretor de The Help, é branco e também nasceu em Jackson. Com ou sem “autoridade” para falar sobre segregação racial (na terra onde nasceram), a verdade é que (independente do resultado) realizaram obras campeãs.


Realmente, muitos pontos espinhosos do período negro da história norte-americana, além do assédio sexual, não são tocados, talvez pelo fato de ser uma obra de ficção sem intenção de catarse racial. Se bem que (de alguma forma) os espinhos acabam subtendidos no cruzamento das narrativas brancas e negras. Porém, a idealização histórica do melodrama pode confundir o espectador, principalmente quando os fatos reais são meras citações (de rodapé), como a famosa Marcha sobre Washington por Trabalho e Liberdade, organizada por Martin Luther King Jr. (1929 - 1968), em 1963, o assassinato do ativista negro Medgar Evers (1925 - 1963) e do presidente como John F. Kennedy (1917 - 1963), o Direito ao Voto, as abomináveis Leis de Jim Crow.

A “difícil” convivência entre branco e negro não é novidade no cinema americano. A improvável conivência entre patroa e empregada foi destaque em The Long Walk Home (Uma História Americana, 1990), com Sissy Spacek (que também está em Histórias Cruzadas) e Woopi Goldberg. Porém, na variação sobre o mesmo tema, e mantendo a intensidade, Histórias Cruzadas, mesmo que através de uma patroa (escritora) branca, traz uma voz nova, ou ao menos diferente, ao dramático período. Fictícias ou possíveis, as histórias “colhidas” são fortes, doloridas. Se não pegam o espectador pela razão, o pegam pelo coração. Tate fez a sua lição de casa, estudou direitinho a cartilha de clichês, por isso é difícil ficar imune a alguns dos inúmeros constrangimentos sofrido pelas serviçais. Hollywood continua imbatível na arte de manipular emoções!

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Crítica: Viagem 2: A Ilha Misteriosa



Um filme com o título Viagem 2 pressupõe-se um anterior, digamos, Viagem 1, ou apenas Viagem, certo? Bom, mais ou menos. Ou melhor, em se tratando de franquia e condicionamento do público, até que deveria ser assim, mas não é. Também porque antes do Viagem 2 existe apenas o Viagem ao Centro da Terra (Journey to the Center of the Earth), de 2008 e que, de comum, tem a “inspiração” nas obras de Júlio Verne e o ator juvenil Josh Hutcherson. Que viagem, não é?! Ah, e antes que você pergunte, o livro A Ilha Misteriosa também não é a segunda história da série Viagens Extraordinárias de Júlio Verne.

Viagem 2: A Ilha Misteriosa (Journey 2: The Mysterious Island, EUA, 2012), dirigido por Brad Peyton, é mais uma produção levemente inspirada em um ou outro detalhe de A Ilha Misteriosa, de Júlio Verne (1828 - 1905), publicado em 1874, e que já foi alvo de diversas adaptações e versões. No cinema: 1929: A Ilha Misteriosa (EUA), de Lucien Hubbard; 1951: A Ilha Misteriosa (seriado - EUA), de Spencer Gordon Bennett; 1961: A Ilha Misteriosa (EUA/RU), de Cy Endfield; 1982: A Ilha Misteriosa (Hong Kong), Chang Cheh; 1990: anime Nadia, O Segredo da Água Azul (Japão). Na TV: 1963: A Ilha Misteriosa (França), de Pierre Badel; 1973: A Ilha Misteriosa (França/Espanha), de Juan Antonio Bardem; 2005: A Ilha Misteriosa (EUA), de Russell Mulcahy. Em HQ: 1970/71: Misteriosa Manhã, Tarde e Noite (França), por Jean-Claude Floresta; 1973: A Ilha Misteriosa (Itália), Franco Caprioli; 2010: A Ilha dos Mil Mistérios (França), por Alban Guillemois.


Nesta mais recente versão de A Ilha Misteriosa (Júlio Verne), com citações de As Viagens de Gulliver (Jonathan Swift)  e Ilha do Tesouro (Robert Louis Stevenson), o jovem Sean (Josh Hutcherson), que era molecote em Viagem ao Centro da Terra, agora é o típico nerd (pelo que diz sobre si mesmo), um rebelde sem causa que não gosta do padrasto Hank (Dwayne Johnson). No entanto, com a ajuda dele consegue decifrar uma mensagem codificada, que acredita ser um SOS enviado pelo seu excêntrico avô Alexander (Michael Caine). O problema é que, pelas coordenadas, a tal mensagem teria vindo de lugar nenhum. Mesmo assim, ele e Hank rumam ao Pacífico Sul, onde contratam um piloto de helicóptero, o malandrão Gabato (Luis Guzmán), e a sua temperamental filha Kailani (Vanessa Hudgens), para levá-los ao local descrito por Verne no livro A Ilha Misteriosa. O grupo acaba acidentalmente descobrindo que o tal inexistente lugar existe, e abriga fauna e flora exóticas.

Viagem 2 é clichê (garoto birrento que não se dá com padrasto camarada, que é fortão, com algum cérebro, e sensível o suficiente para cantar  What a Wonderful World) atrás de efeitos especiais atrás de clichê (garoto riquinho e ansioso quer conquistar garota pobre e independente, cujo pai “herói” é um bobalhão) etc. O desastroso “roteiro” parece um queijo suíço capenga, mas geralmente o público alvo (garotada dos sete aos quinze?) nem nota e ou se preocupa com isso. Afinal, é um filme de aventura e ação (tipo: corre um pouquinho e descansa um pouquinho) para o espectador nada exigente, que se deleita com alguns efeitos bacaninhas, bichinhos fofinhos ou feiosinhos e flores esquisitinhas, enquanto espera pelo óbvio final (?) feliz, se empanturrando de pipoca e refri..


Não custa (re)lembrar ao espectador que não se ligou na sinopse e que espera ver (a qualquer momento) referências à velha história (original) sobre abolicionistas americanos em fuga..., que o enredo é outro. Aqui, os personagens são contemporâneos e se estão fugindo é de suas vidas tediosas. O título da obra de Verne é apenas um chamariz para mais um argumento desperdiçado. O que se vê, entre uma queda e outra e entre uma mensagem edificante e outra, é apenas uma ilha fantasiosa com algum “mistério” sem muita convicção e cinco “sobreviventes” quase enfadonhos (na falta de antagonistas diretos), forçando na simpatia.

Viagem 2: A Ilha Misteriosa é o típico filme-família, linear e cheio de boas intenções altruístas, ao gosto do público-família. Às vezes ridículo, na exploração de gags (velhas) sem graça, e às vezes insensato, ao desperdiçar as poucas boas ideias. É também (inconscientemente?) saudosista ao lembrar aos cinéfilos que o Michael Caine, “amigo” das abelhas assassinas, lá em 1978, quando encarnou o entomologista Brad Crane, na luta contra O Enxame (The Swarm - considerado um dos piores filmes de todos os tempos), de Irwin Allen, pode se sentir (de certa forma) “recompensado” (pelas abelhas) nesta Ilha Misteriosa onde insetos gigantescos são dóceis montarias.


Brad Peyton não conseguiu a melhor atuação do elenco, que merecia uma trama melhor, ficando ali no razoável caras e bocas, em meio a pirotecnia visual. Tecnicamente, quem gostou do 3D de Viagem ao Centro da Terra, possivelmente não terá do que reclamar do 3D deste, também em versão IMAX. Agora é esperar para ver como sairá a sequência da franquia no anunciado (?) Viagem 3: Da Terra à Lua (de 1865).
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