quinta-feira, 29 de março de 2012

Crítica: Fúria de Titãs 2


Dizem que dificilmente os filmes subsequentes (o segundo é o mais perigoso!) de uma franquia conseguem superar o primeiro. No caso de Fúria de Titãs (Clash of the Titans - EUA, Reino Unido, 2010), de Louis Leterrier, uma refilmagem do clássico homônimo de dirigido por Desmond Davis, em 1981, não parecia missão tão impossível, já que o filme foi detonado mundialmente. Quando se anunciou o Fúria de Titãs 2, com direção de Jonathan Liebesman (do equivocado Invasão do Mundo: Batalha de Los Angeles, o original), se imaginava o pior. A boa notícia é que, indo contra quase todas as previsões, a continuação deu certo, superando de longe o seu anterior.

Fúria de Titãs 2 (Wrath of the Titans, EUA, 2012) é pura diversão e bem aos modos dos antigos filmes de aventuras greco-romanas. Deixando a ranzinzice de lado: e precisa ser mais que simples diversão? Talvez, depende da expectativa do cidadão. Exigir conteúdo em produções como essa, dirigida ao público infantojuvenil (e aos marmanjos de plantão), é bobagem. Esta nova aventura acontece dez anos depois do intransigente e incrédulo semideus Perseu (Sam Worthington) derrotar o Kraken. Ele ainda insiste em viver num vilarejo de pescadores, onde cria o filho Hélio (John Bell) e lamenta a morte da esposa. Perseu não quer saber de regalias e muito menos das desavenças entre deuses e Titãs. No entanto, Zeus (Liam Neeson) pensa diferente e a intrincada e primordial relação de amor e ódio (e ciúme!) entre pais e filhos (humanos “racionais” e deuses caídos e redimidos) acaba envolvendo Perseu na mais sintomática das guerras (santas). O pior é que ela não garante o céu e ou o inferno aos “vencedores”, já que, no tabuleiro dos sacrifícios, as pedras (sagradas e profanas) oscilam entre a fé e a razão. Nesse embate todos são vítimas do próprio ego.


A questão religiosa já estava em jogo quando Perseu aniquilou o Kraken. Todavia, o que parecia simples capricho devocional dos deuses, virou luta pela supremacia e desejo de vingança (sobrando para os humanos!). Houve um tempo em que, para não ser destronado, Cronos devorava os próprios filhos. Mas não contava com a astúcia de Zeus, Hades (Ralph Fiennes) e Poseidon (Danny Huston), que sobreviveram e o aprisionaram no Tártaro, onde se encontravam encarcerados os monstruosos Titãs, filhos de Urano e Géia. Ali, se banhando em lavas, o vingativo Cronos se aproveita da fraqueza moral de Ares (Edgar Ramírez) e do perturbado Hades para tramar uma forma de punir Zeus e Poseidon e os humanos (que não querem mais saber de deuses). Certo de que um filho de Zeus não foge à luta titânica, Perseu acaba se juntando à rainha Andrômeda (Rosamund Pike), ao semideus Agenor (Toby Kebbell), e a Hefesto (Bill Nighy), para ajudar o pai e evitar um mal maior. O que os heróis vão descobrir, no calor da batalha, é que, com Cronos na parada, a vingança não é um prato que se come frio.

O curioso em uma obra cinematográfica (entre outras) é que o espectador (conforme a sua cultura) pode fazer as mais diversas leituras e se ver “descobrindo coisas” que (talvez) o diretor e os roteiristas nem pensaram em dizer. Às vezes essas descobertas são meros grãos de areia que, fora do todo, podem gerar ideias interessantes sobre algum tema pertinente, como o que se repete nos dois Fúria de Titãs: os percalços da Fé. Para além da metáfora, são muito significativas as imagens de um belíssimo Templo em ruínas e de deuses virando pó. O que nos remete a um conhecido aforismo (excerto de Gênesis 3.19): Memento quia pulvis es et in pulverem reverteris (lembra-te que és pó e ao pó tornarás), e que a cada dia ganha novas interpretações.


É assunto que dá pano para mais de metro de manga e, dependendo do foco, pode resultar em calorosas e (até) divertidas discussões. Se não, veja só, enquanto os deuses gregos, prisioneiros e dependentes da crença humana, fazem de tudo para evitar o deicídio, Cron, o Deus do Conan, o Bárbaro, quer mais que os “seus” fiéis explodam. O próprio cimério reza por rezar, porque sabe que Cron não está nem aí para os problemas do mundo. O genial Millôr Fernandes (1923 - 2012) filosofou que: o homem só é sinceramente ateu quando está muito bem de saúde. Pois é, onde e quando menos se espera pode se encontrar alguma pérola. Não creio que todo o público vá entender o simbolismo (inconsciente) de Fúria de Titãs 2, mas é divertido ir descobrindo um a um.

Quanto ao roteiro de Dan Mazeau e David Leslie Johnson, ele é tão simplório e econômico que não tem nem romance. Ou será que um único beijo pode ser considerado romance? É até menos rocambolesco que o do primeiro filme, mas (infelizmente) não dispensou as (abomináveis) liberdades mítico-poéticas. Os diálogos são mínimos, suficientes apenas para o espectador saber quem é quem e não perder o fio da meada (em meio à pancadaria), e talvez (?) não comprometer o desempenho do elenco competente, mas nada excepcional. Tampouco a história requer grandes atuações. O que poderia ser diferente se a apressada narrativa se aprofundasse na questão da ruptura entre filhos e pais em quatro gerações: Cronos versus Zeus versus Ares e Perseu versus Hélio. Uma singularidade curiosa e comum na cinematografia de Spielberg e que os psicólogos de ocasião adoram decifrar. Porém, como disse acima, a intenção da produção é divertir, não é elucubrar.


Fúria de Titãs 2 é um filme verdadeiramente furioso, e diria até meio mal-humorado. Os efeitos especiais e o bom uso do 3D IMAX proporcionam um clima de ação desenfreada (e vertiginosa) do princípio ao fim. Confesso que em alguns momentos fiquei meio zonzo com a movimentação. Algumas cenas apavoram! E por falar em apavorar, os Ciclopes (aqueles gigantes de um olho só!) são um espetáculo à parte. Perfeitos! Um cinéfilo preocupado com detalhes vai achar que (o duplo) Hefestos lembra o Sméagol de O senhor dos Anéis e ou que o seu labirinto de pedras móveis se parece com o labirinto de aço do (arghhh!) Alien vs. Predador (2004). Na verdade, essa “armadilha” remete ao labirinto de Minos, onde Teseu, com a ajuda de Ariadne, venceu o Minotauro, que (é bom que se diga) tem nada a ver com o monstrengo que aparece aqui. Enfim, este é um entretenimento para quem quer apenas passar o tempo. E nada mais!

quarta-feira, 28 de março de 2012

Crítica: Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios



Quem já viu algum filme de Beto Brant sabe que em suas histórias (adaptadas dos livros do escritor Marçal Aquino) os personagens são tensos, irritadiços, ansiosos...., parecem querer (sempre) distância do espectador. Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios, é um belo título, sugere um romance melodramático leve. No entanto, traz um drama pesado, melancólico, à beira do trágico.

A trama de Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios (Brasil, 2011), com direção de Beto BrantRenato Ciasca, se passa numa pequena cidade ribeirinha do Pará, onde a vida de três protagonistas flui em águas enganosamente mansas. O Pastor Ernani (Zé Carlos Machado) é um evangélico que acredita na redenção através da palavra de seu Deus. Lavínia (Camila Pitanga), a sua devotada esposa, tem razões para não duvidar da sua Fé, mas não se satisfaz com o seu amor imparcial. O fotógrafo Cauby (Gustavo Machado), de passagem pela região e apaixonado por ela, quer lhe dar muito mais que cânticos bíblicos. Ernani ama Lavínia que ama Ernani e Cauby, de maneiras (e intensidade!) diferentes. Em comum com os dois homens a mulher tem apenas o presente. O passado com Ernani é uma catarse em andamento. O futuro com Cauby está guardado numa pequena caixa (de Pandora?).


Quando se trata de amor a três (na literatura/música/teatro/cinema) todo mundo sabe que alguém (sempre) acaba sobrando (ou se dando mal) na relação. É que, razão, desejo e paixão são substantivos que não se conjugam no mesmo tempo. Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios tem uma história (se não tão original) ao menos curiosa e muito sensual, na tradução dos atos de amor cujo êxtase deixa seus protagonistas a um passo do Céu e ou do Inferno. Já que, na Fé ou em Eros, o orgasmo é o mesmo. No entanto, ao buscar ser mais do que realmente é (sem nenhum demérito: dramática, romântica, trágica, lasciva, com todos os clichês do gênero), apelando para uma cansativa narrativa viciada em fade, acaba comprometendo a leitura do espectador comum, que não está nem aí para o subtexto.

O filme tem algumas sequências magníficas e outras que não se sabe o que fazem ali. Parecem mais um tapa-buraco, uma pedra no meio do caminho dos amantes que não têm envolvimento algum com “cenas-denúncias” de devastação da Amazônia. Não há nem mesmo uma justificativa plausível para a morte de um pacifista e conciliador que incomodava (?). Barcas com madeira, garimpo, agronegócios..., podem até funcionar como mensagens subliminares, mas como trama paralela inexistem. Enquanto a caravana (coadjuvante) passa não há um cão (protagonista) sequer a ladrar. Já que o Pastor só está interessado em evangelizar e Lavínia e Cauby em fazer sexo. Cada um na sua crença e (aparentemente) alheios ao mundo ao redor.


Baseado no livro homônimo de Marçal Aquino, com roteiro de Beto Brant, Renato Ciasca e do próprio autor, Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios tem excelente elenco, com destaques para a intepretação espetacular de Camila Pitanga (uma das mais intensas do cinema nacional recente), que se entrega de corpo e alma à instável Lavínia, cheia de graça e pecado, e a performance vigorosa de Zé Carlos Machado, na criação de um Pastor tão carismático quanto perturbador. Mas quem rouba as pequenas cenas é Gero Camilo, na pele do colunista Viktor Laurence, cuja verve, docemente venenosa, pode ser o fiel da balança do Senhor (de todos os verbos). Há lacunas a serem preenchidas e excessos a serem lapidados (pelo público). O excesso de fade deixa o filme tão moroso que, a certa altura, parece não ter fim. Ainda assim, apesar dos estorvos, a quase ausência de trilha sonora e a bela fotografia compensam a sessão.

quinta-feira, 22 de março de 2012

Crítica: Pina



Na vida de cada espectador há sempre um momento especial vivido numa sala de cinema e ou de teatro: uma cena, uma sequência cinematográfica, uma dança que o arrebatou da cadeira, que o arrepiou, que embaçou seus olhos..., que o fez marejar. Sei que para a maioria pouco ou nada se compara a Gene Kelly (1912-1996) cantando e dançado na chuva no delicioso Singin' in the Rain (Cantando na Chuva, EUA, 1952), que está completando 60 anos de preferência e referência dos clássicos musicais. É um dos meus preferidos, também. No entanto, quando morava em Brasília, lá pelas décadas de 1970/1980, a capital federal era palco de muitas mostras de cinema. Numa delas conheci a obra espetacular de Norman McLaren (1914-1987) e fiquei maravilhado diante de seu curta-metragem Pas de Deux (1968).

No começo da década de 1990, quando me mudei para Curitiba, assisti ao melhor espetáculo do Ballet Teatro Guaíra, o impactante Treze Gestos de Um Corpo, criado em 1986 pela coreógrafa portuguesa Olga Roriz, que dirigiu a versão paranaense. E vi, acho que na Cinemateca, o perturbador média-metragem que apresentava, na íntegra, o espetáculo Café Müller (1985), a peça coreográfica criada por Pina Bauch, em 1978, sobre os percalços do (des)amor, e que tem na trilha sonora a belíssima ária O Let Me Weep For Ever Weep (da ópera The Fairy Queen), de Henry Purcell (1659-1695). Esta é a mesma dança que abre o filme Fale com Ela (Hable com Ella, 2002), de Almodóvar. É impossível resistir incólume à experiência gestual/auditiva/visual de Café Müller.


Pina é o documentário de Win Wenders sobre (e para) Pina Bausch (1940 - 2009), a bailarina, coreógrafa e diretora do Tanztheater de Wuppertal. Ele não é a cinebiografia de uma precursora da dança contemporânea e tampouco trata da sua morte, aos 68 anos. É sobre o seu fantástico legado. É sobre a vida que partilhou nos palcos com seus bailarinos e o que ficou. É sobre o fazer uma dança que era teatro que era meta fora da dança convencional. É sobre a desconstrução da palavra e do silêncio. É sobre a incomunicação do homem e da mulher e entre eles, cada vez mais cada uns, nos centros urbanos. É sobre um corpo de baile e o corpo dos seus bailarinos intensos e transbordantes. Poucas vezes a palavra foi tão visual.

Win Wenders é autor de um cinema (em movimento) nem sempre acessível ao grande público. A arte de Pina Bausch também não o era. Há em Bausch (e mesmo em Wenders) um inconformismo constante, uma rebeldia à flor da pele, uma necessidade de cutucar o “establishment” cultural, de reencontrar a humanidade no homem. Uma necessidade de discutir o papel do artista e cidadão (ora palco ora plateia). No Brasil dos anos 1970 o genial Gianfrancesco Guarnieri (1934 - 2006) também processou uma nova linguagem dramatúrgica com as suas afiadas alegorias em Um Grito Parado no Ar (1973) e Botequim (1973). No teatro de resistência (que cutucava a todos com vara curta), o seu “assim é se lhe parece” (a situação) foi além da metáfora. Ainda hoje, nos palcos, há muita linguagem de ontem (na dança e na dramaturgia), possivelmente por ser mais contemporânea.


Pina (Pina, Alemanha, França, Reino Unido, 2011) é um filme muito bonito, intenso, cheio de novidades coreográficas para uma trilha fascinante. Um filme-homenagem de Win Wenders e do Corpo de Baile do Tanztheater de Wuppertal à Pina Bausch. Não há um narrador, há apenas pensamentos preenchendo o vazio dos bastidores. São depoimentos emocionados de velhos e novos bailarinos que vão ganhando forma e ganhando graça e ganhando estranheza ao irromper espaços públicos de uma Wuppertal solitária, mecanizada e indiferente à gente que baila na sua periferia.

Essa característica de Wenders, de personagens sempre em movimento (em algum veículo ou a pé) e quando rapidamente “estacionados” em algum local (fechado), um obsessivo aparelho de TV estará (sempre) desligado, aqui ganha um elemento inusitado, mas repleto de significado. Em Pina, onde nem mesmo a expressão silenciosa dos bailarinos é estática, o diretor utiliza um antigo projetor de cinema para mostrar, num palco de teatro e para uma plateia de bailarinos, filmes que registram curiosos momentos da coreógrafa. Wenders agasalha, assim, duas linguagens que ainda se digladiam em seus palcos frios: teatro e cinema.


Pina em 3 D é uma produção que esbanja contemporaneidade. A tecnologia que enche os olhos (e se esparrama pela sala), fascinante na cor, no enquadramento, na proximidade e distanciamento fotográfico, e está a serviço da arte, é mais do que bem-vinda. Mas, verdade seja dita, de nada valeria todo esse aparato técnico se a ideia fosse de meros registros planos das espetaculares remontagens (mesmo que fragmentadas) de Café Müler, A Sagração da Primavera, Kontakthof e Vollmond. Entretanto, tudo isso parece menor diante dos arquivos que mostram Pina Bausch (que diziam ser uma mulher triste) em diferentes momentos de felicidade.

Win Wenders, não abre espaço para a pieguice, nem mesmo neste breve documentário. Sabiamente dispensa discursos críticos de pessoas alheias à dança-teatral de Pina (e “família”), que arrebatou bailarinos mundo afora. O que lhe interessa é a essência de quem vive para dançar e dança para viver. Pina não é um filme-satisfação para a classe de bailarinos e plateia seleta que acreditam em vida inteligente além do ballet clássico, mas um espetáculo para quem gosta de arte além dos rótulos.

segunda-feira, 19 de março de 2012

Crítica: O Lorax: Em Busca da Trúfula Perdida



O Lorax: Em Busca da Trúfula Perdida, é mais uma obra de Dr. Seuss adaptada para o cinema. Você pode até pensar que não sabe quem é este escritor de livros infantis, ilustrador, cartunista estadunidense, cujo nome verdadeiro é Theodor Seuss Geisel (1904 - 1991), mas com certeza conhece (ou ao menos ouvir falar) de alguns filmes adaptados de suas obras infantis: Os 5000 Dedos do Dr. T (1953); O Grinch (com Jim Carrey, 2000), que anteriormente foi um especial animado: O Grinch Que Roubou o Natal (1966), À Procura de Dr. Seuss (1994), O Gato (2003), a animação Horton e o Mundos dos Quem (2008). Ah, O Lorax também ganhou uma versão semi-musical, para TV, em 1972, narrada por Boris Karloff.

Dr. Seuss não se intimidava com temas polêmicos (principalmente nos EUA) que tratava com naturalidade na literatura infantil: preconceito, discriminação racial e social, consumismo, autoritarismo... Ele foi um dos primeiros autores a falar da questão do meio ambiente, ao escrever O Lorax (1971). É claro que nem todas as adaptações para o cinema e TV fizeram o mesmo sucesso que os seus livros. Apesar da preocupação dele, e depois de sua esposa Audrey Geisel, com a trama e a fidelidade da história, tanto a crítica especializada quanto o público (fãs do escritor) não reconheceram o autor nos filmes. O Lorax: Em Busca da Trúfula Perdida também tem dividido a crítica (americana), mas os espectadores estão amando a animação, que realmente é muito agradável.


O Lorax: Em Busca Da Trúfula Perdida (Dr. Seuss' The Lorax, EUA, 2011), dirigido por Chris Renaud (de O Meu Malvado Favorito) e Kyle Balda, é uma divertida animação para ao público infantojuvenil, mas que toda a família poderá ver sem receio de se entediar. É uma história ecológica bacana, com a leveza necessária para a compreensão dos pequeninos, e profundidade suficiente para tocar também os adultos.  Ela fala de poder, ganância, desrespeito ao próximo, à natureza. Tudo começa na literalmente plastificada Sneedville, uma pequena cidade onde as pessoas vivem “confortavelmente” rodeadas de utensílios, plantas, e o que mais se imaginar, feitos de plástico. Um lugar aparentemente muito bonito, higiênico, iluminado.

Ali, neste “aprazível” lugarejo, dominado pelo megaempresário Aloysio O’Hare, começa a saga do adolescente Ted Wiggins, que precisa encontrar uma árvore verdadeira para presentear a garota dos seus sonhos: Audrey. Como as plantas estão extintas em Sneedville, ele pede ajuda à sua avó e acaba conhecendo um sujeito estranho, chamado Umavez-Ido, o único capaz de lhe dizer o que, de fato, aconteceu com todas as árvores e onde encontrar uma. Aos poucos, o garoto conhece a sombria história do ermitão e de como o tal Lerox, “aquele que fala pelas árvores”, passou a fazer parte dela.


Em 2011 tivemos dois exemplos distintos de animações que trataram de temas ecológicos, o belíssimo As Aventuras de Sammy, de Ben Stassen e o tardio e meio equivocado Animais Unidos Jamais Serão Vencidos, dirigido por Reinhard Klooss e Holger Tappe. Em ambos os personagens eram cativantes, mas apenas em Sammy percebia-se a preocupação com a narrativa. O Lorax: Em Busca da Trúfula Perdida, além de um bom roteiro, traz ainda personagens encantadores como os amáveis Barbalutes, os curiosos Cisnes Cismados e os engraçadíssimos Peixes Cantores, que habitam um paraíso ameaçado.

O cinéfilo mais atento verá alguns pontos em comum com o genial WALL.E (2008), de Andrew Stanton, mas acredite, as referências em nada diminuem a sua qualidade. Assim como a vaga lembrança de Fuga do Século 23 (1976), de Michael Anderson. A coloridíssima animação tem muitas canções (a maioria é desnecessária), mas não chegam a incomodar, afinal é uma produção para crianças e crianças adoram música.  Também tem boas piadas e um 3D que impressiona. Não é uma obra-prima, mas garante uma diversão saudável e, sem ser piegas, tecla uma mensagem de urgência na questão ambiental e (se possível!) desenvolvimento sustentável.

Concurso: Titanic 3D



Titanic 3D - Uma Viagem Histórica e Um Concurso Global: “Caixinha das Memórias”

Como parte dos preparativos para a aguardada estreia em 3D, de TITANIC, um dos filmes mais consagrados de todos os tempos, vencedor em 11 categorias do Oscar® incluindo a de Melhor Filme, a Twentieth Century Fox International está lançando hoje um concurso mundial online chamado “Caixinha das Memórias”.Nesse concurso, os usuários de todo o mundo terão a chance de documentar suas memórias de quando viram pela primeira vez este filme especial e contar por que estão ansiosos para revê-lo, desta vez em 3D. Assim que forem enviados para a “Caixinha das Memórias”, os vídeos mais originais e populares, criados pelos fãs, poderão ganhar um prêmio espetacular. 

Os usuários podem descrever sua reação no geral, uma cena específica, ou qualquer outro item que associem à experiência Titanic; eles também terão a oportunidade de expressar sua expectativa para ver o filme em um formato inédito, o incrível 3D, após a película ter sido cuidadosamente convertida quadro a quadro, utilizando-se da mais moderna tecnologia. A “Caixinha” será fechada dia 28 de março e um período de votação de duas semanas se iniciará no dia seguinte.  Os vencedores, que serão escolhidos com base na originalidade e no número de votos que receberem, serão conhecidos dia16 de abril. Os usuários também poderão compartilhar seus vídeos na página de fãs de Titanic no Facebook, onde acompanharão a reação dos amigos a seus clipes.

O concurso será realizado no Brasil, França, Alemanha, Espanha, Suécia, Grã-Bretanha, México, Austrália, Índia, Coréia do Sul e Taiwan.

O relançamento coincide com o centenário do naufrágio do navio e acontece 15 anos depois de Titanic ter se tornado o filme de maior bilheteria de todos os tempos. Titanic, o épico visual inovador e de grande impacto emocional, assinado por James Cameron, volta à telona digitalmente remasterizado e em 3D dia 4 de abril. 

Twentieth Century Fox International é uma unidade da Fox Filmed Entertainment, uma divisão do Fox Entertainment Group. A Dryzun é a parceira da Fox no patrocínio deste evento especial.

Divulgação: Release Espaço/Z

quarta-feira, 7 de março de 2012

Crítica: John Carter: Entre Dois Mundos



O título composto é meio vago: John Carter: Entre Dois Mundos. Quem, digamos, com menos de 50 anos e ou que não curte histórias em quadrinhos (ou pulp-fitcion sci-fi) conhece John Carter? Bem, essa questão não pareceu ser um empecilho para a Disney apostar alto (dizem que US$ 250 milhões) no premiado diretor Andrew Stanton e no personagem criado por Edgar Rice Burroughs (autor de Tarzan, esse todo mundo conhece) há cem anos. A história escolhida para esta primeira adaptação (que deve virar franquia) é A Princess of Mars (Uma Princesa de Marte) e foi publicada em 1917.

Uma Princesa de Marte é um título inédito apenas no cinema, porque foi lançado diretamente em vídeo, em 2009, algo próximo de um filme (abaixo de qualquer crítica) com o título quase homônimo: Princess of Mars. Esta “maravilha” (que precisaria melhorar muito, para ser considerada ao menos trash), escrita, dirigida, fotografada, editada etc por Mark Atkins, especialista em mockbuster ou knockuster (da Asylum): “filmes de imitação”, para pegar aquele espectador (nem sempre) trouxa que pensa estar levando vantagem ao comprar (barato) lebre por gato. No Brasil tem uma loja/locadora muito popular que costuma vender essas tranqueiras a preço irrisório. O mais irônico é que esses filmes (falsos) que se aproveitam dos títulos (nem sempre parodiando os roteiros) de prováveis blockbusters, feitos a toque de caixa, com baixíssimo orçamento, e lançados próximos aos originais, com a intenção de confundir o freguês, até fazem sucesso. Alguns se tornam até cult trash. Na internet muita gente baixa um pelo outro..., e ainda reclama da “qualidade”. Mas esse não é o caso do fake John Carter, de Atkins, que parece ter aproveitado as sobras de clássicos como Simbad e Planeta dos Macacos; de épicos greco-romanos; de Star Wars e O Vingador do Futuro; de Guerra ao Terror..., para “adaptar” a HQ John Carter of Mars - The Prisoner of the Tarks, de 1952. Como nos EUA o título da Disney é John Carter e no Brasil é John Carter: Entre Dois Mundos..., o tal Princess of Mars, cujo protagonista (Antonio Sabato Jr.) é teletransportado para Marte, via pen drive, acaba se passando por uma produção original. Ah, a “princesa” é “interpretada” pela ex-estrela pornô Traci Lords, em trajes sumários e com cara de melão.


De volta ao que realmente interessa, John Carter: Entre Dois Mundos (John Carter, EUA, 2012), é uma boa e tradicional produção da Disney para o deleite da família unida. Asséptico, como convém aos atuais filmes norte-americanos destinados ao público infantojuvenil, quase sem (o “traumático”) sangue vermelho, a ficção científica tem aventura, ação e efeitos especiais (de primeira) suficientes para entreter a garotada e seus acompanhantes adultos. A livre adaptação, com roteiro de Stanton, Mark Andrews e Michael Chabon, está próxima do romance de Edgar Rice Burroughs (1875 - 1950). Ela narra a grande aventura do ex-capitão militar John Carter (Taylor Kitsch) que, cansado de guerra entre brancos e índios e soldados, ao tentar se isolar do conflito, é inexplicavelmente transportado para Marte. Lá, por conta da gravidade, ele acaba ganhando incríveis habilidades, aprende que o nome do planeta é Barsoom e, a contragosto, se vê metido numa guerra entre os povos Tharks, Heliumites, Zodangans e Therns, pela soberania do planeta.

O bacana, ao contar a história de Carter em Marte ou Barssom, é que o genial Burroughs não se preocupou com a “veracidade” científica. O que lhe interessava era inventar, dar asas à imaginação, fazer o incrível parecer crível..., pelo menos para o leitor acostumado a fantasiar sobre a vida na Terra e em outros mundos. O que Andrew Stanton faz, em sua estreia com live-action, é a mesma coisa. O espectador de filmes do gênero e leitor de HQs, antenado com o mundo ao seu redor, vai achar que já viu (em algum lugar) situações em comum. Mas é bom que se diga que a maioria dos heróis, tipo Flash Gordon e Buck Rogers, passando pelos alucinados super-heróis e chegando a Indiana Jones, Jedi (Star Wars) e congêneres, foi inspirada na obra de Burroughs. Nem Avatar escapa. Assim, se o público “acredita” nesses heróis, não vai ter por que duvidar do “pacifista” John Carter e o seu curioso passeio por Marte, entre tipos estranhos e “navios” voadores.


Stanton procurou filmar em paisagens reais, desérticas, para dar mais veracidade à história. A técnica empregada na criação dos cenários e personagens não humanos, como os esverdeados Tharks, de três metros de altura, quatro braços e cabeça de lagarto, é fantástica. Porém, quem rouba a cena é o cachorrão Woola, que tem em Carter o seu mestre. Ele parece ter saído diretamente de um desenho animado para o solo arenoso de Barsoom. Se fosse de verdade e estivesse à venda, dificilmente se encontraria algum para comprar. Os Tharks são os primeiros habitantes locais a surpreenderem John Carter, desnorteado e encantado com as suas habilidades. É através de Tars Tarkas (Willem Dafoe, excelente), o Jeddak (rei) dos Tharks e Sola (Samantha Morton, excelente) que o terráqueo vai se situar naquele estranho mundo.


Antes que você pense que os “marcianos” aprenderam a falar inglês por osmose (naquele tempo ainda não existia TV e o rádio engatinhava), saiba que o método é outro, não sei se mais fácil de engolir (ôps!), mas eficientíssimo. E é menos escatológico, mas parecido com o mostrado no filme de Atkins que, aliás, tem uma outra curiosidade, a máquina de “fabricar oxigênio”, que apareceu em O Vingador do Futuro, e nem é citada nesta versão Disney, mas está na história de Burroughs. Tudo bem que um filme não precisa explicar tudo (como a luz acende e como o avião sabe voar, como dizia Raulzito), mas seria interessante dar uma noção de como Carter e os locais respiram. Detalhes!!!

Se ao chegar o terráqueo dá de cara com os tribais Tharks, ao conhecer a bela Dejah Thoris (Lynn Collins) a princesa de Helium e os intrigantes e belicosos Sab Than (Dominic West), o Jeddak (rei) de Zodanga, e Matai Shang (Mark Strong), o Holy Hekkador (rei) dos Therns, povos semelhantes aos humanos, John Carter entra em contato com uma tecnologia fascinante. Uma maquinaria maravilhosa que remete o espectador ao mundo das engrenagens de Julio Verne. Plasticamente o filme é irretocável e a mistura do visual contemporâneo com o antigo lhe dá um sabor todo especial. É evidente que o resultado não poderia ser diferente tendo na direção um mestre da animação em CGI.


John Carter: Entre Dois Mundos é um filme leve no humor e também na abordagem dos conflitos políticos, sociais e raciais interplanetários. A narrativa se desenvolve no ritmo em que Edgar Rice Burroughs (Daryl Sabara), sobrinho de Carter, lê o seu livro de anotações. Ela não dá lição de moral e não (?!) tem mensagens edificantes piegas. Até tem, mas é tão subliminar que não chega a incomodar. John Carter é um personagem humano que vive uma aventura (que qualquer um gostaria de viver) e gosta dela. O que ele faz (bem ou mal) é mais pela sua sobrevivência de aventureiro. Não é um filme de todo perfeito, tem, é claro, sequências questionáveis por um ou outro ponto de vista (e de leitura), mas é delicioso de se ver. Passa rapidinho e pouco fica na memória, além do Woola..., e nem precisa. Tem uma cena de flashback condenável (saída de Cowboys & Aliens?), perdida no meio de bucólicas outras, mas também passa batida. Quem conhece os personagens e as histórias pode sentir falta “disso” ou querer mais “daquilo”, mas a trama é redondinha, com começo, meio e fim, o que já é uma grande coisa num tempo em que as grandes produções se preocupam mais com os efeitos (3D IMAX) do que com o roteiro. Em caso de franquia, os realizadores vão ter muito tempo para revirar o baú da Marvel Comics e ver o que encontra de “novo” por lá.

NOTA: Se quiser conhecer o fantástico mundo de Edgar Rice Burroughs, sugiro visitar o site ERBzine. Lá se encontra o maior acervo da internet sobre John Carter: HQs, ilustrações, desenhos, artigos, estudos, prévia da animação de 1936, de Bob Clampett (que não chegou a ser realizada). O material disponibilizado está em inglês.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Crítica: Drive


Drive (Drive, EUA, 2011), de Nicolas Winding Refn, é um dos filmes mais econômicos (em verba e verbo) da temporada. Pelo menos na primeira parte, já que na segunda, as imagens de violência são mais gritantes que qualquer diálogo de ocasião. O thriller, baseado no livro homônimo de James Sallis  e com roteiro de Hossein Amini, tem intrigantes planos longos e silêncios perturbadores, bela e discreta trilha sonora (ou algum ruído musical), características do jovem diretor dinamarquês, que não abre mão da (gratuita) violência explícita, explorada de forma radical no estranhíssimo (e Dogmático!) Valhalla Rising (2009), cujo protagonista é mudo e os coadjuvantes mal abrem a boca. Outra curiosidade é que há uma inversão de ação e reação entre os dois, a sanguinolência que principia em um, conclui (parecida: dilacerações, cabeça arrebentada, vísceras expostas) no outro. Valhalla termina metafísico, e Drive começa introspectivo.

2011 foi um ano de homenagens ao cinema mudo e de protagonistas monossilábicos, feito o driver (Ryan Gosling) de Drive. Ele, no melhor estilo James Dean, não tem passado (que se saiba), seu presente é quase de total ausência e seu futuro uma corrida de surpresa. Pode se dizer que o sujeito (que entra em cena praticamente mudo e sai calado) é um “motorista de horas vagas”. Ou melhor, que ele é mecânico, mas também motorista-dublê de filmes de ação e motorista-cúmplice de marginais que cometerem os seus crimes em 5 minutos. Hábil no volante e nos disfarces, no entanto, ao se envolver cordialmente com a garçonete Irene (Carey Mulligan) e seu filho Benício (Kaden Leos) e com Standard Gabriel (Oscar Isaac), o marido dela, a sua vida, pautada pela discrição, começa a borbulhar mais que água no radiador. Seja por instinto paternal e ou necessidade familiar (algum trauma?), o driver se vê obrigado a deixar de ser uma sombra esquiva (um dublê na vida e na arte), quebrar as suas próprias regras e afrontar quem quer ferrar o seu parachoque amigo.


Drive é um filme que começa muito bem e muito bonito. Seu drama minimalista e envolvente, em tudo (diálogo, fotografia, enquadramentos, trilha, personagens), lembra o bom cinema europeu. As interpretações são magníficas. São muitas a leituras possíveis sobre a solidão, a espera, a amizade, a inocência, as escolhas, as máscaras de cada um. Mas, de repente, Refn parece acordar de um ótimo sonho para reconhecer (?) que a trama é “romântica” demais, não é desastrosa, não é americana, não vai atingir o seu público fiel, e, então, trata logo de furar o carburador narrativo. Ai, a excelência vaza fluidos por todos os buracos, até terminar numa sequência (premonitória?) popularizada pelas recentes produções do Sherlock Holmes. Assim como nas aventuras do famoso detetive inglês, o futuro de driver torna-se previsível. O melhor seria que não!

Drive acontece conforme a expectativa e o envolvimento do espectador com a história simples (mas contundente) e ou com seus dramáticos personagens fora de compasso, quase vegetativos. Os que gostam do bom cinema vão preferir a primeira parte. O mais chegados na gratuidade da ação-clichê vão se extasiar com o motor envenenado da segunda. A injeção de adrenalina aqui não tem a ver com a correria automobilística costumeira do cinema norte-americano. Pois, mesmo se tratando de um vingativo driver (que ironia!), a violência é, digamos, mais privada (... é melhor viver dez anos a mil, do que mil anos a dez/decadence avec elegance, já dizia o Lobão). Nicolas Refn é tão talentoso que tropeça..., mas não cai.
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