terça-feira, 24 de julho de 2012

Crítica: Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge



Batman é um personagem de histórias em quadrinhos que conheço e gosto desde criança, ainda das edições EBAL. Um herói que, assim como seus companheiros de “luta contra o crime”, já viveu bons e maus momentos nas mãos de roteiristas e desenhistas. No cinema e na televisão não é diferente.

Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge (The Dark Knight Rises, EUA, 2012), de Christopher Nolan, chega para fechar a mais recente trilogia e já deixando alguns breguetes para uma próxima franquia do Homem-Morcego, que deve recomeçar em breve. O roteiro é fraco e pouco inventivo, óbvio e com cara de “eu já vi isso!” (se tiver boa memória vai enumerar também Tim Burton e o seriado pop da TV, de onde foi homenageado - ou seria plagiado? - a sequência da bomba). O drama de ação sem sangue e sem trauma (com uma ou outra piadinha boba) traz a público o pior (?) pesadelo de Batman, o psicopata dos psicopatas: Bane, o menos carismático vilão das HQs e, agora, no cinema, também o mais mala de todos.


A história começa oito anos após Batman fazer um trato com o Comissário Gordon (Gary Oldman), assumir a morte do defensor público Harvey Dent e “desaparecer” de Gotham também como Wayne. O Cavaleiro das Trevas acreditava que uma mentirinha (sem grandes consequências) era tudo o que a sua cidade precisava para executar a Lei Dent e acabar com as atividades criminosas em seu território. No entanto, quando todos os problemas para um claudicante e recluso Bruce pareciam estar resolvidos, eis que aparecem a Mulher-Gato, uma bela ladra e Bane, um louco (com uma máscara a lá serial killer Hannibal Lecter e Predador) desafiando a sua aposentadoria. Mesmo fora de forma ele não é herói de recuar e tampouco de recusar ajuda do bem intencionado e íntegro policial John Blake (Joseph Gordon-Levitt).

Bane (Tom Hardy, arrebatador em Bronson) é tão caricato quanto o personagem, um terrorista metido a revolucionário (com ideias socialistas) que só pensa no bem dos pobres (acredite se quiser!). Ô dó! Mas ele não está sozinho nesse devaneio, outro personagem com ideias comunistas em proveito próprio é (quem diria?) a Selina Kyle/Mulher-Gato (Anne Hathaway), e ambos vão enfrentar um já não tão astucioso Bruce Wayne/Batman (Christian Bale). Os discursos de Bane e Kyle para salvar Gotham City dos corruptos beiram o ridículo, vindo de quem vem. Ah, esses órfãos (sem revolução) de 10.9 e Wall Street e suas lágrimas de crocodilo! Ah, que saudade da Michelle Pfeiffer! Neste fim de saga os interesses “românticos” (sem nenhuma química, mas com uns dois beijinhos explícitos) do Homem-Mornocego, digo, Morcego, ficam por conta de Selina e de Miranda Tate (Marion Cotillard), uma rica filantropa e diretora das Empresas Wayne.


Confuso e prolixo, Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge é o mais fraco dos três filmes de Nolan, mas deve agradar aos fãs (menos exigentes!) do diretor que, com certeza, nem se importarão com a narrativa queijo suíço e personagens pouco convincentes. Falta veracidade, desejo, tesão ao inexpressivo Bane e a caras e bocas Mulher Gato. Eles parecem duas pessoas fantasiadas e prontas para entrar num ringue de Lucha Libre Mexicana. O filme, que está mais para o drama do que para a aventura e mais para a reflexão do que para a ação, não passa de uma promessa com esperado e pífio final. Se a primeira parte desperta algum interesse, a segunda banaliza até o próprio conceito do cinema convencional. Talvez a mesmice seja para não dispersar (e assustar) o público adolescente que só conhece o Batman do cinema e dos animes da TV.

Entre outros pontos fracos estão a previsibilidade das ações (clichês) e as sequências (ruins) de luta (bate um pouco e apanha um pouco - repete!).  A Mulher-Gato em "ação" parece um stop motion com mais stop do que motion. Ou seja: faltam frames (fotogramas), ela insinua um movimento e, num passe de mágica, ele já aconteceu e a gente nem viu. As cenas congeladas do público no estádio são risíveis. E o desfecho da "luta" entre Batman e Bane deve ter sido dirigido por algum assistente, enquanto Nolan tirava um cochilo. O bom é que o espectador foi poupado do indefectível clichê-chuva em momentos dramáticos. O excesso de personagens coadjuvantes e sequências que acrescentam nada ao drama incomodam e atravancam o ritmo. Como os efeitos especiais não são dos melhores, os defeitos aparecem e são ressaltados pela trilha não vai além do lugar comum. Quanto ao final, o Batman jamais faria tal sandice nolanóide de abandonar "tudo" (ao Deus dará das HQs) por um deleite num caffè. Um caça-níquel só pra cumprir contrato!

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Crítica: Valente



Valente é um conto de fadas ambientado nas míticas Highlands da Escócia. Ele fala das inquietações juvenis da adolescente princesa Merida, uma eximia praticante de arco e flecha, que adora a vida ao ar livre. A garota é o orgulho do pai, o falastrão Rei Fergus, um guerreiro que não se cansa de contar, principalmente aos filhos gêmeos idênticos, Harris, Hubert e Hamish, os seus feitos heroicos. Mas é fonte de preocupação para a sua mãe, a elegante Rainha Elinor, que tenta lhe ensinar “bons modos reais”. Todavia, ao descobrir que está sendo preparada para se casar com o corpulento e tímido Jovem MacGuffin, que fala um dialeto incompreensível, ou com o desengonçado Pequeno Dingwall, ou ainda com o esperto Jovem Macintosh (homenagem ao gênio Steve Jobs), Merida acaba agindo impulsivamente, colocando todo o Reino em perigo. Somente ela poderá restabelecer a ordem, mas terá que correr contra o tempo, se quiser provar a sua valentia.


Com roteiro e direção de Brenda Chapman (Príncipe do Egito, 1998) e codireção de Mark Andrews (também roteirista), Valente é uma animação de encher os olhos e alma. O argumento é bacana, o roteiro é ótimo e os desenhos fascinantes. A direção feminina dá à narrativa um sabor feminista (com responsabilidade!) e faz da protagonista uma das mais adoráveis heroínas do cinema. Mas que fique claro para os meninos que, com certeza, vão se se amarrar na linda e selvagem ruiva Merida, aqui não tem espaço para pieguice ou barbiece. Afinal, trata se de uma apaixonante garota com ideias próprias sobre independência e liberdade de escolha, inclusive, amorosa, numa Escócia cheia de mitos e lendas. O bom humor, típico em filmes de guerreiros falastrões, é claro, fica por conta dos barulhentos personagens masculinos (nada de revanche!) sempre prontos para uma boa briga (as sequências são realmente hilárias!) onde vale tudo e o kilt ganha uma serventia extra. Ah, para os mais jovens, a garantia do humor infantil está nas travessuras dos (insaciáveis) trigêmeos ruivos, que aprontam todas dentro e fora do castelo.

  
Quando se trata de uma produção da Disney, todo mundo sabe que, impreterivelmente, vai ter alguma música e mensagens edificantes. Porém, na parceria coma Pixar, esses dois quesitos sofreram alguma alteração. O filme tem uma boa trilha, com belos motivos escoceses, composta por Patrick Doyle (Razão e Sensibilidade), mas as canções (temas) perderam a força e a magia na versão dublada. Quanto às mensagens sobre anseios juvenis, elas estão lá, porém discretas (sem maniqueísmo), em meio a cenas de aventura e ação, em diálogos (nada pueris, entre pais e filhos) sobre a liberdade, tradição, modernidade, direitos e deveres, pois, como diz a heroína Merida: “Há os que dizem que nosso destino está ligado a terra como uma parte de nós, pois somos parte dela. Outros dizem que o destino é entrelaçado como um tecido, de modo que o destino de um se interliga com os de muitos outros. É por isso que procuramos ou lutamos para mudar. Alguns nunca encontram. Mas há os que são guiados.”


Assistir ao encantador Valente (Brave, EUA, 2012) é uma oportunidade duplamente prazerosa. O longa que, além do deslumbrante apuro técnico em 3D, preza e presenteia os espectadores com um excelente conteúdo, é precedido pelo maravilhoso curta La Luna, uma preciosidade para se aconchegar na memória e resgatar sempre que possível. Esta graciosa fábula, dirigida por Enrico Casarosa, narra a iluminada descoberta de Bambino na primeira noite em que sai num bote, rumo ao mar, na companhia do Papa (pai) e do Nonno (avô), para uma inusitada jornada de trabalho. Portanto, não chegue atrasado! Ah, se tiver paciência de esperar o fim dos créditos de Valente, também terá uma surpresa à sua espera!

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Crítica: Para Roma Com Amor



Quem é mestre não perde a o senso de direção mesmo dirigindo em terras estrangeiras. Nos últimos anos, a cada nova obra, os detratores de Woody Allen têm caçado uma chance de espinafrá-lo por filmar (com a mesma categoria) na Europa que lhe garante condições (verba) de trabalho. Entre tantas bobagens dizem até que só faz filmes turísticos. Quem dera todos os filmes turísticos (de agência de publicidade e ministérios assemelhados) tivessem a mesma qualidade de argumento, roteiro e elenco que ele reúne ao seu redor.

Não creio que tenha algum filme de Allen que realmente não goste, apesar de apreciar uns mais que outros. Gosto de Match Point (2005), acho fantástico Tudo Pode Dar Certo (2009) e fascinante o Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos (2010). Adoro Meia-Noite em Paris (2011) e amo Vick Cristina Barcelona (2008), um dos filmes mais sensuais (e excitantes) da história do cinema. Em Para Roma Com Amor (To Rome With Love, EUA, Itália, Espanha, 2012), Woody Allen continua excelente diretor e contador de histórias tão possivelmente reais de gente como a gente (ou nem tanto) sempre complicando as relações humanas, para divertir (ou seria advertir?) o espectador.


No belo cenário “teatral” de Roma acontecem quatro ótimas histórias, com roteiros e tempos diferentes, que não se cruzam em nenhum momento. As mais divertidas são as protagonizadas pelo próprio Allen e por Roberto Benigni. Na primeira, Woody é Jerry, um aposentado produtor musical estadunidense (de ideias avançadas e gosto duvidoso) que vai à Roma, com a mulher Phyllis (Judy Davis), conhecer Michelangelo (Flavio Parenti), o noivo romano de sua filha Hayley (Alison Pill), e acaba descobrindo o talento lírico (de chuveiro) de Giancarlo (Fabio Armiliato), o pai de Michelangelo. É claro que Jerry não vai perder a oportunidade de tentar transformar o tímido e nada ambicioso agente funerário em um cantor de sucesso. Por conta dessa ideia maluca ele compra briga com a família inteira e o resultado desse embate ítalo-americano é coisa de gênio! É puro nonsense!

Na segunda história Leopoldo (Benigni), um inexpressivo executivo que é transformado sem qualquer razão, em celebridade instantânea. O sujeito vive o céu e o inferno tentando entender, atender e se desvencilhar de repórteres e paparazzis, a serviço de grandes mídias (televisão e jornais), que ficam feito moscas varejeiras ao seu redor, à espera de alguma declaração idiota. Na terceira história Jack (Jesse Eisenberg) é um jovem norte-americano que vive em Roma com Sally (Greta Gerwig), encontra um “grilo-falante” na pessoa do misterioso conterrâneo arquiteto John (Alec Balwin), que palpita o tempo todo sobre o envolvimento dele com Monica (Ellen Page), uma (dissimulada) amiga de sua namorada e que está de passagem pela cidade.


A quarta história é uma singela homenagem ao mestre Federico Fellini e o seu primeiro filme autoral: Abismo de um Sonho (1952), que vim conhecer há uns cinco anos. Nesta “releitura” encontramos os recém-casados Antonio (Alessandro Tiberi) e Milly (a bela Alessandra Mastronardi), em viagem à Roma para encontrar uns parentes ricos e conservadores e, de quebra, descolar um bom emprego. Pelo menos esse era o plano do jovem casal, até Milly (cabecinha de vento) insistir em procurar um cabeleireiro e se perder pelas ruas da Cidade Eterna e Antonio se meter numa grande confusão com Anna (Penélope Cruz), uma fogosa prostituta que entra por engano no seu quarto.

São narrativas curtas, inventivas, divertidas e românticas onde sobram alfinetadas saborosas para as mídias e suas invenções de celebridades instantaneamente imbecis, e para os produtores e diretores que adoram montagens espetaculosas (e ou incompreensíveis) de óperas e ou de clássicos do teatro universal. Woody Allen nunca perde um diálogo ao criticar as “comodidades” políticas, sociais, religiosas, artísticas. Ele é impar em falar de relações amorosas e sexuais, paranoicas e ou não, deixando claro que, parafraseando um personagem: quando menos se espera, a ocasião faz o tesão. O homem é uma mesa farta de idiossincrasias, mas poucos sabem servi-las tão bem quanto Allen.

O elenco garante a qualidade do espetáculo. Quem conhece a obra do mestre sabe o que esperar e, se por qualquer razão incompreensível não gostar, pelo menos vai fazer um maravilhoso tour por Roma, embalado por marcantes canções italianas.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Crítica: Na Estrada



On the Road, de Jack Kerouac, é um romance cult, um bíblia de bolso, digamos, para toda uma geração que nos anos 1960 caia (literalmente) na estrada em busca de novas experiências e (com e sem desculpas ou culpas) de si mesma. Se na literatura, destacam-se Kerouac (1922 - 1969) e o seu On the Road (Pé na Estrada, 1957); Allen Ginsberg (1926 - 1997) com Howl (Uivo, de 1956); William Burroughs (1914 - 1997) e o Naked Lunch (Almoço Nu, 1959); no cinema a grande marca da contracultura que ensaiava se espalhar mundo afora, foi, sem dúvida, o antológico road movie Easy Rider (Sem Destino, 1969), de Dennis Hopper (1936 - 2010).

Falar de On the Road, e ou da tal geração beat (não confundir com beatnik), cinquenta anos depois, soa mais como curiosidade histórica sobre alguns autores americanos que nos anos 1950/60 “contestavam” o American Way of Life estabelecido, mas que tiveram o seu próprio American Way of Life “incorporado” pelo sistema. Não é possível nem falar em alegoria, já que os atos (egoístas e egocêntricos) dos personagens transcendiam uma “espontaneidade” (ou seria conivência?) calculada, útil enquanto interessasse uma “certa vivência” para o “desenvolvimento” intelectual. Também conhecido como vampirização energética. Quem viveu em comunidade sabe do que se trata. Ou seja, se hoje (muita gente) viaja na maionese, naqueles idos o tranco da estrada era a tríade: drogas, sexo e literatura, embalada pela música do improviso: jazz.


Na Estrada (On the Road, França, EUA, Brasil, 2012), de Walter Salles, baseado no roteiro de José River (Diários de Motocicleta), pretende-se uma adaptação fiel, porém livre, da obra homônima de Kerouac. O romance (autobiográfico) de aventura conta a história do jovem escritor Sal Paradise (Sam Riley), que conhece o carismático rebelde (e aprendiz de marginal) Dean Moriarty (Garrett Hedlund, excelente!), e a sua tresloucada companheira e amante adolescente Marylou (Kristen Stewart), na companhia de Carlo Marx (Tom Sturridge). Apesar de formarem um “quarteto” de desejos não muito coesos, ou melhor, nem sempre saciados, e interesses em comum, apenas Sal (ou Kerouac), Dean (ou Neal Cassady) e Marylou (ou LuAnne Cassady) vão para a estrada “em busca” de inspiração, “experiência” e do próprio destino (ou para simplesmente curtir a vida, mesmo!), partilhando momentos (de depressão, amizade, sexo e solidariedade) com Old Bull Lee (Viggo Mortensen), inspirado em William S. Burroughs, com Camille (Kirsten Dunst), que seria Carolyn, a segunda mulher de Neal, e com o (aqui) “inconveniente” e inspirado Marx (ou Allen Ginsberg).

Na Estrada é um longo longa-metragem (136 min!) que requer muita paciência (mesmo!) do espectador, principalmente daqueles que não conseguirem se conectar com os personagens e ou com a narrativa lenta que, assim como o livro, é fragmentada e datada. Emoldurado pela belíssima fotografia detalhista de Eric Gautier, o filme caminha (ou se arrasta?) meio a esmo, sem uma estrutura dramática, um foco que prenda a atenção, que tire o espectador da passividade e da impressão de estar lendo (por falta de opção) uma notícia velha e nada atraente. Como não há um detalhamento, um aprofundamentos dos impulsivos personagens, pressupõe-se que o público saiba quem é quem (fruto ou não de inspiração real) e ponto final. E ou que vá ler o livro após a sessão e descubra o que há além das drogas, sexo e álcool, na desregrada vida estradeira pelos EUA dos anos 1940/50, segundo Kerouac.


Na verdade, este distanciamento, essa frieza do olhar, que se observa na trama, é uma característica de Salles em todos os seus mais e ou menos road movies e com resultado discutível: Terra Estrangeira (1996), Central do Brasil (1998),  Abril Despedaçado (2001), Diários de Motocicleta (2004). O enredo de Na Estrada, apesar de outra base, lembra uma estripulia crônica do gonzo Hunter Thompson (1937 - 2005), visto recentemente no tolo O Diário de um Jornalista Bêbado, dirigido por Bruce Robinson. O particular em ambos é que, ao final, já indiferente com o destino dos enfadonhos drogados estadunidenses (com sua tradicional prepotência em Porto Rico ou no México), “loucos” para vencer o tédio, a gente se pergunta: e daí?

Na busca da essência da obra de Kerouac, datilografada furiosamente em 36 metros de folhas de papel (emendadas pelo autor), em três semanas do mês de abril de 1951, muita coisa ficou para trás. Afinal, On the Road é um livro mais apropriado a dar asas à imaginação do que à redundante ilustração cinematográfica. Portanto, o risco de faltar algo na passagem e na paisagem do leitor é grande. Em sua leitura (essencial?) Walter Salles conta a história do viajante (e conservador) Kerouac de forma tão certinha (e moralista) que até as cenas de simulação sexual são broxantes. Optando (?) por uma linha narrativa mais deprê, sem espaço para humor e ou qualquer tipo de obstáculo mais convincente, a viagem “turística” dos garotos brancos parece fácil demais num país racista feito os EUA. Algumas sequências meio soltas, e sem sentido, também colaboram para o desconforto dos personagens e do espectador. É tudo OK! demais, até mesmo os “pequenos” furtos.


Na Estrada deve despertar o interesse de estudantes de literatura norte-americana contemporânea e daquele público (sessentão?) que de alguma forma viveu uma “rebeldia” parecida ou sentiu (mas não teve coragem) de um dia cair na estrada para expandir os seus conhecimentos. Hoje os tempos são bem outros, e as pessoas estão mais ligadas na liberdade vegetariana que na radical macrobiótica, mas sempre tem algum maluco esperando (ou tentando fazer) a oportunidade de dar adeus à burguesia e sair marijuanando por aí. Será?! Para compreender um pouco melhor a chamada geração beat, sugiro (como complemento a este On the Road on the rock) o fascinante filme Uivo (Howl, 2010), de Rop Epstein, que através de múltiplas mídias, trata do processo criativo do famoso poema homônimo de Allen Ginsberg e do inusitado e polêmico julgamento do livro Howl, por ser considerado obsceno.

terça-feira, 3 de julho de 2012

Crítica: O Espetacular Homem Aranha



Esqueça tudo (ou quase) que você sabe sobre o Homem Aranha. Esqueça o que já leu em HQs e o que já viu na telona e na telinha. Ah, não esqueça de esquecer também o simpático Tobey Maguire (o ex-super-herói aracnídeo).  Só assim é possível se divertir além da impressionante tecnologia 3D, que é (bem) capaz de surpreender mais espectadores que o jovem Espetacular Homem Aranha na pele do magriça Andrew Garfield. Só para não perder o balão do diálogo, se antes a controvérsia era sobre os criadores do Homem Aranha: Stan Lee, Jack Kirby e Steve Ditko? ou Jack Kirby e Joe Simon? ou Joe Simon e C.C. Beck?; a fonte de origem: a pulp The Spider  (O Aranha) ou a HQ Silver Spider (Aranha Prateada)?; e o título inicial: Spiderman  ou Spider-Man?; agora o maior rebu (na rede) é sobre a necessidade deste  reboot.

Será que o conselho do Tio Ben (de Parker) "Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades", também serve para os grandes estúdios, produtores e realizadores em geral que parecem não se cansar de contar e recontar (de maneiras diferentes) histórias de alguns populares super-heróis? Se bem que, contar e recontar (com variações) até mesmo a “origem” de alguns super-heróis (confundindo leitores, espectadores e até mesmo os ditos cujos heróis, o Batman que o diga!) não é “privilégio” apenas do cinema. As portas dos armários estão escancaradas nos gibis. Vale tudo liberou geral! Para mim a gota d’água (demorou!) se deu com a abominável série Crise nas Infinitas Terras DC (1985-1986). Decididamente parei de tentar entender (sem sucesso!) o Universo DC e Marvel. E nos cinemas procuro não me estressar mais com as (re)versões do Universo das HQ e ou sequer Paralelo. Aliás, já falei disso por aqui!


A trama de O Espetacular Homem Aranha, que pode ser dividida em três partes, começa com um prólogo de apresentação: o Parker (Max Charles), aos 4 anos, depois de um estranho acontecimento, sendo deixado pelos pais, Richard Parker (Campbell Scott) e Mary Parker (Embeth Davidtz), aos cuidados de Tio Ben (Martin Sheen)  e Tia May (Sally Field); na sequência, o Peter Parker (Andrew Garfield) adolescente nerd, fotógrafo e eskatista enfrentando (na escola) o troglodita Flash Thompson (Chris Zylka) que, assim como na franquia anterior, ainda não disse a que veio; e, daí, a aproximação com o seu objeto de desejo romântico Gwen Stacy (Emma Stone, linda!) e seu objeto de pesquisa Dr. Curt Connors/Lagarto (Rhys Ifans). Na segunda parte o garoto aprende a lidar com seus poderes (caça bandidos e foge da polícia) e descobre uma misteriosa ligação entre o seu pai e o Dr. Connors, e também tenta “ficar” com Gwen. E, finalmente!, na terceira e melhor parte, mais ou menos uma hora depois desses eventos, a ação, propriamente dita, com a caça ao monstro dos esgotos: O Lagarto, que resulta em pelo menos uma piada antológica sobre Tóquio. O ataque do Lagartão à escola de Parker é muito divertido, é um misto de filme B e trash japonês..., aí você vai entender a piada sobre Tóquio. Outro momento muito bacana, e que seria muito melhor sem a música grudenta, é o das gruas na 7ª Avenida.


Escrito por James Vanderbilt e dirigido por Marc Webb (do excelente 500 Dias Com Ela), O Espetacular Homem Aranha (The Amazing Spider-Man, EUA, 2012), agora magrinho, como imaginou (?) o desenhista Steve Ditko, é um filme com chances de agradar mais ao público jovem (meninos e meninas) do que ao adulto. Excetuando a rapidíssima introdução (e participação) dos pais de Parker, ele não foge muito ao novo padrão de HQs via cinema (ou seria o contrário?): algum humor, algum romance, algum monstrengo de plantão e a tradicional pancadaria (agora) sem sangue (explícito). A narrativa parece não ter pressa em contar uma velha nova história, lá do tempo em que o aracnídeo era um fotógrafo amador e nem sonhava com o Clarim Diário. Ela demora um pouco para engatar, reapresentando, mesmo que superficialmente, um ou outro personagem, mas depois oferece uma viagem alucinante por terra, ar e subterrâneos de NY. Todavia, o esperado romance “caliente” entre Parker e Gwen (a namorada protagonista que não deve morrer nesta franquia) vai ter que esperar a (con)sequência, já que, aqui, não passa de uns morninhos beijinhos fugidios.


É difícil vencer a tentação e não comparar O Espetacular Homem Aranha com a franquia anterior (por conta de alguns pontos em comum), ou ao menos as performances de Maguire e Garfield. É claro que esse quesito tem mais a ver com a direção e o enfoque do roteiro. Acho que fiquei mal acostumado, prefiro o aracnídeo simpático, alegre, brincalhão de Maguire, ao aracnídeo tímido, desengonçado e triste de Garfield. O espectador e fã de HQ vai notar a mudança de comportamento de Gwen, agora muito mais responsável (para quem tem apenas 17 anos?), e ver que o vilão que atacou o Capitão Stacy (Denis Leary) é outro. Enfim, coerência é o que menos deve se esperar de adaptações de quadrinhos. Cada autor e ou diretor é livre (?) para fazer a leitura que quiser do capítulo que lhe interessar. Quanto ao leitmotiv de Parker (abandono e descaso) e ou de Connor (amputação e ética) cabe ao público decidir se os fins justificam (mesmo) os meios. Ou talvez nem precise se dar o trabalho, o mea-culpa dos personagens já é o suficiente.


O Espetacular Homem Aranha é um bom entretenimento, um filme para se ver como se lê uma HQ, com momentos mais e ou menos inspirados. Se o roteiro não vai muito além da mesmice do gênero, também não compromete o deslumbrante espetáculo visual em 3D (de profundidade). As sequências de voo do Aranha, muito bem desenhadas, são de arrepiar, valem cada centavo. Parecem quadros de um gibi com movimentos em 3D. Tecnicamente fascinante, mas dispensaria, tranquilamente, a música lagrinojenta embalada para momentos tristes e trágicos, bem como o indefectível clichê da chuva. O elenco é bom e se esforça na naturalidade (coisa rara). Agora é esperar para ver como serão amarradas as pontas que ficaram soltas e quem é o personagem misterioso (atenção: no pós-crédito) que deve infernizar a vida do super-herói iniciante na próxima produção.

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