quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Crítica: Tainá - A Origem



Seguindo a moda do reboot, Tainá está de volta, rebombinando o seu passado. Se vai encerrar uma trilogia (Tainá - Uma Aventura na Amazônia e Tainá 2 - A Aventura Continua) ou se vai começar uma nova franquia floresta afora e bem contente, com amiguinhos nerds e bichinhos inteligentes, acessando fácil a internet e dando cabo de qualquer vilão prepotente, só a bilheteria dirá.

Em Tainá - A Origem (Brasil, 2012) a criatividade não é o forte do roteiro de Cláudia Levay (a mesma dos filmes anteriores e da tolice Qualquer gato vira-lata) que, apostando na inocência (ou seria ingenuidade?) das crianças (de 5 a 9 anos) e seus acompanhantes que não viram (?) Avatar, de James Cameron, conta uma historinha com os seguintes elementos: Uma grande floresta; Uma Árvore Sagrada para os povos da floresta; Piratas da biodiversidade querendo derrubar a Árvore Sagrada; Uma menina índia, cuja arma é uma poderosa flecha azul, é a sua guardiã e defensora...


Tainá - a Origem, como entrega o título, mostra os primórdios da saga de Tainá, encontrada, recém-nascida, entre as raízes de uma Árvore Sagrada (Sapopema), pelo ermitão Pajé Tigê (Gracindo Júnior). Cinco anos depois, ao acompanhar o “” até a sua aldeia, para a escolha do novo defensor da natureza, mesmo sabendo que a competição é proibida às mulheres, Tainá (a graciosa Wiranu Tembé) participa e acaba hostilizada por quase todos. O quase fica por conta de Gobi (Igor Ozzy), um índio nerd (?) que passa o tempo todo conectado (?) à internet através do seu notebook. Como ele consegue acesso à rede, no meio da mata, e ou recarrega a bateria do aparelho que leva para todo lugar, é um enigma jamais decifrado.

Ao voltar para casa, aborrecida com o recente acontecimento, Tainá decide deixar a lúdica infância para trás, dá adeus ao Pajé e, aos cinco anos (!!!), sai mata adentro em busca de sua origem. Acostumada a conversar e a brincar com os animais selvagens, ela desconhece o medo e o perigo. Todavia, como em toda jornada de herói que se preze, um desvio aqui e ela acaba conhecendo Laurinha (Beatriz Noskoski), uma garotinha loira (!) que fugiu de casa (de novo essa história de criança fugindo de casa?) e está perdida na selva; um atalho acolá e ela enfrenta o malvadão Vítor (Guilherme Berenguer), um sujeito inescrupuloso que quer derrubar (?) a Árvore Sagrada para descobrir os seus segredos..., e lucrar com a venda.


Dirigida por Rosane Svartman (Desenrola), esta saga de Tainá é aborrecida e por demais fantasiosa. Os personagens são caricaturas de caricaturas de vilões e cientistas abobalhados de desenho animado (ruim) ou coisa que o valha. Em nenhum momento da narrativa há realmente um perigo iminente. Até quando sugerido (no olho aceso do vilão) ele parece piada sem graça. Quanto à magia, ela não convence nem as tartarugas. O discurso “ecológico” esbarra no lugar comum (registro fotográfico de revista de ciência!?) da fauna e da flora. Não há denúncia, discussão ou sequer tomada de consciência, com o mínimo de consistência, sobre a biodiversidade, acessível ao público infantil e ou ao infeliz acompanhante. A cultura indígena é apenas um detalhe mal aproveitado.


Tainá - A origem tem formato (produção, roteiro, direção, fotografia) de programa de TV, preocupado apenas em entreter a criançada, que ainda não sabe (?) usar o controle remoto, com cenas batidas da selva brasileira. Talvez, “encantada” com as sequências dos bichinhos engraçadinhos, a garotada não se preocupe com problemas técnicos (edição, trilha, cenografia), a história sem pé nem cabeça e ou diálogos bobos (que subestimam a sua inteligência). Mas, será capaz de engolir a história do balão estacionado (?) na porta da casa do biólogo paspalhão Vô Teodoro (Nuno Leal Maia) e que pode ser facilmente pilotado por qualquer criança (ou macaco se tiver oportunidade)? Haja osmose!

A parte boa desta “história” infantil, que confunde fantasia com fantasioso, é a presença carismática de Wiranu Tembé e Beatriz Noskoski.

Crítica: O Lado Bom da Vida



Um título como O Lado Bom da Vida sugere uma comédia romântica, altruísta e com final para lá de edificante. O trailer, editado com cenas engraçadas, sinaliza o caminho com a promessa de boas gargalhadas. Pelo currículo do diretor David O. Russell (O Vencedor), não se sabe muito bem o que esperar, mas se o trailer é convidativo...

A se pautar pelo trailer, O Lado Bom da Vida (Silver Linings Playbook , EUA, 2012), é um outro filme. As poucas sequências engraçadinhas são as que o público já assistiu no trailer. Porém, se por um lado a expectativa por boas risadas é frustrada, por outro a história dramática, beirando o trágico, mas com pegada romântica (não necessariamente envolvendo relacionamento sexual) e algum humor (involuntário), é compensada pela excelência do elenco e direção. O que, vamos combinar, em se tratando de comédia norte-americana contemporânea, é um grande ganho!


O Lado Bom da Vida é uma versão enxuta do romance The Silver Linings Playbook (2008) de Matthew Quick. A narrativa, com roteiro do próprio Russel, acompanha o esforço do bipolar Pat Solitano Jr. (Bradley Cooper) para recuperar, após oito meses interno num hospital neurológico, a sua sanidade e a ex-esposa Nikki (Brea Bee). Para isso se dedica integralmente ao autoaperfeiçoamento, praticando corrida, fitness e leitura de obras que Nikki ensina aos seus alunos. Pat busca mais que saúde física, mental e cultural, ele quer um mundo melhor do que o que deixou e reencontrou após o tratamento clínico. Porém, por mais que procure (nos livros) histórias com final feliz, só encontra final trágico, o que o faz “brigar” com os autores (que selecionou) e, numa sequência emocionante, acordar os pais, Sr. Pat (Robert De Niro) e Dolores (Jacki Weaver), para discutir sobre Adeus Às Armas (A Farewell to Arms, 1929), de Ernest Hemingway.

Pat é um “garotão” simpático, mas difícil de se lidar e tratar. No que ele não está sozinho, excetuando (?) Dolores, a sua família, amigos e vizinhos são um bocado disfuncionais. O que não o impede de tentar retomar a sua vida social e amorosa (com Nikki), e conhecer a bonita e intrigante Tiffany (Jennifer Lawrence), uma jovem viúva que pirou fogosamente com a morte do marido e também tem muitos “demônios para domar”. A “loucura” dos dois acaba criando laços de cumplicidade que pode ser o ingrediente fundamental para os “planos malucos” que têm em mente. Só falta combinar o que um fará pelo outro.

Contrariando muitos críticos e espectadores, Russel, que tem um filho bipolar, disse, em recente entrevista, que a sua abordagem do tema é dramática. E de fato, é estranho imaginar a plateia rindo de uma história repleta de personagens disfuncionais e que é de uma melancolia tangente. É claro que há situações inusitadas, sequências que convidam ao riso, mas é um sorriso nervoso, muito diferente da gargalhada espontânea que parece estar despertando. Se há momentos encantadores, como os deliciosos ensaios de Tiffany e Pat, há outros de dar nó nas tripas, como aquele em que o Sr. Pat (Niro reencontrando o prazer de representar) tenta explicar ao filho o porquê da sua dificuldade em se relacionar com ele. Pelo que lembro, nenhuma dessas sequências faz deste um filme hilário.


O Lado Bom da Vida explora um tema difícil (os limites da “loucura” e da “normalidade”) sem cair na pieguice e no maniqueísmo hollywoodiano. A narrativa é opressiva e os diálogos incômodos. Os compartimentos das casas são tão apertados que parece não caber duas pessoas num mesmo lugar..., e não cabe. A saída é sair, fugir dali. Na cabeça de um bipolar há o mesmo confronto! Até mesmo a rua é mínima para quem está à deriva buscando porto. A intrusiva câmera de Masanobu Takayanagi aprisiona tudo, como se num retrato “3 x 4”, no subjetivo olhar do espectador. A sensação de claustrofobia visual e mental transcende a trama e a tela se apequena.

O Lado Bom da Vida é um drama pesado, mas não é depressivo. Os seus ricos personagens, mesmo ensimesmados, buscam uma saída para se livrar das cascas que os enclausuram. É intenso sem ser choramingas. Não é um filme perfeito, tem problemas com alguns cacos, o fôlego, e é previsível do principio ao fim. No entanto, exala um frescor raro que pode ser sentido com satisfação na direção primorosa (com cortes fundamentais na obra original para o timing cinematográfico) e no elenco de laboratório, a se destacar Bradley Cooper, Lawrence Jennifer, Robert De Niro e Jacki Weaver na mais perfeita sincronia. Dependendo do grau de ansiedade do espectador, vale o ingresso para chorar e ou sorrir.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Crítica: João e Maria: Caçadores de Bruxas


Se vivos fossem e se acaso vissem a versão contemporânea de Hänsel und Gretel (João e Maria) contada no cinema, os Irmãos Grimm - Jacob Grimm (1785-1863) e Wilhelm Grimm (1786-1859), autores de Contos da Criança e do Lar - teriam um enfarto fulminante. Como se sabe, os irmãos são os responsáveis pela compilação e adaptação de histórias populares, principalmente da tradição oral alemã (destinadas ao público adulto), para as crianças, pensando no seu caráter educativo. Desde a sua publicação, João e Maria ganhou inúmeras traduções e remendos bizarros. Quem quiser se aprofundar no estudo da história original (e versões) vai encontrar um prato cheio de elementos psicanalíticos, metáforas e imaginação descerebrada..., como é o caso de João e Maria: Caçadores de Bruxas.

João e Maria: Caçadores de Bruxas (Hansel and Gretel: Witch Hunters, Alemanha, EUA, 2013) é uma mistureba e tanto: tem drama, romance e aventura gore, ação gore, terror gore, humor (involuntário: insulina, disco, choque elétrico, metralhadora) gore..., para fã nenhum do gênero horror-show e cinemão trash botar defeito. Da compilação dos Grimm só restou o casal de crianças abandonado na floresta, a casa de Doces e a Bruxa Doceira devidamente torrada. O resto é uma doideira típica de plataforma de game (FPS e TPS).


A narrativa se dá mais ou menos assim: logo após serem abandonados, encarcerados e darem fim à Bruxa Doceira, os irmãos João (Jeremy Renner) e Maria (Gemma Arterton) são recebidos, em um vilarejo, com manchetes dignas de heróis. Enquanto as notícias (algumas com ilustrações animadas como em Harry Poter) pululam na tela, na passagem do tempo e dos créditos iniciais, as traumatizadas crianças crescem vingativas e à simples menção da palavra “bruxa” expõem um fabuloso arsenal retrô-futurista e ou futurista-retrô, de onde sacam armas espetaculares para acertar, explodir, queimar, desmembrar qualquer coisa que não seja um cidadão comum de bons dentes (não vou estragar a piada!). Não é um pássaro e está voando trepado em uma vassoura? BANG! Estava!

Entre um tiro explodindo uma cabeça aqui, uma pancadaria destroçando um cidadão ali, os ressentidos João e Maria se negam a falar sobre seus pais até mesmo entre si. Porém, não vão conseguir manter essa decisão por muito tempo. Sabe como é, a história é outra, um fofoqueiro pode dar com as línguas nos dentes (ôps!), e, além do mais, o espectador tem todo o direito de saber exatamente o que aconteceu com eles. Olha, dizem que a verdade dói, mas esta nem com muita imaginação. Que o diga a bruxona Muriel (Framke Janssen), comedora de coração e sequestradora de criancinhas.


Com roteiro e direção de Tommy Wirkola (Zumbis na Neve, 2009), João e Maria: Caçadores de Bruxas é mais um filme da onda caça a (qualquer) monstrengo (vampiros, zumbis, lobisomens, ETs, demônios), com artilharia pesada, fazendo parecer mais um conto de ficção científica do que (outrora) um conto infantil. Já no começo, quando vão para Augsburg resolver um caso de desaparecimento de crianças, João e Maria mostram porque são (no estilo de caçadores de recompensa do velho oeste) os melhores caçadores de bruxa da região. São exímios no tiro (a bruxa) e no vale tudo com quem se meter no caminho. Devem ter frequentado a mesma academia que as malvadas, já que as bolorentas não ficam atrás no quesito defesa pessoal (socos e pontapés).

Vale ressaltar que este João e Maria não tem nada de infantil e muito menos é indicado para garotada com menos de 16 anos. Excetuando as sequências iniciais que lembram o conto dos Grimm, o que se vê é invencionismo delirante. Muda-se a gênese dos personagens para justificar a sua violência gratuita no futuro. É uma produção cara, mas se vê poucos destes custos na tecnologia 3D e efeitos especiais. Sorte ou azar dos espectadores que curtem um bom jorro de sangue e de cabeças (é o que mais tem!) e pedaços de corpos “caindo” sobre eles. O figurino é bacana. A maquiagem fica entre o bom (troll Edward) e o risível (bruxas, que parecem ETs coadjuvantes de Star Wars). O elenco faz o que pode, todavia com um roteiro frouxo e diálogos (?) medíocres, não dá para esperar muito.

A estética asiática (coreana), imitada à exaustão pelo cinema ocidental, está presente do começo ao fim, mas lhe falta tradição cultural. João e Maria: Caçadores de Bruxas deve proporcionar diversão (esquecível!) para fãs de filme trash.

Para quem se sentir incomodado ou enganado diante do terror gore de João e Maria: Caçadores de Bruxas, eu sugiro o fascinante e perturbador thriller sul-coreano Hansel and Gretel (2007), dirigido por Pil-Sung Yim.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Crítica: Lincoln


Quem anda meio desligado e viu ao bizarro Abraham Lincoln - Caçador de Vampiros (2012), de Timur Bekmambetov, agora deve estar se perguntando do porquê de um segundo filme com o famoso presidente norte-americano. A resposta mais plausível, no momento, é que este Lincoln, do Spielberg, é um presidente mais ao gosto do estadunidense (conciliador!) patriota. Se é que me fiz entender. O Lincoln spielberguiano não deixou de ser um caçador (e nem poderia, em se tratando do diretor), só que, em vez de caçar vampiros, para libertar os escravos, ele caça votos na câmara de deputados para aprovar a Emenda 13, para libertar os escravos. Ora, uma causa tão nobre quanto a outra. Em ambos os filmes sempre há alguém para ser vampirizado, inclusive o espectador. Ou não?

Lincoln (Lincoln, EUA, 2012), de Steven Spielberg, é um drama de tribunal bem ao gosto do cinemão hollywoodiano que também faz sucesso no exterior. Não é uma cinebiografia de Abraham Lincoln (1809 - 1865) e muito menos encerra qualquer eventual polêmica sobre o 16º presidente norte-americano. Adaptado do livro Team of Rivals: The Political Genius of Abraham Lincoln, da historiadora Doris Kearns Goodwin, publicado em 2005, o ótimo roteiro de Tony Kushner abarca apenas o breve período pós-reeleição do presidente, quando se intensificaram os seus esforços para por fim à Guerra Civil e aprovar a Emenda 13, que libertava os escravos, culminando com o seu assassinato.


Que Spielberg é mestre em histórias choramingas, ninguém tem dúvidas. No entanto, em Lincoln ele aparece um pouco mais comedido e, excetuando a melosidade musical de John Williams, a pieguice é pontuada e quase esquecível. Entre os assuntos destacados para o foco narrativo, a articulação política em torno da aprovação da Emenda 13ª fica em primeiro plano. A Guerra Civil, mesmo com uma forte sequência de batalha, serve apenas como pano de fundo. Uma boa opção do diretor, uma vez que a Guerra de Secessão já foi demasiadamente explorada no cinema, enquanto que as mazelas da política que desvelam um Lincoln (em impressionante incorporação de Daniel Day-Lewis) nada santo têm sabor de novidade.

O presidente que se vê na tela é um homem que, fazendo valer o ditado “na política e no amor vale tudo”, arregimenta um impagável trio de lobistas, W. N. Bilbo (James Spader), Robert Latham (Jonh Hawkes) e Richard Schell (Tim Blake Nelson), e não mede esforços (leia-se subornos) na tentativa de aprovar a importante E13ª. Se realmente isso ocorreu, os fins justificam os meios? Assim como eu, muita gente não é versada em História Norte-Americana e ou sequer sabe até onde vai a liberdade poética na exposição deste fato (no livro e na tela). Porém, se real, por melhor que seja a causa em questão, conhecer este lado estrategista, manipulador (maquiavélico?) do republicano Lincoln é constrangedor.


Além do brilhante Day-Lewis, na composição de um Lincoln rico em nuances: político centrado; pai de família quase ausente; o contador de histórias com fundo de parábola..., há que se destacar Sally Field, no papel da sofrida Mary Todd Lincoln, e Tommy Lee Jones que faz um deputado altivo, Thaddeus Stevens, e de língua afiadíssima. Lincoln é um filme se sustenta mais nos diálogos (a certa altura confusos) do que na ação, o que exige muita atenção do espectador. Correto, com excelente produção e ótimas interpretações, é comedido até no final menos dramático, mas nem por isso menos patriótico ou americanófilo.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Crítica: O Mestre



Parece que o assunto reencarnação, karma, darma..., está com tudo neste comecinho de 2013. Depois de A Viagem (de Andy Wachowski, Lana Wachowski e Tom Tykwer), é a vez de Paul Thomas Anderson especular sobre o tema, só que sob foco de seitas milagreiras e ou redentoras de todos os males do mundo, ou ao menos dos seus fiéis. 

O Mestre (The Master, EUA, 2012), escrito e dirigido por Paul Thomas Anderson, se passa logo após o fim da 2ª Guerra. O drama trata do envolvimento de Freddie Quell (Joaquim Phoenix, excelente), um ex-militar, alcoólatra, que usa os mais inusitados produtos para criar seus coquetéis “envenenados”, e o Mestre ou Lancaster Dodd (Philip Seymour Hoffman), um sujeito carismático que viaja pelo mundo divulgando a sua crença, fazendo sessões de hipnose e regressão, alegando curar até mesmo a leucemia. A relação entre o bem nutrido Dodd, o criador do movimento científico-filosófico Causa, e o farrapo humano (esquelético e desconjuntado) Quell é obsessiva e de interdependência..., como se o médico e o monstro. No meio dessa viagem de indução (sem discussões) de ideias nada ortodoxas sobre religião, ciência, medicina, psicoterapia..., tecendo considerações e conduzindo o manipulador e a cobaia, está a possessiva Peggy (Amy Adams) esposa de Dodd.


O Mestre é um drama tenso, desconfortável, com performances marcantes. Sem alívio cômico e recheado de diálogos que convidam a uma reflexão despretensiosa sobre mistérios e decadência da vida humana e do universo, é envolvente, mas não é sedutor. A iniciação do processo de cura de Freddie (um sujeito totalmente sem limites), intencionalmente repetitiva (?), acaba se tornando exaustiva (e dolorosa) até para o público. Embalada por uma música intrusiva, a relação de profunda e doentia camaradagem, vivida por Quell e Dodd, perdidos em seus próprios “eus” e afogados em álcool, nicotina e sexo, é um prato feito irrecusável para os terapeutas junguianos de plantão.  

São muitas as informações a serem processadas durante a longa narrativa e, por isso, passagens mais confusas podem se perder na aparente complexidade da trama pontuada por flashbacks. Como, por exemplo, um curioso nó, embaralhando realidade (acreditar) e sonho (imaginar) de Quell, a ser desatado a cada sequência, e que só deve despertar interesse após a sessão.  Se despertar! Os personagens são ricos, bem construídos e interpretados, o problema da distração é que a história teima em se esticar muito além do amém!


Controverso, O Mestre, de Anderson, chega como se fosse um desvelador documento sobre o escritor de ficção científica L. Ron Hubbard e a Igreja da Cientologia, criada por ele. No filme, aliás, o personagem Lancaster Dodd (que seria o Hubbard) se apresenta como: escritor, médico, físico nuclear e filósofo teórico. Mas é bom que se diga, em nenhum momento fica claro se é um retrato dos primórdios da cientologia e ou um apanhado geral de seitas não-cristãs, significadas na personagem charlatanesca de Dodds. Dizem que houve intervenção do mais famoso ator cientologista para que o diretor não polemizasse o tema e ou aliviasse a Cientologia (fundada em 1952), ocasionando em cortes no filme. Será?

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Crítica: O Último Desafio



O que esperar quando já se sabe o que esperar de um filme policial estrelado por Arnold Schwarzenegger, cujo título é O Último Desafio? Que não importa quem ou quantos são os bandidos de ocasião, já que todos serão devidamente trucidados? Que não importa quem vai lavar a telona depois da sessão de extrema violência? Que, ao contrário do que sugere o título, este não é o derradeiro filme do astro das pancadarias? Que um monte de outros “quês” não faz a menor diferença, desde o filme de ação faça valer o ingresso?

O Último Desafio (The Last Stand, EUA, 2013), dirigido pelo coreano Kim Jee-woon, gira (em alta velocidade!) em torno de velho Xerife Ray Owens (Arnold Schwarzenegger), que vive na pequena Sommerton Junction, fronteira com o México, e descobre, da pior maneira possível, que a sua pacata cidade está na rota de fuga (e colisão!) do famigerado traficante Gabriel Cortez (Eduardo Noriega). O bandido que escapou espetacularmente de um comboio do FBI, pilota um Corvette ZR1 que, com mais de 1.000 cavalos de potência, atinge a 300 km/H. Como desgraça pouca é bobagem, antes de se preocupar com Cortez, o Xerife vai ter de resolver um “probleminha” de território com a quadrilha dele, chefiada por Burrell (Peter Stormare), que já chegou à região. Ray Owens, ex-policial de narcóticos (que já viu sangue e morte demais), vai contar apenas com a sua astúcia e a ajuda de um grupo despreparado: os policiais Mike (Luis Guzman), Sarah (Jaimie Alexander) e Jerry (Zach Gilford), um desocupado curando a ressaca na cadeia, Frank (Rodrigo Santoro), e um maluco colecionador de armas, Lewis (Johnny Knoxville), que tem um arsenal parecido com aquele visto em Exterminador do Futuro 2.


O roteiro de Andrew Knauer é puro clichê: traficantes, FBI, refém, Xerife em fim de carreira, perseguição de carro e a pé, tiroteio, pancadaria, destruição e muito sangue. Quando começa (após o fantástico prólogo) você já sabe como vai terminar. E os fãs do gênero querem mais do que isso? Os personagens são rasteiros, pouco interessantes, mas o tom de humor dos diálogos, principalmente aqueles em que o velho Owens (o personagem) parodia o velho Schwarzenegger (o ator) ajudam a digerir. Ray e seu grupo heterogêneo lembra um exército brancaleônico. Na verdade, à parte a violência, o tom do filme é meio Brancaleone e meio Monty Pyton. Não é um humor negro tarantinesco, é mais pastelão. Estranha mistura!


O Último Desafio não é um filme que exige grandes interpretações, portanto o elenco está dentro da competência combinada. Ou, no mínimo, se divertindo e ganhando um din din, já que nem mais o Arnold é de aço. O cultuado Kim Jee-woon (mestre do horror) parece não se importar muito com o roteiro fraco (cheio de referência a filmes antigos de Schwarzenegger) e consegue o máximo do mínimo, nesse gênero batido que só tem ganhado alguma sobrevida ao dialogar com o humor. Ele sabe o que quer das cenas de ação e o seu fotógrafo Ji-yong Kim sabe muito bem como filmar. Já na fantástica abertura (uma das mais bonitas dos últimos anos) e crédito inicial , eles dizem a que vieram. Toda a trama tem o ritmo narrativo de HQs. Os enquadramentos são incríveis e vão da “simplicidade” dos Mangás à sofisticação das Graphic Novels, resultando em sequências sensacionais. A perseguição no milharal é fascinante na sua tensão e plasticidade. Fazia tempo que não via uma sequência tão criativa e tão bem realizada.

O Último Desafio é insano, banal, engraçado, saudosista, realista, óbvio, violentíssimo..., mas não há como negar que é um filme que cumpre o que promete. Os fãs de Schwarzenegger, que há muito esperavam por esse reboot, e de Santoro, se firmando nesse concorrido mercado..., não vão ter do que reclamar. 

Joba Tridente: Existindo e Resistindo

Set de filmagem do curta-metragem CORTEJO (2008), filmado em 35mm, com direção de Joba Tridente e Marcos Stankievicz Saboia, baseado nos contos originais Cortejo e Palhaçada de Joba Tridente. Em pé: Rubens Eleutério (direção de fotografia), Adalgisa Lacerda (assistente de direção), Joba Tridente (direção); sentados: Marcos Saboia (direção) e Gustavo Portes (vídeo-assist).


Joba Tridente: Existindo e Resistindo

Olá, recentemente recebi convite para três entrevistas.  Acho que para provar que realmente eu existo e resisto às intempéries culturais.

A primeira foi postada em Abraços Dobrados da genial artista gráfica Tereza Yamashita.

A segunda está registrada em vídeo (2 D e ou em 3D) no Portal Cronópios, do Pipol.

A terceira está disponibilizada, em edição digital (pg. 32/33) e física (nas bancas), da Revista Plurale.

Quem quiser saber um pouco mais sobre mim e ou ver se realmente sou o responsável pelos meus próprios fios, é só clicar nos links.



Abraços Dobrados



Portal Cronópios




Edição Digital da Revista Plurale.




Nota: Yamashita também resgatou o áudio de uma entrevista concedida à Radio UEL, quando participei da maravilhosa Biblioteca VIVA Itinerante, em Londrina.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Crítica: Django Livre



Não fosse a sazonalidade, o cinema seria uma chatice sem fim. Com a magia das estações, no entanto, mexe e vira e mexe: ploft!..., das cinzas surge uma Fênix que voa conforme a intensidade da luz e do som, deixando brasas que (re)arderão quando sopradas. A beleza, graça e vitalidade da nova Fênix dependem da força do soprador que tanto pode (apenas) espalhar cinzas quanto produzir um retumbante fogaréu. Desde que “trocou” a vida de balconista da Video Archives pela de roteirista e diretor em Hollywood, Quentin Tarantino só faz botar lenha na sua fogueira. Para alguns espectadores é fogo que pela, para os detratores é fogo morto, só porque ele realiza primeiro o que sequer pensaram.

Segundo Tarantino, a criação de Django Livre surgiu há mais de 10 anos: A gênese inicial de toda a ideia foi a de um escravo que se torna um caçador de recompensas e sai atrás de feitores que se escondem em fazendas agrícolas. Eu comecei a escrever e o Django se apresentou a mim. No início, ele era apenas quem ele era - o sexto numa fileira de sete escravos acorrentados. Mas ele foi se revelando para mim, cada vez mais, à medida que eu ia escrevendo. Eu sempre quis fazer um faroeste. Eu gosto de todos os faroestes, mas como os spaghetti westerns sempre foram os meus favoritos, eu pensei que, no dia em que eu fizesse um, seria naquele universo do Sergio Corbucci. Ao adequar a história de um homem que se infiltra numa fazenda escravagista norte-americana, a fim de resgatar a sua esposa, ressaltou: Não pode ser mais angustiante do que era na vida real. Não pode ser mais surrealista do que era na vida real. Não pode ser mais ultrajante do que era na vida real. É inimaginável se pensar na dor e no sofrimento que ocorreram neste país. A realidade se encaixa no panorama colossal de um faroeste spaghetti que se poderia imaginar para esta história.


O título Django Livre é uma clara homenagem ao Django (1966), clássico faroeste spaghetti dirigido por Sergio Corbucci e estrelado por Franco Nero, que faz uma participação especial e divertida, para quem conhece o personagem original. O drama de amor e vingança, é ambientado no sul dos Estados Unidos, dois anos antes da Guerra Civil. A sua trama gira em torno de um caçador de recompensas alemão, o dr. King Schultz (Christoph Waltz) que, no encalço dos assassinos irmãos Brittle, descobre que o único jeito de encontra-los é contando com a ajuda do escravo Django (Jamie Foxx) que, por sua vez, vai precisar dos serviços do alemão para resgatar a sua mulher, Broomhilda (Kerry Washington), comprada pelo perverso Calvin Candie (Leonardo DiCaprio), que tem a seu serviço o repulsivo escravo doméstico Stephen (Samuel L. Jackson).

Django Livre (Django Unchained, EUA, 2012), assim como as obras anteriores do diretor, provoca diversas sensações (e reações) no espectador..., e não só pelo grau de violência (física e psicológica) e ou quantidade de sangue. Seus diálogos estranhos e cenas de puro humor negro (ôps!) tanto garantem riso, quanto convidam à reflexão, como a hilária sequência do ataque da abominável pré-ku klux klan, que pode ser confundida com paródia. Sabendo dosar e ou narrar, uma denúncia (ou crítica) feita com humor é muito mais eficiente.


Evitando as facilidades da computação gráfica, Tarantino optou por filmar o seu primeiro western (faroeste spaghetti ou bang bang) em locações no Wyoming, Louisiana e Califórnia, por serem regiões que remetem aos inimagináveis horrores da escravidão e para dar maior veracidade aos seus personagens, sujeitando atores e equipe técnica às intempéries. Não é um filme para indiferentes e ou apenas para fãs. A preocupação com detalhes técnicos, variedade musical e performances impecáveis de todo elenco são notáveis. É impossível destacar Waltz sem se lembrar de DiCaprio ou de L. Jackson..., todos em momentos inspiradíssimos.

Dramático e impactante, Django Livre vem despertando polêmica desde a sua estreia. Há quem o ache racista, preconceituoso e quem o considere um libelo contra a opressão, um grito de liberdade que precisa ser ouvido. Para o ator Dennis Christopher (Moguy): A escravatura não foi apenas uma pequena nódoa na História. É algo que serviu de alicerce à construção deste país e a crueldade que ela personifica é algo que precisamos analisar. Eu pesquisei muito antes de viajar até aqui, e uma das coisas que aprendi é o pouco que eu tinha aprendido sobre isso na escola. E você nunca sabe até onde pode ir a maldade humana a menos que discuta isso, a menos que você comece a falar disso, a menos que exemplifique isso.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Crítica: Sammy - A Grande Fuga



Em 2010 foi lançada, no Brasil, a belíssima animação As Aventuras de Sammy, protagonizada por três tartarugas: Sammy, Ray e Shelly. Uma fascinante produção belga, divisor de águas do 3D real (com tecnologia IMAX) e genéricos, que envolve o espectador numa surpreendente viagem de 50 anos pelas águas (e vida marinha e fluvial) da Terra, sem subestimar a inteligência dos espectadores.


Em 2013 Sammy e Ray estão de volta em Sammy - A Grande Fuga (Sammy's avonturen 2, Bélgica, 2012). Nesta segunda aventura, dirigida por Vincent Kesteloot e Ben Stassen, enquanto os dois velhos amigos, Sammy e Ray, cuidam dos recém-nascidos netos, Ricky e Ella, são capturados por caçadores e levados para um enorme aquário marinho, em Dubai, na companhia de Jimbo, um peixe-bola de olhos esbugalhados (especialista em se passar por morto) e de uma lagosta estressada. No gigantesco tanque subaquático, onde servem de espetáculo aos ricos turistas, conhecem o Big D, um minúsculo cavalo-marinho que se considera o rei do aquário e o único capaz de criar planos de fuga. Porém, sem se preocupar com D e seus capangas moreias, Sammy e Ray resolvem agir por conta própria e arranjar um jeito eficaz de fugir dali, para encontrar os netos perdidos no mar..., sem saber que Ricky e Ella também estão à procura deles.
  

Sammy - A Grande Fuga mantém a impressionante tecnologia 3D (real) que traz a ação tão perto do espectador que dá vontade de tocar. Visualmente continua impecável, os personagens são cativantes e bem desenhados, o argumento que denuncia o aprisionamento e sofrimento de animais marinhos ou terrestres, para deleite dos turistas, é ótimo, chama a atenção dos pequenos (e dos adultos!) sobre a maldade dos humanos... No entanto, depois de tantas animações sobre peixes sequestrados (Procurando Nemo ou o maluco Seefoof - Um Peixe Fora d’Água), que chegaram aos cinemas ou foram lançados diretamente em DVD, o roteiro de Domonic Paris (As Aventuras de Sammy), infelizmente, acaba soando repetitivo.

Não está fácil ser original nessa área, hoje em dia. Basta um grande estúdio anunciar a produção de uma animação (ou ficção) com um tema “X”, para que, antes que ela esteja pronta, dispute lugar com suas variantes. O que não parece ser o caso de Sammy, que está sendo lançado muito depois de Nemo, com quem tem pontos em comum. Se bem que a falta de ideias é o risco (calculado?) que corre toda a franquia, original ou não.


Há que se ressaltar que o alvo de Sammy - A Grande Fuga é o público infantil (cinco aos dez anos). O que justifica a simplicidade (e o cuidado) com que o roteiro aborda temas da fauna e da flora marítimas, amizade, solidariedade. É uma animação, ainda que redundante, graciosa. Todavia, se por um lado um acompanhante adulto se decepcionar, ao reconhecer (de outra história) um lugar em comum na trama (como a substituição de aquários e animais marinhos), mesmo que a narrativa se dê por um novo viés, por outro será muito bem recompensado com algumas sequências de ação bem divertidas e ou emocionantes, como a luta solitária de um Tubarão Martelo para se livrar do aquário. Apesar (ou por causa) da pouca inspiração do roteiro, um filme mediano.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Crítica: A Viagem



Uma das grandes promessas cinematográficas de 2012, A Viagem, dos irmãos Andy Wachowski e Lana Wachowski, em parceria com Tom Tykwer, escorregou pelo Natal e desembocou no Ano Novo. Feito uma cobra que desliza e se camufla sorrateira por diversos terrenos, A Viagem (Cloud Atlas, Alemanha, EUA, Hong Kong, Cingapura, 2012), literal ou literariamente (espiritualista), é uma viagem alucinante pra lá de escapista. Sem dispensar o fumacê embriagante de Chatrix, digo, Matrix, o filme chega vagando nas atordoantes ondas do Hinduísmo e do Espiritismo, tangenciando sem muita convicção o Karma, o Darma, também presentes no Kardecismo. Esse lampejo espiritual (ou espírita reencanacionista), que não é para qualquer equilibrista de fé bamba, é um tira-gosto especial (nem sempre palatável) que, excessivo, pode ser confundido com filosofia de botequim.

Baseado no romance homônimo de David Mitchell, com roteiro dos próprios diretores, o filme propõe uma viagem por seis histórias que vão se intercalando. A primeira (em 1849) envolve um jovem americano (Jim Sturgess), um escravo Maori (David Gyasi) e um médico (Tom Hanks) num grito de liberdade; a segunda (em 1936) fala do relacionamento profissional entre um jovem músico (Ben Whishaw) e um velho compositor (Jim Broadbent) que buscam a música perfeita; a terceira (em 1973) gira em torno de uma jornalista investigativa (Halle Berry) e os obscuros planos de um executivo do ramo do petróleo (Hugh Grant); a quarta é sobre um editor falido (Jim Broadbent) que sonha com o sucesso; a quinta (em 2144) questiona a importância de um ser (Doona Bae) geneticamente modificado; e a sexta (em 2350?) desvela os horrores apocalípticos na Terra e as observações de uma extraterrestre.


Demasiadamente próxima de um novo (?) gênero (drama espiritualista de aventura e ação), A Viagem é uma ficção científica cuja trama puxa e desfia o fio-matriz do destino e dá um nó na vida do homem civilizado.  Não trata de viagem no tempo, mas de uma viagem maior, envolvendo pessoas encarnadas e reencarnadas que não desistem de buscar por um herói salvador e um deus consolador, pessoas que anseiam por justiça e liberdade ampla, geral e irrestrita, em mundos distópicos.  

Você já deve ter visto argumento parecido até mesmo em animações ousadas (leia-se animes). Assim como no primeiro Matrix, que é uma colcha de retalhos de inumeráveis filmes do gênero, o que não falta em A Viagem são estações referências (Blade Runner, Um Estranho Numa Terra Estranha, No Mundo de 2020, Quinto Elemento, Doctor Who...), ativas conforme o grau de frequência em cinema e biblioteca de cada espectador-leitor.

É um filme juvenil cheio de boas intenções doutrinárias (lei do amor, lei da causa e efeito, lei do retorno). O problema é que “essas boas intenções” saem de lugar nenhum para lugar algum, dando carona a outras máximas pelo caminho. Enfatiza as frases de efeito (sobre perseverança e coragem) e, no entanto, derrapa na fragmentação das histórias curtas que, assim como dão substância à grande narrativa, entram e saem do contexto feito um cometa desgovernado. As mesmas seis histórias que funcionam bem no papel, atravancam a leitura na telona. Quando o público começa a absorver as informações de uma, a sequência já é de outra.


Fugindo à linearidade, os meios podem até justificar o fim anunciado no prólogo, mas é preciosismo gratuito, linguagem oportuna que serve à confusão do espectador e disfarça um conteúdo desinteressante. É mais fácil entender a física quântica do que a conspiração dos bons versus conspiração dos maus que permeia a relação dos personagens. Haja elipse (ou link!) para ressignificar um gesto, uma fala, uma reza. Ao contrário da coerência narrativa de Ang Lee, que acerta na dose reflexão religiosa e estética, em As Aventuras de Pi, o trio de diretores/roteiristas de A Viagem não avança muito além do grande impacto visual. O que não é pouco!

Enfim, como nem todas as histórias são interessantes, o lance é relaxar e curtir a bela paisagem, porque a viagem é longa. Quando se pensa que está chegando lá (seja lá onde for o lá!), um desvio e um retorno para resolver pendência do passado, nas performances irregulares do elenco coringa, composto por grandes nomes e novatos. Todos sujeitos a proporcionar, involuntariamente, um espetáculo à parte, com suas maquiagens que beiram a bizarrice, principalmente as dos coreopeus (mistura de coreano com europeus, a raça que nos suplantará!). A ideia de miscigenação é muito boa, mas o resultado plástico é discutível.

Lá nos idos dos anos 1980, Gilliard cantava: aquela nuvem, lá em cima, que passa, sou eu... Hoje, na plataforma TI, nuvem (ou cloud) é mais que bichinhos de fumaça no céu azul, mas ainda dá asas à imaginação.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Crítica: Jack Reacher - O Último Tiro



Quem esperava ou imaginava que, após soltar a voz em Rock of Ages (2012), o Tom Cruise iria buscar novos desafios, pode ir tirando o seu colete a prova de bala do guarda-roupa, porque o astro voltou com tudo (novamente!) a protagonizar (outra vez!) um filme de ação. É claro, no (sempre!) papel de mocinho (agente, detetive, policial etc) bang-bang.

Jack Reacher - O Último Tiro (Jack Reacher, EUA, 2013), com roteiro e direção de Christopher McQuarrie, é mais um thriller policial, no estilo pulp fiction, com variação mínima ao gênero hollywoodiano. Fazendo jus aos clichês violência: tiros, socos, perseguição de carros etc. Fazendo jus ao politicamente correto: hematomas, sim..., sangue explícito, não! Como se sabe, o estadunidense fica traumatizado ao ver sangue. A trama gira em torno de um assassino (cada dia mais comum nos EUA) que atira a esmo e mata cinco pessoas numa manhã em Pittsburgh. A investigação policial leva a um suspeito que nega a autoria e pede para chamar um tal Jack Reacher (Tom Cruise), um justiceiro solitário (ex-militar!) que está mais para seu carrasco do que para seu amigo. O problema é que ninguém sabe onde se encontra esse Reacher, que decide se quer ou não ser encontrado. Enquanto as autoridades discutem sobre a existência do sujeito, ele entra em cena, desconfia da movimentação nada amistosa ao seu redor e das provas contra o assassino Barr (Joseph Sikora), aceita trabalhar com a defensora pública Helen Rodin (Rosamund Pike) e parte para os “finalmentes” que indicam algo muito maior por trás dos “assassinatos casuais”.


Com aguçado sentido de observação e habilidade para solucionar crimes, pelas vias da dedução básica ou da força bruta, Reacher parece uma versão rústica de Sherlock Holmes (sem o Dr. Watson), de Arthur Conan Doyle. Baseado em Um Tiro (One Shot), o 9º volume de uma longa série policial criada pelo escritor britânico Lee Child, protagonizada por Jack Reacher, o filme de ação (tradicional) e suspense (clássico) começa bem, com sequências arrepiantes. No entanto, a narrativa interessante e envolvente, que desperta curiosidade no prólogo, aos poucos vai perdendo o fôlego. Lá pelo meio deixa a inteligência de lado, ganha ares rocambolescos, abusa da violência e da firula e desemboca num epílogo pífio. Nessa história que vai se tornando confusa e sonolenta, vale destacar a participação do cineasta Werner Herzog no papel (truncado) do cruel Zec. O Reacher, sombrio e inexpressivo (?) na performance de Cruise, está mais para personagem de HQ. No geral, o elenco atua no automático.

Jack Reacher - O Último Tiro é diversão passageira para aquele público pouco exigente e ou de memória curta. Como o gênero policialesco (literário, cinematográfico) a cada dia passa mais ao largo da originalidade, os fãs das séries policiais de TV vão se sentir em casa. Assistir aos mesmos atores sempre nos mesmos papéis (apenas com nomes diferentes) também não ajuda. O filme carece daquela boa dose de humor que popularizou James Bond e deu um charme especial ao Ethan Hunt, em MI-Protocolo Fantasma. Até tem uma ou outra gracinha (nas constrangedoras sequências de lutas), mas nada realmente engraçado. Por outro lado, o bom é que, com isso, ficamos livres das indefectíveis piadas escatológicas machofalocratas, apesar dos resquícios das insinuações sexuais por trás (ôps!) das grades.


Para quem desconhece o famoso personagem, segundo o escritor Lee: “Reacher veio de todas as leituras que fiz ao longo dos anos. Ele é um personagem lendário, baseado em mitos, que aparece em todos os períodos da História - o forasteiro misterioso, o nobre solitário. Um sujeito com princípios relativamente elevados, mas que, por alguma razão, é banido e vai vagar por aí fazendo boas ações. Ele é a metáfora de algo que todos nós secretamente desejamos, que é a justiça. Esse é o grande apelo de Reacher, tanto para homens quanto para mulheres. Especialmente as mulheres, acho, sentem-se ofendidas pela injustiça. Reacher fará o que for preciso, sem receio de nada, para corrigir  uma situação errada. É claro, há muita violência nos livros, sem concessões. Mas eu creio que secretamente, lá no fundo, queremos isso. Queremos ver as coisas serem corrigidas e os malfeitores, punidos”. Então, tá!

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