quarta-feira, 31 de julho de 2013

Crítica: Bling Ring - A Gangue de Hollywood


Em Hollywood, onde a arte está sempre tentando imitar a vida como ela é ou se acredita que seja, entre 2008 e 2009 a realidade imitou a ficção, quando uma gangue de adolescentes roubou celebridades do mundo artístico só pelo prazer de usar o que os seus “ídolos” usavam e sentir o gostinho do que é ser uma celebridade.

Fazendo jus a Andy Warhol: "um dia, todos terão direito a 15 minutos de fama", essa garotada mal-amada e cabecinha de nada, “barbarizou” as casas de famosos como Paris Hilton, Audrina Patridge, Lindsay Lohan, Rachel Bilson, Orlando Bloom e outros milionários que, por “azar” do sucesso instantâneo e ou merecido, conquistaram o direito de viver em luxuosas mansões em Sherman Oaks, Los Feliz e Hollywood Hills. Os furtos renderam aos “inocentes jovens influenciados pela mídia” a bagatela de três milhões de dólares em joias, roupas e dinheiro, que ostentaram em points físicos (boates) e virtuais (Facebook) da moda..., até que a polícia arrombou la fiesta.

Bling Ring - A Gangue de Hollywood (The Bling Ring, 2013), escrito e dirigido por Sofia Coppola, tem por base real o artigo The Suspects Wore Louboutins (Os suspeitos usavam Louboutin - referência a uma marca de sapato caríssima), escrito por Nancy Jo Sales para a Vanity Fair, em 2010. A narrativa, que vem dividindo opiniões por sua imparcialidade, está mais para constatação de fatos do que contestação dos fatos. O grande lance deste drama (meio documentário nonsense e meio reality show) é praticamente se bastar na superficialidade dos integrantes da gang formada por alunos do ensino médio “alternativo”: Rebecca (Katie Chang), Marc (Israel Broussard), Chloe (Claire Julien), Nicki (Emma Watson) e Sam (Taissa Farmiga).


Coppola não se aprofunda muito além da casca de cada um dos (perturbados?) adolescentes. Não há razão. O que é mostrado (fragmentos da intimidade) é o suficiente para se conhecer a personalidade deles. Também porque, nas entrelinhas, a leitura apurada sugere que por trás dos atos (de rebeldia?) há o triste retrato de famílias disfuncionais. Todos são filhos de pais ausentes e ou inconsequentes, como a sugestionável Laurie (Leslie Mann), mãe da sem noção Nick, que educa as filhas com as regras de “otimismo” exacerbado do livro de autoajuda O Segredo, em uma mão, e pílulas de Adderall em outra.

Por vezes Bling Ring - A Gangue de Hollywood é calculadamente tão incômodo quanto a distorção do duo Sleigh Bells com a sua dissonante Crown on the Ground (perfeita tradução sonora da gangue), que abre a temporada de roubo. No mote do crime (sem culpa) e do castigo (que virá sumário), o que importa a Coppola é a cinematografia dos furtos praticados com algum planejamento (via web), porém contando com o acaso e o vacilo dos confiantes moradores. Afinal, essa garotada marginalizada pela mídia e explorada exaustivamente pela publicidade está mais para a estupidez do que para a genialidade. Vítimas da própria armadilha, eles vão descobrir (atrasados!) que o preço para irem além dos 15 minutos de fama depende da precisão do relógio do juiz..., ou da própria sorte.

Assim como a câmera de Harris Savides (1957-2012), que começa invasiva e aos poucos se distancia, gerando sequências tão fascinantes quanto perturbadoras, como a do assalto à Casa de Vidro..., também o espectador (pelo cansaço) se afasta da “ação” contínua de roubos e exibicionismo. O que não alivia a sensação de conivência no roubo-tour, por exemplo, à exuberante casa de Paris Hilton (cenário real), como se em uma reconstituição de crime..., e ou o riso incontido em uma cena com o cachorrinho de estimação da socialite.


Bling Ring - A Gangue de Hollywood é como que o reverso da moeda de Um Lugar Qualquer (2010), também de Sofia, em que um célebre autor se cansa da própria fama. Quem tem tudo e não é feliz sempre alega que o dinheiro não traz felicidade..., no que é retrucado por quem tem nada: - se não traz eu compro! Para a Gangue de Hollywood, obcecada por nomes famosos e muito mais pelas marcas que desfilam, a grife é o limite da classe social. Ou seja, se a fama não traz classe a uma celebridade instantânea, compra-se a classe..., ou melhor, a grife. Um fulano afamado pode até continuar sem classe, mas, quem nota quando se está vestindo uma fortuna da cabeça aos pés? Um ladrão vestindo terno e gravata continua sendo um ladrão, porém, bem vestido, passará tranquilamente por um Dr.

A história que Sofia Coppola (re)conta não é uma comédia, mas resulta irônica e pertinente, sem ser moralista. Tampouco acende luz de alerta e ou farol orientador aos percalços da fama. Apenas registra o que se viu e ouviu sobre o ocorrido. O riso, se vem, é mais pelo desconforto da situação ou dos diálogos vazios e desconexos. A psicótica Nick (Watson) e a sua (in)crédula mãe, Laurie (Mann) roubam as cenas. Na verdade todo o elenco está muito bem. O público juvenil vai gostar da trilha barulhenta.

Bling Ring é, no mínimo, um filme curioso. Não me parece muito distante da realidade brasileira com seus mauricinhos e patricinhas que, na calada da noite, também aprontam das suas. Enfim, nessa fogueira das futilidades que, via publicidade, torra até mesmo o cérebro humano mais tenro, tão cedo o churrasquinho de vaidades não descarta o tempero das mais caras grifes do mercado.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Crítica: Wolverine - Imortal


..., não sei se o humor conta, mas não há duvidas de que Wolverine é um dos mais carismáticos heróis de HQ, em um número que não vai além de uns quatro. Personagem controverso, um lobo solitário (ao estilo Conan) difícil de ser “domesticado”, do tipo que não leva desaforo para casa. Aprontou e não percebeu, as garras de adamantium de Wolverine resolveu: Eu sou o melhor no que faço, mas o que faço não é nada bonito.  

Levemente inspirado na HQ Eu, Wolverine, de Frank Miller e Chris Claremont, de 1982, Wolverine - Imortal (The Wolverine, EUA, 2013), dirigido com categoria por James Mangold, é um filme de ação e aventura dramática, com pitadas de tragédia shakespeariana e de novela japonesa. Após a misericordiosa morte de sua amada Jean Grey (Famke Janssen), sentida em X-Men 3 - O Confronto Final, de 2006, Logan (Hugh Jackman) decide se afastar do mutante mundo civilizado. Não é fácil deixar seu passado “X’ para trás. Não é fácil deixar de ser Wolverine quando se é constantemente perseguido por fantasmas do passado, como Jean, questionando sua imortalidade, e ou o jovem soldado japonês Yashida (Ken Yamamura), grato por ter sido salvo da bomba atômica que arrasou Nagasaki.

Em meio a essa crise existencial Logan é encontrado pela vidente e espadachim Yukio (Rila Fukushima), dizendo que o velho Yashida (Haruhiko Yamanouchi) está à beira da morte e quer se despedir do seu salvador. A contragosto ele vai ao Japão e acaba envolvido numa grande intriga onde, além da rica herança do seu velho conhecido, está em jogo o seu fator de cura e a vida da misteriosa Mariko (Tao Okamoto), neta de Yashida. Para destrinchar tamanho imbróglio, Logan desperta o “adormecido” Wolverine, que se vê obrigado a ir à luta contra ninjas, yakuza, e a venenosa Viper (Svetlana Khodchenkova), uma mulher víbora.


Wolverine - Imortal incorpora com eficiência elementos da cultura nipônica presentes em muitos filmes, incluindo (é claro!) os animes. Wolverine já é, digamos, um ronin de casa (samurai errante), com seu visual e garras de adamantium, que equivalem a meia dúzia de espadas samurais. Todavia, ao se apropriar da tessitura japonesa, a narrativa ganha outra cor, outro ritmo (mais cadenciado), e as duas tramas (de Logan e da família Yashida) mais densidade. É bacana o tratamento dado ao entrelaçamento das duas dramáticas histórias, fazendo parecer maiores (ou mais profundas) do que realmente são.

Wolverine - Imortal, que não tem a fúria demolidora e devastadora de um Homem de Ferro, Homem de Aço ou Homem Aranha, nos seus momentos divã trata com interesse as inquietações do herói (poderes, responsabilidades, regras) que também já afligiram os três citados, principalmente Clark Kent e Peter Parker. Se bem que, por vezes, Wolverine parece agir muito mais por instinto que por devoção à causa (ou não?) como sugere a bela e emocionante sequência do prólogo em que ele se relaciona territorialmente com um urso.


Este não me parece um filme para o espectador que entrou em transe orgásmico diante da destruição sem fim de recentes produções envolvendo famosos super-heróis..., já que a fúria wolverineana é mais interna e quando explode “destrói” apenas os vilões e não cidades inteiras. Não tem grandes efeitos especiais, mas diverte e emociona com algumas sequências bem resolvidas (trem bala) ou escritas (batalha com ninjas, cuja emblemática cena das flechas envenenadas remete à obra-prima de Kurosawa: Trono Manchado de Sangue). Não é hilário, mas tem lá um humor bobinho e truculento. Falar da performance marcante de Jackman é dar brilho no adamantium. Na verdade todo o elenco está bem: Fukushima, com a sua Yukio, que parece saída diretamente de um anime, rouba um bocado de cenas; Okamoto dá graciosidade na medida à misteriosa Mariko; já Viper, de Khodchenkova, merecia mais espaço...

O roteiro de Mark Bomback e Scott Frank pode não ser a melhor coisa do mundo, mas consegue contar uma história com excelente começo, bom meio e final mais que razoável. Nada de muito sofisticado, característica de uma boa HQ, mas consistente e envolvente. Ou seja, só o fato do filme não se bastar em apenas um ato o espectador já está o lucro.  Ah, no meio dos créditos finais há um prólogo-ponte para o próximo X-Men: Days of Future Past. Quanto ao 3D, fica a critério do bolso!

domingo, 21 de julho de 2013

Crítica: Rockshow


Garoto era apaixonado pelos Beatles (1960-1970)..., paixão que continuou adolescência afora e perdura até hoje. Gostava mais de John Lennon e George Harrison. Com o fim do grupo fiquei ainda mais fã de Lennon e Yoko, que nunca acreditei que tivesse sido o pivô da separação da banda, mas que sempre me pareceu o “grilo falante” de John. Quanto a Paul McCartney, por conta de malfadadas declarações (fofocas?), na mídia, pouco antes do lançamento de algum disco, pouco me interessou a sua carreira e ou suas vindas ao Brasil.

Rocksow foi gravado durante a turnê Wings Over America Tour, de Paul McCartney e sua banda Wings, em 1976, que serviu como termômetro para que Paul se firmasse em carreira, digamos, solo, pós-Beatles. Apresentado como registro do concerto em Seattle (Washington), sabe-se (ou especula-se) que o filme é uma edição das 30 melhores performances musicais do grupo em Nova York, Seattle (Washington) e Los Angeles (Califórnia). Além do filme-concerto, lançado em 1980 (pela Miramax), o show, que passou pela Europa e Austrália, resultou ainda no álbum-triplo ao vivo Wings over America.


Para este badalado relançamento em Blu-ray e cinema, Rocksow foi remasterizado e restaurado em uma versão de 125 minutos de muito rock, balada, folk..., do Wings e dos Beatles.  Com a trilha remixada em som surrond 5.1, o show ganha em energia com a excelência de músicos como o multi-instrumentista, compositor e cantor Denny Laine, o sensacional guitarrista Jimmy McCulloch (1953-1979), o ótimo baterista Joe English, e o bem-vindo naipe de metais formado por Tony Dorsey (trombone), Howie Casey (saxofone), Steve Howard (trompete, flugelhorn), Thaddeus Richard (saxofone, clarinete, flauta). Alguns dos momentos mais arrebatadores estão nas novas interpretações de Paul para “velhas” canções dos Beatles (Blackbird, Lady Madonna, Yesterday), como a maravilhosa The Long and Winding Road (minha música favorita do grupo britânico).

Rockshow é um espetáculo nostálgico para os cinquentões, que viveram aquela época em que os shows se valiam mesmo pelos artistas, e para os novos fãs de McCartney. O público, ali, bem pertinho do ídolo, se divertindo com efeitos especiais que (levavam a galera à loucura!) não passavam de tiro de fumaça, luz estroboscópica, spot sobre o público. O retorno da plateia era isqueiro aceso na hora das baladas, palmas substituídas por estalar de dedos... Delícia de tempo antes da maldita luz azul dos celulares.


No Brasil serão poucas sessões (26/07, às 21h; 27/07, à meia noite; e 28/07 às 14h) e preço especial na Rede UCI.

terça-feira, 16 de julho de 2013

Crítica: Turbo


Férias de julho a mil, adultos a toda..., e para dar um recreio aos pais, na agitação da garotada, chega o animadíssimo Turbo, contando a história de um caracol cansado da lerdeza da espécie e que sonha em se tornar um campeão de corridas.

Quanto vale um sonho? Para o entusiasta caracol Theo, sair da mesmice, exercitar para se locomover mais rápido, não tem preço. Já para o seu conformado irmão Chet, cada um deve ser feliz como é, mesmo levando uma vida miserável. Ambos vivem numa “animada” e colorida comunidade de caracóis de jardim. Passam o dia comendo tomates e se escondendo dos corvos e de um menino malvado. De noite o prazer de Theo é assistir a antigas gravações (em VHS) de corridas do seu ídolo humano Guy Gagne, o grande campeão de Indianápolis. Em uma de suas “andanças” Theo sofre um acidente e, ao cair dentro do motor de um carro (assim como o Ken Parker-Homem Aranha), tem o seu código genético alterado, tornando-se um caracol ultraveloz. Para a sua felicidade e desespero do irmão Chet, quando menos espera está fazendo parte da equipe de caracóis de corrida do simpático Tito, e a caminho das 500 Milhas de Indianápolis.


O argumento (superação) é clássico e, portanto, é possível ver alguma referência e ou clichê em situações que lembram (sem comprometer) filmes tantos da própria DreamWorks quanto da concorrente Pixar que, por sua vez, também remetem a outras produções. Faz parte do vicioso ciclo cinematográfico (norte-americano?) vestir velhos temas com nova roupagem ou personagens inusitados. Porém, nem sempre o resultado é satisfatório como em Turbo, cuja narrativa otimista carrega uma saudável dose de mensagem sobre perseverança (“Nenhum sonho é grande demais, nenhum sonhador é pequeno demais”)..., sem ser piegas.


Turbo (Turbo, EUA, 2013), dirigido por David Soren, é diversão para toda a família. A curiosa história, apesar de totalmente absurda, é redondinha, envolvente e fácil de ser acompanhada pelos pequenos espectadores. O humor é leve (sem escatologia), beira o nonsense e o pastelão. Os personagens são graciosos em suas diferenças (e fofurices) físicas e em família. Os irmãos caracóis Theo/Turbo e Chet e os humanos Tito e Angelo, cativam tanto pelo bonito traço e tratamento gráfico, quanto pela personalidade forte (mas não inflexível) e pureza de espírito. Quem também merece destaque é o esportista Guy Gagne, cujo temperamento varia conforme a concorrência na pista. Aliás, um pouco de a vida como ela é não faz mal a ninguém. Na verdade até prepara o cidadão para o mundo ao redor da sala de cinema.


A animação tem bom ritmo, boas músicas incidentais (e acidentais) e um visual fantástico. As sequências na pista de corrida são impactantes..., os fãs de automobilismo não vão ter do que reclamar. Enfim, um programa que deve encantar (e emocionar) os amantes dos desenhos animados e das corridas de carro..., ou de caracol. Gostei da versão em 3D.

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Crítica: O Homem de Aço


Sessenta e cinco anos depois de estrear na TV e trinta e cinco após voar nas telonas de cinema, o Homem de Aço, está de volta: introspectivo (em busca de identidade) enquanto Clark Kent e sombrio quando Superman (ou Super-Homem). A saga do herói (que veio de Krypton) todo mundo conhece (via HQ, TV, Cinema), mas sempre há alguém se perguntando como ele teria descoberto e desenvolvido suas habilidades extra-humanas. Agora não precisa perguntar mais!

Há um livro, Jesus dos 13 aos 30 anos, de Francisco Klörs Werneck, que, ao especular sobre o suposto “desaparecimento” por 17 anos do herói bíblico, diz que ele estava sendo iniciado em seitas secretas. O que tem a ver o mítico Jesus com o mítico Clark? Ora, além de especulação parecida em O Homem de Aço, há uma corrente de fãs cristãos que (de repente) passou a ver, em meras imagens de braços em cruz, 33 anos, atos solidários (milagrosos) do kryptoniano, as mesmas caraterísticas do personagem bíblico Cristo no personagem Kent, criado por Joe Shuster e Jerry Siegel no “ano santo” de 1938. Bem, cada um com a sua reza... Para mim sem kryptonita, sim?! Ah, já deve ter gente vendo o Anjo Gabriel no Batman...


O Homem de Aço (Man of Steel, EUA, 2013), dirigido por Zack Snyder, é um filme de muita ação e alguma reflexão sobre o temor de (e do) ser diferente. O fio da releitura, cuja textura é notada mais na forma que no conteúdo, está na meada dos filmes Super-Homem de 1978 e 1980. O drama do extraterrestre Kal-El e ou Clark Kent (Henry Cavill, ótimo), incluindo o aprendizado e domínio dos seus poderes, é contado em flashbacks homeopáticos (herói certo no lugar certo) logo após um bonito prólogo kryptoniano.

A megaprodução começa cheia gás e sem medo dos clichês. Apesar da falta de humor, a premissa é das melhores..., até que o primeiro nó surge no forçado “enrosco amoroso” entre a insípida Lois Lane (Amy Adams, o que estou fazendo aqui?) e o generoso Clark. O “romance” entre os dois é constrangedor, já que o casal não tem a menor química. O nó é desatado quando entra em cena o famigerado Zod (Michael Shannon), também sobrevivente de Kripton, e a linha embaraça de vez quando a luta entre o vilão e o herói, pela posse e defesa da Terra, se arrasta (a la Michael Bay) avassaladora (a la Roland Emmerich) até o (ufa!) final (a la Os Vingadores)..., com bem mais que o triplo de prédios derrubados, por uns trinta e três minutos ensurdecedores.


O Homem de Aço, como todo filme do mesmo porte (e gênero!), exagera nos efeitos especiais e se esquece do roteiro. Será porque a combo preocupação é com o estômago e não com a mente? Nesse embate de valores o diferencial é o elenco, que as traz excelentes participações de Russell Crowe (Jor-EL) e Ayelet Zurer (Lara) e de Kevin Costner (Jonathan Kent) e Diane Lane (Martha), como os afetuosos pais e mães do superfilho Kal-El.

Não é fácil encontrar na narrativa juvenil a marca do inventivo Snyder (de 300, Watchmen, Lenda do Guardião e Sucker Punch). O que sobressai é a mão pesada do “taciturno” produtor Christopher Nolan. Mas nem por isso deixa de ter boas sequências. Poucas, é verdade, mas as que se destacam valem pelos dois terços de enfadonha pancadaria, como a do perturbador (e a se pensar!) “- Talvez!”, dito por Jonathan ao chamar a atenção do filho por ter se exposto ao realizar um salvamento. Se expor e deixar viver (e ser tratado como aberração) ou se ocultar e deixar morrer (e ser tratado como humano)..., são questões que o Menino, o Jovem e o Homem de Aço terão de responder em sua longa  jornada de 2h23.


Nota: A propósito da constante violência nos filme hollywoodianos, sugiro a leitura do seguinte artigo (link): Marvel Screenwriter: 'Why Has Destruction Become the Default' in Movies? (Guest Column)

terça-feira, 9 de julho de 2013

Crítica: O Cavaleiro Solitário


Quem tem boas lembranças das velhas HQ e ou seriados do Zorro, na TV, que fique com elas, porque não vai ser fácil reencontrá-las em O Cavaleiro Solitário (The Lone Ranger), a nova “releitura” do herói (caubói), que no Brasil dividia o título com o Zorro (capa espada). Os dois foram criados por autores norte-americanos: o Zorro (espadachim) Don Diego De la Vega, por Johnston McCulley, em 1919; o Zorro (caubói) John Reid, por  George W. Trendle, em 1933. Ambos ganharam versões e reversões desde que saíram de um conto e de um programa de rádio, para os quadrinhos, cinema e tv. Mas só um deles (adivinha qual?) gritava:  "Hi-yo Silver..."

O Cavaleiro Solitário (The Lone Ranger, EUA, 2013), dirigido por Gore Verbinski, é a terceira adaptação cinematográfica em longa-metragem. Anteriormente foram rodados Zorro e o Ouro do Cacique (The Lone Ranger), em 1956, e Zorro e A Cidade de Ouro Perdida (The Lone Ranger and the Lost City of Gold), em 1958. Verbinski disse que: “...só teria interesse em dirigir O Cavaleiro Solitário se pudesse pegar a história clássica e virá-la de cabeça para baixo. Acho que se você for fã da minissérie de TV original, você se surpreenderá com o filme, porque todo mundo conhece aquela história, e não é a história que nós vamos contar. Nós vamos contar a história a partir da perspectiva de Tonto, meio que Dom Quixote, contada do ponto de vista de Sancho Pança. Eu diria que na essência, nossa versão é uma história de amigos e um filme de ação e aventura com muita ironia, humor e uma dose de singularidade suficiente para torná-lo diferente”. Então, tá!


Dito e mais ou menos feito. Baseado no megalomaníaco, porém preguiçoso, roteiro de Ted Elliott, Terry Rossio e Justin Haythe, a história realmente tem nada em comum com a que muita gente conhece. Ela é contada (em flashback) a um garoto, fã da série de rádio Lone Ranger, pelo “nobre selvagem” ancião Tonto (Johnny Depp), parceiro de aventuras do palerma John Reid (Armie Hammer), o Cavaleiro Solitário, na caça ao inimigo comum: o sanguinolento Butch Cavendish (William Fichtner). A tentativa equivocada de imitar descaradamente o clássico O Pequeno Grande Homem, de Arthur Penn (1970), além de não agregar nenhum valor à “obra”, ainda descarrila o indeciso trem...

O Cavaleiro Solitário é infantiloide, ao fazer surgir (sabe-se lá de onde!) um cavalo branco mágico (a lá Meu Querido Pônei), o futuro Silver, e é demente, ao investir na selvageria e violência, com cenas (gratuitas) de canibalismo e genocídio. Dividida em três tempos distintos, a violência pode ser classificada como: extrema (início), moderada (meio) e pastelão (final)..., salpicada ou não com alguma “piada”, pieguice e trocentos clichês. Há três só de trem (muito bem realizados, sem dúvida, mas cansativos clichês cantados meia hora antes). Algumas sequências parecem ter imigrado do Mar do Caribe para o Deserto do Arizona. Alguns personagens que pirateavam ouro lá, agora roubam prata cá. Mudou a época, o local, mas o argumento bobo parece o mesmo. A falta de assunto fica mais evidente por conta de suas arrastadas e empoeiradas duas horas e meia.


Ao contrário do título, o personagem protagonista é o esperto Tonto, na pele de um Depp repetidor de tipos estranhos que apenas mudam a maquiagem e o figurino. A recriação do coadjuvante (?) Reid (Hammer, desperdiçado) é de revirar os ossos de Trendle. O bravo personagem “tiro certeiro” ou “bala de prata” agora é um imbecil (e insosso bebê chorão!) do começo ao fim da trama. Coisa alguma é levada a sério nessa trama que ainda se embebeda com a perna de porcelana espingarda, “emprestada” de Planeta Terror (2007), de Robert Rodriguez, e o coelho assassino “desentocado” de Monthy Python em Busca do Cálice Sagrado (1975), de Terry Gilliam e Terry Jones. Distrações totalmente desnecessárias. 

O Cavaleiro Solitário é, digamos assim, um filme de fantasia (infantiloide-adulta), de aventura (juvenil) e de ação descerebrada, digo, desenfreada, para tontear o Tico e o Teco. As sacadas (se) engraçadinhas são mínimas. A mais insistente, sobre a máscara do Cavaleiro, nem chega a arranhar a divertida e original do Lanterna Verde (2011). A bala perdida do panaca Ranger Reid deve alcançar algum dos alvos pretendidos, já que mira a esmo os incautos espectadores órfãos dos Piratas do Caribe.

domingo, 7 de julho de 2013

Crítica: Truque de Mestre


Ao sair da sala de cinema, depois de assistir aos truques mequetrefes dos “ilusionistas” de O Truque de Mestre, me senti mais imbecil que a Lois Lane..., e olha que ela é considerada a pessoa mais imbecil do universo. Arrasado, por não compreender uma trama-clichê idiotizada em meio a pompas e circunstâncias, comecei a reclamar do meu déficit de compreensão, distraído (e irritado!) que fora pela horrenda trilha sonora. Deixei me levar pela autocomiseração. Clamei a Lumière e Méliès, por haver entendido nada da historiazinha de vingança (infantil) sem pé nem cabeça (a concordância é para ambas)..., até que me dei conta de que realmente há nada para entender nessa bobagem dirigida por Louis Leterrier com base no roteiro pretensioso (porém medíocre!) de Ed Solomon, Boaz Yakin e Edward Ricourt.

O Truque de Mestre (Now You See Me, 2013) é o típico filme que finge tão bem a complexidade que não tem que o público que nele crê perde totalmente o seu senso crítico. Diversão fenomenal? Ledo engano. Lento engano. Lerdo mesmo, como se vê nas confusas justificativas (?) para o tamanho dos crimes cometidos pela trupe de vigaristas “autodenominada” Quatro Cavaleiros: o ilusionista (Jesse Eisenberg), o mentalista (Woody Harrelson), a escapista (Isla Fisher) e o batedor de carteiras (Dave Franco). A narrativa absurda (abcega e abmuda) que começa a dar sinais de chabu logo nos primeiros truques, ao ampliar o picadeiro das baboseiras para a trupe de imbecis: os agentes do FBI (Mark Ruffalo) e da Interpol (Mélanie Laurent), e os egocêntricos milionário (Michael Caine) e o caça-charlatões (Morgan Freeman), é espelho quebrado ao final perdulário. Aja clichê para os cacos que não escorreram pelos buracos. Sobrou (?) até para o Mr. M... Emburrecedor!


Ah, não entendeu a relação do título (original) com Lois Lane? Está precisando de óculos!

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Crítica: Os Amantes Passageiros


O mais recente filme de Almodóvar é uma ficção (Oh!). A advertência ao espectador incauto vem no início dos créditos. Como se precisasse. Ora, qualquer frequentador (com algum QI) sabe que até mesmo os filmes baseados (ou inspirados) em fatos reais (por conta ou não das liberdades poéticas) são “pura” ficção.

Os Amantes Passageiros (Los Amantes Pasajeros, 2013), de Pedro Almodóvar, é meio que de volta ao passado cinematográfico descerebrado e trash (por vezes divertido) do diretor. Um filme “meio que” não vai muito além do “assim-assim”. Ou melhor, um filme tão a deriva (ôps!) que cada espectador deve se sentir livre para viajar na meta(eu)fórica maionese espanhola. Se é que há alguma metáfora (de Estado) nessa comédia eufórica às voltas com um seleto grupo de passageiros em confronto com a tripulação gay da companhia aérea Península, cujo avião perdeu o trem de pouso e voa em círculos, buscando um aeroporto em condições de pouso. Ufa!


Num voo onde tudo pode acontecer (e acontece!), a narrativa tangencia o romantismo desenfreado, o ecletismo religioso e a intimidade (profissional e sexual) de cada um dos bizarros “prisioneiros sem destino” desta aeronave “das loucas”. Até aí tudo bem. Nada mais Almodóvar, mestre em comungar absurdas coincidências e diferenças de seus tragicômicos personagens. Todavia, no painel de controle, alguns botões não funcionam a contento e a redundância sexual acaba perdendo a graça depois da primeira ou segunda enfiada, digo, piada grosseira. A excessiva exploração do desvario sexual (principalmente) da tripulação, por vezes, faz o roteiro parecer tão emperrado quanto o trem de pouso. Assim como as pecaminosas historietas dos passageiros que vão se enroscando no manche. Península, Ibéria..., sei não. Será que a paella está no ponto?

 Se o humor de Os Amantes Passageiros varia entre o hilário (o número musical ao som de I'm So Excited, das Pointer Sisters, é ótimo) e o enfadonho, a culpa não é do excelente elenco, encabeçado por Javier Cámara, que mantém a Península no ar. Mas, se o drama-trágico se perde na turbulência de um argumento pouco inspirado (ou seria confuso?), gerando um desconforto, sem direito ao saquinho plástico de emergência, a responsabilidade é do piloto Almodóvar. Embarcar nessa viagem fica por conta do fã-espectador.

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