terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Crítica: As Aventuras de Peabody e Sherman


Recentemente, ao postar minhas considerações sobre a animação espanhola Justin e a Espada da Coragem, falei sobre a falta de originalidade no meio cinematográfico. Ao ver as primeiras cenas de As Aventuras de Peabody e Sherman pensei: “mais um produto que nasce para virar franquias, games, série de TV etc.” Não sabia, evidentemente, que a animação da DreamWorks é o resgate da animação Peabody's Improbable History, que integrava a famosa série de desenho animado norte-americanas The Rocky ans Bullwinkle, veiculada na TV na década de 1960. Peabody's Improbable History (alguns episódios podem ser vistos no YouTube) foi homenageado em Os Simpsons, Family Guy, De Volta para o Futuro (1985)

As Aventuras de Peabody e Sherman (Mr. Peabody & Sherman, EUA, 2014), dirigida por Rob Minkoff (Rei Leão), é uma animação de aventura e ação que conta a surreal história do relacionamento entre o beagle Sr. Peabody, um cachorro inteligentíssimo (inventor, cientista, ganhador do prêmio Nobel, chef, medalhista olímpico) e Sherman, um menino órfão adotado por ele. Amor e consideração é o que sentem e demonstram o “pai” cão e o “filho” humano. Porém, o mundo abaixo da cobertura onde vivem, tem as suas próprias normas de tolerância às diferenças.


Peabody é um tratador dedicado, amoroso e excessivamente preocupado com normas e regras de bem viver num mundo ainda preconceituoso. Quanto a Sherman, ele usufrui da melhor pré-educação domiciliar, com direito a viagens no tempo (a bordo da Volta Atrás) e encontros com personagens históricos, para aprimorar seus conhecimentos. O problema é que o excesso de informação (?) acaba lhe causando alguns inconvenientes na escola, colocando-o em confronto direto com Penny, uma garota arrogante e maldosa.

Em um encontro de conciliação, entre a família de Sherman e a de Penny, as duas crianças acabam se metendo numa confusão “efeito borboleta” e o mundo entra em colapso. Adivinhe quem vai ter que se desdobrar para reordenar as coisas? AVISO: na escola (onde as crianças de sete anos agem como adolescentes de catorze) há uma perturbadora cena de bullying. Talvez a mais terrível que já vi no cinema! Aliás, na maior parte da trama, pelas decisões (?) que toma, o casal infantil parece ter bem mais de sete anos.


Baseada no roteiro didático de Craig Wright, a narrativa não deixa claro se a intenção é embarcar no politicamente incorreto e ou na paródia. Tampouco define (?) o público alvo, já que há cenas não apropriadas ao público infantil e outras extremante infantilizadas para o adulto. Digamos que está mais para Enciclopédia Básica de Informação e Curiosidades Históricas a serviço da diversão sem compromisso com os fatos. Pode não agradar a todo público, pela forma de abordar (e contestar) a História oficial e ou colocar alguns cacos de gosto duvidoso, que felizmente a garotada e muitos acompanhantes não vão entender.

Assim como a série original, a animação traz muitos trocadilhos infames e, portanto (a mim!) sem a menor graça, mas deve arrancar sorrisos de algum desavisado. E por falar em humor, a se pautar pela versão e (discutível) dublagem brasileiras, ele perdeu a viagem. A lembrança do que é um convite ao riso não dá para uma gargalhada. Há sequências belíssimas (mágicas), como o voo das crianças no aeroplano de Leonardo da Vinci; momentos “escolares” com a (Guilhotina da) Revolução Francesa e a Guerra (e o Cavalo) de Troia; e tolices como o casamento de Tutankhamon; tudo num clima de gags assim-assim e ação (tipo) pastelão.


As Aventuras de Peabody e Sherman, que não dispensa manjados clichês, tem um enredo que lembra, entre outros filmes e séries de sci-fi, Doctor Who. Se bem que a famosa série britânica (lançada em 1963) pode muito bem ter sido inspirada na famosa série animada norte-americana (lançada em 1959). Já que falar da plasticidade e técnica é redundância, num contraponto às apavorantes sequências de bullying e de linchamento, destaco a feliz ideia de inclusão da maravilhosa "Beautiful Boy", de John Lennon, na trilha. O meu desencanto com a animação, acredito, tem a ver com a "banalização" da violência!

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Crítica: Justin e a Espada da Coragem


Com o mercado da animação em crescimento, não está nada fácil conseguir uma história original. Na verdade não está fácil nem na ficção (inclusive científica!). Mesmo assim, é admirável o esforço de se produzir desenho animado fora dos EUA.

Justin e a Espada da Coragem (Justin y la Espada del Valor, Espanha, 2013,), com direção de Manuel Sicilia (O Lince Perdido), é o segundo longa-metragem da Kandor Graphics. A história, estilo cavaleiros medievais (capa e espada), com algumas referências (A Espada Era Lei, de 1963; Fúria de Titãs, de 1981), acompanha a saga do magriça Justin que, vivendo num reino tomado pela burocracia, onde há lei para tudo e justiça para poucos, prefere seguir os passos do avô Sir Holand e se tornar cavaleiro, do que a determinação do pai e se tornar advogado.


Justin é o tipo padrão do herói improvável: adolescente fracote, desajeitado, tímido, romântico etc etc. Ele precisará conhecer a si mesmo, antes de provar aos monges-mestres Blucher, Legantir e Braulio, que reúne os requisitos para se tornar um cavaleiro, empunhar a Espada da Coragem e enfrentar o vilão e ex-cavaleiro Sir Heraclio. Não é preciso ser gênio para saber os caminhos que o jovem tomará e o resultado da sua jornada, incluindo interesse romântico.

Obviedade é o que não falta aos personagens que fazem exatamente aquilo que se espera (?) que façam. Alguns até que poderiam render (mago duas caras, falso cavaleiro), não fosse o clichê ou a necessidade (?) de seguir a cartilha da grande maioria dos filmes (animados ou não) realizados em todo mundo. Há uma dose razoável de ação e aventura..., mas não parece satisfazer plenamente o espectador mais adulto, acostumado com o ritmo hollywoodiano. 


Excetuando o “susto” de umas duas (?) tonterias: laptop (?) e controle de video-game (?), a narrativa é bastante linear (previsível), afinal o público alvo é a criançada dos 7 aos 12. Bom, dependendo da criança, ela pode até se sentir subestimada pelo roteiro simplório de Matthew Jacobs e Manuel Sicilia. O humor não é hilário (muita coisa geralmente se perde na tradução e dublagem), mas deve agradar a garotada, principalmente o (divertido!) dragão-crocodilo em excelente sequência numa aula de treinamento. A mensagem? É fácil: perseverança!

Tecnicamente, Justin e a Espada da Coragem é muito bom. Nota-se o cuidado na paleta de cores, tratamento de tecidos, arquitetura dos belos e convidativos castelos. Uma sequência em especial é de encher os olhos: a história dos cavaleiros narrada através de primorosos recortes de tapeçaria bordada. A decisão das músicas cantadas em inglês (sem legenda!), na versão dublada em português, me pareceu equivocada. Mas sei que é algo que não incomoda a maioria dos espectadores mirins. 


A Kandor, dos excelentes curtas: La Dama y La Muerte e El Corazón Delator, ainda não conseguiu acertar 100% nos longas, o pré-adolescente Justin e a Espada da Coragem, assim como o infantil O Lince Perdido, são animações medianas (num mercado repleto de obras-primas), mas acredito que seja apenas uma questão de tempo até encontrar o enredo perfeito. Os grandes estúdios, bem sabemos, também não acertam sempre.  

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Crítica: 12 Anos de Escravidão


A escravidão é um assunto que, apesar de muito antigo, infelizmente, ainda não se esgotou. Explícita e ou camuflada, ela persiste em vários países, inclusive no Brasil urbano e rural, onde “senhores de escravos”, sem temer a Lei, se dão bem às custas de imigrantes e ou itinerantes. É um tema difícil de ser tratado, principalmente no cinema, porque o emocional facilmente se sobrepõe ao racional e o roteiro, contrariando todos os argumentos da polêmica que o originou, acaba enveredando pela pieguice e a matéria da trama pode não ir além da sessão. 

12 Anos de Escravidão (12 Years a Slave, RU, EUA, 2013), do excelente diretor britânico Steve McQueen, é baseado no livro homônimo do afrodescendente estadunidense Solomon Northup, lançado em 1853 e relançado, numa edição acadêmica, em 1968. O drama épico, com roteiro de John Ridley, conta a impressionante saga do violinista Solomon (Chiwetel Ejiofor), homem livre que vivia em Saratoga, Nova York, com a sua mulher e um casal de filhos, quando, em 1841, ao se apresentar em Washington, foi sequestrado e vendido como escravo. Enviado para trabalhar em plantações no estado de Louisiana, onde ficou por 12 anos, Solomon esteve submetido a dois proprietários hipócritas: o cristão “benevolente” William Ford (Benedict Cumberbatch) e o cristão perverso Edwin Epps (Michael Fassbender). Recebendo o mesmo tratamento degradante que os demais escravos, Northup só voltou a cultivar esperança de liberdade ao conhecer o construtor abolicionista Samuel Bass (Brad Pitt).

12 Anos de Escravidão joga luz na extrema violência praticada pelos senhores de escravos e seus capangas contra os escravizados, nos remetendo àquela vista em Django Livre (2013), de Tarantino. Essa intenção narrativa, que tira muito espectador da sua zona de conforto, incomoda não apenas pela crueza das cenas de tortura, exaustivamente esticadas, mas pela impressão de pieguice calculada para causar aflição e coletar litros de lágrimas de um público já entorpecido pela irritante e intrusiva música de Hans Zimmer.


Filmes sobre escravidão ou racismo em solo norte americano não são novidades, mas sempre causam burburinho (e indicação ao Oscar), principalmente se inspirados em fatos. Conforme a ideologia do diretor, desenha-se o grau de sadismo na exposição da maldade do homem (cristão branco?) contra o homem (cristão negro?). O imagético Steve McQueen continua preferindo o laconismo à prolixidade. Não que seus personagens entrem mudos e saiam calados. É que o diretor acredita muito mais na força (de mil palavras) de uma imagem do que na redundância de um texto (explicando o óbvio). Assim, impacto visual é o que não falta à inspirada fotografia de Sean Bobbit, que registra a passagem quase imperceptível do tempo em imagens de rara beleza: a perda da infância, na lúdica criação de bonecas de palha; o canto de despedida dos mortos; a voracidade da lagarta no campo de algodão, devorando as estações. Bobbit destaca ainda o quanto é enganosa a inebriante paisagem sulista, onde o perigo (humano) espreita, transformando o lúdico em pesadelo.

Todo cinéfilo sabe que McQueen (Hunger, Shame) é chegado em histórias tristes, angustiantes. Em 12 Anos de Escravidão não é diferente. A dor de seus personagens beira o insuportável, dentro e fora da tela. Em raríssimos momentos, o sorriso que se abre é amarelo, porque a sugestão de felicidade é falsa..., é irônica. Não há felicidade no cativeiro abençoado pelo Deus Quequé, porque a maldade humana não tem limites nem nos “dias santos”. Ao exagerar na dose dolorosa, infelizmente a versão (aparentemente fria) do diretor inglês ganha ares de um dramalhão hollywoodiano, mais interessado em comover e indignar o espectador (insensível?), do que refletir o tema.


12 Anos de Escravidão não é o tipo de entretenimento pensado para diversão ligeira do espectador que só quer passar um tempo, no escurinho do cinema, se empanturrando de bobagens. Pelo contrário, é um drama tenso, de interesse humano (estadunidense), que não deixa cicatriz sobre cicatriz, ao falar de um período inconveniente da história americana: a prática do rendoso escravismo. A “reconstituição” de fatos degradantes (que exige estômago do espectador) é nada convidativa a um combo (pipoca e refri). A não ser que se feche os olhos à barbárie e, “sedado”, sem prestar atenção em quem bate e em que apanha, se espere o desfecho prometido pelo título. 

Não li a biografia de Solomon Northup, mas, pela estranheza e ou descarte de algumas sequências, parece que McQueen tomou algumas discutíveis liberdades cinematográficas. A adaptação que começa ágil, cenas curtas, cortes inusitados, acaba adotando um cansativo rimo contemplação. Haja posição na cadeira para “apreciar” cenas (como a de um enforcamento e um desconcertante segundo plano, por exemplo) de pura lavagem cerebral e que soa a mensagem subliminar. 12 Anos de Escravidão, com seu primoroso elenco protagonista e de apoio, segue a cartilha do cinemão, com clichês na medida para fazer o público se sentir menor e ou maior diante do drama alheio. Um história do norte para se pensar nas histórias do sul que ainda estão escondidas!

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Crítica: Clube de Compra Dallas


Um assunto recorrente em Hollywood é o da dependência química ou psíquica. O comércio de fármacos é tão promissor quanto o da advocacia. Se bem que onde há discussão sobre uso e ou abuso ou efeitos colaterais de medicamentos, há advogado no meio. Geralmente, um e outro resultam em obras, no mínimo, curiosas.

Em Clube de Compra Dallas o remédio receitado é o AZT, em seu primórdio, e em segunda opção, os produtos similares ou genéricos. Na década de 1980, a SIDA (Síndrome de Imunodeficiência Adquirida) e ou AIDS era considerada doença (maldição!) gay, pelos governos, igrejas, entidades médicas e heterossexuais convictos. Mas a síndrome, desconhecendo o (pré)conceito e indiferente à preferência sexual, espalhava-se pelo mundo, contaminando muitos incautos (via sexual, transfusão de sangue, seringas infectadas).


Nessa época a imprensa explorava, com sofreguidão, ao que chamava de praga gay, expondo imagens chocantes e deprimentes de pacientes aidéticos, principalmente de celebridades em estado terminal. No Brasil, abusando da criatividade, assaltantes usavam, como arma, seringas carregadas com algo viscoso, dizendo ser sangue contaminado. Qualquer indivíduo magro (demais) e ou gripado (demais), e ou tossindo (demais) era suspeito, era isolado até mesmo pela própria família.

As pessoas “saudáveis”, inclusive médicos (que se vestiam como se fossem a uma guerra química e não ao atendimento a um paciente), temiam conversar, tocar em aidéticos. Os infectados, em seu martírio, sequer recebiam um beijo, um abraço, um aperto de mão dos amigos mais próximos. Conforme aumentava o conhecimento da síndrome e especulava-se o seu ponto de origem (África), apareciam campanhas (na mídia) “ensinando” como se pegava AIDS: compartilhando seringa, sexo sem preservativo..., e como não se pegava AIDS: abraçando, compartilhando talheres etc. Eram dias cinzentos, o mundo gay continuou gay, mas não tão funny.


Clube de Compras Dallas (Dallas Buyers Club, EUA, 2013), dirigido com fervor por Jean-Marc Vallée, é um drama inspirado na biografia de Ron Woodroof (Matthew McConaughey), um eletricista texano, heterossexual e homofóbico convicto, que, em 1985, diagnosticado com AIDS e a “garantia” de um mês de vida, decide que não vai se deixar morrer tão fácil. HIV positivo, amaldiçoado pelos amigos e não incluído no programa de teste do “milagroso” AZT, ele foi à luta. Começou a estudar o assunto e descobriu novas formas de tratamento, fora dos EUA. Desempregado e precisando de grana para bancar os remédios, acabou se associando ao transexual Rayon (Jared Leto) e criando o Clube de Compra Dallas, cujos sócios pagavam uma taxa anual para receber a droga “salvadora” que ele traficava do México e de outros países.

Clube de Compras Dallas é um filme denso e que, por vezes, soa datado. Não que se tenha esgotado o assunto AIDS e ou as controvérsias sobre os efeitos colaterais do AZT (e a sua milionária patente). Porém, hoje, além do acesso facilitado aos novos remédios, os aidéticos têm uma sobrevida muito maior. A visão trágica de corpos e mentes definhando, ficou um pouco lá atrás.


Os excelentes McConaughey e Leto, literalmente no físico de seus complexos personagens, fazem um contraponto interessante, rico em nuances, que vai além do clichê dupla antagônica. Ainda que suas personagens tenham muitos nós a desatar, talvez pela aparente linearidade de Rayon (Leto), centrada na sua muito bem definida sexualidade, quem cresce em cena é o rude e controverso Ron (McConaughey), principalmente a um passo da domesticação. Egoísta, mas longe de ser antipático, ao compreender o processo da sua tragédia pessoal, refletida na dor e marginalização do outro (avesso a ele) Ron ganha a simpatia dos espectadores. Na fatalidade da doença a moral iguala os “imorais”. 

Clube de Compra Dallas, baseado no roteiro escrito em 1990 por Craig Borten, é um ótimo drama, incômodo, é verdade, mas ainda pertinente. A narrativa (um pouco extensa) varia feito as cactáceas, as mais espinhentas produzem as mais belas flores. Vallée evita as armadilhas do dramalhão choramingas aliviando a tensão do tema (via-sacra) com bons diálogos e alguns breves momentos de humor leve. O assunto, evidentemente, não é de agrado de todos os públicos, mas quem se deixar seduzir e arriscar a dar uma boa olhada, além de perturbadora viagem no tempo, vai se embasbacar com as apaixonantes atuações de McConaughey e Leto.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Crítica: Caçadores de Obras-Primas


A quem não sabe do que se trata, o cartaz de Caçadores de Obras-Primas (2014) promete algo à Indiana Jones e Os Caçadores da Arca Perdida (1981), com muita aventura, ação e bom humor. Mas..., a gente espera e vira e espera e remexe e espera... Depois de um tempo de arrastada movimentação fica imaginando o que seria do mundo se os EUA não existissem. Ou melhor, se ainda haveria mundo se os norte-americanos não existissem.

Caçadores de Obras-Primas (The Monuments Men, EUA), com direção de George Clooney, é um dos filmes mais americanófilos dos últimos anos. Inspirado no fascinante livro homônimo de Robert M. Edsel, o drama de guerra, em “ritmo de aventura patriótica” estadunidense, acompanha, na Europa, o trabalho de um grupo de 7 especialistas em arte (curadores, artistas, arquitetos, restauradores): Frank Stokes (George Clooney), James Granger (Matt Damon), Richard Campbell (Bill Murray), Walter Garfield (John Goodman), Preston Savitz (Bob Balaban); Donald Jeffries (Hugh Bonneville); Jean Claude Clermon (Jean Dujardin); e a curadora-assistente do Museu Jeu de Paume, Claire Simone (Cate Blanchett), correndo contra o tempo para resgatar milhares de obras roubadas de museus, igrejas e coleções particulares, pelo exército de Adolf Hitler.


A operação durou de 1943 a 1951 e frustrou os planos do Führer de expor esse material no monumental Führermuseum, que planejava construir no futuro distrito cultural às margens do Danúbio, em Linz, na Áustria. Edsel destaca o papel de oitos homens, um a mais que Clooney, mas sabe se que esse grupo chegou a 350, reunindo voluntários de 13 países, empenhados em recuperar obras de artistas como Leonardo Da Vinci, Caravaggio, Rembrandt, Rafael, Vermeer, antes que, por determinação de Hitler, caso o 3º Reich caísse, a “Operação Nero” destruísse o acervo de valor inestimável. Acredita-se que o número de objetos furtados ultrapasse a 5 milhões.

Pautado na caça a duas obras: Madonna de Bruges, de Michelangelo e A Adoração do Cordeiro Místico, de Jan van Eyck, encontrados na mina de Altaussee, na Áustria, escondidas entre 6.577 pinturas e 137 esculturas, o roteiro de Clooney e Grant Heslov, que teria sido de mais valia a um documentário, força a amizade. Quanto mais busca a “neutralidade” mais se enrosca na tremulante bandeira norte-americana em solo europeu, onde qualquer mané (speak english) prefere falar a língua ianque à língua pátria. O assunto de obras de arte roubadas e escondidas em cavernas, feito um tesouro de Ali Babá, é muito interessante, mas Clooney, talvez embevecido demais com o rico material em mãos, acabou perdendo o rumo. O roteiro é redundante e a direção convencional (mais popular?).


Em Caçadores de Obras-Primas não se vê a promissora ousadia do diretor de Boa Noite e Boa Sorte (2005) e ou de Tudo Pelo Poder (2011), por exemplo. A narrativa até esboça um olhar mais distanciado no drama familiar e ou profissional da equipe de abnegados caçadores que colocaram em risco a própria vida, em meio ao fogo cruzado, por uma obra de arte que não lhes pertencia. Porém não o sustenta..., derrotado pelo texto e imagem clichês. Excetuando uma sequência mais emotiva (Natal) ou outra mais ou menos (in)tensa (fazendeiros alemães), a trama carece de criatividade, de mistério..., de veracidade. Nem mesmo o discurso sobre a importância da arte na vida das pessoas e o sacrifício dos especialistas para salvá-las de mãos ímpias parece consistente. 

Não há personagem que desperte alguma empatia. Prisioneiro da redundância e do convencionalismo, o elenco de veteranos não diz a que veio e, assim como os seus personagens (cujos nomes foram trocados), aparece em cena sem nenhuma convicção. Teria a ver com as liberdades poéticas da versão cinematográfica? Há uma brevíssima referência ao The Train (1964), de John Frankenheimer, baseado no livro Le frente de l'arte, de Rose Valland, que no filme de Clooney seria a personagem Claire, de Blanchett. Passatempo para curiosos pouco exigentes e admiradores de artes plásticas.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Homem-Aranha e a Hora do Planeta


acabei de receber este interessante material:

Homem-Aranha é o primeiro Super-Herói 
embaixador da Hora do Planeta

Quinta Feira, 13 de Fvereiro, 2014:  Em uma parceria pioneira, o Homem-Aranha será o primeiro super-herói a ser nomeado embaixador da Hora do Planeta (Earth Hour), movimento global organizado pela  WWF (World Wide Fund for Nature), com a mensagem de inspirar as pessoas a usar o seu poder para se tornarem super-heróis pelo planeta. 

Andy Ridley, CEO e Co-Founder da Hora do Planeta, e Jeff Blake, Chairman, Worldwide Marketing and Distribution, Sony Pictures Entertainment, fizeram este anúncio junto com o do lançamento da Earth Hour Blue - uma nova plataforma digital de crowdfunding e crowdsourcing em prol do planeta, lançada para engajar todas as pessoas e participantes do famoso evento de desligamento das luzes, que este ano acontecerá em 29 de março (sábado), às 20h30.

Este ano, a Hora do Planeta e o herói do aguardado filme O Espetacular Homem-Aranha 2: A Ameaça de Electro (The Amazing Spider-Man 2) – junto com as estrelas do filme, Andrew Garfield, Emma Stone, Jamie Foxx e o diretor Marc Webb – estão mostrando seu apoio pela Earth Hour Blue, cujo objetivo é unificar o poder das pessoas para angariar fundos para projetos ambientais do mundo todo.

“Estou orgulhoso em ter o Homem-Aranha como primeiro embaixador super-herói da Hora do Planeta porque ele mostra que todos nós podemos ser super-heróis quando nos damos conta do poder que temos”, disse Andrew Garfield, que interpreta o personagem título no filme. “A Hora do Planeta é um movimento que cria um grande impacto em todo o mundo, então imaginem o que podemos realizar este ano com o Homem-Aranha ao nosso lado.”

A sessão de crowdfunding da nova plataforma permite que os participantes ajudem a fornecer energia para famílias em Madagascar, ajudem comunidades nas Filipinas a construir barcos de fibra de vidro para resistir a impactos como o tufão Haiyan e arrecadem fundos para aumentar e conservar o icônico Table Mountain National Park na África do Sul, dentro muitos outros projetos que virão.

“A Hora do Planeta dá às pessoas o poder de insipirar, mesmo que você seja apenas uma pessoa, e a Hora do Planeta é muito mais que uma hora. Existem grandes projetos, em prol do planeta, acontecendo em todo o mundo”, disse Emma Stone.

O diretor de O Espetacular Homem-Aranha 2: A Ameaça de Electro é a primeira celebridade embaixadora a anunciar o projeto da Earth Hour Blue que ele apoia, cujo objetivo é fornecer melhores equipamentos para a WWF Rangers para proteger as espécies ameaçadas de extinção na Indonésia como o tigre sumatra, elefantes, rinocerontes e orangotangos e seu habitat.  

“A Hora do Planeta é um movimento cheio de super-heróis – pessoas se unindo para inspirar mudanças pelo bem do planeta, imagine as possibilidades quando nos juntarmos e fizermos mais”, disse Marc Webb.

A Hora do Planeta cresceu de uma forma que hoje engloba centenas de milhões de pessoas em 7.000 cidades e 154 países e territórios. Jamie Foxx, que interpreta o vilão Electro no filme disse, “a Hora do Planeta não é apenas o ato de desligar as luzes; é o ato de pessoas em todo o mundo se unindo durante o ano todo para juntar forças para melhorar o planeta. Nunca subestime o seu poder, nunca subestime o que você pode fazer.”

As pessoas também podem usar a plataforma de crowdsourcing Earth Hour Blue, que recrutará todos a acrescentarem suas vozes à algumas das maiores campanhas de meio ambiente pelo mundo; incluindo uma campanha no Instagram para os usuários dividirem o seu amor pela Grande Barreira de Corais, da Austrália, como parte do tema da Hora do Planeta 2014, que é da WWF-Austrália, “Lights Out For The Reef”.

Os participantes também poderão assinar uma petição para salvar os tubarões chamada “I’m FINished With FINS”, que engaja celebridades e figuras públicas na Ásia a ajudar a acabar com a pesca de tubarões para o consumo de sopa de barbatana de tubarão.

“A ideia da Hora do Planeta cresceu além do que nós sonhávamos. Este ano, com a ajuda do Homem-Aranha, estamos levando o movimento para um novo estágio. Esperamos que o Homem-Aranha encoraje as pessoas a serem super-heróis pelo planeta, e usem suas vozes para ajudar projetos e campanhas em todo o mundo.  É sobre aproveitar o poder da multidão. É isso que a Earth Hour Blue significa”, disse Ridley.

A Sony Pictures Entertainment se une ao projeto contribuindo com a WWF-China e o projeto da Earth Hour Blue que oferece fogões eficientes para prevenir o desmatamento do habitat do panda gigante. Através de seus esforços, o estúdio receberá uma comprovação que torna toda a produção de O Espetacular Homem-Aranha 2: A Ameaça de Electro  bem como a turnê de divulgação, neutras do ponto de vista das emissões de carbono.

Aumentando os muitos esforços de sustentabilidade através dos anos, O Espetacular Homem-Aranha 2: A Ameaça de Electro  se tornou a maior produção “eco-friendly” na história da Columbia Pictures.  Estes esforços ambientais, no set de filmagens e fora dele, foram apoiados em todos os níveis – desde os produtores, executivos do estúdio, elenco e equipe e começou no momento em que o filme entrou em pré-produção. 

“O Homem-Aranha sempre foi um super-herói com o qual as pessoas podem se identificar. Peter Parker é o herói de todas as pessoas, e uma inspiração, então parece muito propício que ele deva unir forças com a Hora do Planeta para encorajar as pessoas a salvarem o planeta”, Blake acrescentou. “Eu também estou orgulhoso com o fato de que O Espetacular Homem-Aranha 2: A Ameaça de Electro é completamente neutro do ponto de vista das emissões de carbono. Fizemos um compromisso de sermos o mais consciente possível durante a produção, quando nos esforçamos para evitar o desperdício; agora, completar este processo com a  Earth Hour Blue é uma prova maravilhosa do que podemos conseguir quando trabalhamos juntos.”


A Hora do Planeta e o super-herói embaixador Homem-Aranha nos lembram que “com grandes poderes vêm grandes responsabilidades”, então participe e use o seu poder em www.earthhour.org.

Para assistir ao vídeo da parceria do Homem Aranha com a Hora do Planeta, visite: www.earthhour.org/spiderman  

Imagens de eventos de outros anos da Hora do Planeta podem ser vistos em: www.earthhour.org/media-centre

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Crítica: Ela


Nos anos 1970, o genial jornalista e escritor TT Catalão, autor de frases antológicas, lapidou aquela que, para mim, é a mais desconcertante: “cada um cada vez mais cada um”, que adoro citar, conforme o contexto. Aqui ela está mais atual que nunca.

Entre as décadas de 1970/80/90, as mídias portáteis chegaram, facilitando a vida de muitos profissionais (jornalistas, músicos, escritores)..., e fazendo a alegria, principalmente, dos jovens. Muito antes da febre dos “i”, houve a dos walkmans (anos 1980) e dos cd players (anos 1990). Um tempo em que as pessoas, com suas mídias portáteis, andavam “ensimesmadas” pelas ruas, “solitárias” com seus enormes fones de ouvido (os headphones também já diminuíram de tamanho, de quase desaparecer, e agora são enormes novamente). Na TV, matérias falavam da novidade, dizendo que os jovens não estavam falando sozinhos, mas cantarolando a música que ouviam etc.

Hoje, a maioria das pessoas anda por aí conectada aos seus smartphones, gps, mp, “i”, redes...,  sem prestar atenção em quem ou o quê está ao seu redor, inclusive provocando acidentes fatais. Tem até quem converse, via celular, com um “amigo” ao lado. Não há sigilo do que é dito e ouvido ou sequer respeito ao ouvido alheio. A cada dia mais isolado (mais cada um!), o cidadão tropeça em bits, se segura em bytes, se apoia em wireless para abocanhar o Wi-Fi dentro e fora de casa. O mundo ao redor é mero detalhe para um instantâneo logo esquecido numa rede social de amigos que nem se conhecem ao vivo e a cores. Amigos que não são amigos, apenas fazem número no álbum. O upgrade de toda e qualquer tecnologia se faz cada vez mais urgente e o usuário se acredita cada vez mais obsoleto.


Ela (Her, EUA, 2013), escrito e dirigido primorosamente por Spike Jonze, é um palpável conto futurista. A cidade de Los Angeles expandiu para o “alto e avante”, feito a nova Xangai. O que não interessava ao futuro desapareceu (carros, pobreza) em prol do conforto, da beleza, da segurança (inclusive) tecnológica que conecta a todos. Um lugar onde a TI está em constante evolução, o sexo a dois ainda é viável, todavia, quem não quer se comprometer fisicamente, ou discutir a relação, pode optar naturalmente pelo sexo virtual.

É nesse amanhã asséptico, num gabinete estilo anos 1950/1960, que Theodore Twombly (Joaquin Phoenix) trabalha, ditando bonitas cartas a um computador. São cartas sentimentais, encomendadas por clientes (sem inspiração) querendo impressionar o destinatário. Theodore se veste bem, calças de cintura ata (tendência retrô) e belas camisas. Suas elogiadas cartas sugerem um sujeito amoroso, tranquilo, de bem com a vida na paradisíaca Los Angeles. E é..., pelo menos enquanto está no trabalho. No seu apartamento agradável, inconformado com o fim de um longo relacionamento, é tomado pela melancolia, que nem a paisagem, games de última geração ou “alucinado” sexo virtual aplacam.

Theodore não gosta de se sentir solitário, mas tenta se acostumar ao vazio. Um dia ele instala em seu PC um avançado sistema operacional intuitivo, controlado por voz, que evolui conforme a interação com o usuário, e, ao formatar o programa, conhece a sofisticada inteligência artificial Samantha (Scarlett Johansson). Amigável e confidente, sempre disponível para troca de ideias, ela organiza seus arquivos e também palpita na sua vida pessoal. Logo se tornam interdependentes e nem mesmo suas plataformas diferentes são empecilhos para viverem uma paixão avassaladora. O irônico é que SamanthaTheodore através da câmera de um minidispositivo, a ele cabe apenas a imaginação para lhe dar corpo. Quem não conhece Johansson também vai dar asas à imaginação nessa complexa (?) relação entre o concreto e o abstrato.


Ela fascina e apavora com a realidade que sugere: conectividade e solidão (cada um cada vez mais cada um!), ou vice-versa. Conectado, o cidadão se isola. Solitário, o cidadão se conecta. Uma conexão desconexa! Na utópica LA de Jonze cabem todas as estranhezas do amor e do sexo, até mesmo entre humanos e softwares..., também sujeitos às intempéries de qualquer romance. O amor do excêntrico casal descompassa nossos sentidos, não porque foge às regras, mas porque dispensa o anonimato. O amor é imprevisível. Apaixonar é conectar-se a algo ou alguém indiferente à razão.  Ela é uma fantasia provocativa: - e se?!; - por que não?!

Narrativa envolvente, texto afiado, direção soberba e Joaquin Phoenix, em excepcional momento, dando sabor pra lá de especial a um roteiro de sutilezas. O ator, que na maior parte da trama contracena apenas com uma voz em um dispositivo, dá um show de interpretação e expressividade. A vontade é a de aplaudir as cenas. A performance vocal de Scarlett não é fácil, mas ela encontra um curioso tom para Samantha, num misto de mistério e de femme fatale. A produção (fotografia, arte, figurino) é puro capricho e a trilha da genial banda de indie rock canadense Arcade Fire pode surpreender os fãs.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Crítica: Philomena


Quando escrevi sobre o filme Bezerra de Menezes – O Diário de Um Espírito (2010), em um dos parágrafos citei a estrofe de um poema do escritor inglês William Wordsworth (1770 - 1850), sobre a morte do Deus Pã: “Oxalá um pagão ainda eu fosse/ Por velhas ilusões acalentado/ A paisagem seria bem mais doce/ E o mundo muito menos desolado.” (p.185 d’O Livro de Ouro da Mitologia - Thomas Bulfinch, tradução de David Jardim Júnior - Edições de Ouro - 1967). Diz uma lenda que quando Cristo nasceu, um grito de dor ecoou por toda a Grécia: - Deus Pã está morto! Pã era o Deus da Natureza, amante da música e inventor da sírinx. Com Pã morreu a inocência e com o cristianismo nasceu a “abnegação” ampla, geral e irrestrita, ao custo (ainda) de muitas vidas. Com o cristianismo acabou a alegria de viver e começou o martírio e a culpa sem fim. O cristão paga tanto pecado (desde antes de nascer) que nem sabe mais pelo que está pagando..., até parece a carga tributária brasileira. E ai de quem reclamar!”


Sempre que me chega alguma obra desvelando as abomináveis caixas pretas do catolicinismo, digo, catolicismo, me lembro desse poema, que conheci ainda na adolescência e, ai, ai, ai, o mundo católico, sob o jugo do seu Deus Cruel, me parece ainda mais anticristão, mais desnaturado. Philomena (Philomena, UK, 2013), dirigido pelo britânico Stephen Frears, trata de fatos relacionados à vida da irlandesa Philomena Lee (Sophie Kennedy Clark) que, em 1952, grávida e solteira aos 18 anos, foi “internada” no Abbey Ross Sean, Convento dirigido pelas Irmãs dos Sagrados Corações de Jesus e Maria, no Condado de Tipperary, na Irlanda, onde nasceu o seu filho Anthony, que lhe foi tirado (para adoção) três anos depois. Sob a tutela das malevolentes irmãs que, por certo, desconheciam a passagem da mitologia judaico-cristã que reza que Jesus era filho de mãe solteira, ela (que sabia nada sobre sexo) desceu ao Inferno Católico Apostólico Romano (e Irlandês) para expiar o seu pecado da gravidez prematura. Alguns anos após “deixou” o Convento, se casou e, em segredo, buscou pelo filho. Quando este fez 50 anos, Philomena (Judi Dench) decidiu revelar o seu “pecaminoso” passado à filha e, com a ajuda do jornalista Martin Sixmith (Steve Coogan), foi aos EUA em busca de respostas, mas era na Irlanda que estava o sórdido desfecho de seu drama.

A partir do ponto de vista do jornalista Sixmith, com seu pavio curto e humor ácido, Frears desenha um impressionante painel do poder do catolicismo na Irlanda dos anos 1950 (pecado: nascimento de Antony) aos 2000 (perdão: busca por Antony) e o papel vergonhoso dos conventos-maternidade. Não creio que tais práticas desumanas (como as que se vê na tela) se dessem só ali, já que em todos os lugares do mundo onde a igreja católica estendeu seus tentáculos a sexualidade ainda é tabu e mulheres e meninas, vítimas de estupro, continuam martirizadas. Na verdade as mulheres são martirizadas não apenas pela igreja, basta ver o papel que lhes cabe na publicidade. Para alguns segmentos da sociedade elas continuam sendo nada, ou mero bibelô remendado. Tomara que um dia, cientes, elas deixem de acatar tamanha desordem.


O drama de Philomena, cujo capítulo da natividade é digno de um conto de Charles Dickens (1812-1870), é daqueles de “cortar o coração”. Porém a narrativa dribla a pieguice e trata o assunto com seriedade e indignação que a trama pede e não como dramalhão novelesco com clichês de ocasião para versões tipo “baseado em história real”. A tensão é aliviada nos diálogos, mais precisamente nas reflexivas conversas ou embates sobre religião, sexualidade, ética, compaixão, entre a cristã Philomena e o ateu Sixmith. O texto, evidentemente, não é hilário, mas provoca riso, pela inesperada franqueza da condescendente mãe e do jornalista cético, ao se sentirem mais familiarizados também com o caso.

Se é nos pequenos frascos que se encontram os melhores perfumes, é na sutileza do enredo, ali nas entrelinhas do subtexto (?), que se encontra o grande mote de Philomena: tolerância. O tema em pauta (natividade/família/religião/patrimônio) está no átrio, com perturbadores retratos côncavos e convexos das “filhas de Maria”, todavia, é na lavanderia que se desenrola a discussão (subjetiva?) mais significativa: os limites da tolerância (na religião e na mídia). O que significa o (gesto de) perdão para quem perdoa e ou é perdoado? Magnanimidade ou humilhação? Até onde a mídia pode ir, sem ser intrusiva, em sua oportuna exploração de “matéria de interesse” público? Até acabar o financiamento ou até o próximo escândalo? O sim e ou o não é muito relativo, quando não se é sujeito da questão.


O comovente Philomena, com bom transito pelo mistério, road movie, denúncia social, vai além do mero interesse humano em tragédias alheias. Ele chega aos espectadores no mesmo cálice (ou: cale-se!) de hóstias. A absorção e ou o engasgo vai depender do nível de fé e senso de justiça de cada um. Em meio a tantos outros escândalos, aos séculos de mazelas (!) em nome do Todo Poderoso, talvez não provoque a mínima marola nos sacramentos católicos, mas pode desvendar o fiéis mais carolas. Ao menos dentro da sala de cinema!

Inspirado no livro The Lost Child of Philomena Lee (2009), de Martin Sixmith, o roteiro de Steve Coogan e Jeff Pope, ainda que com algumas liberdades dramáticas (sem desvirtuar a essência do acontecido) é coeso. Vale lembrar que a obra de Sixmith (anteriormente pensada para veiculação em um tabloide), além de desvelar o repugnante esquema de adoção praticado pela igreja católica (sob a proteção do arcebispo John Charles McQuaid e do governo irlandês, nos anos 1950/60), abriu caminho para que, na Irlanda, milhares de mães e filhos, separados nesse período, possam um dia se reencontrar. Judi Dench e Steve Coogan, em desempenhos notáveis, dão veracidade e humanidade aos seus personagens em busca de paz interior e ou reordenação profissional.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Crítica: Uma Aventura Lego


Uma Aventura Lego
por Joba Tridente

Quem consegue resistir aos convidativos tijolinhos Lego? O brinquedo de encaixe, criado nos anos 1930, pelo dinamarquês Ole Kirk Christiansen, e lançado no Brasil na década de 1980, é um dos mais populares em todo o mundo. Seus fãs clubes são formados por crianças e adultos que, além de cenários e objetos fantásticos, fazem mirabolantes versões, em curta metragem, de filme como Star Wars, Batman, Matrix.

Segundo a Wikipédia, o nome LEGO vem da união de duas palavras dinamarquesas: “leg godt”, que quer dizer: "brincar bem". Não há dúvidas de que o colorido brinquedo aguça a criatividade de qualquer pessoa. Porém, o que esperar de um longa-metragem inspirado no Universo Lego? Apenas uma longa publicidade do produto? Ledo engano! É claro que o filme vende o conceito “brincar bem”, mas, acredite, a animação Uma Aventura Lego (Lego Movie, Austrália, EUA, Dinamarca 2013), escrita e dirigida por Phil Lord e Chris Miller, é tão desconcertante e maravilhosamente criativa que, como se dizia antigamente: se melhorar estraga.


Tudo bem, 2014 só está começando, com destaque para duas grandes produções: Frozen, animação musical da Disney (inspirada apenas no título do conto A Rainha da Neve, de Andersen), que nasceu pronta para os palcos da Broadway, e O Menino e o Mundo, a bela animação brasileira dirigida por Alê Abreu. Há grandes promessas do gênero para o resto do ano, mas não vai ser fácil superar o impacto visual e narrativo do anárquico Uma Aventura Lego em 3D.

Antes de mais nada, quanto menos você souber do enredo, mais divertido será embarcar nessa viagem amalucada de monta e desmonta tijolinhos, por isso serei breve: Emmet é um ingênuo operário de construção, acostumado a seguir as regras de uma manual de instruções cotidianas, como qualquer cidadão local. É um carinha feliz, que vive feliz em Bricksville, onde os dias se repetem iguais nas construções e demolições e nos (horríveis!) programas de humor na TV. Numa certa tarde de felicidade plena, ele, que nunca pensou fora da caixinha, se descobre peça-chave (ou tijolinho de resistência) de um plano capaz de por fim a tanta alegria. Aí começa, a todo vapor, a louca aventura desse simpático anti-herói.


Repleto de personagens dos mais diversos universos, todos plenamente identificáveis (e com importância na trama!), é difícil saber quem rouba a cena de quem. Pulando de uma plataforma para a outra, como se em um grande game (o que lembra o delicioso Detona Ralph), com seus diversos níveis de dificuldade, estão a rebelde Mega Estilo, o indefectível Batman (com seu pretinho básico), o antiquado Spaceman, os super-heróis Lanterna Verde e Superman (entre outros), o místico Vitruvius, o perverso Senhor Negócios, a “doce” gata-unicórnio UniKitty, o duas caras Policial Mal/Policial Bom... Essa mistureba toda será muito bem justificada no final da divertida saga, que não perde nem o ritmo e nem o rumo da história que tem argumentos mais do que suficientes para agradar as crianças e os adultos.


Uma Aventura Lego é uma inspiradíssima comédia de ação que já nasce clássica. A paródia não dá trégua um minuto sequer. Em meio ao nonsense e ao humor pastelão, que roça no universo cinematográfico, esportivo, literário..., há uma piada que (possivelmente) terá outro sabor para os fãs de HQs, desde que de boa memória. Ou não! Até a música-tema chiclete é achincalhada em cena. A animação impressiona muito pelo seu colorido e técnica de desenvolvimento das personagens. O movimento das peças no cenário, que vai se transformando cena a cena (o mar é de cair o queixo!), é tão perfeito que faz a gente pensar que é stop motion e não CGI (Computação Gráfica). Enfim, uma brincadeira inteligente que faz valer o 3D. Ah, sugiro que espere até que os créditos finais comecem a subir, para apreciar um pouco mais o trabalho primoroso com os tijolinhos coloridos. 

NOTA: No site The Telegraph você pode ver fascinantes Ícones Culturais em Lego.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...