sábado, 30 de agosto de 2014

Crítica: Os Cavaleiros do Zodíaco: A Lenda do Santuário


Na época em que o seriado Cavaleiros do Zodíaco passava na tv, eu me achava velho demais para assistir. Como fazia muito sucesso, às vezes arriscava uma olhadinha. Mas, como não era assíduo, sempre que tentava ver algum episódio, entendia nada. Bem, agora o seriado chegou ao cinema em forma de longa e, dependendo do faturamento, pode até virar franquia.

Os Cavaleiros do Zodíaco: A Lenda do Santuário conta a história de Saori Kido, uma garota que possui um poderoso dom e, aos 16 anos, descobre que pode ser a deusa Atena e que está sendo caçada pelo Grande Mestre. Com a proteção dos jovens cavaleiros de bronze Seiya, Shiryu, Hyoga, Shun e Ikki, ela decide ir até o Santuário em busca de respostas. No entanto, para chegar ao lugar sagrado, o grupo deverá passar pelas 12 Casas do Zodíaco e enfrentar a fúria de cada Signo-Cavaleiro Guardião. Um teste de aptidão que pode valer a vida e ou resultar na morte de todos eles.


Cavaleiro do Zodíaco: A Lenda do Santuário (Saint Seiya: Legend of Sanctuary, 2014), dirigido por Keiichi Sato, é um animação em CGI, estilo anime/mangá, com suas belas figuras adolescentes de estranhos cabelos e figurinos, no caso armaduras. Exibindo ótima técnica, é um desenho muito colorido e brilhoso, cenários fantásticos e ação do começo ao fim. O roteiro (repetitivamente) didático, fala e fala e diz nada. Embora infantil(zinho), o novo (?) público alvo parece indefinido..., já que os fãs sabem de cor e salteado até a música da trilha. E por falar em fãs, para não haver reclamação, a dublagem brasileira foi feita pelos mesmos dubladores do seriado.

Bem, decidi arriscar e assistir (em Cabine de Imprensa) ao Os Cavaleiros do Zodíaco na telona, mas (isso que dá não acompanhar o seriado televisivo!) continuei entendo nada da correria, pancadaria, gritaria dos Cavaleiros. Quem é quem e porque é quem é, então..., nem pensar. Adoro animação e sou fascinado por alguns “gêneros” de anime, mas não me diverti com este, como esperava, e ainda me irritei com a dublagem (horrorosa!).  Acho que é porque realmente não sou fã..., ou sou velho demais para esse Universo Zodiacal.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Crítica: A 100 Passos de um Sonho


Cinema é cíclico. Alguns gêneros ou temas sempre teimam em voltar à telona.  Às vezes viram tendência. Às vezes não. Recentemente, três filmes culinários, a serviço da degustação visual e dicas gourmet, botaram a mesa: Comme un chef, de Daniel Cohen, Chef, de Jon Favreau e A 100 Passos de um Sonho, de Lasse Hallström.

A 100 Passos de um Sonho (The Hundred-Foot Journey, 2014) trata da jornada do cozinheiro indiano Hassan Kadam (Manish Dayal) que, após um atentado ao restaurante da família, foi obrigado a deixar a Índia, migrando para a Europa, na companhia do seu pai, Papa (Om Puri), e de três irmãos. Por um incidente do destino, a família acaba se instalando no aprazível vilarejo Saint-Antonin-Noble-Val, no sul da França, onde abrem o restaurante Maison Mumbai, para oferecer aos nacionalistas franceses a mais tradicional comida indiana. O único porém é a concorrência a 100 passos do Mumbai, o requintado Le Saule pleureur, especializado na mais clássica comida francesa e detentor de uma cobiçada estrela do Michelin. A sua proprietária, a arrogante Madame Mallory (Helen Mirren), que sonha com uma segunda estrela, não vê com bons olhos, bons ouvidos e bom nariz a colorida e animada nova vizinhança e suas inebriantes especiarias. Opinião que não é compartilhada pela sua sub chef Margueritte (Charlotte Le Bon).


A 100 Passos de um Sonho é uma comédia com pitadas de drama leve, salpicada de sociabilidade. Adaptada por Steven Knight, do best-seller de Richard C. Morais, é uma história feita para ser degustada sem pressa, ainda que se adivinhe o cardápio. Da entrada à sobremesa, o espectador nem precisa acompanhar o menu para sentar-se à mesa e saborear a trama de odores. A receita do prato principal de cada personagem é óbvia, mas incomoda em nada a digestão neste efervescente banquete de tradições culinárias.


É cada vez mais raro um filme sem clichês. Dizem que todas as histórias já foram contadas e que, portanto, só variam os personagens, independente do gênero cinematográfico. Há controvérsia. A 100 Passos de um Sonho é repleto de clichê. Mas não faz a menor diferença, já que estão perfeitamente integrados à charmosa narrativa, recheada com alguns diálogos picantes e ou agridoce e uma cobertura maravilhosa na fotografia muito bem temperada de Linus Sandgren. Decididamente, fotografar um prato, da colheita dos ingredientes ao serviço final, não é para qualquer um. Mas o desafio maior ficou para o vegetariano Lasse Hallström, que, com muito profissionalismo, dirigiu o filme-cozinha onde a maioria dos pratos é de carnes.


Filmado em locação na França, A 100 Passos de um Sonho é um filme simples, sem grandes novidades, mas envolvente. Assim como o simpático Chef, quebra a rotina da temporada de produções cada vez mais violentas e dá um merecido descanso às retinas. Além de servir de inspiração aos cozinheiros de ocasião. Seus personagens são simpáticos e cativantes. O elenco é excelente. Os novatos Manish Dayal e Charlotte Le Bon surpreendem, mas quem rouba as cenas são os inspiradíssimos veteranos Om Puri e Helen Mirren. Atenção: Não deve ser visto de estômago vazio.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Crítica: No Olho do Tornado


Não é novidade alguma que os EUA estão na rota dos tornados, furações e outros ventos mais e ou menos violentos. Novidade, para mim, foi ver, no Google, a quantidade de filmes sobre o assunto. Numa passada de olhos, contei uns doze, mas acredito que haja, no mínimo, o dobro. Isso sem contar os dramas metafóricos. Eu assisti ao clássico Mágico de Oz (1939), ao famoso Twister (1996) e ao divertidíssimo trash Sharknado (2013)..., que parece ter servido de inspiração ao insosso No Olho do Tornado. E por falar em catástrofe-trash (?) fiquei curioso em dois títulos da minha pesquisa: Metal Tornado (2011) e Alien Tornado (2012).


A trama de No Olho do Tornado? Como poderia dizer? Bom, no dia da formatura dos alunos do colegial, em Silverton, aparece pela redondeza um bando de furacões para estragar a festa. Bem, onde tem furacões tem caçadores profissionais de furações, como o documentarista Pete (Matt Walsh) e a meteorologista Allison (Sarah Wayne Callies), e caçadores amadores de furacões, como os caipiras debiloides (tipo Jackass) Donk (Kyle Davis) e Reevis (Jon Reep); gente inocente correndo pra lá e pra cá; estudantes adolescentes na hora e lugar errados; cachorro perdido; velho solitário; coisas materiais (móveis e imóveis) carregadas pelos tornados e furacões. E, é claro (ou seria empoeirado?), no meio da tempestade, um pai, Gary (Richard Armitage), e seus filhos, Donnie (Max Deacon) e Trey (Nathan Kress), em crise, discutindo a relação no melhor estilo catástrofe-trash da produtora The Asylum e do canal SyFy.


Dirigido por Steven Quale, o drama de ação, baseado no roteiro insípido de John Swetnam, é tão preguiçoso que é difícil acreditar que não tenha sido soprado pra longe dos cinemas antes do tempo fechar. Os vigorosos tornados são os protagonistas e, como é da sua natureza, não fazem feio, destroem com técnica e precisão praticamente tudo que encontram pelo caminho. Já os humanos, não passam de um detalhe fora de foco no meio da tempestade. Ainda que sejam eles, na maior parte da narrativa que imita o estilo found footage, a contar (documentar) a história, através de suas variadas câmeras. São coadjuvantes enfadonhos que não despertam o menor interesse pelo seu melodramático destino (pra lá de previsível).

No Olho do Tornado (Into The Storm, EUA, 2014) é uma ficção boba. Clichê e pieguice abundam na borda e dentro da tempestade. Voam frases feitas para todos os gostos: “Precisamos sair daqui!” e ou “Trabalhei com isso a minha vida toda!” e ou a clássica: “O que está acontecendo?”. Todavia tempestuosa, embora mal escrito, mal dirigido, mal interpretado, mal editado, No Olho do Tornado está longe de ser considerado trash..., porque lhe falta o principal: inventividade, que sobra em Sharknado, por exemplo.


Com a pretensão de seriedade levada pela ventania, mesmo com efeitos especiais excelentes, No Olho do Tornado acaba soando mais como um arremedo (sem vacas voando!) de Twister, que compensava os efeitos razoáveis com um bom script. Por falar em Twister, há uma (bonita) sequência “lúdica” no tornado de lá que aproxima os dois no tornado de cá. Quem viu o filme de 1996, dirigido por Jan de Bont, vai se lembrar na hora da cena.

Enfim, um programa literalmente nebuloso e com previsão meteorológica imprevisível, para o deleite dos fãs do gênero que, de quebra, levam de brinde mensagens edificantes de superação que, por Bóreas!, assim como o filme, serão totalmente esquecidas logo após a sessão.

domingo, 17 de agosto de 2014

Crítica: Lucy


De Luc Besson gosto de Subway (1985), de Imensidão Azul (1988). Ao ler o pressbook de Lucy, achei que o filme estaria à altura (não esperava que superasse!) do meu favorito e seu melhor trabalho: O Quinto Elemento. Confesso que ao sair da Cabine de Imprensa, achei que seria melhor processar as ideias antes de emitir alguma opinião sobre o que tinha visto. O veredicto apressado: insanidade total.

Insanidade? Sim! Lucy (Lucy, França, 2014), de Luc Besson, é uma ficção pseudocientífica policial tresloucada com pé no acelerador, dedos no gatilho e totalmente sem cabeça. Ôps! Ôps? A trama “discute” a possibilidade do homem, que erroneamente dizem usar apenas 10% do cérebro, conseguir usar 100% (o que já é feito). Como sair de 10% pra 100%? Lucy (Scarlett Johansson) é uma estudante americana em Taipei (Taiwan) que, num rela-rela com seu namorado basbaque, se vê presa (fugir, nem pensar!) a uma maleta com droga e, na (con)sequência, prisioneira do chefão do crime Jang (Choi Min-sik), que a sequestra e a transforma em mula do potente alucinógeno CPH4, que pretende despachar para Paris, Roma, Berlin.


Todavia, num incidente (absurdo, dado o valor do produto!) seu corpo absorve a droga e rapidamente ela começa a despertar os 90% do cérebro adormecido e a desenvolver habilidades sobre-humanas. Acreditando (?) ter apenas 24 horas de vida, Lucy decide viajar para a França, a fim de se consultar com o neurocientista Samuel Norman (Morgan Freeman), que estuda a potencialidade do cérebro humano para além dos 10%..., e de se encontrar com o policial francês Pierre del Rio (Amr Waked), que está no encalço dos outros mulas  a caminho da Europa.

Como sou um ser 100% pensante, mas com a memória falha em 10%, talvez não consiga enumerar todas as “referências” e “homenagens” do produtor, roteirista e diretor Besson aos filmes que precederam a Lucy. Deixa-me ver, a minha lembrança mais antiga é a do Viagens Alucinantes (1980), de Ken Russel e a mais recente - passando por AKIRA (1988), de Katsuhiro Otomo e Matrix (1999), de Andy e Lana Wachowski - é do ótimo Sem Limites (2010), de Neil Burger. Ainda divagando sem critério, cito o belíssimo Ela (2013), de Spike Jonze, o descartável Transcendence (2014), de Wally Pfister, que trocou fiação com Geração Proteus (1977), de Donald Cammell e O Passageiro do Futuro (1992), de Brett Leonard. É melhor acabar logo com a dor de cabeça finalizando com O Cérebro (trash de 1988), dirigido por Ed Hunt.


Se bem que Luc Besson pode não conhecer (?) nenhum dos filmes que citei. Como se sabe, tem muito diretor de cinema que vê (e depois revê) apenas os próprios filmes. O que não tem muita importância, já que o grande público também tem memória curta. Mas, enfim, o frenético Lucy, de francês, tem apenas o seu diretor. O resto é tipicamente clichê e previsibilidade norte-americana, com uma pitada hard-core sul-coreana: tiroteio gratuito; correria; perseguição de carro na contramão (ah!) e sob marquises (oh!) e entre pessoas (ah!); sadismos etc.

A trama insana (ou vice-versa) tem mais furos que o queijo suíço Batman (2012) de Christopher Nolan. O que quer dizer que suscita muito mais “por quês”: Se Lucy tem todo esse poder, por que agiu e ou não agiu assim? Porque ela matou fulano e não matou beltrano? Por que esse sujeito ainda está vivo? Porque a polícia francesa não prendeu os traficantes? Óbvio que se Luc respondesse a todos os “por quês” faria um filme diferente. Possivelmente melhor e não um arremedo de produções estadunidenses do gênero, cujas situações o espectador (memória 100%) já viu trocentas vezes. Bom, mas há que se pensar no espectador (memória 10%) que nunca viu, no cinema ou na tv, perseguições de automóveis, carro batendo ou dando cambalhotas ou voando, tiros a queima roupa ou troca de tiros em lugares públicos, matança de inocentes etc..., não é? Honestamente? Não!


Lucy não é o primeiro e com certeza não será o último filme a falar de drogas (leves ou pesadas) reais ou fictícias, como a CPH4, de Besson, e dos seus efeitos colaterais.  Também porque parece haver um público ávido por “tramas” sobre a belicosidade do tráfico e traficantes. Algumas produções podem até “confundir” o público com a glamourização do tema, mas nunca é demais lembrar que (qualquer) droga vicia e overdose não transforma o usuário em alguém superpoderoso (como Lucy)..., overdose mata. Por falar nisso, nunca consegui entender porque quando um personagem está chapado, bêbado, em cena, quem vê tudo fora de foco e fora de oderm é o espectador e não ele.

Pastiche do gênero policial sci-fi dramático norte-americano, Lucy não apresenta novidade nem na direção, que embaralha “discursos” ou “tempo” ou “cérebro” para parecer inteligente. Da retórica inicial: “A vida nos foi dada há um bilhão de anos. O que fizemos com ela?” à retórica final: "A vida nos foi dada há um bilhão de anos. Agora você sabe o que fazer com ela."..., o roteiro de Besson é pretensioso e a sua analogia com o fóssil Lucy, querendo ir onde o 2001: Uma Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick, já esteve há muito tempo, é tola. A metaforização animal/homem/universo (do prólogo ao epílogo) é piegas.


Pontos positivos: elenco protagonista (Johansson tem carisma e fã clube e Freeman status), ainda que o personagem Samuel Norman, de Morgan Freeman, seja o mesmo Joseph Tagger, de Trancendence; fragmentos do mundo animal; parte dos efeitos especiais; a metragem de 90 minutos, que nos livra de 30 minutos ou mais de encheção de saco e idiotices; a ausência de humor, que poupa olhos e ouvidos dos espectadores de piadas escatológicas hollywoodianas.

Considerando que é difícil saber o que é pior, se o script imbecil que subestima o espectador (100%) ou se a narrativa que faz o espectador (10%) se sentir esperto por “antecipar” os acontecimentos clichês; que há nada de novo na tela, a não ser um au revoir sutileza europeia..., o meu veredicto tranquilo: insanidade total.

PS: Apesar da história e do desfecho, a irresistível Lucy In The Sky With Diamonds, de Lennon e McCartney, não faz parte da trilha sonora de Eric Serra. Seria óbvio demais! Atenção: Confira a letra só após o filme..., senão vira spoiler.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Crítica: O Que Será de Nozes


Cinema tem disso, mexe e vira e um velho assunto volta..., às vezes muda apenas o gênero. O clima de O Que Será de Nozes, de Peter Lepeniotis, não é exatamente o do tradicional film noir, mas a trama policial, ainda que burlesca, sabe onde fica a fonte.

O Que Será de Nozes (The Nut Job, Canadá, Coréia do Sul, EUA, 2014), que em fase de produção ganhou o simpático teaser Nuts & Robbers (2012), é baseado no premiado curta Surly Squirrel (2005), também dirigido por Lepeniotis. A alucinada história de bandido e mocinho (ou bandido e bandido) se passa na década de 1950, nos EUA.
  

É outono no Liberty Park. Os animais roedores, sob o comando do guaxinim Raccoon, juntam comida para o inverno quando um acidente, envolvendo o egoísta esquilo Surly, acaba comprometendo o armazenamento. Expulso do grupo e do parque, o individualista Surly está à procura de um novo lar e comida quando dá de cara com uma loja de nozes e decide roubá-la. O problema é que, além de servir de fachada para uma gangue de humanos, que pretende assaltar um banco próximo, a loja é guardada pela cadela Preciosa. É uma empreitada perigosa e ele tem que decidir se age sozinho e ou se divide a tarefa e o lucro com seus ex-companheiros: o inocente rato Buddy, a intrépida esquila Andie e seu parceiro narcisista Grayson..., e o diversificado bando que o expulsou.


O roteiro, que não esconde as expectativas de virar franquia, é razoável. Alguns tropeços acontecem aqui e ali, mais pela indefinição do público alvo. Se falha, ao insistir, por exemplo, no humor escatológico (peidos e arrotos), acerta, na ação pastelão (Looney Tunes) e na diluição da violência (forte no curta). Em alguns momentos surpreende com sequências inteligentes, como a do entrelaçamento (num mesmo porão) das duas histórias de assalto: a dos humanos ao banco e a dos roedores às nozes.


Produtoras europeias e sul-coreanas vêm se esforçando para se destacar num universo em evidência e ainda com pleno domínio da Pixar e DreamWorks, que atualmente se distinguem mais pela história do que pela primorosa técnica. O Que Será de Nozes tem bom padrão técnico e em alguns momentos fica bem acima da média. O desenho dos personagens (para o longa) melhorou e muito, mas não sei se a mudança (incômoda?) de característica e personalidade de Buddy, agora mudo (?) e gentil, vai agradar aos fãs do curta. Será que a “metamorfose” de Buddy foi para diminuir (em um?) o número de vilões e cair nas graças da criançada? Outro que sofreu mudança, pra melhor (com quem você acha que ele se parece de perfil?), é o pássaro espião de Raccoon. Já o Surly, este continua falastrão, egocêntrico e salafrário. A antipatia em esquilo.

Com os títulos abrasileirados que a gente vê por aí, o trocadilho O Que Será de Nozes nem é dos piores. Na verdade o roteiro também “brinca” com o título original The Nut Job, fazendo piadas (que, na dublagem brasileira, passam batidas) com a palavra “nut”, que serve tanto a “porca” (de parafuso) quanto a “noz”. Mas, sinceramente, nem no contexto (americano) a gag tem muita graça.


Enfim, alguns animaníacos, feito eu, vão achar que O Que Será de Nozes lembra um pouco Os Sem Floresta (2006)..., mas isso é o de menos. Também porque a graciosa animação foge do lugar comum com seus protagonistas e coadjuvantes malandros e foras da lei. É uma boa história de ação e aventura repleta de trapaças, explosões, correria, vilanias..., compensada com um subtexto pra lá de altruísta, que arremata, sem pieguice, mas com alguma malícia, as ousadias da trama. Quanto ao castigo aos criminosos, após os créditos-clip com o sul-coreano Psy cantando e dançando com todos os personagens o seu sucesso Gangnam Style, há uma, digamos, cena surpresa.

Ah, um lembrete: quem espera a “tradicional” jornada do herói, acho que vai ter que se contentar com a jornada do bandido, quem é bem mais interessante.

domingo, 10 de agosto de 2014

Crítica: Amantes Eternos


Desde o Nosferatu (1922), de Murnau, muitos vampiros passaram pelas telas de cinema. A variada fauna de vampiros já provocou tanto calafrios quanto risos. Os últimos que nos chegam, com o selo Jim Jarmusch de qualidade, são intelectuais que preferem a tranquilidade do lar sombrio, ao burburinho de uma vida noctívaga. Em vez do risco de uma jugular infectada, a garantia de um puríssimo sangue “O” hospitalar.

Em Amantes Eternos (Only Lovers Left Alive, 2013), Adam (Tom Hiddleston) é um vampiro músico apaixonado por instrumentos de cordas raros e discos de vinil. Vivendo em uma Detroit (EUA) em ruínas, conta com a ajuda do simpático humano Ian (Anton Yelchin) para conseguir suas preciosidades musicais. A sua mulher Eve (Tilda Swinton), dona de invejável biblioteca, mora em Tanger (Marrocos). Ali compartilha sangue e filosofia com o dramaturgo Christopher Marlowe (John Hurt), aquele que alguns acreditam ser o autor dos famosos dramas de Shakespeare. O músico cool e a leitora voraz vivem uma relação mais espiritual que física. No entanto, sonhos preocupantes com Ava (Mia Wasikowska), a irresponsável irmã de Eve, faz com que o erudito casal se reencontre para decifrar suas aflições.


Amantes Eternos surpreende por ser um drama romântico, quase trágico, sobre vampiros. Ele nada tem de terror. O que pode frustrar quem espera ver sangueira jorrando, corpos despedaçados, morcegos ao entardecer etc, recursos cênicos tradicionais em filmes populares do gênero. Felizmente, Jarmusch não é tradicional e muito menos faz o gênero cinema popular que se degusta com combo e smartphone. O seu público é o espectador pensante que espera se deliciar com uma história, ainda que gótica, mais reflexiva. E reflexão, entremeada de nonsense e humor negro (óbvio!), é o que não falta a estes vampiros existencialistas que pelos séculos e séculos acompanharam a evolução e a derrocada social, econômica, cultural, científica dos humanos (ou zumbis, como se referem aos homens). Basta um requintado cálice de sangue entre os dedos para que os dândis soltem a língua (venenosa?) com ironias sobre grandes nomes da literatura, teatro, música... Quando estão enfastiados de revisitar o passado, destilam sobre o presente. E vão (sobre)vivendo em meio ao vintage cult e o descontrole (autoral) tecnológico.


Após a sessão me peguei pensando numa possível sintonia entre Estranhos no Paraíso (1982) e Amantes Eternos (2013), por um pequeno detalhe. Lá atrás, Eva (Eszter Balint) chegava da Hungria, para “agitar” a vida do primo Willie (John Laurie) e seu amigo Eddie (Richard Edson). Agora é Ava (ou seria Lilith?) quem chega de Los Angeles para “agitar” o Paraíso de Adam (Adão) e Eve (Eva) e, por tabela, provocar o “Anjo da Guarda” Ian. Achei curiosa e divertida e essa analogia (e ruptura) sobre o Paraíso (Perdido, de John Milton?), ou o que nos parece ser um Paraíso até que a “tentação” maliciosamente o enreda. O que distingue ou sobrepõe a Eva (de ontem) e a Ava (de hoje) eu sei. Porém, talvez eu esteja viajando num sangue contaminado. Quem quiser tirar a dúvida, veja os dois filmes e conclua por conta própria.

Não creio que haja um diretor de cinema mais underground que Jim Jarmusch. Em uma antiga fan page (abandonada em 2011) é possível encontrar em Minhas Regras de Ouro, e ou atribuídas a ele, um conceito interessante sobre autenticidade e originalidade. À margem de Hollywood, seu território é palco de personagens melancólicos e ou entediados com os rumos do mundo. Não há como ficar indiferente à sua constância ou preferência pelos marginalizados que vivem por teimosia vagando pelo ermo, pelo submundo americano, ou alçando voos baixos por outras paragens igualmente soturnas.


Tratados com apaixonada relevância, seus marginais são sempre convincentes e, por isso, tão arrebatadores quanto a música que veste particularmente cada um. Música que foge do estereótipo “trilha sonora” e envolve até a plateia mais sisuda..., se é que público sisudo se arrisca a ver cinema alternativo.  Jarmusch e música são tão indissociáveis que em Amantes Eternos ele comparece com o seu trio (indie) Sqürl em números e intervenções arrepiantes..., principalmente para quem gosta do bom e velho rock. Com certeza esta é umas das trilhas que estará fácil entre as melhores de 2014.

Enfim, considerando a excelência do elenco; a provocação e inteligência do roteiro que dribla todos os clichês; a trilha irretocável que ilumina e aconchega a sombria história; a notável fotografia de Yorick Le Saux; um Jarmusch ainda surpreendente..., reserve já o seu ingresso.

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Crítica: O Homem das Multidões


Um homem enquadrado enquadrando o mundo ao seu redor. Juvenal (Paulo André), condutor de metrô em Belo Horizonte. Uma mulher enquadrada enquadrando o mundo ao seu redor. Margô (Sílvia Lourenço), controladora de estação de metrô em Belo Horizonte. Em comum, ou quase, a solidão. A dele, analógica. A dela, digital. A timidez num mundo fluido sobrecarregado de anônimos sobrecarregados de idiossincrasias. O claustro. As fobias de cada um. Ele deixando se perder na multidão. Ela tentando se encontrar em pixels. Juvenal mora num velho escritório travestido de apartamento rodeado de coisas mínimas. Coisas unitárias. Não espera que alguém o visite. Não espera que alguém distraia a sua vista de primeiro andar sobre transeuntes térreos. Quando se mistura a eles, não espera relar e ou ser relado. Relar em alguém é criar intimidade indesejada. É abrir brecha para confidências. Solitários têm horror a confidências. Paga o desejo para não criar intimidade. Margô compartilha um pequeno apartamento com o pai velho (Jean-Claude Bernardet). Não se relam. Conectada à internet também não rela em outro usuário. Um toque automático na tela afaga seus peixes digitais com comida virtual. Quando um café, um almoço quebra a rotina solitária e o conforto do anonimato com uma “súplica”, talvez seja a hora de ambos reverem seus conceitos de convivência. Pois, como dizia o sofista Protágoras (480 a.C. - 410 a.C.): “O homem é a medida de todas as coisas, das coisas que são, enquanto são, das coisas que não são, enquanto não são.”


O Homem das Multidões (Brasil, 2012), de Marcelo Gomes e Cao Guimarães é uma crônica contemporânea inquietante e sensível que dialoga com o conto homônimo do escritor Edgar Alan-Poe e com o ótimo docudrama Transeunte (2010), de Eryk Rocha. O curioso quadrado que limita a tela, enclausurando personagens, feito janela de vagão de metrô ou de monitor, é uma provocação e tanto. A impressão é a de assistir ao drama por uma fresta na tela, num excelente registro fotográfico de Ivo Lopes Araújo, que não dispensa intrigantes close-ups e close-ôps. Assim como uma claraboia direciona a luz, a projeção direciona o olhar do espectador a uma leitura mais intimista da narrativa que tem o seu ponto alto na performance do casal protagonista. Um filme para quem ainda acredita em ousadias estéticas no cinema brasileiro. 

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