quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Crítica: Ponte dos Espiões

Houve um tempo (?) em que a Guerra Fria (1945-1991) entre o capitalismo norte-americano e o socialismo soviético esquentou tanto que os EUA e a URSS só não chegaram ao ponto de combustão porque o potencial nuclear de ambos explodiria a ambos. Nesse período (?) de terrorismo psicológico, de acende o pavio do lado de cá e apaga o pavio do lado se lá, não faltaram fatos e boatos de espionagem e contraespionagem para alimentar a mídia e aumentar a paranoia americana e a aflição no resto do mundo.


É claro que um assunto tão buliçoso desses não passaria despercebido em Hollywood, que produziu algumas pérolas. O gênero andava meio esquecido (?), é verdade, até Steven Spielberg apresentar a sua versão da Ponte dos Espiões (Bridge of Spies, 2015), que resgata o processo de negociação, mediado pelo advogado de seguros James B. Donovan (Tom Hanks), entre os EUA e a URSS, na troca do espião britânico de ascendência alemã-russa Rudolf Abel (Mark Rylance) pelo americano Francis Gary Powers (Austin Stowell).


Ponte dos Espiões, com roteiro dos irmãos Ethan e Joel Cohen, em parceria com Matt Charman, não é exatamente um thriller, um filme de espionagem ou de tribunal, mas um drama(lhão) ao estilo ufanista de Spielberg sobre um advogado de seguros (Donovan/Hanks) designado (a contragosto) pela Ordem dos Advogados para defender (e perder a causa) de um espião “russo” (Abel/Rylance). O “problema” para a inflexível justiça americana e o júri pro forma é que o nobre advogado estadunidense James B. Donovan (1916-1970) decide levar a sério o seu trabalho e, com bom argumento, mudar o veredicto de praxe (pena de morte) para os “crimes” de espionagem. Assim, quando um espião norte-americano (Powers/Stowell), piloto do célebre U-2, cai em mãos soviéticas, o famoso e odiado articulador Donovan é convocado para negociar (discretamente) a troca dos espiões.


Com os pés no fato (documental) e os olhos no fato (comercial), o filme de Spielberg, livremente inspirado na biografia de Donovan (Negotiator: The Life and Career of James B. Donovan, 2006), escrita por Philip J. Bigger, e, possivelmente, no livro do próprio advogado (Strangers on a Bridge, The Case of Colonel Abel, 1964), não chega a ser ruim, mas tampouco é memorável. Uma vez que se releve as liberdades poéticas, o chauvinismo (argh!), as cenas bobas (leitores) e analogias (EUA/URSS) piegas via metrô (a última é de matar diabético!), é até possível encontrar um enredo satisfatório. A trama, ocupada em defender a Constituição Americana e destacar o valor de seu cidadão varonil, é claro, passa longe do entretenimento espionagem-pipoca (007, MI)..., ainda que tenha uma elaborada apresentação do espião Rudolf Abel e uma excelente sequência de perseguição (a pé) sob forte chuva. Todavia, 140 minutos me pareceu tempo demais para a conversação sobre os percalços da espionagem e seus espiões notórios.


Enfim, levando em conta que Ponte dos Espiões é inspirado em fatos e que os irmãos Cohen marcam boa presença na ironia de alguns diálogos e pontuadas situações; que a curiosidade histórica é para americanófilo algum botar defeito; que Mark Rylance, em magnífica interpretação, rouba todas as cenas; que Tom Hanks, sempre à vontade, emociona; que a invasiva trilha de Thomas Newman, insuportável em sua grandiloquência choramingas, não tira o brilho da impressionante fotografia (sépia) de Janusz Kaminski..., considero que os fãs do Spielberg (melo)dramático vão gostar. Eu sou mais do Spielberg aventuresco.

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Crítica: Goosebumps: Monstros e Arrepios


O que sei de mais relevante sobre Goosebumps: 1. É o título de uma popular série infantojuvenil de sessenta e dois livros de terror com humor. 2. Foi escrita pelo norte-americano R. L. Stine e publicada de 1992 a 1997. 3. Cada livro traz histórias e personagens diferentes. 4. Virou seriado de tv e foi exibido com sucesso, de 1995 a 1998, nos EUA. 5. No Brasil os livros foram lançado pela Abril Cultural e, a partir de 2006, pela Editora Fundamento. Isso aprendi pesquisando na Wikipédia, porque, até assistir ao Goosebumps: Monstros e Arrepios (Goosebumps, 2015), sabia absolutamente nada sobre o assunto motivador do filme infantil.


Goosebumps: Monstros e Arrepios (Goosebumps, 2015), dirigido por Rob Letterman, acontece em Madison (EUA), para onde se mudam o adolescente Zach (Dylan Minnette) e a sua mãe Gale (Amy Ryan), que será a nova vice-diretora da escola. Logo na chegada o garoto conhece a graciosa vizinha Hannah (Odeya Rush), cujo pai, Shivers (Jack Black), é muito severo, e, na escola, faz amizade com o aluno (clichê) tímido e medroso e atrapalhado e etc Champ (Ryan Lee). Certa noite, achando que Hannah corre perigo, Zach e Champ (ah, esses adolescentes apaixonados!) invadem a sua casa e dão de cara com uma estante abarrotada de livros chaveados da série Goosebumps, do escritor R. L. Stine...

Tempo! Como assim, a série de livros Goosebumps, de R. L. Stine? Qual é a meta dessa linguagem? É uma cinebiografia? É inspirado em fatos? É tudo verdade? Fim do tempo!

... Bem, já que os garotos chegaram até ali, uma invasão a mais na privacidade alheia não vai fazer diferença e assim, sem pensar (ah, essa juventude desatenta aos sinais!), Zach encontra uma chave e abre o volume O Abominável Homem das Neves de Pasadena e... Exato! O cadeado servia pra trancar o Abominável Homem das Neves nos cafundós da prisão literária. Agora ele está à solta e apavorando. E o pior, em breve ele não estará sozinho. Na sua cola, sob o comando do malévolo Boneco Slappy, estão saltando dos livros: Gnomos de Jardim, Múmia, Zumbis, ETs, Lobisomem, Plantas Carnívoras... Com os Monstros provocando Arrepios, na cidade, resta saber quem será o herói que irá mandar todos esses monstrengos lendários de volta para as histórias de Stine.

Ah, e quanto à severidade de Shivers e ou o mundo (Goosebumps) apavorante de Stine, saiba (?) apenas que as aparências enganam na arte e na vida e que todo pesadelo tem um pezinho no sonho! Ou será que não?


O que vi em Goosebumps: Monstros e Arrepios: 1. É uma fantasia de ação e aventura infantil e quase (!) terror juvenil. 2. O seu público é o de crianças entre 7 e 12 anos..., portanto, nada de apavorar os pequeninos. 3. Tem muita correria e muita gritaria, mas o arrepio é leve, quase imperceptível, na visão de um adulto...., assim como o “humor”. 4. Ao se pensar no grande número de filmes e livros onde personagens e leitores (e ou espectadores) “trocam” de lugar e vivem aventuras espetaculares, o roteiro não parece dos mais originais. Percebe-se resquícios de Jumanji (1995), baseado no livro homônimo de Chris Van Alsburg, lançado em 1982, e da recente franquia Uma Noite no Museu..., que todo mundo sabe como termina. 5. É um filme que, provavelmente, será melhor apreciado pelos fãs da série (em livro e tv) e pelos espectadores mirins. 6. O público mais velho (que deixar a sua criança interior em casa) talvez o ache meio bobo e enfadonho.


Assim, considero que: 1. Goosebumps: Monstros e Arrepios tem bom elenco (às vezes exagerado nas caras e bocas) e efeitos especiais bem razoáveis. 2. Ainda que lembrem os Gremlins (1984), os Gnomos de Jardim são os melhores personagens e protagonizam as melhores sequências de ação. 3. A narrativa é enxuta (isso é bom!), mas é linear e previsível (isso é ruim?), mesmo para um filme infantil. 4. Há monstros demais (isso é bom!) e história de menos (isso é ruim!), mesmo para o público infantil. 5. A meta da produção óbvia é a franquia infantojuvenil..., daí o panorama com uma quantidade absurda de monstros (sem ter a quem assustar!) e a dosagem homeopática (ou meio apática?) da ação e aventura: corre um pouquinho, para um pouquinho, grita um pouquinho..., para que tudo volte ao normal etc e tal no final bem rimadinho. 6. No próximo levo a minha criança interior..., se conseguir me lembrar em que cinema a deixei!

Nota: Aproveitando a estreia do Goosebumps: Monstros e Arrepios, a Editora Fundamento está lançando edições baseadas no filme: A Noite dos Monstros Vivos, A Vingança, Monstros e Arrepios, Guia de Como Sobreviver a Monstros.

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Crítica: A Colina Escarlate


O Castelo de Otranto (1764), de Horace Walpole (1717-1797) é tido como precursor da literatura gótica, que tem em seu panteão nomes como Ann Radcliffe (1764-1823), Charles Maturin (1782-1824), Mary Shelley (1797-1851), Nathaniel Hawthorne (1804-1864), Edgar Allan Poe (1809-1849), Bram Stolker (1847-1912)... As principais características do “romance” gótico são: enredo melodramático, cenário sombrio, segredos (de família), maldições, manuscritos, terror (noturno), demônios, fantasmas (se arrastando pelas fendas).


O diretor Guilhermo del Toro traduz a essência do gênero no seu romântico A Colina Escarlate (Crimson Peak, 2015), uma fantasia à beira do melodrama, onde o grande destaque é uma velha mansão com seus “segredos” escabrosos ruindo no topo de uma colina sangrenta. A história “fantasmagórica” começa em Buffalo, EUA, na virada do século 19, onde a jovem adulta pré-feminista Edith Cushing (Mia Wasikowska), aspirante à escritora, enfrenta o preconceito de editores e de “amigos” por causa de seus manuscritos nada românticos e recheados de “fantasmas-metáforas”. Edith, que não abre mão do estilo gótico, prefere ser comparada a Mary Shelley do que a Jane Austen. Com o apoio do pai, o empresário Carter Cushing (Jim Beaver), ela pretende continuar escrevendo até conquistar um lugar num mercado dominado por homens. Na sua vida não há espaço para o amor. Escrever é a única coisa que lhe interessa.

Ou era..., até conhecer o galanteador baronete inglês Thomas Sharpe (Tom Hiddleston), que apareceu por ali em busca de recursos financeiros para um projeto audacioso. Loucamente apaixonada (à primeira vista), após um incidente com seu pai, a garota (audaciosa que queria ser escritora) se casa e vai morar com o marido e a irmã dele, Lucille (Jessica Chastain), na lúgubre Allerdale Hall, no alto da Colina Escarlate, num lugar qualquer da Inglaterra. Ah (isso não é spoiler!), esqueci de dizer o que del Toro não faz questão de esconder, Edith conversa com fantasmas e um deles, por duas vezes, a preveniu dos “perigos” da Colina Escarlate. Mas, sabe como é, aviso de fantasma é fugaz..., evapora rapidinho.


Escrito por Guilhermo del Toro e Matthew Robbins, o roteiro é meio rasteiro e se ocupa mais em homenagear os filmes “B” (ingleses) e as antigas hqs de terror (saudades da genial Kripta!) do que em contar uma história realmente amedrontadora. No primeiro ato tem duas sequências fantasmagóricas mais (ou menos) “assustadoras”, mas, no segundo, é apenas rotina despertada pelo “buuuuu!” do ruído sonoro. O clima de suspense, que conduz a narrativa na Inglaterra, desperta interesse mais pelo passeio nas entranhas da impressionante e decadente mansão dos “misteriosos” irmãos Sharpe do que pela visita dos fantasmas carentes que brotam sanguinolentos em qualquer lugar por ali.

Intencional ou não, o enredo de A Colina Escarlate nem é tão enredado (no horror) como promete. Muito menos é preciso ser lá muito esperto (se até eu consegui!) para desvendar os “segredos” e ou prever as intenções (os passos, os atos, os gestos) dos irmãos maquiavélicos em sua (previsível) senda. O que não é antecipado num diálogo aparentemente sem importância, será no detalhamento de uma imagem (ao redor). A trama mal costurada deixa muitos pontos (importantes) sem nó. Entre as linhas soltas (sem nexo!) a que mais incomoda é a mudança de personalidade (do vinho para o suco artificial) de Edith. Infelizmente não dá para citar as outras sem entregar de vez toda a “trama” que, como já disse, é nada complexa.
  

Todavia (adoro esta conjunção!), deixando de lado a história pouco inspirada do diretor e roteirista dos geniais A Espinha do Diabo (2001) e Labirinto do Fauno (2006), entre outros, há que se louvar a arquitetura estonteante da casa dos irmãos Sharpe, engenhosamente construída (no estúdio), que rouba (merecidamente) todas as cenas. Cada compartimento é um assombro (ôps!), uma pintura surreal valorizada ainda mais pela fotografia de Dan Laustsen, que não economiza nos enquadramentos. Assim como em Peter Pan, de Joe Wright, uma vez que a narrativa (bem intencionada?) perde o rumo, o que acaba valendo (e muito!) é o visual esplendoroso. As cenas das borboletas, nos EUA, e das mariposas, na Inglaterra, são puro deslumbre. Você pode até não gostar da história, mas é impossível ficar indiferente à cenografia, ao figurino e à fotografia.


Quando um filme chama a atenção mais pelos detalhes técnicos que pelo roteiro raso, e o susto é provocado mais pelo alto volume do ruído da trilha que pela sugestão da imagem espectral, me parece que alguma coisa está fora de ordem. Será? 

Enfim, considerando que o título gótico remete à melancolia de Edgar Allan Poe (de A Queda da Casa de Usher, 1839); que a clara homenagem ao soturno Peter Cushing e a Sherlock Holmes é singela; que mesmo não sendo páreo para a mansão em ruínas o elenco é excelente; que talvez o conteúdo pareça fraco porque é ofuscado pelo extraordinário visual; que a melhor sequência com humanos é a de Lucille alimentando Edith acamada (arrepiante!)..., se gosta da obra de Guilhermo del Toro, acho que vale dar um boa olhadela!

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Crítica: Peter Pan


Peter Pan, o famoso personagem criado pelo escritor e dramaturgo britânico James Matthew Barrie (1860-1937) apareceu pela primeira vez em um capítulo do livro The Little White Bird (O Pequeno Pássaro Branco, 1902) e, antes que este capítulo, ilustrado por Arthur Rackam, fosse republicado com o título  Peter Pan in Kensington Gardens (1906), reapareceu na peça teatral Peter Pan, or The Boy Who Wouldn’t Grow (Peter Pan, ou o Menino Que Não Queria Crescer, 1904), cujo texto foi publicado em 1928. Com a publicação de Peter and Wendy (1911), mais conhecido (até renomeado) de Peter Pan, o cativante menino eterno, ganha de vez o mundo do entretenimento, abrindo espaço para as mais diversas adaptações (e versões) de teatro, cinema, animação, hq, série de tv,..., e até referência médica para a Síndrome de Peter Pan, que trata da imaturidade psicológica.


A história da “origem” de Peter Pan (Pan, 2015), que chega aos cinemas, sob a direção do britânico Joe Wright, é uma invenção do roteirista Jason Fuchs, que se apropriou de um ou outro elemento da obra original J. M. Barrie para dar asas à sua imaginação com muita liberdade poética. O longa de ação e aventura fantasia começa com uma garota (Amanda Seyfried) deixando um bebê na entrada de um orfanato dickensiano londrino, administrado por freiras. Doze anos depois, em meio a um clima de desconfiança da generosidade das freiras (nada) cristãs e de um ataque aéreo Nazista, Peter Pan (Levi Miller) e outras crianças são sequestradas por piratas do sanguinário Barba Negra (Hugh Jackman, irreconhecível), para trabalho escravo na Terra do Nunca. Lá, o ousado Pan descobre quem foram seus pais, fica amigo do James Gancho (Garrett Hedlund) - um sósia do Indiana Jones que no futuro será Capitão Gancho - e da Princesa Tigrinha (Rooney Mara), e coloca à prova uma decisiva profecia (?) a seu respeito.


Peter Pan tem um enredo simplório (e até esquisito!). Os contratempos de um menino em busca de sua origem, ou melhor, de sua mãe, podem desagradar aos mais puristas, principalmente pela “redefinição” de personagens clássicos criados por Barrie. Porém, se por um lado há pouco conteúdo para o imaginário do espectador, por outro, há um visual tão deslumbrante que faz a gente quase (!) esquecer os altos e baixos da narrativa que se arrasta ou se apressa, como se justificando para futuras (e definitivas?) explicações ou reinvenções nos próximos volumes cinematográficos da franquia que claramente se semeia.


Enfim, Peter Pan não me pareceu engraçado (ou misterioso!) o suficiente para o público infantojuvenil. Mas, sabe com é, a leitura de uma criança é sempre imprevisível. Assim, algumas sequências e gags que achei bem tolas podem guardar algum humor oculto ao alcance apenas dela. Acostumado aos games, talvez o jovem espectador concorde que as muitas cenas de batalhas, lutas e pancadarias “assim-assim” são assépticas demais. Talvez! De uma coisa tenho certeza, ninguém vai reclamar da paleta de cores. Ou será que vai? Impossível, tem cor ali que nem existe...


Todavia aérea e ou terrestre, considerando a transparência do 3D e os efeitos especiais de cair o queixo; o figurino adorável (principalmente do elegante Barba Negra e da fashion Princesa Tigrinha), que não é novidade no cinema de Wright; o elenco bacana..., Peter Pan é um filme que vai além do que se espera, mas fica aquém do que poderia ser. Ainda assim, um bom programa.

Ah, e o Peter que me desculpe, mas a Terra do Nunca está mais para um misto de Nova Zelândia, Hawaii e Austrália, tanto na cor da natureza quanto nas canções, do que para o Canadá.

domingo, 4 de outubro de 2015

Crítica: Homem Comum


Recentemente vi três documentários que têm como meta a linguagem cinematográfica.


1. Tudo por Amor ao Cinema, cinebiografia do cinéfilo Cosme Alves Netto (1937-1996), fecundo pesquisador (“todo filme tem a sua importância”) e gestor da Cinemateca do MAM, contada através da instigante narrativa de Aurélio Michiles, que costura, com precisão cirúrgica, cenas e sequências de filmes clássicos para traduzir, com elegância e charme (artesanal de moviola), fatos e saudades relatados por cineastas, historiadores e críticos de cinema. Um belo trabalho de pesquisa e apuro técnico na edição primorosa, que exige não apenas conhecimento da cinematografia mundial, mas a sensibilidade do instante da fala, do gesto, da ação de uma trama continuando em outra e sem perder o sentido original.


2. Jia Zhangke, um Homem de Fenyang, do diretor Walter Salles, traz aos olhos ocidentais a corajosa trajetória do premiado cineasta Jia Zhangke, constantemente perseguido pela censura chinesa. Salles, mais que parceiro de profissão, se permite ouvinte curioso, um espectador que se deixa envolver pela instigante história de Zhangke. O documentário passeia por cidades e sets de filmagem, resgatando trechos de filmes de um diretor que se entrega por inteiro e desabafa corajoso sobre família, antigos amigos e sua obra quase desconhecida na China. Um dos pontos altos da narrativa, talvez o mais tocante e divertido, é o do cineasta desvelando como, por ironia do destino ou do novo capitalismo, acabou (re)encontrando um filme seu que estava censurado e, portanto, “desaparecido”...


3. Homem Comum, de Carlos Nader, é uma obra que faz valer a máxima: “a arte de dizer muito com pouco”. Bem, nem tão pouco assim, se você observar e absorver a simbologia das entrelinhas. Nos anos 1990, inebriado com a transcendência do admirável Ordet (A Palavra, 1955), do dinamarquês Carl Theodor Dreyer, o documentarista e roteirista paulista Carlos Nader decidiu pegar uma câmera, ir a estacionamentos de caminhoneiros e, aleatoriamente, perguntar aos motoristas sobre “a estranheza (o sentido) da vida”. Em troca recebia respostas fragmentadas e quase inaudíveis em sua simplicidade complexa. É que, ser simples na essência não é uma qualidade comum a todo ser humano, e, a certos questionamentos esotéricos, o melhor é desentender (a matéria). Todavia, em meio à desconexão na estrada, entre uma entrevista inócua e outra, Nader encontrou o esperançoso caminhoneiro paranaense Nilson de Paula (“ninguém tem mais fé na vida do que eu”), embarcou em sua boleia e, além da rotina do viajante, conheceu a sua mulher Jane e a sua filha Luciane e ouviu as histórias de vida dos três.


Homem Comum (Brasil, 2014) foi rodado ao longo de 20 anos, sem que o diretor soubesse exatamente o que iria resultar e o que queria contar com as filmagens, já que o seu argumento metafísico não encontrara o eco satisfatório nos fatos familiares e ou de trabalho do caminhoneiro. Não fosse um inesperado telefonema de Nilson e o pedido para que Carlos levasse a câmera para um registro inusitado, provavelmente o material continuaria no aguardo de algum sentido para vir à luz.

Apoiado na simplicidade e na sinceridade contagiante do protagonista, Homem Comum cresce envolvente cena a cena. Emblemático..., ao menos em duas sequências, Nader conduz (consciente?) a narrativa a uma curiosa reflexão sobre a prática do amor. Na primeira, em que Nilson e Jane contam como se conheceram e a razão do casamento, é fascinante sentir como a palavra “coração”, na fala de Nilson, consegue transcender em seu simbolismo universal. Todavia, não sei se, diante de tanta espontaneidade, todo espectador conseguirá ir além do divertido e emocionante diálogo do casal que (por si só) é de uma beleza de marejar. Na segunda, tão incômoda quanto tocante, o ponto de ebulição está no hábil registro (côncavo!) do claustrofóbico transporte de porcos para o matadouro, que resulta no desabafo (convexo!) de Nilson sobre a vida e a morte.


Falar do cotidiano rotineiro de um homem comum, não faz do documentário um filme rotineiro e consequentemente simplório. Pelo contrário, ao alternar as suas sequências com as do filme Ordet, de Carl Dreyer, lembrando vagamente a estética de Tudo por Amor ao Cinema, de Aurélio Michiles, o diretor Carlos Nader compõe e recompõe com dinamismo a narrativa de Homem Comum. Graças à montagem em parceria com André Braz, a interação entre o documentário brasileiro e o drama dinamarquês é (também) minuciosa na continuidade e dá a ele uma curiosa roupagem de ficção. Mas, é bom que se diga, ainda que se queira híbrido, em sua linguagem, não é um doc-ficção (tão em voga).


Homem Comum, prêmio de melhor documentário brasileiro no Festival É Tudo Verdade (2014). Num cinema, ou cineclube perto de você!

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