quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Crítica: Uma Família Feliz


Uma Família Feliz
por Joba Tridente
    
Uma vez que as animações que estreiam por aqui são dubladas em português (até por celebridades), poucos são os espectadores que se dão ao trabalho de saber a origem delas..., possivelmente imaginando que, por conta do título e trilha sonora em inglês, só podem ser made in USA. Outra contribuição ao equívoco é que, diferente das animações asiáticas, principalmente a japonesa, não é fácil para a criançada (público alvo) ou mesmo adulto distinguir alguma originalidade nos traços e conteúdos das produções europeias e latinas que, por questão de mercado, procuram se aproximar cada vez mais da “matriz”. Como, por exemplo, o curioso desenho animado alemão Uma Família Feliz (Happy Family, 2017), baseado no best-seller homônimo do premiado escritor e roteirista David Safier.


O enredo de Uma Família Feliz, dirigido por Holger Tappe, a partir da levíssima adaptação da novela, feita pelo próprio Safier e Catharina Junk, gira ao redor da disfuncional família Wishbones (Wünschmann, no original), formada por Emma, que tem uma livraria dispendiosa, Frank, escriturário que cumpre horas extras, Fay, a filha adolescente rebelde sem causa, e Max, o caçula nerd. Certa de que os Wishbones precisam urgentemente discutir a relação, Emma decide levar a estressada família a uma festa à fantasia. Porém, por conta de um apaixonado e galanteador Drácula, a família dá de cara com a bruxa Baba Yaga e cada um deles é transformado no personagem que veste: Emma em Vampira, Frank em Frankenstein, Fay em Múmia e Max em Lobinho. Daí, na caçada à bruxa, para reverter o feitiço, cada um enfrentará, em situações hilárias, seus próprios demônios: crise de identidade, medo, agressividade, relacionamentos, bullying, assédio, estudo..., no que chamamos de jornada do herói.


A mistura bem humorada de mitos europeus de Contos de Fadas (Baba Yaga) e de Contos Góticos (Vampiros, Lobisomem, Múmias, Frankenstein) dá a Uma Família Feliz ingredientes sólidos para o desenvolvimento de uma paródia repleta de ação e aventura e romance numa trama (terrir) que diverte educando a criançada e alertando os adultos sobre a possessividade nos relacionamentos amorosos e familiares. O que vai fazer muito espectador repensar seus conceitos é a motivação do “vilão” Drácula para o seu grande “ato de vingança” contra a humanidade. É algo até banal, entre homens e mulheres, mas doentio e na medida para sessão de psicanálise.


Com notáveis referências ao seriado americano Os Monstros (1964-1966) - onde Lily, a matriarca, é Vampira, o seu marido Herman é Frankenstein e o filho Eddie é Lobinho - e (inclusive nos traços) aos ótimos Hotel Transilvânia 1 (2012) e Hotel Transilvânia 2 (2015), o roteiro alterna assuntos adultos e infantojuvenis, em linguagem simples e de fácil compreensão para qualquer espectador. Apesar do tema “lúgubre”, Uma Família Feliz é engraçado, as gags são legais, e a edição é muito boa. Por falar em humor, nem todo mundo vai gostar da piada escatológica (ao gosto dos americanos), mas muita gente vai rir de uma cena pastelão inspirada na briga entre um mal-humorado super-herói verde e um egocêntrico vilão espacial, no filme Os Vingadores (2012).


Embora reconhecíveis de outras produções (ou por isso), os velhos personagens que desfilam jovialidade na saga de Uma Família Feliz, podem ser visto como se (atores) estivessem representando um novo texto, numa história contemporânea. Entre as figuras mais interessantes estão a impagável Múmia do Faraó Imhotep (que rouba todas as cenas), as adoráveis Baba Yaga e hippie Cheyenn e o charmoso “vilão” Drácula. Aliás, as sequências das Múmias (Imhotep e Fay) no deserto são antológicas.

A direção de arte é bastante observadora na paleta de cores. Indo na contramão dos coloridíssimos filmes infantis, opta por tons mais naturais e que variam conforme o segmento vivido pelos personagens na cidade, no deserto e ou no fantástico castelo futurista do sedutor Drácula. Afinal, é um filme de monstros disfuncionais e não de graciosos duendes.


Enfim..., ressaltando a ironia do título Uma Família Feliz, já que, na verdade, o que salta aos olhos é o cotidiano de uma família infeliz precisando desesperadamente encontrar a felicidade..., ainda que o seu alvo seja o entretenimento juvenil, esta é uma daquelas animações que podem surpreender o público adulto por causa do conteúdo familiar bem intencionado e, por vezes, ousado subtexto, ao tratar de relações conjugais. O seu estilo pode até não ser dos mais originais (ao apostar nas referências televisivas e cinematográficas), mas apresenta uma excepcional qualidade gráfica e um convincente 3D de profundidade e de avanço sobre a plateia. Um espetáculo com belas metáforas para toda a família refletir sobre seus próprios percalços.

*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Crítica: Valerian e a Cidade dos Mil Planetas

Valerian e a Cidade dos Mil Planetas
por Joba Tridente

Nascida nas páginas da revista Pilote, em 1967, a aclamada série franco-belga de ficção científica em quadrinhos Valérian, que inspirou a franquia Star Wars (sem receber os créditos) e o fascinante O Quinto Elemento (1997), chega aos cinemas meio século depois do seu lançamento, na espetacular leitura do visionário roteirista e diretor Luc Besson, com o convidativo título Valerian e a Cidade dos Mil Planetas (Valérian et la Cité des Mille Planètes/Valerian and the City of a Thousand Planets, 2017).


Repleto de efeitos especiais que superam qualquer produção recente, Valerian e a Cidade dos Mil Planetas é daqueles filmes juvenis de encher os olhos e deixar o espectador (de qualquer idade!) de queixo caído, sem saber para que lado olhar e ou em quê prestar a atenção..., tamanho o deslumbre visual. É uma viagem sensorial e imersiva no que há de mais avançado em tecnologia CGI. Mas, toda via da beleza infinita pelo universo da fantasia e ficção científica, esta admirável cenografia ajuda ou atrapalha na hora de contar as audaciosas aventuras dos jovens agentes espaço-temporais Major Valerian (Dane DeHann) e Sargento Laureline (Cara Delavigne) por mundos nunca antes explorados? Aí depende das suas expectativas! O que melhor te satisfaz: pipoca ou conteúdo?


Quem é fã do antológico O Quinto Elemento (1997) vai se sentir bem próximo ao ambiente e ao enredo do fantástico Valerian e a Cidade dos Mil Planetas, já que esta nova trama (vinte anos depois) tem muito da sua substância original em cenas que até parecem releitura. A mim, Luc Besson, com sua ansiedade hollywoodiana, tem o dom tanto para criar fantasias maravilhosas (OQE) quanto para equívocos como Lucy. No caso de Valerian, pode até haver algum problema de itinerário narrativo (principalmente na condução dos atores), mas em um projeto tão ambicioso, o incômodo passa até meio batido.


Ao adaptar os quadrinhos de Pierre Christin e de Jean-Claude Mézières, Besson  te conduz a uma viagem anos-luz da imaginação. Ambientada no século 28, a história acompanha uma transcendental missão de Valérian (DeHann) e sua parceira Laureline (Delavigne) para resgatar o raríssimo Mül Conversor, um adorável animal que está sendo negociado ilegalmente num centro de compras virtual, em um planeta deserto, e evitar que ele caia em mão erradas no Complexo Espacial Alpha, que abriga espécies de mil planetas. Porém, este é só o início das pequenas e absurdas aventuras, relacionadas a uma grande tragédia cósmica, que os dois (salvando-se mutuamente) vão enfrentar para evitar o colapso da Cidade dos Mil Planetas.


O roteiro de Besson é simples, mas eficiente para a narrativa (juvenil!) despretensiosa que propõe. Megalomaníaco visual? Talvez, mas não há como lhe negar criatividade, que vai muito além da estética, no desenvolvimento de sequências deliciosamente malucas, como a das borboletas luminosas; das águas-vivas mentalizadoras; do inacreditável mercado virtual... O apurado desenho dos personagens extraterrestres mostra que a tecnologia (pra quem pode pagar!) realmente não tem limites.

Sobretudo por causa da exuberante plasticidade (que desconecta qualquer um da Terra), pode até parecer que há “cenas de ação em excesso” e “texto de menos”..., e ou que Luc Besson está fugindo do assunto “curto” preenchendo o “vácuo” da história, entre o formidável prólogo (ao som de Space Oddity de David Bowie) e o adequado epílogo, com qualquer coisa vertiginosa só para estender seu discurso (visual). No entanto, o tal “excesso de cenas” serve como encaixe de capítulos de uma história em quadrinhos cujos personagens enfrentam as mais diversas (e bota diversas nisso!) situações para atingir o alvo almejado. Sem elas o script perderia o sentido, já que não haveria nenhum antagonista para responder pela insanidade inicial cometida contra um povo pacífico. Quanto ao texto/diálogo, cá pra nós, é bem melhor menos do que redundante. Também porque são diálogos práticos (alguns com humor), necessários para conduzir sequências e não para reflexão profunda sobre a humanidade. Primeiro a diversão e depois a razão.


Para o espectador mais adulto (exigente!), numa trama em que a maioria dos personagens em ação é de perfeito CGI, a performance do elenco humano fica um pouco a desejar. Já o público adolescente talvez nem repare que os atores Dane DeHann e Cara Delavigne não são ideais para os papéis. Além da jovialidade e tipo físico diferente dos personagens da hq, demonstram pouco carisma e nenhuma química. Sobre a breve participação de Rhiana, embora a sua bela Bubble remeta diretamente à Diva Plavalaguna (Maïwenn Le Besco), de O Quinto Elemento, a cantora tem presença e um número artístico memorável.


Enfim, com muita ação e historietas bacanas, numa narrativa repleta de fantasia e que vira a ficção científica de ponta cabeça, Valerian e a Cidade dos Mil Planetas é um espetáculo que, para melhor apreciação, deve ser assistido com espírito jovem..., do contrário, o espectador com espírito adulto e atrás de alguma mensagem edificante é capaz de se aborrecer. O humor pode não ser dos melhores, mas os adolescentes devem achar alguma graça e, inclusive, aprovar o amor pudico do casal protagonista. Considerando que este é um espetáculo de entretenimento raro, com linguagem de história em quadrinhos e de beleza irretocável, eu o veria novamente..., depois de deixar o meu eu adulto bem trancado em casa!



*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

domingo, 6 de agosto de 2017

Crítica: Malasartes e o Duelo com a Morte

Malasartes e o Duelo com a Morte
por Joba Tridente

Desde criança gosto das histórias maliciosas do Pedro Malasartes (ou Malazartes) e é com satisfação que vejo este rico personagem da Tradição Oral Portuguesa e Brasileira retornar aos cinemas na comédia Malasartes e o Duelo com a Morte, de Paulo Morelli. A primeira vez que o mestre da embromação deu o ar da graça na telona foi em 1960, com Mazzaropi e o seu As Aventuras de Pedro Malazartes, que conta como o matuto, roubado pelos irmãos e fugindo da namorada casadoira, sai mundo afora realizando pequenos golpes para se sustentar. Um filme que, em meio a outros diálogos cômicos, traz esse, entre Malazartes (Mazzaropi) e o diretor de uma escola particular onde ele pensa em deixar os órfãos que encontrou pelo caminho: Diretor: Você tem outros irmãos? Malazartes: Tenho dois irmãos!  Diretor: São vivos? Malazartes: O único vivo sou eu. Os outros dois trabalham.


Em seu roteiro mais enxuto, Morelli traz o malandrão Malasartes (Jesuíta Barbosa) às turras com Próspero (Milhem Cortaz), que o quer bem longe de sua irmã Áurea (Isis Valverde), e amigável com a Morte (Júlio Andrade), que o quer bem perto para finalizar um maquiavélico plano de aposentadoria. Mas, será que um malandro mortal pode enganar um malandro imortal que o quer enganar e, de quebra, ainda dar uma rasteira na Parca Cortadeira (Vera Holtz) e no Esculápio (Leandro Hassum), dois trevosos que (sem que ele saiba) têm lá as suas razões para atrapalhar os planos da Morte? É assistir para saber a quem caberá os louros da vitória: se ao vivaldino Malasartes, devoto do amor (sem compromisso), ou se à entediada Morte, devota do trabalho (sem rotina). A hora do ajuste de contas com a vida ou com a eternidade é agora! Vencerá o mais esperto!


Ambientado em um interior imaginário, num lugarejo que hoje em dia a gente só vê em novela de época, o roteirista e diretor Paulo Morelli traz uns três bons causos conhecidos do ingênuo trapaceiro e galanteador Malasartes (da mesma "escola" do sensacional João Grilo que, além de cordéis célebres, protagonizou o Auto da Compadecida (1955), do mestre Ariano Suassuna) que aplicava pequenos golpes nos espertalhões ambiciosos que se achavam mais espertos que ele..., igual ao tolo Zé Candinho (Augusto Madeira), encantado por um “pássaro” raro. A trama é bem simples, por isso não dá pra falar muito mais sem correr o risco de cometer spoiler e o filme perder o humor.

Com interessante desenho de abertura-prólogo, cujos traços lembram a animação Samurai Jack, do Genndy Tartakovsky, a comédia romântica caipira e fúnebre Malasartes e o Duelo com a Morte é leve, com boas gags brejeiras, elenco competente, trilha sonora agradável e efeitos especiais que impressionam. Enfim, um excelente espetáculo para se ver com ou sem a família. Que venham mais causos!!!


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Crítica: O Estranho Que Nós Amamos

O Estranho Que Nós Amamos
por Joba Tridente

A chegada aos cinemas do filme O Estranho Que Nós Amamos, com Nicole Kidman e Colin Farrel dirigidos por Sofia Coppola, deve despertar em muitos espectadores o interesse em conhecer a perturbadora versão homônima de 1971, dirigida por Don Siegel (1912-1991) e estrelada por Clint Eastwood e Geraldine Page (1924-1987). Embora baseados na novela A Painted Devil (1966) de Thomas Cullinan (1919-1995), o foco de ambos é, digamos, sexualmente diferente...


Em sua releitura de O Estranho Que Nós Amamos (The Beguiled, 2017) Sofia Coppola, que disse ter escrito o roteiro a partir da novela e não do filme de 1971, transfere a ação ambientada na Louisiana (1863), durante a Guerra Civil Americana, para a Virginia (1864), sul dos EUA, quando Miss Martha Farnsworth (Nicole Kidman), acolhe nas dependências do seu internato feminino, um soldado ianque ferido, John McBurney (Colin Farrell). Conforme recebe cuidados médico e se restabelece, o “bendito fruto” desperta as mais diversas sensações (e desejos) nas sete mulheres residentes..., gerando ciúmes, assédios e tensão sexual, principalmente entre a diretora Martha (Kidman), a professora de francês Edwina (Kirsten Dunst) e a adolescente Alicia (Elle Fanning).


Quando um realizador faz a releitura de uma grande obra, espera-se que seja para acrescentar algo que tenha passado despercebido do espectador/leitor. O que não é o caso de Sofia Coppola com sua adaptação quase singela de O Estranho Que Nós Amamos..., não fosse o impactante final. A direção é perfeita! A performance do elenco é excelente! Esteticamente é belíssimo. Irretocável! Mas tem um porém, seu roteiro não provoca, não excita. É pudico demais ao falar de desejo sexual reprimido das mulheres e jeitoso demais ao tratar da hipocrisia religiosa. O soldado McBurney, Ferrel, não tem malicia e nem é dissimulado e sedutor quanto o “donjuán” McB, de Eastwood, que age feito um Lobo Mau na iminência de um ataque ao “galinheiro”. Diferente da tensão psicológica causada pela presença de um estranho no ninho, crescendo a cada fotograma, na leitura de Siegel, na versão de Coppola o clima de ameaça praticamente ganha força só no epílogo. E até lá o público será poupado (?) de algumas cenas fortes (não vou cometer spoiler!) por conta da moda elíptica que abrevia tudo, até o tempo.


Mesmo sem ter lido a novela de Cullinan, é impossível não comparar as duas versões cinematográficas. Enquanto o filme de Siegel (talvez o seu melhor trabalho) é um excelente thriller psicológico, intenso e apavorante, do princípio ao fim, Coppola opta por um drama bem mais leve, quase bucólico. Ou melhor, opta por uma versão politicamente correta..., excluindo ou passando ao largo de todos os ferrões incômodos ao (seu) público mais sensível (escravidão, pedofilia, incesto, orgia, lesbianismo) e da rica simbologia dos objetos de arte, figurinos e animais (corvo acorrentado, galinhas poedeiras, tartaruga inocente, taturana sacrificada) que, além de pertencimento, dão forte conotação sexual à narrativa de Don Siegel. Assim, comparado à recatada sensualidade do filme de Sofia, a sublime sequência alegórica do sonho de transgressão sexual, numa releitura provocativa do quadro Corpo Morto de Cristo/Pietá (1495), de Sandro Bottcelli (1445-1510), a versão erotizada de Don pode até ser considerada pornográfica, pelos mais puritanos.


Enfim, considerando o que escrevi acima, se optar por não assistir antes (e ou depois) a versão de O Estranho Que Nós Amamos (1971), com certeza dará uma boa acolhida ao bonito “remake” de Sofia Coppola, que apenas optou por oferecer menos, quando o texto (em questão) pede mais. De uma forma ou de outra, saiba que, se hoje a fotografia de Philippe Le Sourd inebria os sentidos, ontem a fotografia de Bruce Surtees (1937-2012), arrepiava a alma...


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Crítica: Planeta dos Macacos: A Guerra

Planeta dos Macacos: A Guerra
por Joba Tridente

Provando que nem toda releitura cinematográfica é descartável ou subestima a inteligência do espectador, chega aos cinemas o fascinante Planeta dos Macacos: A Guerra..., um desfecho à altura da saga espetacular que recomeçou com O Planeta dos Macacos: A Origem (2011), seguido de Planeta dos Macacos: O Confronto (2014). Uma saga que tem mais divergências do que referências à franquia original nascida lá nos idos de 1968 e também inspirada na obra O Planeta dos Macacos/La Planète Des Singles (1963), de Pierre Boulle.


Planeta dos Macacos: A Guerra, novamente dirigido por Matt Reeves, com o roteiro dele e de Mark Bomback, se passa vinte anos após a ruptura entre as espécies humana e símia, causada (em parte) pelo traumatizado bonobo Koba (Tony Kebbell) em PM: O Confronto, onde a palavra de ordem era “Macaco não mata macaco!”. Agora que a vida anda mais calma na comunidade em que César (Andy Serkis) vive com seu grupo, no meio da floresta, uma ameaça carniceira chamada Coronel (Woody Harrelson) aparece com uma ferocidade humana ímpar, despertando não apenas o lado sombrio de César, mas provocando o êxodo dos macacos e uma nova palavra de ordem: “Eu não comecei esta guerra!”.


Esta guerra que foi enredando César, como se sabe, começou com o desenvolvimento de um vírus para o tratamento do Mal de Alzheimer e cujos efeitos colaterais desenvolveram a inteligência “humana” nos símios usados, sem nenhuma piedade, como cobaias (em Origem). O vírus sofreu mutação, virou gripe simiesca, matou bilhões de pessoas em todo o mundo, e, em busca de qualidade de vida, os norte-americanos sobreviventes enfrentaram violentamente os macacos (em Confronto).

Vinte anos depois, com outra mutação do vírus simiesco desencadeando uma estranha doença nos humanos, o Coronel, um militar com visão distorcida de cura e obcecado pela ideia de higienização do planeta, colocou em ação o seu exército particular para dizimar os macacos. Os dardos mortais foram lançados e feridas abertas. Quem sobrevier a esta guerra pessoal do insano Coronel, nascida de reação injustificável a uma dor familiar explicável, contará (literalmente) a história da raça suplantada.


É louvável que uma franquia popular de ficção científica, em meio a cenas pungentes de ação, traga à tona questões sociopolíticas pertinentes (saneamento, campos de concentração, racismo, xenofobia) sem escorregar nos clichês políticos de ocasião e sem forçar leituras óbvias. Nas referências (além do cinema clássico) que me parecem francas, uma das sequências (a mim) mais perturbadoras é aquela em que o Coronel, com maldade na alma e carregado de ironia, olhando para o majestoso César, diz que os seus olhos são tão expressivos que até parecem humanos. Um desconcerto que remete às reflexões do filósofo lituano Emmanuel Levinas (1905-1995) sobre o racismo nazista e a negação de humanidade àqueles considerados impuros. Pensando melhor, em toda a trilogia do Planeta dos Macacos cabem as profundas reflexões de Levinas sobre a dor e o terror no Planeta dos Homens!


Enfim..., considerando que este terceiro capítulo mantém a excelência dos capítulos anteriores no roteiro perspicaz que traz respostas criativas às dúvidas dos espectadores, na direção irretocável, no desenvolvimento de personagens cativantes, na coerência narrativa redonda, bem como nos impressionantes efeitos especiais que fazem o espectador se esquecer de que há um grupo de atores (de captura) dando vida (e que vida!) aos expressivos símios; que as performances do elenco de captura (incluindo o Steve Zahn, como o solitário chimpanzé Macaco Mau, e Karin Konoval, reprisando o adorável orangotango Maurice) e do elenco real (incluindo a bela Amiah Miller, no papel da órfã Nova) são um show à parte; que a trama emociona, sem ser piegas e moralista; que há cenas de beleza estonteante e outras de tristeza absurda..., se você gostou mesmo dos dois filmes anteriores, não perca o magnífico desfecho em Planeta dos Macacos: A Guerra.


NOTA: No Portal Motherboard você pode assistir ao impressionante documentário A Ilha dos Macacos, na Libéria (África) e a três curtas de uma série especial criada para sintonizar o espectador mais afoito ou distraído ao universo de O Planeta dos Macacos. As histórias se passam entre o primeiro e o décimo ano em que eclodiu o levante dos macacos e a dizimação da população pela “gripe símia”. Ou seja, entre O Planeta dos Macacos e o O Planeta dos Macacos - O Confronto. São eles: Spread of Simian Flu: Before the Dawn of the Apes (Year 1), com legenda em português, trata da propagação da gripe. O segundo, Struggling to Survive: Before the Dawn of the Apes (Year 5), com legenda em espanhol, fala da luta pela sobrevivência. O terceiro, Story of the Gun: Before the Dawn of the Apes (Year 10), com legenda em espanhol, é sobre uma arma que vai passando de mão em mão até que... Os curtas lembram A Estrada (2009), de John Hillcoat, mas é um trabalho muito bacana.


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

domingo, 30 de julho de 2017

Crítica: De Canção em Canção


De Canção em Canção
por Joba Tridente

Tem filme novo de Terrence Malick nos cinemas: De Canção em Canção (Song to Song, 2017). Mas será realmente um filme novo?

Exibindo como pano de fundo um festival de música em Austin, no Texas, De Canção em Canção apresenta uma variação da mesma penitência religiosa proposta (qual uma oração-reflexo) em Amor Pleno (2013) e Cavaleiro de Copas (2015): homens monossilábicos (caricatura masculina!), sem saber (ou ter) o quê dizer sobre a vida e o amor para suas companheiras, namoradas, amantes..., e mulheres psicóticas, desequilibradas, bipolares, amando e odiando (em pensamento) seus companheiros, namorados, amantes. Ambos incapazes (?) de se manifestarem verbalmente. Enquanto homens andam a esmo e casais se olham (desejosos ou não), se relam, se roçam, insinuam sexo e mulheres possam nuas e ou seminuas, os/as protagonistas pensam (em off) o quê gostariam de falar (mas não dizem!) sobre o amor, o ódio, a vida, a dor, a religião e deus (não necessariamente nessa ordem cristã), uns aos outros, não tivessem tão ensimesmados lambendo as próprias feridas, como se as maiores do mundo.


Através de cortes (com a introdução de belas imagens), recortes (com a introdução de belas imagens) e picotes (com a introdução de belas imagens) no dia a dia de trabalho ou de badalação de cada personagem, a narrativa tenta dar prumo (ou sentido!) às relações ambíguas entre os artistas da área musical Faye (Rooney Mara), BV (Ryan Gosling), Cook (Michael Fassbender), Rhonda (Natalie Portman)..., que vão se enredando profissional, social e afetivamente tal qual numa balada romântica e caótica de amor e dor (“Te amo! Você é o amor da minha vida! Te amarei para sempre! Te amei!”). Não faltam angústia, melancolia, vazio existencial, a busca por deus, triângulos amorosos e angustiosos, imagens imersivas e contemplativas (sempre em movimento: haja travelling!): paisagens bucólicas com mato, grama, capim, árvore, folhas, pássaros, montanhas, rios, mares, praias, piscina, nascer e por de sol, estradas, viadutos, pontes, carros, aviões..., e o que mais se desejar e imaginar do fascinante arquivo de imagens (salvatela de computador) das quatro estações de Emmanuel Lubezki. A cor do figurino também varia conforme o humor dos personagens. O elo está no conjunto ou num mero detalhe!


Se você não assistiu aos reflexivos Amor Pleno/To the Wonder (2013) e Cavaleiro de Copas/Knight of Cups (2015), este drama light and heavy pode até lhe parecer original e tocante. Porém, pelas vias abstratas (ou seria herméticas?) do mestre tão off das badalações quanto as narrativas em off dos seus últimos trabalhos cinematográficos, praticamente sem diálogos (o que deve gerar uma boa economia em som direto), De Canção em Canção, que deixa muito espectador atônito (!), está mais para um “adendo” a tangenciar sistematicamente os dois filmes anteriores.

Quem não assistiu ao seu belíssimo e inquietante A Árvore da Vida (2011), também pode demorar um pouco para amarrar as pontas do script metafísico. Já o cinéfilo que tem acompanhado os recentes devaneios do messiânico roteirista e diretor, onde seus personagens estão sempre à deriva (revirando os olhos), em busca de um deus cristão que lhes dê respostas e algum significado para suas vidas vazias e ou praticando atos de solidariedade em hospitais e periferias, vai sentir que De Canção em Canção é um dos galhos frágeis e com frutos muito menos suculentos da árvore citada. O argumento de que a salvação do homem se dará através da prática sincera do amor humano é nobre, mas o roteiro para a redenção é pobre.


Decifrar a trama do emblemático De Canção em Canção não é um exercício fácil para o espectador de primeiro Malick, pois depende da intimidade com os seus filmes recentes, bem como da aceitação da sua linguagem (filosófica cristã) cada vez mais redundante, para mensurar o vazio existencial de seus personagens e as particularidades da “mensagem” ou “moral” religiosa nas entrelinhas do drama. Assim, é bem possível que (neste imbróglio transcendental) alguém se perca no labirinto das lamentações, cego pelos flashes de tantas lamúrias pessoais e totalmente alheio aos anseios de quem quer que seja.

A mim..., que após a sessão ainda não tinha opinião formada e chegando em casa assisti ao Cavaleiro de Copas, seguido de Amor Pleno..., confesso que a sensação é mais de frustração, por esta melancólica canção de Malick não ter me convencido totalmente, do que de decepção pela sua idiossincrasia visual. O vazio que me ficou é bem maior que o vazio de seus personagens no show business da vida. Um vazio que não consegui preencher nem com as belas imagens rurais e urbanas que pululam aleatoriamente na telona...


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários, em VHS, fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Crítica: Em Ritmo de Fuga

Em Ritmo de Fuga
por Joba Tridente*

A ideia para o filme de ação Em Ritmo de Fuga, a mais nova audácia cinematográfica do diretor e roteirista inglês Edgar Wright, teria entrado em ebulição lá nos idos de 1994 e testada, por ele mesmo, no interessante videoclipe Blue Song, da Mint Royale, em 2003. Deu tão certo que a sequência de abertura do filme, praticamente, reproduz os primeiros minutos do vídeo musical.

Na verdade, Em Ritmo de Fuga (Baby Driver, EUA, 2017), de Edgar Wright, pode ser visto como um longo videoclipe híbrido e ou um musical híbrido, já que toda a narrativa (incluindo diálogos) segue o compasso de alguma música (em medley pop, rock, funk, soul, blue) que está sendo ouvida (e raramente comentada ou compartilhada) por Baby (Ansel Elgort), o jovem motorista do CEO do Crime, Doc (Kevin Spacey). Embora pareça não fazer parte da Ordem Criminosa, o monossilábico Baby tem motivos para estar o tempo todo com fones de ouvidos e a serviço de Doc..., que o tem como um talismã da sorte, já que é um motorista excepcional.


O que não quer dizer que, com sua cara de bebê, o rapaz seja unanimidade entre os assaltantes profissionais..., por razões que você vai descobrir quando der de cara com os psicopatas homicidas Griff (Jon Bernthal), Bats (Jamie Foxx) e Buddy (Jon Hamm)..., contratados por Doc, conforme a especialidade do assalto. Baby sabe que, quando se estaciona na garagem do crime, tem que estar preparado para todo tipo de avaria (material, física, moral) no “veículo” próprio e ou alheio. No entanto, toda via de fuga congestionada, enquanto não consegue se desviar desta rotina marginal, ele cuida do velho pai adotivo Joseph (CJ Jones) e busca se envolver com a graciosa garçonete Debora (Lily James), que se lamenta de ter tão poucas músicas com o seu nome e sonha sair estrada afora sem destino e sem olhar para trás...

Com seus curiosos cortes elípticos e sequências dignas (ou típicas) de musicais, enquadramento inusitado e perseguição automobilística bem coreografada, Em Ritmo de Fuga, que deve cair nas graças principalmente do público adolescente, poderia até ser considerado um drama romântico leve, não fosse o crescendo (estilizado e ou explícito) da violência que explode incômoda no ato final. Embora o humor (nonsense) negro busque lapidar a ação pesada (inda que o roteiro insinue novas rotas e os personagens em trânsito tenham um quê caricatural dos personagens da Gang do Motor, que animavam os reclames do Lubrificantes Bardhal, nos anos 1960), a violência pode soar repetitivamente clichê (que faz parte do gênero policial) e até cansativa.


A história do bom sujeito que comete erros na juventude e busca a redenção não é novidade no cinema..., o que lhe dá “originalidade” e valoriza a argumentação é a linguagem narrativa. E o provocador Wright, que surpreendeu os cinéfilos com Todo mundo Quase morto/Shaun of the Dead (2004), Chumbo Grosso/Hot Fuzz (2007), Scott Pilgrim Contra o Mundo/Scott Pilgrim vs. the World (2010), O Fim do mundo/The World's End (2013) sabe muito bem como customizar uma velha história para que ela pareça novinha na tela. Tanto, que tem feito um bocado de críticos especular se há (ou não!) referências ao menos a dois ótimos filmes: Drive (2011), de Nicolas Winding Refn, e The Driver (1978), de Walter Hill, cujos scripts guardam alguma semelhança. Tem sobrado até para o recente musical La La Land: Cantando Estações (2016)..., provavelmente por conta do toque de fantasia que enreda o jovem casal sonhador em meio aos rá-tá-tá-tás das metralhadoras...

A trilha sonora que embala, do prólogo ao epílogo, Em Ritmo de Fuga (embora não tenha a grande maioria das letras traduzidas, como é comum no Brasil) é coprotagonista na trama. Ela é a sombra sonora compilada, a consciência sincopada que dá ao protagonista Baby o senso de direção no alucinado ballet automobilístico pelas avenidas de Atlanta, ou numa caminhada dançante pelas calçadas do bairro, ou num rodopio na companhia do velho pai e na troca de confidências com a garconete (de contos de fadas) Debora. Aliás, como disse lá em cima, tudo soa musica neste louco thriller melódico: tiroteio, corrida, batidas, copos de café, diálogos, mesas etc...


Enfim..., considerando que os diálogos são bem econômicos (inclusive no conteúdo: Nos conhecemos antes, certo? Eu não sei. Você ainda está vivo, certo? Sim. Então acho que nunca nos encontramos.); que o elenco é excelente e as performances (cartunescas) divertidas; que a fotografia (!) a edição (!) e a trilha (!) estão em perfeita e invejável sincronia; que o roteirista e diretor britânico Edgar Wright continua realizando entretenimento de qualidade e (ainda) nem aí pra “filme cabeça”; que o enredo é enxuto (os percalços de um jovem motorista a serviço de uma gangue de assaltantes) e que, violência à parte, tem um charme (e ingenuidade romântica) dos filmes policiais dos anos 1950..., quando sai da sessão especial tinha achado Em Ritmo de Fuga apenas bacaninha, mas quando comecei a me lembrar de detalhes, para escrever a crítica, me dei conta de que o filme de ação musicalizada é muito bom! Um filmaço!

*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

quinta-feira, 6 de julho de 2017

Crítica: Homem-Aranha: De Volta ao Lar


Homem-Aranha: De Volta ao Lar
por Joba Tridente*

Esta mais recente versão cinematográfica do Spider-Man poderia, tranquilamente, ser chamada de Spider-Teen, pois traz o personagem (amigo da vizinhança) mais adolescente que nunca, aos 15 anos, querendo se firmar como herói (para qualquer serviço), depois do brevíssimo “estágio” com os Vingadores em Capitão América: Guerra Civil (2015). Mas Peter Parker (Tom Holland) sabe que não é tão fácil quando parece, já que está naquela complicada fase juvenil: nem criança e nem adulto..., cheio de “boas” intenções quem nem sempre combinam com imaturidade, timidez, paixão amorosa, deslumbramento, ambição. E como se não bastasse, seus atos de bravura e heroísmo estão sendo monitorados pelo chefão Tony Stark (Robert Downey Jr.), para saber se ele pode ou não integrar o grupo de super-heróis.


Homem-Aranha: De Volta ao Lar (Spider-Man: Homecoming, 2017), dirigido por Jon Watts, cujo título pode ser “referir” tanto à HQ de 1984, quanto à Marvel e ou ao lar da Tia May (Marisa Tomei), no Queens, em Nova York, após a impagável participação do aracnídeo em Guerra-Civil, é um filme em que os fãs adolescentes vão se reconhecer na jovialidade (e insegurança) do amado personagem.

Escrito por um sexteto (Jonathan Goldstein, John Francis Daley, Jon Watts, Christopher Ford, Chris McKenna, Erik Sommers), o roteiro passa ao largo do surgimento do Homem-Aranha, da morte do Tio Ben e da “tumultuada” retomada da série em O Espetacular Homem Aranha (2012) e O Espetacular Homem-Aranha 2: A Ameaça de Electro (2014), de Marc Webb. Tudo por um (novo) recomeço mais adaptável à grade de eventos na expansão do universo marvelianos, onde o aracnídeo será um dos atrativos com seu bom-mocismo e humor involuntário.


Por enquanto, no compasso de espera para integrar a trupe dos Vingadores, o adolescente Peter Parker, segue com os estudos na multiétnica Midtown School of Science and Technology, onde é admirado pelo nerd Ned Leeds (Jacob Batalon), seu melhor amigo, por Liz Allan (Laura Harrier), seu interesse amoroso, pela ativista Michelle (Zendaya), e rechaçado pelo invejoso Flash Thompson (Toni Revolori).

Já o garoto Homem-Aranha, aprendendo a dominar um uniforme de última geração (fabricado pela TS), além de socorrer a vizinhança (deixando uma boa bagunça no caminho, com seus voos desastrados), tenta burlar a vigilância de Happy Hogan (Jon Favreau), motorista/guarda-costas de Tony Stark (Robert Downey Jr.), para investigar e coibir as estranhas atividades do comerciante de armas Adrian Toomes (Michael Keaton). Mas, o quê pode fazer o pequeno grande Homem-Aranha quando nem mesmo o Homem de Ferro (Downey Jr.) acredita no surgimento do ameaçador Abutre (Keaton)..., um vilão vingativo que (pode se dizer) é “cria” do ambicioso megaempresário armamentista Toni Stark? Ir à luta com as suas teias e coragem.


O roteiro de Homem-Aranha: De Volta ao Lar é simples (mas não simplório!) ao explorar a vida dupla de Parker num período complexo de formação da identidade, época em que o adolescente está buscando conciliar a rotina de estudante (enfrentando o bullying colegial) com o deslumbramento do chamado à responsabilidade, com os poderes recém-adquiridos e não totalmente domados. Além de um bocado de gags e piadas visuais (nem todas funcionam), em tempos de conturbação mundial, a história traz também, em seu subtexto, questionamentos interessantes (em diálogos ferinos!) e pertinentes sobre vilania e monopólio de armas. Indagações (subliminares) com a “leveza” de uma tonelada no dedão do pé e que, fora deste “contexto brincalhão” de aventura juvenil, realmente dá o que pensar...


Considerando a excelente atuação de Tom Holland (que não fica devendo nada ao Tobey Maguire) e a boa performance do elenco; levando em conta que artistas e ou espectadores não vão ter do que reclamar da cota de etnias na telona; vendo que a violência, comparada aos filmes do gênero, é moderadíssima em destruição; lembrando que há sequências divinas, envolvendo Peter e Tia May (a última é desbocadamente antológica), e de ação (como as do barco e do avião) muito bem resolvidas; reconhecendo que as breves participações do Capitão América (Chris Evans) são muito mais divertidas do que as do Homem de Ferro; salientando que o Abutre (de Keaton, ótimo) é um interessante vilão (com causa própria) e que Jon Watts tem poucos vacilos na direção; admitindo que os efeitos especiais são bem bacanas..., a começar pela abertura especial (em IMAX) ao som do clássico Spider-Man Television Theme; sentindo que o clima crush entre Peter e Liz não passa de paixonite estudantil; concordando que o filme prioriza as novas gerações (adolescentes), mas sem esquecer os velhos fãs, e pensando que a mistura de ação e aventura com comédia adolescente (a la John Hughes) funciona..., Homem-Aranha: De Volta ao Lar realmente me surpreendeu positivamente. Pode ter lá uma ou outra referência (à saga), mas ganha, e muito, em originalidade! Pelo menos até aqui, é um bom recomeço!


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...