quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Crítica: Em Busca de Fellini


Em Busca de Fellini
por Joba Tridente*

O premiadíssimo diretor italiano Federico Fellini (1920-1993) foi um dos maiores cineastas internacionais e um dos raros a se tornar adjetivo (cinema felliniano: surreal, onírico, grotesco, fantástico) ainda em vida. A norte-americana Nancy Cartwright é uma atriz e premiada dubladora (de Bart Simpson há 29 anos) que, aos 28 anos de idade (1985), viajou para a Itália em busca do mestre Fellini (na intenção de comprar os direitos de La Strada para o teatro) e passou por experiências inusitadas. A europeia Ksenia Solo (nascida na Letônia) é a premiada atriz que interpreta Lucy (“alter ego” de Nancy), a garota ingênua do Ohio que, aos 20 anos de idade, vai à Itália em busca do seu (novo) ídolo Federico Fellini e acaba por encontrar a si mesma.


Em Busca de Fellini (In Search of Fellini, EUA/Itália, 2017), dirigido por Taron Lexton, é um melodrama, com alguma comicidade, inspirado nas memórias de viagem de Nancy Cartwright, que desenvolveu o roteiro em parceria com Peter Kjenaas. A história fantasiosa acompanha a jornada de nascimento e renascimento de Lucy (Ksenia Solo), uma garota ingênua de Ohio (EUA), criada pela mãe superprotetora Claire (Maria Bello) para viver num mundo de Contos de Fadas, livre de qualquer perigo da realidade, incluindo homens. Hãnnn?! Em 1993, aos 20 anos (com a inocência de 13) ela nunca trabalhou ou namorou ou ousou ir além do seu jardim, mesmo tendo uma lambreta. Passa os seus dias cor-de-rosa ao lado da mãe, assistindo a filmes americanos edificantes (em preto em branco) ou desenhando infantilidades. A tia Carrie (Mary Lynn Rajskub) não aprova a “educação sem males” da sobrinha, mas pode fazer nada.


Um dia Lucy decide que é hora de tomar um rumo na vida. Já que gosta de filmes, resolve trabalhar com cinema. Lê o anúncio de uma produtora e, mesmo sem qualquer experiência, vai atrás da vaga, que não era exatamente o que ela esperava. No sufoco do contratempo, assiste ao clássico A Estrada da Vida (La Strada, 1954), de Fellini. Deslumbrada com o magnífico drama dirigido pelo italiano, dispõe-se a ver todos os seus outros filmes, mergulhando num mundo novo e provocador muito além da sua imaginação. Totalmente envolvida pela audaciosa obra de Fellini, ela resolve conhecê-lo..., embarcando sozinha numa extraordinária viagem (algo reflexo da sina de Gelsomina/Giulietta Masina) para a Itália, onde realidade, sonho e pesadelo se confundem em sua “estrada”.

Vale ressaltar que Em Busca de Fellini não se trata de filme-tese sobre as obras de Fellini, ainda que as irmãs conservadoras Claire e Carrie, tentando entender o que Lucy viu naqueles filmes esquisitos (para elas), teçam comentários pouco lisonjeiros ao diretor e à sua filmografia, ou que no seu itinerário italiano a garota ouça considerações enaltecedoras a eles. Assim como nem tudo que está “fora de ordem” na trama é felliniano e ou moralismo americano.


Deixando a inverossimilhança de lado (garota que nunca trabalhou ter economias; garota que nunca viajou, nem mesmo pelo seu país, ter um passaporte à mão; garota que, de um dia pro outro, consegue o telefone de Fellini, agenda visita e embarca às cegas num voo para Roma) é até possível curtir este (bem intencionado) filme referência e reverência ao Il Maestro. O público que nunca (?) assistiu a um Fellini original pode estranhar e ou não compreender os clipes fragmentados de clássicos como A Doce Vida, Noites de Cabíria, Satyricon, A Estrada da Vida, entre outros, que se embaralham (recriados) no enredo juvenil que vai da fantasia romântica (em Verona, de Romeu e Julieta) à luxúria (em Veneza, de Giacomo Casanova) e conciliação (em Roma, de Fellini)..., mas deve se deixar levar pela alucinante onda “carnavalesca” e ter algum de seus sentidos despertados para a obra felliniana.


O argumento de Em Busca de Fellini é bem interessante. Porém, o seu roteiro agridoce é raso..., simplório demais para a pretendida grandiosidade de “se encontrar” Fellini (e sua obra) por meio de uma mulher (aparentemente) adulta, mas com resquício inequívoco de uma garota ingênua. O excesso de alegorias fellinianas teatrais (algumas gratuitas) e clichês melodramáticos e turísticos (da Itália) comprometem um pouco a cadência narrativa, que claudica no terceiro ato. O elenco, incluindo atores que trabalharam com Fellini, é bom..., o que não chega a empolgar é a motivação da imprudente personagem Lucy. Sinceramente, é impossível imaginar que uma pessoa tão tola tenha chegado tão longe. Assim, com um furo de língua aqui e outro de costume acolá, dado o material roteirizado irregular, que merecia uma boa revisão, não se pode exigir muito mais do que a razoável direção de Taron apresenta. Afinal, é a visão norte-americana da cultura italiana em cena.

Embora a temática curiosa pudesse render muito mais que macarrão com molho de tomate..., não ficasse no saudosismo do hot-dog, Em Busca de Fellini vai encontrar seu público entre espectadores fellinianos e ou leigos pouco exigentes, já que a história edificante (no estilo Jornada da Heroína) não é de dar trabalho à massa cinzenta.


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Crítica: Lucky


LUCKY
por Joba Tridente*

O cinema está cheio de gente de nome e renome que dá voltas e mais voltas pra contar uma história frouxa que vai de lugar algum para lugar nenhum embalada por trilha sonora horrenda. Assim como de gente que chega de mansinho, encontra um atalho, abre caminho e surpreende com um trabalho primoroso, fazendo de uma pequena crônica de costumes um poemeto visual de encher os olhos, abraçar a alma e alargar o sorriso..., como o quarteto formado por três estreantes: John Carroll Lynch (diretor), Logan Sparks e Drago Sumonja (roteiristas), e um consagrado: Harry Dean Stanton (ator), que dá vida longa a um personagem fascinante: Lucky.

Lucky (Lucky, EUA, 2017) marca três chegadas (diretor e roteiristas) ao mercado cinematográfico e uma partida das telonas, ao registrar a última performance do ator, cantor e músico Harry Dean Stanton, que ganhou notoriedade por seu desempenho como Travis, em Paris, Texas (1984), de Wim Wenders, e que, aos 91 anos de vida e 63 de carreira, nos deixou recentemente (15.09.2017). Na trama, por vezes a história de Lucky se confunde com a do próprio Stanton, que durante a Segunda Guerra Mundial também serviu na Marinha dos EUA, como cozinheiro..., dando um caráter documental à ficção.


O drama, lapidado ao extremo, se passa numa pequena cidade (qualquer), cercada de montanhas, cactos, deserto..., possivelmente no Novo México. A narrativa melancólica e jamais depressiva, que flerta com o realismo fantástico, orbita ao redor da rotina do velho Lucky (Stanton), com seus cigarros, exercícios de yoga, palavras cruzadas, programas de competições culturais na tv, caminhadas até a lanchonete, a mercearia, ao bar..., onde encontra alguns amigos, também velhos e saudosos (encarnados por grandes nomes: David Lynch, Beth Grant, James Darren, Hugo Armstrong, Barry Shabaka Henley, Yvonne Huff, Tom Skerritt, Ed Begley Jr.).

Nesses (re)encontros diários, onde cada um encara a velhice a seu modo, eles trocam repetidas confidências. Lucky “filosofa” sobre a vida, a morte e o “nada” futuro, além de desconcertar os ouvintes com suas teorias sobre o realismo e a verdade. Determinado e solidário, não mede esforços para consolar e ou defender o amigo Howard (David Lynch, adorável), cujo animal de estimação, um cágado de 100 anos, chamado de Presidente Roosevelt, fugiu de casa.


Para Lucky..., que envelhece sozinho (não solitário!), atropelado por lembranças infantojuvenis, naquele lugarejo longínquo, onde a modernidade, tão aborrecida quanto alguns programas de televisão, demora pousar..., a vida é feita de aventura e desventura, enquanto se degusta um copo de leite, de café cremoso ou de bloody mary em boa companhia. Provavelmente até o cágado Presidente Roosevelt, em sua escapada lenta pelo deserto, sabe disso ao perder-se na busca de algum sentido para a vida.

Saber contar e dirigir uma história cativante é um privilégio. Sorte de iniciantes ou não, a verdade é que Lucky é um drama belíssimo, cuja singularidade faz lembrar o também contemplativo Paterson (2016), de Jim Jamurch. É notável o jeito de Carroll Lynch trabalhar a experiência mística do ateu Lucky diante da resistência do Éden e da insistência do Inferno, na ambiguidade da que fecha ou abre as Portas da Percepção ou da Conveniência.


A narrativa, sem arestas e sem pressa, emociona com sequências irretocáveis, como a do pungente diálogo entre Lucky e o veterano militar Fred (Tom Skerritt), na troca de experiências sobre os horrores da Segunda Guerra, ou da animada festa de aniversário de dez anos de Juan Wayne (Ulysses Olmedo), filho da comerciante Bibi (Bertila Damas), em que Lucky canta a enternecedora Volver, Volver (de Fernando Maldonado)..., canção que, de certo modo, dialoga com a sombria I See A Darkness, de Bonnie 'Prince' Billy, interpretada por Johnny Cash, numa cena arrepiante (praticamente em preto e branco) no quarto de Lucky... Infelizmente (como é de praxe no Brasil) as duas canções importantes no contexto não estão legendadas.

Enfim, o enredo simples e convincente de Lucky te enreda de tal forma que, quando o filme termina, você fica sentado na poltrona, hipnotizado pelo brilhantismo daquela derradeira cena surreal. Você fica ali, lendo os créditos, esperando algo a mais. Talvez uma cena escondida! E precisa? Não! Aqui o menos é inacreditavelmente muito mais. A medida do filme é exata no entrelaçado da imagem e da palavra. O que fica é um leve sorriso de chegada e ou de partida!

Lucky é recomendado para o público adulto o suficiente para compreender o processo de envelhecimento do ser humano e todas as suas idiossincrasias... Deixe-se surpreender!



*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Crítica: Assassinato no Expresso do Oriente


Assassinato no Expresso do Oriente
por Joba Tridente*

O romance policial Assassinato no Expresso do Oriente, da rainha do suspense Agatha Christie (1890-1976), que traz o meticuloso detetive belga Hercule Poirot numa das suas mais famosas aventuras investigativas, foi lançado em 1934. No ano de 1974, a popular obra da Dama do Império Britânico (1971) e do Crime, ganhou a sua clássica (e definitiva!) versão cinematográfica. O filme Assassinato no Expresso do Oriente, com seu elenco espetacular e estelar, dirigido com elegância pelo mestre Sidney Lumet (1924-2011), a partir do roteiro de Paul Dehn (1912-1976), recebeu seis indicações ao Oscar, que premiou a atriz coadjuvante Ingrid Bergman (1915-1982), e dez no BAFTA, premiando novamente Bergman, o ator coadjuvante John Gielgud (1904-2000) e a trilha de Richard Rodney Bennett (1936-2012). Neste final de novembro de 2017, a obra literária que também ganhou adaptações para a tv e o teatro, chega aos cinemas brasileiros sob a direção de Kenneth Branagh (Henry V, Hamlet, Voltar a Morrer, Thor).


Assassinato no Expresso do Oriente (Murder on the Orient Express, 2017), dirigido e protagonizado por Kenneth Branagh, baseado no roteiro de Michael Green (Lanterna Verde, Logan, Blade Runner 2049), é uma versão atropelada do romance homônimo de Agatha Christie, cujo motivo condutor que envolve o icônico Hercule Poirot (Branagh) teria sido inspirado no dramático rapto e morte do bebê Charles Lindbergh (em 1932), e que, na trama bem urdida pela autora, virou Daisy Armstrong.

O ano é 1934 e (após um prólogo engraçadinho e moralista, típico de Histórias Maravilhosas, onde soluciona um roubo na Igreja do Santo Sepulcro, em Jerusalém, implicando um sacerdote, um rabino e um imã,), Poirot é obrigado a interromper suas férias em Istambul para resolver um caso em Londres. Contando com a providencial ajuda do seu amigo M. Bouc (Tom Bateman), diretor da Compagnie Internationale des Wagons Lits, o investigador consegue um lugar no luxuoso Expresso do Oriente (Istambul-Trieste-Calais), espantosamente lotado para a época do ano. Porém, a viagem é bruscamente interrompida por uma avalanche, o que acaba sendo providencial para o excêntrico Hercule Poirot resolver o misterioso assassinato de um passageiro.


Em meio à nevasca, um morto e doze suspeitos (de classes e nacionalidades diferentes) que não contavam com a presença do célebre investigador a bordo, à espera de socorro, de voz de prisão e de enterro. No jogo de cena, as aparências enganam, mas as identidades não.

Ao contrário de Sidney Lumet, que a partir do excelente roteiro de Paul Dehn (1912-1976), mais fiel ao livro, vai se desvelando cena a cena, juntando e analisando calmamente as peças do intrigante quebra-cabeça hediondo, até completá-lo no desconcertante epílogo, o impaciente Branagh parece não ver a hora de chegar aos “finalmentes”, fazendo do seu Poirot mais um adivinhador vaidoso dos seus “achismos” do que um investigador que usa metodicamente sua massa cinzenta. Apressado, o diretor e ator irlandês praticamente elimina o suspense do enredo e a sua narrativa truncada acaba claudicando para um final morno, não pela conhecida e polêmica conclusão do caso, mas pela discutível (ou risível) cena teatral (de gosto pra lá de duvidoso!) da revelação (Eu te acuso!) ao estilo mesa de Santa Ceia (claro-escuro). Uma metáfora sobre assassinos frios e calculistas, abóbadas e “fim” de túnel (dependendo do ponto de vista) tão estranha quanto ao corte do personagem Doutor Constantine, cuja função de médico (na trama) foi incorporada ao Coronel Arbuthnott (Leslie Odom Jr.), com um denso ajuste de cor de pele..., para desajustar o preconceito racial e confundir o espectador.


O grande elenco coadjuvante de Assassinato no Expresso do Oriente, que conta com Judi Dench, Johnny Depp, Michelle Pfeiffer,  Willem Dafoe, Penélope Cruz, Josh Gad, Lucy Boynton, Tom Bateman, Leslie Odom Jr., Olivia Colman, Derek Jacobi, Manuel Garcia-Rulfo, Sergei Polunin, Daisy Ridley..., é bom, mas não é tão cativante quanto o estelar de Sidney Lumet. Ansioso em contar uma história que prioriza as minúcias, principalmente nos diálogos, Branagh acaba interrompendo as performances (e a voz) de cada ator e ou atriz, fazendo com que suas personagens picotadas soem um tanto superficiais. Nesse quesito, com mais tempo em cena e razoavelmente caracterizado com um belo bigode de quatro pontas, ainda que sem a “cabeça de ovo” de Poirot, quem se sai melhor é o próprio Branagh!


Quando se desliza na neve, tem de estar sujeito aos escorregões e, embora seja um ótimo diretor, desta vez Kenneth Branagh foi ao chão, a sua arte gelou e ficou a desejar. Assim, considerando a conversão da fascinante trama de suspense de Ágatha Christie em trama policialesca chique-ostentação; a bela fotografia (em 65 mm) de Haris Zambarloukos; a cuidadosa direção de arte; os bons efeitos visuais; a trilha musical (argh!) redundante; uma ou outra pitada de humor (quase inglês); a ação totalmente descabida de socos, perseguições, tiros e pontapés..., pela ligeireza da narrativa, Assassinato no Expresso do Oriente deve conquistar apenas uma nova geração de “espectadores” (acostumados aos blockbusters rasteiros) que não têm paciência e nem cérebro para degustar e ou se deixar enredar por uma boa história de suspense. Já para o cinéfilo realmente apaixonado por cinema, não deve passar de um filme que, quadro a quadro, ressalta ainda mais as qualidades da versão de Sidney Lumet. Pode não ser totalmente descartável (para quem não conhece a adaptação de 1974), porém, tampouco é memorável. 

Agora é esperar para ver se o quê nos chegará com a próxima aventura de Hercule Poirot investigando uma Morte no Nilo, se um crocodilo aborrecido ou uma múmia mofada.


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Crítica: Liga da Justiça


LIGA DA JUSTIÇA
por Joba Tridente

Com a telona de cinema formatando cada vez mais as histórias em quadrinhos, parece que finalmente a sombria DC, assim como aconteceu com a sua concorrente Marvel, está encontrando o foco ideal dos seus heroicos e ou vilanescos personagens, cujo enquadramento mais iluminado começou a surpreender com o ótimo traçado da poderosa Mulher Maravilha (2017).

Pode não ser fácil encontrar o tom exato da linguagem quadrinista no cinema (bem menos custoso se testado em gibis)..., mas é possível. Se bem que, assim como na guerra ideológica na rede social FakeBook, quando se trata de filme de super-herói, mesmo o público mais ciente é capaz de travar guerra de comentários e xingamentos (em alguns sites) por conta do estilo taciturno DC (Esquadrão Suicida) e ou do estilo desenvolto Marvel (Guardiões da Galáxia) das histórias projetadas. Eu, hein!!!

Ainda que cada fã de HQ tenha lá a sua preferência “editorial”, já passou da sessão dele aprender (de uma vez por todas!) que, em cinema, uma história anteriormente quadrinizada (ou não) está sujeita à visão capitalista dos produtores, nem sempre familiarizados com o mundo de fantasia encenado, já que pensam tão somente em cifras e não em multiversos. Mudança de personalidade de herói e de vilão, argumentos tosco e roteiros chochos sempre vão “atender” mais ao mercado do que aos fanáticos. O que não quer dizer que produtores, roteiristas e diretores acertem sempre. Em muitos casos é uma calamidade gráfica.


Liga da Justiça, dirigido por Zack Snyder, que recentemente escorregou com Homem de Aço (2013) e foi ao chão com Batman vs Superman: A Origem da Justiça (2016), tem tudo para recolocar (?) o diretor e a DC nos trilhos do sucesso. A trama de ação e aventura, que teria sido finalizada por Joss Whedon, conta a origem da Liga da Justiça em meio ao ataque do trevoso Lobo da Estepe (voz de Ciarán Hinds), um alienígena que chega a Terra, por um orifício no Céu (com tanto vilão invadindo o planeta através de fendas celestiais, haja camada de ozônio!), à procura de três Caixas Maternas para liberar o seu poder devastador (feito uma Caixa de Pandora), instalar o caos e preparar (?) o caminho para o Darkseid, o tirano de Apokolips. O que o chifrudo Lobo, feliz com a morte de Superman (Henri Cavill), não contava é que o Batman (Ben Affleck) seria capaz de reunir quatro (novos) heróis: Mulher-Maravilha (Gal Gadot), Flash (Ezra Miller), Aquaman (Jason Momoa) e Ciborgue (Ray Fisher) e partir para o contra-ataque. Quanto à participação do Superman na defesa da Terra e na fundação da Liga, você vai ter de assistir pra saber como o Homem de Aço volta à vida e reencontra o seu “rival” Batman (com os seus infalíveis planos “B”).


O roteiro infantojuvenil de Chris Terrio e Joss Whedon tem a simplicidade e a eficiência de uma boa história em quadrinhos, equilibrando habilmente o tempo de aventura, de ação e de humor. As piadas (com algo meio nonsense) e as gags são pontuais e totalmente compatíveis com o enredo leve e principalmente com seus personagens díspares. Embora o Flash seja um bom alívio cômico e roube a maioria das cenas, na velocidade de um raio, o humor sarcástico do Batman não deve ser descartado. O Morcegão tem timing e, feito um Buster Keaton (que faz graça da própria desgraça), está impagável com suas tiradas desconjuntadas. As piadas do herói soturno podem até soar clichê e você achar que ele realmente diria o que diz, mas o que conta é o momento, o contexto em que ele solta as suas inesquecíveis pérolas. Ah, fique atento, tem uma cena íntima (!) do herói noturno fazendo algo que você nunca imaginou ver. O Alfred (Jeremy Irons) pode ser um mordomo de mil e uma funções, mas parece que certas coisas, o milionário Bruce Wayne prefere fazer pessoalmente.


Liga da Justiça tem uma narrativa linear totalmente descompromissada e flui que é uma beleza. A história não cansa e muito menos aborrece o espectador, ainda que o vilão (em CGI) não seja lá grande coisa. O enredo desenvolve razoavelmente o encontro dos heróis em torno de uma causa comum (combate ao Lobo da Estepe e resgate das três Caixas Maternas)..., mas fica a dever sobre o passado “confuso” de Flash, Ciborgue e Aquaman. Há pancadaria e violência (sem sangue), mas a destruição urbana, desta vez, está mais restrita à periferia “desabitada” em um país bem longe dos EUA. O elenco é ótimo e rola aquela química essencial para que o grupo de personagens realmente funcione como grupo, ressaltando a personalidade esdrúxula de cada um. Já no quesito romance, enquanto o Superman e a Lois Lane (Amy Adams) têm direito a seus minutinhos “a sós”, é bom saber que o resto da turma não é assexuada e que pode muito bem rolar futuramente um clima mais quente entre a Mulher-Maravilha e o Batman e ou entre a Mulher-Maravilha e o Flash..., por que não?

Enfim, considerando a abertura bem legal e as duas cenas pós-créditos (prefiro a primeira: Flash vs Superman); a notável direção de Zack Snyder (com a colaboração final de Joss Whedon?); e apesar dos efeitos (games) especiais ficarem a desejar..., Liga da Justiça é realmente um novo farol para a DC. Tomara que continue iluminando as próximas produções com mais humor e menos dramas ou tragédia pessoais!

*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.


Crítica: Liga da Justiça, Ação e Aventura, Super-Heróis, Zack Snyder, Joss Whedon, Henri Cavill, Ben Affleck, Gal Gadot, Ezra Miller, Jason Momoa,  Ray Fisher,  Personagens de HQ,

domingo, 12 de novembro de 2017

Crítica: Victoria e Abdul - O Confidente da Rainha


Victoria e Abdul - O C0nfidente da Rainha
por Joba Tridente*

Histórias palacianas envolvendo monarcas e súditos, quando em boas mãos e sob olhar perspicaz, sempre rendem bons filmes. As maquinações dos bastidores da famosa realeza britânica, com toda pompa e circunstância..., e algum escândalo conveniente (sempre na boca de cena das intrigas), valem ouro.

Em 1997 o diretor inglês John Madden trouxe para a telona o interessante e intenso Mrs Brown, focado na explosiva relação de amizade (próxima ou íntima?) entre a Rainha Victoria (Judi Dench) e o seu arrogante serviçal cavalariço escocês John Brown (Billy Connolly). Um relacionamento (de 1864 a 1883) que, segundo os pesquisadores, teria ido muito além do que se vê no drama (melancólico). Agora, vinte anos depois, é a vez do diretor britânico Stephen Frears  contar, com muita elegância e humor, do convívio afetivo (próximo ou íntimo?) da Rainha Victoria (Judi Dench) com seu devotado servo indiano Abdul Karim (Ali Fazal) na encantadora comédia (quase dramática) Victoria e Abdul - O Confidente da Rainha. Um relacionamento afetuoso (de 1887 a 1901) que, nos últimos anos, também tem dado pano pra manga. Aliás, se alguém que nunca chupou uma manga (a fruta) lhe perguntasse o gosto, o que você diria? A resposta de Abdul para Victoria é inesquecível!


Victoria e Abdul - O Confidente da Rainha, deliciosamente roteirizado por Lee Hall, é “baseado em eventos reais..., na maior parte” e também no livro Victoria & Abdul: The True Story of the Queen’s Closest Confidant (2010), da jornalista Shrabani Basu. A comédia (quase dramática) tem a “leveza” muito peculiar do indiscreto humor inglês, que se torna impagável na boca de Mohammed (Adeel Akhtar, ótimo), o indiano simplório que é “escolhido” para acompanhar o escrevente Abdul (Fazal) até a Inglaterra, para entregar uma moeda cerimonial, cunhada na Índia (sob domínio britânico), à Rainha Victória (Dench), em homenagem ao seu Jubileu de Ouro.

A viagem era pra ser um vapt-vupt: chegar, entregar a medalha e voltar. Mas, o devotadíssimo Abdul acaba despertando o interesse entusiástico da Rainha Victoria e é convocado para lhe servir, por tempo indeterminado, como seu “Munshi”, um professor para lhe ensinar tudo sobre os costumes da misteriosa Índia (onde ela jamais esteve). A surpreendente amizade e intimidade dos dois, assim como aconteceu com Brown (o servo favorito anterior da Rainha), também escandaliza o palácio, provocando ciúmes e intrigas entre funcionários, políticos e membros da buliçosa família real.


Victoria e Abdul - O Confidente da Rainha é daquelas tramas que te envolvem já nos primeiros minutos e não te deixam mais escapar das amarras até os créditos finais. A “doce” ironia dos diálogos de ontem dizem muito das relações internacionais de hoje, sejam elas monárquicas, republicanas, democráticas, muçulmanas..., pois, afinal, como diz Mohammed: “Todos querem alguma coisa!” (do outro para se distinguir do outro). Intolerância, racismo, religião, poesia, sabores e linguagem fazem parte de uma pauta que prima pela independência (e liberdade poética) no desenvolvimento do formidável roteiro e excelência de Frears na direção de uma narrativa muito bem-humorada (às vezes ferina!) e com urdidura digna da mais bela lenda oriental.


Considerando a fotografia e direção de arte impecáveis; a atuação exemplar da adorável Judi Dench (magnífica e generosa) e do expressivo Ali Fazal (com naturalidade e brilho no olhar cativantes); as personagens protagonistas muito bem desenvolvidas (deixando maliciosamente para o espectador decidir o que é real e o que é imaginário na fascinante relação entre a solitária rainha inglesa e seu afetuoso serviçal indiano); o elenco de apoio formidável; o enredo empolgante, com tiradas geniais..., Victoria e Abdul - O Confidente da Rainha, de Stephen Frears, é uma delícia de espetáculo.


Toda via das biografias e fofocas britânicas, porém, quem prefere as velhas verdades sem graça às fabulosas lendas divertidas e sem compromisso, há um bom material especulativo na internet sobre o indiano/muçulmano Abdul Karim e sobre o escocês John Brown. Não é muita coisa, já que a família real inglesa tratou de destruir os diários e a correspondência que os dois trocaram com Victoria. Mas, sabe como é, há sempre um tapete a ser levantado pra se varrer a poeira acumulada!


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Crítica: O Formidável

O Formidável
por Joba Tridente*

Jean-Luc Godard é um cineasta polêmico na vida, na arte e na memória de outrem. No caso, na memória da atriz e escritora Anne Wiazemsky (1947-2017), sua segunda mulher e autora, entre outros livros, das autobiografias Une Année Studieuse (2012) e Un An Après (2015), que falam do seu relacionamento com Godard e que serviram de base para o inspirado filme O Formidável (Le Redoutable, 2017), do diretor Michel Hazanavicius, do fascinante O Artista (2011).


O Formidável, do título (que, segundo o Houaiss, significa aquele “que inspira grande medo, pavor, assustador, aterrador” e ou “que suscita admiração; extremamente belo ou bom; magnífico”) é uma divertida referência ao submarino nuclear francês Redoutable (“temível” ou “formidável”, em operação de 1967 a 1991)..., a quem somos “apresentados”, através de uma narração (off) descritiva, quando do seu lançamento ao mar, na presença do General de Gaulle (1890-1970)..., e que serve como metáfora perspicaz ao relacionamento (em “águas turbulentas”) e a troca de mísseis amorosos e ou frustrantes do casal Anne Wiazemsky (Stacy Martin) e Jean-Luc Godard (Louis Garrel). Aliás, metáforas mixadas a gags sensacionais não faltam aos títulos dos parágrafos da trama e ou aos diálogos mudos dos títulos apropriados das publicações (objetos de cena) em mãos de um ou de outra.


O Formidável não é exatamente uma cinebiografia do também formidável e sarcástico Godard, mas um recorte na vida do charmoso casal, que começa com as filmagens de A Chinesa (1967), estrelado por Anne Wiazemsky, passeia longamente com os dois pelos movimentos revolucionários franceses de 1968, e culmina com a criação do Grupo Dziga Vertov e a realização do filme Wind From the East  (1970).

Ainda que apresente situações ridículas e contraditórias de Godard, ao tomar consciência de que não era tão simples, enquanto celebridade burguesa, ir ao proletariado, se engajar em causas revolucionárias e sair atirando pra todo lado com a sua “metralhadora cheia de mágoa” e ou expor seu ponto de vista (antissemita) em relação aos judeus e o nazismo, Hazanavicius não julga o cineasta, unicamente expõe os fatos como teriam acontecidos, segundo a mídia e Anne. Michel jamais menospreza Godard (que às vezes age feito um personagem cartunesco patético). Quando, por exemplo, o famoso cineasta de Viver a Vida (1962) quer ser a grande onda esquerdista dos movimentos estudantis, que acaba quebrando mansa e despercebida na praia, como qualquer outra, em vez de debochar, ele o mostra como um artista genial, porém genioso e contraditório, arrogante e autoritário, brigando (mais) em causa própria, ocupado (mais) com o tamanho do próprio umbigo, mesmo quando renega toda a sua obra pré-1968.


Num enredo cheio de nuances, o roteirista Michel não abre mão de explorar com competência e bom humor a linguagem cinematográfica inventiva de Godard e de outros mestres do cinema (como Woody Allen) em edição primorosa. Buscando a leveza, em vez do melodrama, ele ironiza até com a provocativa trilha sonora brincalhona que não está nem aí para a efervescência do Maio de 1968, a crise criativa e ou as contradições políticas e cinematográficas de Godard, e funciona (muito bem!) como personagem coadjuvante..., aquele que deveria passar despercebido, mas costuma roubar as cenas (sérias!), alfinetando aqui e ali a história em seus pontos-chaves. Aqui a trilha realmente tem presença e utilidade! Afinal, é muito mais fácil cativar o grande público (inclusive proletários e iletrados) com comédia (ainda que involuntária) do que com tragédia.


Os críticos e cinéfilos amantes radicais de Godard vão adorar odiar, com certeza, o formidável filme de Hazanavicius..., esquecidos (oportunamente) que se trata das memórias da ex-mulher (Anne) do cineasta, publicadas 30 anos depois dos fatos. E se os fatos (que se lê e ou se vê) são frutos da memória, podem conter liberdades poéticas e falhas providenciais..., ou não! O que não diminui o valor literário e ou cinematográfico da obra. No momento, quem poderia confirmar (?) a veracidade do “conturbado” relacionamento amoroso de doze anos do casal (1967-1979), incluindo a trôpega temporada militante no fervor de 1968 (com o hilário viés dos óculos) e do mau-humor do cineasta é o próprio Jean-Luc Godard que, desinteressado da polêmica, teria dito que o filme é “uma ideia estúpida!”. O mais bizarro disso tudo é que os fanáticos godardianos falam do filme como se o que se vê na tela (fatos públicos e ou de memória) fossem blasfêmias ao cineasta franco suíço e até se sentem (aparentemente) mais ofendidos que o próprio (?) Godard.


Enfim, considerando o ótimo recorte cinebiográfico da vida de Anne com Godard, que passa ao largo das hagiografias de artistas imaculados e onde (ainda que citadas) não cabe exaltar a obra do cineasta antes de A Chinesa e ou refletir sobre o seu itinerário cinematográfico redesenhado com o Dziga Vertov, já que o futuro de ambos (na literatura e no cinema) é pano para outras costuras (ou posturas!); a excelência da direção e do roteiro de Michel Hazanavicius; a qualidade do elenco e a admirável fotografia de Guillaume Schiffman; o equilíbrio entre política e cinema, onde a vida do casal de artistas é o fiel da balança, pautado com muito bom humor (e alguma divertida rabugice); as sequências antológicas (a do carro que leva seis passageiros para Cannes é impagável)..., O Formidável só não é recomendado aos fanáticos godardianos ranzinzas.

O grande público, até mesmo quem nunca ouviu falar do premiado diretor Jean-Luc Godard, vanguardista e um dos criadores da Nouvelle Vague..., e ou se lembra da proibição, durante o governo Sarney, do seu controverso filme Je vous salue, Marie (1986), que com o puritanismo de 2017 seria censurado novamente neste Brasil retrógado..., creio, irá gostar e rir um bocado (ou de vez em quando!).  



*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Crítica: Blade Runner 2049

Blade Runner 2049
por Joba Tridente

Em Blade Runner (1982), do britânico Ridley Scott, há um dos mais belos e emblemáticos monólogos do cinema, dito pelo replicante/androide Roy Batty (Rutger Hauer): “- Vi certas coisas que a sua gente não acreditaria. Naves de ataque ardendo ao largo de Orion. Vi raios C cintilando na escuridão junto ao Portão de Tannhäuser. Todos estes momentos vão se perder no tempo, como lágrimas na chuva. Hora de morrer.”. Em Blade Runner 2049, do canadense Denis Villeneuve, não há nenhum monólogo e ou cena equivalente. Porém, há uma magnífica narrativa que faz jus ao clássico/cult ao seguir em frente com a história carismática que encanta os cinéfilos há 35 anos.


Com base em personagens criados pelo escritor norte-americano Philip K. Dick (1928-1982), para o romance de ficção científica Do Androids Dream of Electric Sheep? (Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?), lançado em 1966, em vez de um mundo novo, com gosto molhado de distopia zero e escravos androides de última geração, os roteiristas Hampton Fancher (Blade Runner, 1982) e Michael Green (Logan, 2017) optaram por dar continuidade ao caos de 2019, seguindo a trilha da decadência urbana e diferenças sociais até 2049. Ano em que um recado enigmático (“Você nunca viu um milagre!”) do replicante fazendeiro Sapper Morton (Dave Bautista, ótimo) e a descoberta de um segredo (capaz de abalar o poder constituído) provocam um curto-circuito no cérebro do oficial da LAPD, KD6-3.7 (Ryan Gosling, perfeito) e o levam a desconfiar de que há muito mais em comum entre humanos (que nascem com alma) e replicantes (criados sem alma) do que desejam as autoridades. Obrigado a decifrar a misteriosa fala e desvelar o explosivo segredo, enquanto encontra algum sentido para o seu passado nebuloso, K busca a ajuda do caçador Rick Deckard (Harrison Ford, original), que vive isolado nos escombros de Las Vegas.  


Blade Runner 2049 é uma daquelas pedras raras que, em mãos dúbias, seria apenas poeira nos olhos, mas que, nas mãos certeiras de Denis Villeneuve (A Chegada, 2016), a lapidação precisa a tornou uma peça elegante em cujas facetas refletem antigas e novas ideias sobre o itinerário mecanicista do criador e de suas criaturas no labirinto da consciência humana em prol de uma alma técnica ou lógica. Premissa que lembrou trechos famosos do poético e polêmico Eclesiastes, que teria sido escrito por Salomão: Eclesiastes 1:11. Já não há lembrança das coisas que precederam, e das coisas que hão de ser, também delas não haverá lembrança, entre os que hão de vir depois. 1:18. Porque, na muita sabedoria, há muito enfado; e o que aumenta em conhecimento, aumenta em dor. Eclesiastes 3:1. Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu. 3:2. Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou. 3:3. Tempo de matar, e tempo de curar; tempo de derrubar, e tempo de edificar. 3:6. Tempo de buscar, e tempo de perder; tempo de guardar, e tempo de lançar fora. 3:7. Tempo de rasgar, e tempo de coser; tempo de estar calado, e tempo de falar. 3:8. Tempo de amar, e tempo de odiar; tempo de guerra, e tempo de paz; 3:16. Vi mais debaixo do sol que no lugar do juízo havia impiedade, e no lugar da justiça havia iniquidade. 3:21 Quem sabe que o fôlego do homem vai para cima, e que o fôlego dos animais vai para baixo da terra?


A trama do thriller de ficção científica Blade Runner 2049 é inteligente em suas costuras tecnológicas e amarras humanitárias e certamente provocará as mais diversas leituras..., sejam elas filosóficas (sagradas ou profanas) e ou descompromissadas de “mesa de bar” (por que não?)..., mas sem banalizar o tema: escravização do homem pelo homem ou pela máquina. Ao ampliar o questionamento sobre os “limites” do avanço tecnológico e a decadência moral e social do homem, Villeneuve reverencia o filme de Scott, sem lhe fazer sombra e ou ser sombreado por ele. A época é outra e (na iminência de um o colapso econômico) o melhor é seguir em frente, continuando a história do capítulo anterior, virando a página e movimentando o fotograma parado há 35 anos nas retinas cinematográficas..., ou há 30 anos na história idiossincrásica da humanidade vagueando atônita na película do tempo.


Enfim, considerando a irretocável direção de Denis Villeneuve; o roteiro atual, pertinente em seus questionamentos: Com o avanço da inteligência artificial, o que será dos milhares de anos de evolução humana? Com a evolução tecnológica restará algo de humano em nós..., ou o que fomos também se perderá no tempo como lágrimas na chuva?); a narrativa sem pressa (e sem didatismo piegas!), para total imersão do espectador (jamais subestimado!) e sem (!) a intenção de ser (!) um blockbuster; a empatia dos personagens (como não se emocionar com o destino do replicante Sapper (Bautista) ou não se apaixonar pela adorável holograma Joi, na pele da linda cubana Ana De Armas?) e a excelência do elenco; o clima melancólico e a fantástica cenografia futurista-retrô; a impressionante fotografia de Roger A. Deakins, dos deslumbres noturnos pelas ruas de Los Angeles, apinhadas de seres nascidos e ou criados (despreocupados com suas almas), aos claustrofóbicos ambientes soturnos dos laboratórios de alta tecnologia aos escombros periféricos..., excetuando a insuportável trilha sonora (igual a trocentas do gênero sci-fi) de Hans Zimmer e Benjamin Wallfisch, que range praticamente durante quase toda a sessão, Blade Runner 2049 é um filme que pretendo ver mais vezes para absorver também as minúcias que deixei passar. Uma produção ímpar, contemporânea e totalmente coerente com a cinematografia (até então) impecável de Denis Villeneuve.  

Se é fã de ficção científica reflexiva (tão saborosa quanto qualquer obra do mestre Ray Bradbury) e apaixonado pelo Blade Runner de 1982, não pode perder. Mas recomendo, apenas para refrescar a memória, que reveja antes o filme de Ridley Scott.


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Crítica: Mãe!


Mãe!
por Joba Tridente*

Filme vai e filme vem e lá está novamente o visionário diretor, roteirista e ambientalista Darren Aronofsky dividindo opiniões da crítica e do público com seu thriller psicológico Mãe! (Mother, 2017)..., um filme incômodo e que (só?) ganha sentido quando vira pauta de discussão e todas as suas metáforas são decifradas. Alegorias é o que não falta a esta trama hipnotizante que trata de ambientalismo, amor, devoção, submissão, desesperança, mitologia judaico-cristã, história, misticismo e o que mais a sua leitura desejar, com intensidade e provocação pouco vistas nos cinemas.


A história começa com uma arrepiante abertura evocando o despertar da Mãe (Jennifer Lawrence, magnífica), esposa do criador Ele (Javier Bardem). O casal vive isolado numa agradável casa em meio à natureza exuberante. Enquanto Mãe restaura amorosamente o lar doce lar, Ele busca um motivo substantivo para criar mais um grande poema. Certa noite o estranho Homem (Ed Harris) bate à porta, pedindo pouso. Na manhã seguinte a provocativa Mulher (Michele Pfeiffer) se junta a ele e, na sequência, os filhos (Domhnall Gleeson e Brian Gleeson)..., transtornado a tranquilidade naquele Éden. Este é só o princípio da ebulição que virá com outros buliçosos “convidados” noturnos.

Escrito por Aronosfsky, o roteiro de Mãe! (que guarda referências sugestivas ao O Bebê de Rosemary (1968), de Roman Polanski, conceituais à antropofagia sacra e profana de O Bebê Santo de Mâcon (1993), de Peter Greenaway, à filosofia do amor e do perdão da atual fase de Terrence Malick, iniciada com o irretocável A Árvore da Vida (2011), e ao abismal Anticristo (2009), de Lars von Triers) não é do tipo que se conecta facilmente com o grande público acostumado com as narrativas banais dos filmes de suspense. Sabiamente (!) sem trilha sonora para direcionar o “medo” latente do espectador, o enredo, que traça um paralelo no modo em que o os homens tratam as mulheres e os humanos tratam o planeta, não alivia pra ninguém. É cruel em todos os sentidos. Aliás, este paralelismo entre Homem/Mulher e Homem/Terra, abordado (ou mixado) com competência por Aronofsky, já foi discutido anteriormente pela filósofa e ecofeminista Susan Griffin, em seu livro Woman and nature, de 1978.


Mãe!, que se desenvolve a partir do ponto de vista de Mãe (Lawrence), conduzido pelas esmagadoras imagens de Matthew Libatique, traz cenas fortes e algumas (de violência extrema) bem repugnantes. Faz duras críticas ao machismo, ao egocentrismo e narcisismo. Não deixa hóstia sobre hóstia ao escancarar a fé cega cristã, a devoção sem limites e a hipocrisia dos seus ritos levados ao pé da letra. Apavora ao desnudar as celebridades e seus cultuadores de aparências em sequências de humor negro que seriam cômicas não fossem tragicamente possíveis. Pode não ser um drama convencional de terror, mas algumas cenas, de tão indigestas, podem fazer um(a) espectador(a) mais sensível e ou suscetível deixar a sala.


A princípio, a sessão de 121 minutos me pareceu cansativa e me deixou sem opinião formada. No entanto, ao analisar as idiossincrasias de Aronofsky e me lembrar do vertiginoso último ato, as considerações radicais (?) do roteirista ficaram mais claras (até demais) e me dei conta de que Mãe! está muito além de um apressado simples achismo (gostei! não gostei!) desde o seu belíssimo cartaz, cujo real significado (da amorosa Mãe doando-se toda) só enxerguei após refletir sobre a complexidade e a pertinência do espinhoso script. O que me fez concluir que, após o fascinante Cisne Negro (2010) e o esquecível Noé (2014), o diretor de excelência Darren Aronofsky acertou novamente. Com seu irretocável elenco (Jennifer Laurence está tão fascinante quanto em Winter's Bone/Inverno da Alma, 2010), Mãe! pode não ter o reconhecimento merecido agora, mas provavelmente será considerado cult no futuro.


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

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