quinta-feira, 11 de maio de 2017

Crítica: Alien: Covenant

Alien: Covenant
por Joba Tridente

Há 38 anos, Alien, o Oitavo Passageiro, de Ridley Scott, aterrorizou plateias em quase todo o mundo terrestre. Depois, a cada retorno, o monstrengo foi se tornando tão vulgar e chato que, nas suas últimas aparições, até em dupla com outro alienígena, o Predador, não provocava sequer um arrepio no inverno. Então, nos idos de 2012, Scott achou que, 33 anos depois, devia ele mesmo resgatar a sua “cria” alienígena em um prólogo denominado Prometheus, que, a princípio, não seria o prólogo de Aliens (1979), mas que acabou sendo. Com sua especulação metafísica sobre a origem, os meios e o fim do homem, o resultado foi decepcionante.  Ou como ironizou a mídia especializada e grande parte dos espectadores: Prometheus prometeu e ficou na promessa!


Após cinco anos de muita conversa atravessada nos bastidores, eis que vamos reencontrar Ridley Scott, mais uma vez querendo assustar a sua fiel plateia com as conveniências alienígenas em Alien: Covenant (Alien: Covenant, 2017). O drama de ficção científica, com alguns aborrecidos sustos sonoros, além da pretensa discussão filosófica sobre criador e criatura, que reverbera por toda a trama (fala do androide Davi (Michael Fassbender) para o seu criador Peter Weyland (Guy Pearce): - Você procura o seu criador. Eu estou olhando para o meu! Você vai morrer. Eu não!), narra as desventuras (é claro!) da tripulação da aeronave Covenant que, a caminho do planeta Origae.6 (levando 2000 colonos), é despertada para resolver uma grave avaria no veículo. Sim, as espaçonaves terrestres, dependendo do engenheiro, sempre dão problemas no espaço, onde nenhum pedido de socorro será ouvido, e todos os tripulantes, habilitados ou não para o serviço técnico, vão ter de se virar para consertar a nave, se quiserem seguir viagem rumo a um mundo onde o homem jamais esteve...


Continuando, além de alguns humanos, como o capitão Oram (Billy Crudup) e a segunda no comando Daniels (Katherine Waterston), faz parte da tripulação o simpático androide Walter (Michael Fassbender), uma réplica gentil do androide psicopata Davi (Fassbender), que sumiu ao final de Prometheus. Acontece que, diferente de um pedido de socorro, a bela canção Take Me Home, Country Roads, de John Denver (1943-1997) pode ser ouvida no espaço. E como a curiosidade mata o rato, já que o planeta de onde chega a canção está a uma semana de viagem e o Origae.6 a sete anos (em crio-sono), nada melhor que fazer uma visitinha e, se a terra for boa, encurtar a viagem, trocando um paraíso pelo outro. Nem é preciso dizer que o paraíso vai virar o inferno, com a chegada dos ansiosos e descuidados humanos. Daí, é só acompanhar o rotineiro pega-pega (ou fura-fura) entre alienígenas e humanos, contar mortos e feridos e apostar em quem sobreviverá! Ah, e adivinha quem é o responsável pela emissão da música-isca pelo espaço?


Para quem conhece toda a série do metálico alienígena cabeçudo que baba ácido, incluindo as tolas parcerias Alien/Predador, Alien: Covenant é apenas (ou tão somente) mais do mesmo e (pior!) com muito menos terror, suspense, tensão e muito mais previsibilidade. Não importa a quantidade e ou variedade de Aliens de Scott (aqui vai do microscópico ao gigantesco), os ataques são explosivamente iguais e, com certeza, continuarão se repetindo nos próximos (três?) filmes. Assim, diante da tradicional (e bocejante) sandice humana, não é difícil saber quem tentará salvar o dia, (despertando a força que não sabia ter) e quem (excetuando o androide?) estará ali apenas para boi de piranha, digo, bucha de alien (tipo os camisas vermelhas da série televisiva Star Trek).


Enfim, considerando que o “suspense” infantojuvenil de “sustos” sonoros, deve agradar aos fanáticos espectadores pouco exigentes; que o “roteiro” simplório tem menos falhas que Prometheus, mas continua perdido no espaço do gênero e (talvez por isso?) subestimando o público com sequências insensatas (idiotas?) ou piegas; que a “pegada” gore está mais é para o trash; que a reflexão religiosa (fé cega e pagão imolado) é inócua; que o elenco é ótimo, porém seus personagens (excetuando Davi/Walter) são rasteiros e emotivamente imbecis; que a produção impecável e os excelentes efeitos especiais não são suficientes para maquiar a falta de criatividade, inclusive na direção..., Alien: Covenant (apesar da belíssima cena da aula de flauta entre androides) é um presente de grego. Tire suas dúvidas por conta própria..., vai que gosta!

Nota: No YouTube tem dois prólogos, criados por Ridley e seu filho Luke, que não estão em Alien Covenant: O primeiro tem a ver com o final de Prometheus e o segundo com a hibernação dos astronautas. Não são spoiler e não comprometem o filme. Você pode assistir agora e ou depois. Legendas em espanhol.


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

terça-feira, 9 de maio de 2017

Crítica: Paterson

PATERSON
por Joba Tridente

A boa arte literária nasce bruta e o escritor vai burilando as palavras, assim como o pintor apura as pincelada e o cineasta os fotogramas..., o que não quer dizer que seja regra. A arte depende do olhar do artista no processo de compreender e verbalizar o mundo ao seu redor..., o que não quer dizer que seja regra. A arte não precisa ser representação fiel da realidade, pode ser interpretação, especulação e ou mera metáfora..., o que não que dizer que seja regra. Pois a (re)leitura da arte dependerá (e muito) do nível intelectual do espectador.

Jim Jarmusch é um roteirista e diretor que foge à regra. E como foge! Suas obras são originais e únicas na exploração do cotidiano com suas reflexivas banalidades. Em seu cinema casual, tudo flui com uma naturalidade absurda (tanto na caracterização dos personagens quanto no desenvolvimento dos diálogos), sem jamais cair no ridículo da caricatura. À margem do cinemão e sem dar a mínima à cartilha dos clichês hollywoodianos, Jarmusch surpreende onde a maioria (obediente à cartilha) falha. É que quando se sabe o quê e como dizer, o universo inspira o script. E ou conspira a favor!


Paterson (Paterson, 2016), seu filme mais recente, é de uma beleza desconcertante. Poético do princípio ao fim, os versos do enredo compõem e se recompõem, no recorte de uma semana, ao redor de Paterson (Adam Driver, excelente), um pacato e sensível condutor de ônibus em Paterson (Nova Jersey, EUA). A magia já começa aí, cidadão e cidade compartilhando nome: um, querendo fazer parte da história local; outra, querendo o reconhecimento de suas celebridades na história local.


Ao cativante Paterson, que tem como ídolo e referência literária o escritor americano William Carlos Williams (1883-1963 - na internet há farto material sobre este autor modernista genial), todo material em seu caminho (embalagens, placas, locais, até conversa de passageiros) serve de inspiração para seus poemas, compostos diariamente durante o itinerário do velho ônibus pelas ruas de Paterson e anotados em um caderno. No final do expediente, quando regressa ao lar, ele troca confidências com a jovem esposa Laura (a belíssima Golshifteh Farahani), que ainda não encontrou o seu lugar no mundo profissional, revisa seus versos, passeia com o cachorro, bebe um chope com amigos e volta pra casa... 


No dia seguinte o mesmo rito: se ocupar poeticamente com o que parece banal aos olhos grosseiros e nem se dar conta da sua rotina que foge à rotina dos seus amigos e conhecidos que não mudam o “discurso” de amor e dor. É fascinante ver (e ouvir) o seu processo criativo, o seu método de lapidação das palavras, de desconstrução e de ressignificação das imagens que lhe inspiram..., e também o seu temperamento para lidar com pequenos dissabores que, por vezes, o tangenciam.


Considerando que Paterson é um maravilhoso conto sobre o fazer poético; que é um delicioso exercício literário para escritores e ou mero leitores saborearem verso a verso, até o inquestionável ponto final, uma semana de trabalho e lazer na companhia de um simpático motorista de ônibus apaixonado por poesia e de sua mulher às voltas com as cores preta e branca; que os poemas de Paterson (escritos pelo poeta americano Ron Padgett) são tocantes e desveladores, assim como a poesia japonesa (Haiku e Tanka); que essa belezura em tons sépia e ou ocre, muito bem escrita e interpretada e fotografada (Frederick Elmes), dificilmente será vista pela massa ignara que não consegue pensar além do tombo, digo, do combo pipoca/refri/celular..., o público seleto pode ir tranquilo para se emocionar e desfrutar o excelente momento, com a certeza de que ainda existe vida inteligente e muita poesia nos arredores de Hollywood... 


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

domingo, 30 de abril de 2017

Crítica: Colossal

Colossal
por Joba Tridente

Ficção científica é um tema que sempre ganha uma ferventada no cinema. O que não quer dizer que toda ebulição na telona seja de qualidade e satisfaça ao paladar de todos..., já que são poucos os roteiristas e diretores dispostos a melhorar os ingredientes da tradicional receita no cardápio do gênero.

Colossal (Colossal, 2016), escrito e dirigido por Nacho Vigalondo, é um drama(lhão) de ficção científica divã-psicoterápico que tem tudo para dividir grogues (e esquecíveis) opiniões, principalmente entre os jovens adultos, seu público alvo. A trama, com prólogo em Nova York, miolo numa cidade interiorana estadunidense qualquer, e epílogo em Seul, na Coréia do Sul, pode causar indisposição aos mais suscetíveis. É que o diretor espanhol aproveita a cenografia (e a mística etílica) para misturar, numa coqueteleira de boteco, ingredientes clichês, como alcoolismo, amor, sexo, frustração, vinganças, traumas, egocentrismo, vazio existencial..., na busca de um drink original (de alto teor alcoólico) que suba à cabeça norte-americana e descambe na cabeça sul-coreana. Haja enxaqueca!


A ressaca, digo, a narrativa (que abre com um brevíssimo pré-prólogo de 25 anos atrás, em Seul) segue os passos zonzos da alcoólatra Gloria (Anne Hathaway, com peruca horrorosa que parece que vai se soltar a qualquer momento), uma blogueira desempregada (?) e dispensada pelo namorado Tim (Dan Stevens), que deixa Nova York para morar numa casa literalmente vazia, no interior dos EUA. Ali ela reencontra um colega de infância, Oscar (Jason Sudeikis), que é dono de um bar e lhe oferece emprego de garçonete, e conhece os seus amigos Garth (Tim Blake Nelson) e Joel (Austin Stowell). Para variar, o quarteto passa o dia e a noite bebendo todas e comendo nada. Em território country, nada mais propício que um clima junkie. Será?


Numa manhã, após os goles da noite, Glória (onde estou?) fica sabendo do ataque de um gigantesco monstro, em Seul, que deixa mortos e muita destruição. Algum tempo depois e uns goles a mais, ela se dá conta de que o mostrengo é um avatar que repete todos os seus gestos. E, para a sua surpresa, o “Monstro Glória” não está sozinho, um enorme robô, que é o avatar do seu patrão e amigo Oscar, entra em cena e começa a participar do jogo absurdo. Seguem-se, então, diversas sequências bobas e ou violentas (nos dois lados do planeta), diálogos toscos e redundantes (relacionados à situação de sexo, romance, ego, bebida, possessividade) que acrescentam pouco à trama claudicante. É melhor parar por aqui, já que estas informações básicas estão na sinopse e nos trailers e não quero cometer spoiler das respostas que, com paciência sóbria, você vai ter no catártico terceiro ato. Uma coisa é certa, até lá você vai ficar pensando: Por que Seul e não Pyongyang (na Coréia do Norte), Washington e ou Madri? Será que o excelente cinema da Coréia do Sul tem algo a ver com o quebra-quebra? Calma! Mas fique atento no que anda bebendo!


Vigalondo, que caiu nas graças da crítica com seu excelente Crimes Temporais, de 2007, e a dividiu com o econômico (bota econômico nisso) e preguiçoso Extraterrestre, de 2011, por ter ficado mais na esfera da comédia (sensual e surreal) de costume do que propriamente na da ficção científica (com seu OVNI fixo), que alguns críticos (em vez de desdenhar) preferiram metaforizar sobre a estupidez humana..., não vai muito além com Colossal, um filme de fantasia em que (dependendo do seu estado de espírito ou de embriaguez) o argumento pode lhe parecer bem mais interessante que o resultado (juvenil tardio) final.  


A produção, que segue o modelo de baixo custo, com poucos atores, é uma mistura (a princípio curiosa) de vídeo game de ação e violência com drama(lhão) de vícios e “romantismo”. Porém, ainda no primeiro ato (quando começa a ganhar plataforma e delinear personagens), parece que algo está meio fora de ordem e lugar. E essa impressão bocejante persiste nos dois atos seguintes, uma vez que o devaneio do roteiro não se mostra lá muito acessível a todo espectador-joystick, apaixonado ou não por game e ou gente. O bocejo talvez se justifique pela falta de humor (nem sorriso amarelo e nem humor negro), de gags realmente engraçadas e ou de personagens que provoquem alguma empatia. Talvez! Tudo bem que, como cantou John Lennon na belíssima Nobody Loves You (When You're Down And Out): “Ninguém te ama quando você está por baixo”, mas, cá pra nós, os quatro personagens bebuns são dose..., bem desagradáveis e difíceis de se amar.


Enfim, considerando que bebida no fígado alheio é café forte sem açúcar; que quando não se entende trechos do enredo, metaforiza e deixa pra lá; que os efeitos especiais são bacaninhas; que a culpa pelos personagens malas sem alça não é do ótimo elenco; que apesar da vocação para algo bem interessante (como se vê no epílogo), a história é um psicodrama assim-assim; que o jubiloso final pode ser um recomeço (com ou sem gelo?)..., Colossal, que com sua trama quimérica (para jovens adultos) parece querer homenagear os escritores Charles Bukowski (1920-1994) e William Burroughs (1914-1997), não ficaria mal com o título Colossal Delirium Tremens...



*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

terça-feira, 18 de abril de 2017

Crítica: A Família Dionti

A Família Dionti
por Joba Tridente

Sinopses e trailers podem ser pegadinhas de mau gosto e ou podem surpreender positivamente a quem costumar dar muita importância para ambos..., já que nem sempre fazem jus ao filme e ou vice-versa e ou vira e desconversa.

Pela sinopse (raramente, só se distraído, vejo trailer) o longa-metragem infantojuvenil A Família Dionti, parece interessante em sua proposta de dialogar com o realismo mágico (ou fantástico), que na literatura brasileira se destacam o mineiro Murilo Rubião e o goiano José J. Veiga: A Família Dionti narra a fantástica história de um pai (Josué) e seus dois filhos, Kelton, de 13 anos, e Serino, de 15, que vivem em um sítio no interior de Minas Gerais. A mãe não mora mais com eles, pois derreteu de amor, evaporou e partiu. Enquanto todos os dias sonha com a volta da mulher a cada chuva que cai, Josué (Antônio Edson) cuida dos filhos com olhar atento, preocupado com a possibilidade de que tenham herdado o dom da mãe. Serino (Bernardo Santos) é seco e chora grãos de areia e Kelton (Murilo Quirino), ao se apaixonar por Sofia (Ana Luiz Marques), uma garota de circo, literalmente se liquefaz de amor.


Promissor, não? Num interior bucólico, lá pra bandas de Dores da Vitória e de Angustura, beirando um atalho mineiro de Guimarães Rosa e uma trilha mato-grossense de Manoel de Barros, a história desta família singular que comunga sonhos molhados e pesadelos secos que, de uma hora pra outra, podem se desmanchar ao vento e ou ao sol, tem início com uma chuva madrugadora que Josué espera que traga de volta a sua amada esposa e mãe dos meninos. E daí, como a imprevisibilidade da chuva, a vida segue lerda, num cotidiano de pouco fazer ou contornar: a rotina na escola “branca” de Kelton; o desejo de Serino por uma bicicleta nova; os afazeres de Josué em casa e na olaria; as histórias de circo da itinerante Sofia; a iminência do inusitado...


É sempre bom quando narrativas diversas desvelam o que inda há de belo e natural, Brasil afora e adentro. Toda via da beleza das locações, no entanto, A Família Dionti (Brasil, Inglaterra, 2015), com roteiro e direção de Alan Minas, exagera um pouco ao trazer toda a lerdeza interior de quem mora no bucólico interior para o melancólico exterior do público da cidade grande. Por vezes a lerdeza do lugarejo atemporal, onde cabe o cotidiano de quem se prende ao passado e de quem almeja um futuro longe dali, é tanta que chega a extrapolar a tela e a dar soninho no espectador mais ansioso.

Num cenário comercial em que raramente um filme brasileiro moldado para o público infantil chega às salas de cinema, há que se saudar o bonito e bem intencionado A Família Dionti, mas há, também, que ressaltar que a premiada produção não está isenta de falhas. A certa altura (quando a história começa a perder o interesse?) alguns escorregões saltam aos olhos e outros passam batidos nos vacilos da direção de arte, da continuidade, da trilha sonora, dos efeitos especiais, da edição, das performances...


A Família Dionti é um filme de recortes, de pequenas cenas (ilustrativas), nem sempre bem costuradas pela linha narrativa. Algumas cenas, na verdade, são totalmente descartáveis. Há as sequências encantadoras, como a do velho e suas abelhas, as interessantes, porém mal resolvidas, como a do mágico, sua mulher e a flor, e ainda as aborrecidas, como as do consultório médico. Na trama leve e pueril, com toques românticos, tem poesia e tem prosa sertanejas, nem sempre no mesmo diálogo. O realismo mágico é servido em diversas plataformas (circo, bonecos, pessoas)..., já o humor, ninguém sabe e ninguém viu, se é que algum dia passou pela região. Não é que a gente do lugar seja triste, não é isso, mas na história não tem passagem (gag ou piada) alguma engraçada ou que provoque algo mais que um sorrisinho amarelo. Nem mineiro da roça é tão contido assim.


Pelo resultado final, considerando que (na minha leitura de adulto) mesmo com cenas curtas a disritmia faz a narrativa claudicar; que o argumento é excelente, mas o roteiro e a direção nem tanto; que os personagens centrais são razoáveis e os coadjuvantes, como o médico charlatão Dr. Waldomiro Carls (Gero Camilo) e a funcionária do Conselho Tutelar, Doroteia (Neila Tavares), são tão caricatos que, com suas caras e bocas e trejeitos, os atores estão mais é para vilões de abomináveis “espetáculos infantis”; que o humor faz uma falta danada..., A Família Dionti é um filme mediano. Se foi premiado duas vezes pelo voto popular em festivais de cinema (Brasília e Lisboa), deve então agradar ao grande público.

Ficou curioso? Arrisque-se! A minha é apenas uma opinião que não precisa coincidir com a sua. E se assistir, traga o seu ponto de vista para cá!


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

quinta-feira, 23 de março de 2017

Crítica: Fragmentado

Fragmentado
por Joba Tridente

Fazer cinema pode ser como dirigir um trem desgovernado..., se o condutor conhece bem a estrada-de-ferro e seus desvios, pode salvar o dia, se não, o desastre é certo e não sobrará vagão para contar a história. O controverso roteirista e diretor M. Night Shyamalan é um maquinista que, quando assume a cabine cinematográfica de um trem, nem sempre é unanimidade entre os passageiros mais críticos das suas paradas crônicas no mundo do entretenimento, onde a tela é ocupada por narrativas que exaltam a fantasia, a fábula, o suspense e ou o horror..., tudo dentro do palatável.

M. Night Shyamalan que, em 1999, chegou atropelando Hollywood com seu expressivo Sexto Sentido, continuou embalado com Corpo Fechado (2000), seguiu a toda atento a Sinais (2004), chegando com bom combustível à estação A Vila (2004) e energia suficiente para não deixar para trás A Dama na Água (2006)..., encontrou um desvio inesperado e se perdeu com o Fim dos Tempos (2008), tentou sem sucesso outros trilhos com O Último Mestre do Ar (2010) e sumiu na cerração Depois da Terra (2013), para só reaparecer recauchutado em A Visita (2015). Agora, um tanto Fragmentado (2017), reabastece a máquina, bem ocupada com velhos e novos passageiros cinéfilos, para uma jornada nada confortável.


Fragmentado (Split, 2017), escrito e dirigido por M. Night Shyamalan, é um thriller que nos convida a embarcar numa viagem imersiva no universo distorcido de Kevin (James McAvoy), cujo corpo/mente abriga 23 personalidades distintas e uma nova e devastadora a caminho. Kevin sofre de Transtorno de Identidade Dissociativa - TID e, além dele, o espectador conhecerá apenas cinco de suas manifestações: Dennis (obsessivo-compulsivo), Patrícia (mulher dissimulada), Barry (estilista despretensioso), Hedwick (garoto de nove anos) e a Besta (assombrosa).

Personagens traumatizados (física, psicológica e espiritualmente) são, de certo modo, recorrentes na obra fabular de Shyamalan. Toda via expressa da insinuação do horror alegórico, no entanto, seus tormentos andam ganhando ares cada vez mais explícitos em narrativas que (ainda) não chegam a gotejar gore, pois se pressupõe farsa no diálogo e ou no monólogo que antecipa o jogo de cena de quem o protagoniza (ou antagoniza).


Fragmentado começa com o sequestro de três adolescentes: Claire (Haley Lu Richardson), Marcia (Jessica Sula) e Casey (Anya Taylor-Joy), logo após uma festa de aniversário. As garotas acordam aprisionadas num claustrofóbico bunker, onde recebem visitas perturbadoras e ameaçadoras dos alter egos de Kevin, que tem uma relação “familiar” (no fio da navalha) com a psiquiatra Dra. Fletcher (Betty Buckley), autoridade em TDI, mas com uma visão um tanto ingênua quanto às múltiplas personalidades de seu paciente. Ali, enquanto as desesperadas Claire e Marcia, através do enfrentamento e do medo, buscam uma forma (simplista) de escapar, Casey estuda meticulosamente as particularidades de cada inimigo manifesto, para não falhar a fuga. Das três, somente ela tem antecedentes (visto em flashbacks) que justificam a sua introspecção e tal reação diante do perigo iminente. Porém, o trio sabe que não será fácil dominar qualquer uma das “facetas” do múltiplo Kevin.  


A trama basicamente “discorre” sobre o presente de Kevin (com seus eus) e sobre o passado de Casey (com seus ais). Os dois carregam um fardo de abuso e de submissão psicológica como se carregassem os pecados da humanidade. Na catarse (tardia) de ambos, a porta da “expiação” pode tanto aprisionar quanto libertar suas almas. A discussão dos seus traumas pode não ser lá muito profunda, mas (implícita!) é bem mais convincente que a rasura das duas garotas “de bom coração” (Claire e Marcia) e mesmo da psiquiatra (Fletcher), que se ocupa mais com a harmonia de Kevin com suas facetas do que com a segurança da sociedade em que está inserido. Aliás, de Kevin, o público só vai conhecer a sua atividade profissional no epílogo, já que, segundo o script, ele e seus 23 egos, seriam influenciados pelo ambiente de trabalho.

Embora o seu roteiro, com vícios de linguagem, não seja dos mais originais (sequestro de adolescentes, prisão subterrânea, desnudamento, psicopatias), ainda assim o drama (com algum humor cinzento) é capaz de surpreender o espectador e prender a sua atenção até o “desfecho” que o fará rever toda a narrativa em segundos, para resgatar duas sequências e dizer: “Ah, esta é a razão do off!” e “Ah, esta é a razão do trem/metrô!”. Aqui eu pergunto, mesmo sabendo a resposta (que tem nada a ver com a do filme): “Por que será que vilões (inclusive alienígenas) adoram uma performance (desastrada) num trem e ou metrô?. Quanto à resposta ao suspense shyamalaniano, ela poderá ser vista numa provável continuação dois em um: Corpo Fechado e Fragmentado 2 (Unbreakable and Split - 2)...


Enfim, considerando a razoabilidade do tema (TDI) e a curiosidade do enredo; algumas sequências muito bem resolvidas, como a do sequestro das adolescentes e a do quarto de Hedwick; as excelentes atuações de James McAvoy (Kevin) e de Anya Taylor-Joy (Casey); a alternância entre a meia-luz (prisão) e a claridade (clínica), redefinindo personagens e refletindo a complexidade da natureza humana; as alegorias nem sempre funcionais..., descartando um ou outro escorregão, Fragmentado é um bom programa. Recomendo para que gosta de pensar (sobre cordialidade) fora da caixinha e além do divã.

Pode não ser o melhor filme de M. Night Shyamalan, mas prova que o interessante diretor ainda tem muito combustível para impulsionar sua locomotiva Hollywood afora.


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Crítica: Logan

Logan
por Joba Tridente

Para a fidelidade do leitor, a vida de herói de história em quadrinhos é cheia de surpresas e finais praticamente previsíveis. Toda via de traços diferenciados no retrato de um mesmo personagem, no entanto, num mundo onde a realidade pode ser paralela e ou alternativa, muitos já foram mortos e ressuscitados pelos roteiristas, para desespero dos fãs, em diferentes plataformas em que atuam: hq, tv e cinema. É claro que, num universo (ou multiverso) de tantos heróis, muitos (a maioria?) não fazem a menor falta. Já outros, por mais que seu tempo tenha passado, têm sempre que voltar à cena.

Embora poucos leitores se deem conta, nas mãos de um bom autor, o tempo não para nem mesmo para um carismático super-herói. Porém, chega uma hora em que o sujeito se cansa de salvar a pátria (ou o planeta) de infinitos vilões. Acostumados com a sua imprescindível força bruta, poucos de nós se importam com a sua vida pessoal (família, traumas, estafa). Ou se dá conta de que até mesmo um ator que dá vida a ele, nas telas de cinema, também envelhece, também se cansa, também quer partir para outras histórias, até mesmo menos heroicas e, quiçá, mais humanas..., como Hugh Jackman, que nos últimos 17 anos personificou nove vezes o grande Wolverine ou Logan ou James Howlett, na telona. 


Levemente inspirado nas minisséries Wolverine - O Velho Logan (Old Man Logan, 2008) e em A Morte de Wolverine (Death of Wolverine, 2014), o filme de ação Logan (Logan, EUA, 2017), dirigido por James Mangold e estrelado por Hugh Jackman, chega para fechar com trava de adamantium uma trilogia solo que começou com X-Men Origens: Wolverine (2009) e seguiu com Wolverine Imortal (2013). Pelo que se comenta nos bastidores, este seria o canto do cisne de Jackman na pele de Logan/Wolverine. Mas, assim como nos quadrinhos, quem é que sabe? Até uma próxima edição na telona, tudo pode acontecer!


Escrito por James Mangold, Michael Green e Scott Frank, a trama de ação (extremamente violenta!) de Logan se passa em 2029. Há mais de vinte anos não nascem mais mutantes e a maioria dos X-Men foi morta. Logan (Jackman) está velho, o adamantium o envenena e o seu poder de cura está debilitado. Para sobreviver ele trabalha como motorista de limusine na fronteira árida e decadente dos Estados Unidos com o México, na esperança de juntar dinheiro suficiente para comprar um barco e sair velejando na companhia do Professor Xavier (Patrick Stewart) e de Caliban (Stephen Merchant), que também estão doentes: “Nós pensamos que todos faziam parte do plano de Deus, mas talvez fossemos o erro de Deus”.


Ser motorista é um trabalho cansativo, pouco rentável e há sempre alguns basbaques querendo atrapalhar a sua vida. Aí, quem não ouve a voz da razão e fere um lobo com chumbo quente, aprende da pior forma possível que, mesmo velho, debilitado ou bêbado, um ex-herói não perde a fúria e, ainda que aposentado, sabe muito bem onde enfiar as suas garras de adamantium.

É em meio a um cotidiano cada vez mais caótico que Logan é contratado para levar Laura (Dafne Keen), uma menina muito especial e tão mal humorada quanto ele, para um lugar chamado Éden, na fronteira com o Canadá. Poderia ser apenas um trabalho de rotina, não fosse o condenável interesse do cirurgião-chefe da Transgen, Dr. Zander Rice (Richard E. Grant), e do perverso segurança Donald (Boyd Holbrook) e sua “gangue” de Carniceiros, pela garota. Se você assistiu a trailers e ou leu material com spoiler já sabe quem é a misteriosa jovem..., mas, para quem prefere a surpresa, me nego a desvelar a sua identidade aqui.


Assim como a minissérie O Velho Logan (inspirada em Os Imperdoáveis, Mad Max e A Estrada), de Mark Millar, o filme Logan, de James Mangold, pode ser considerado uma dos mais violentos da Marvel. Mangold aproveita bem as referências cinematográficas de Millar, principalmente Mad Max, ao conduzir o espectador por territórios fronteiriços arruinados, mas dispensa o indigesto humor negro dos quadrinhos. Na verdade, há quase nada de humor em Logan. Nem mesmo a ironia do herói encontra eco quando, ao lado de Xavier e Laura, assiste na tv ao clássico faroeste Shane (1953), de George Stevens, que, em impressionante reflexo atemporal, se repete belo e trágico em seu caminho. Justiça e paz de espírito definitivamente parecem não coexistir na vida dos heróis.


Sem alívio cômico (raridade num produto da Marvel), o excelente roteiro ganha intensidade ao traçar uma melancólica e dramática jornada do herói (imortal) para um ex-herói (imortal) que não quer saber de redenção, mas de ser esquecido..., ainda que o passado o persiga e todas as dores e feias cicatrizes pelo corpo insistam em lhe gritar quem foi e ou o quê ainda é enquanto (experimento) vivo. Irascível, ele sabe como acabar com o próprio sofrimento e possivelmente já o teria feito não fosse pela amizade e dependência dos amigos Xavier e Caliban. Sombrio, continuaria “enterrado vivo” em El Paso, no México, até conseguir comprar um barco, não fosse a determinada jovem Laura arrastá-lo para o Éden.  


Enfim, considerando que, se você é um espectador que resistiu imune à violência de Kick-Ass - Quebrando Tudo (2010) e Deadpool (2016), vai tirar o “X” de letra; que, se o enredo não te enrola é porque é muito bom e, em se tratando de um X-Men (de poucos efeitos especiais e CGI) vai muito bem em sala X-Plus; que, embora a trama “brinque” com a metalinguagem (HQ dentro da HQ), misturando fantasia (inocente) e horror (brutal), não é uma história para o público jovem; que muitas sequências são de dar nó na garganta..., Logan é um filme imperdível para fãs de hq para adultos! Um espetáculo digno (ainda que triste) sobre o ocaso de um herói. Simplesmente inesquecível!

Nota: Se você espera que após os créditos “Nenhum mexicano foi maltratado, ferido ou morto durante as filmagens” vai assistir a algumas cenas do próximo filme, ou não prestou atenção no final da história ou nas notícias de cinema na internet ou é muito esperançoso...


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Crítica: A Grande Muralha


A Grande Muralha
por Joba Tridente

Pense em um espetáculo realmente grandioso. Pense em efeitos visuais muito mais que especiais, daqueles de cair o queixo. Pense num 3D-IMAX imersivo! Pense num cenário gigantesco ocupado por uma imensa força militar em perfeita sincronia de gestos e cores vibrantes. Pense em parafernália e pirotecnia bélicas usadas com inteligência para combater inimigos visíveis e invisíveis. Pensou? Então, é isso e muito mais que você vai encontrar no divertido entretenimento cinematográfico A Grande Muralha (The Great Wall, China/EUA, 2017), do mestre chinês Yimou Zhang*.


Com base em um roteiro funcional, escrito por seis autores americanos e que ganha em esplendor oriental no olhar habilidoso de Zhang, a boa trama de A Grande Muralha busca dar veracidade a uma “remota lenda chinesa”, que mistura fantasia e ficção científica para desvelar um desconhecido motivo da construção do gigantesco muro: “conta-se” que, na Dinastia Song (960-1279), o maior perigo a rondar o Império Chinês não era o da invasão de tribos nômades da Mongólia e da Manchúria, mas o ataque de uma tribo reptiliana extraterrestre, com milhares de ferozes indivíduos conhecidos como Taoties, que chegou a Terra em um meteoro. A causa que trouxe estes seres inteligentes ao planeta, mais precisamente à China, e cujo comportamento acaba se tornando um ciclo vicioso, eu não vou contar, mas adianto que tem nada a ver com o que motivou a invasão dos também ferozes Orcs de Warcraft.


Bem, continuando e ou começando a divertida e curiosa história de ação desenfreada e aventura heroica..., após uma jornada conflituosa pelo inóspito território chinês, o intrépido arqueiro holandês William (Matt Damon) e o espanhol Tovar (Pedro Pascal), dois sobreviventes de um grupo de mercenários em busca do famoso “pó preto” (pólvora), dão de cara com a Grande Muralha da China, que abriga um magnífico contingente militar denominado Ordem Sem Nome. À frente do fabuloso exército estão o General Shao (Zhang Hanyu), o Estrategista Wang (Andy Lau) e a belíssima Comandante Lin (Jing Tian). Logo a dupla fica sabendo que aqueles soldados, muito bem vestidos e equipados, não estão lá pra enfeitar a muralha, mas para barrar a entrada de um inimigo devastador que ataca a cada sessenta anos e não deixa mortos (nem mesmo os seus) para trás. Nem precisa dizer que, enquanto tramam um jeito de roubar a pólvora e dar o fora dali, os dois soldados de aluguel vão lutar na batalha insana quando o bicho pegar.

No entanto, fique tranquilo (a), ao contrário do que algum cartaz possa sugerir e até equivocar alguns críticos, o homem branco William (Damon) luta e muito, mas não chega a ser exatamente o salvador branco do reluzente Império Chinês. O certo é que a presença do ator americano deve ajudar na bilheteria. Quando se trata também de cinema, os chineses só estão usando a mesma regra (ou seria truque?) marqueteira hollywoodiana, que coloca personagens latinos, europeus e (recentemente) chineses para impor suas produções, com expectativa de maior lucro, em outros países. O filme poderia ser estrelado só por chineses? Com toda certeza! E sem perda de qualidade! Mas aí, como você iria saber que nesse período em que o "branco" europeu rondava o Império, à caça de pólvora, os chineses já tinham inventado também a bússola? Business to Business!


O enredo de A Grande Muralha é simples e direto (embate entre humanos e répteis alienígenas), mas não deixa de sair mordiscando doído nas beiradas da ganância, do poder, da estratégia, da demografia, do expansionismo que escraviza o homem (lobo do homem) imperial (ou seria ornamental?). Toda via da história que corre ligeira e envolvente, no entanto, quem não curte ou não está nem aí para um subtexto num programa pipoca-refri, pode deixar a metáfora de lado e se deleitar à vontade com a estética espetacular das batalhas (também acrobáticas).


Nenhum ataque e ou contra-ataque se repete no desenvolvimento ágil da original história. Há sempre um novo deslumbramento visual a ser apreciado. Há sempre um enfoque cultural, político ou filosófico a ser ponderado na trama. Yimou Zhang é sem dúvida um dos mais inventivos diretores chineses. É invejável como lida com cores, perspectivas, movimento aéreo de (qualquer) coisa, figurino, enquadramentos, principalmente em sequências de suspense em campo aberto..., sempre antológicas e apresentando coreografias inusitadas meticulosamente realizadas pelas personagens e seus objetos de cena.


A Grande Muralha tem um desenho de produção excelente, principalmente o dos Taoties que, tanto na forma quanto no conteúdo, possivelmente foram inspirados no mítico Taotie, tema zoomórfico que representa a gula e a ganância (encontrado em vasos de bronze de até 3000 a.C.) e aparece esculpido numa parede da Muralha cenográfica, conforme foto de cena acima. Na internet é possível encontrar diversificado material (texto e imagem) sobre esse interessante ser autofágico da mitologia chinesa..., um demônio que foi se comendo até restar apenas a cabeça. Lembra que falei de metáforas? Então, talvez o enredo não seja tão simplório quanto parece.


Enfim, considerando a plasticidade; a narrativa fluida; os diálogos em mandarim e inglês; o elenco bacana, lá e cá do oriente; grandes sequências, como a do ritual dos balões em homenagem a um oficial morto; o humor leve; o subtexto (intencional ou não) crítico; o misticismo da lenda breve e muito bem contada..., A Grande Muralha é um entretenimento genuíno e que fica ainda melhor se o espectador se desconectar da realidade e embarcar na fascinante onda bélica chinesa e ou na apavorante onda alienígena. Bom demais!

* Alguns diretores realmente dispensam maiores apresentações: Sorgo Vermelho (1987); Lanternas Vermelhas (1991); Nenhum a Menos (1999); Herói (2002); O Clã das Adagas Voadoras (2004); A Maldição da Flor Dourada (2006); Flores do Oriente (2011).


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...