quarta-feira, 16 de maio de 2018

Crítica: Deadpool 2


Deadpool 2
por Joba Tridente

No campo das artes, o sucesso por ser imprevisível. Nem sempre as grandes apostas acompanham as grandes promessas. Se na área da música o fardo é pesado, no cinema pode até encerrar carreiras de estrelas prodígios. Na era do bigue-bangue hollywoodiano que catapultou o Universo Marvel para além das revistas de histórias em quadrinhos e vem desvelando galáxias para que também o Universo DC tenha oxigênio para os seus balõezinhos um tanto sombrios, a vida de herói e ou anti-herói na telona nem sempre é garantia de perenidade quanto aquela das páginas de um gibi. Também porque não tem a menor ideia de que recorte da sua vida irá viver na cinebiografia.

Às vezes, de onde menos se espera, aparecem algumas pérolas: Guardiões da Galáxia, Mulher Maravilha, Pantera Negra, Homem-Formiga, por exemplo. De outras, onde mais se aposta: Esquadrão Suicida, O Homem de Aço, Batman vs Superman: A Origem da Justiça, por exemplo, vem o pedregulho. Roteiro, direção, carisma de personagens e atores, tudo influi, tudo flui para o sucesso e ou para o fracasso no giro da roleta nas mãos do espectador juvenil (que gosta de qualquer coisa em movimento) e ou do espectador adulto um pouco mais exigente na diversão.


Dois anos depois de estourar a boca do balão com Deadpool, o desbocado, safado e irônico Wade Wilson/Deadpool (Ryan Reynolds), o metalinguístico personagem dos quadrinhos Marvel, está de volta às telonas com Deadpool 2 (Deadpool 2, 2018) com a mesma irreverência para enfrentar Cable (Josh Brolin) um soldado do futuro que viaja no tempo para exterminar Russell/Firefist (Julian Dennison), um adolescente poderoso e descontente com o tratamento que recebe do rígido diretor (Eddie Marsan) do reformatório para jovens mutantes Broadstone House. Para enfrentar este caçador implacável, Deadpool vai criar o seu próprio grupo de heróis, o X-Force, que conta, entre outros pretendentes ao ofício, com a ágil sortuda Domino (Zazie Beets). Também retornam para abrilhantar este fumegante capítulo: Vanessa (Morena Baccarin), a namorada de Wade Wilson; o taxista Dopinter (Karan Soni); o barman Weasel (TJ Miller) e os mutantes “X”: Colossus (voz de Stefan Kapicic) e Negasi Teenage Warhead (Brianna Hildebrand).


Ao dizer que Deadpool 2 é um filme família, Deadpool não está necessariamente falseando a verdade, fazendo um chiste, porque, do seu conturbado ponto de vista e sem levar em conta a sua atividade de risco, ele está bem mexido com a ideia de um lar pra chamar de seu e até mesmo sonha com filhos. Toda via da violência e pancadaria, no entanto, para um mercenário (ainda que imortal) com a sua folha corrida, a lua de mel com o amor da sua vida pode se tornar uma lua de fel. Tudo é uma questão de trabalho e ou de tempo.

Quem assistiu ao filme anterior (fã ou não do anti-herói) e sabe do potencial do personagem e de suas incômodas idiossincrasias não vai se preocupar ou se horrorizar com seus atos insanos, já que o tresloucado Deadpool continua cumprindo à risca a sua sina de não dar trégua a bandido. Já o espectador de primeiro contato pode se incomodar um pouco com alguma cena ou diálogo..., mas nada que o faça sair da sala. Pois, passado o “susto” diante de situações esdrúxulas e sanguinolentas (exaustivamente exploradas em games, em filmes de heróis e em telejornais), vai se divertir e rir um bocado dessa paródia que, se forçar comparação, é bem mais “leve” que a anterior.


Deadpool 2 mantém ligada a chave de impropérios do personagem, quase que do princípio ao fim. Estão lá (a cada cena) as tiradas espirituosas e ou sacanas, as citações de filmes como Yentl (1983) e Instinto Assassino (1992), por exemplo, que a maioria do público jovem deve desconhecer, e de obras mais recentes (que não vou citar por conta de spoiler), a azaração com os personagens da DC e da própria Marvel. Quando ao humor, há piadas e gags para todos os gostos, apelos e compreensão, por isso alguma coisa é capaz de passar batida e ou não terá a menor graça..., principalmente aquelas de humor negro (que nem todo mundo entende). A mim, toda a sequência de formação e ataque da X-Force é sensacional, com destaque para o antológico salto de paraquedas da equipe, principalmente por causa de um detalhe genial (nada de spoiler!). Bem, também tem a inimaginável e hilária sequência de crescimento de partes faltantes de Deadpool..., só vendo pra crer!


Enfim, pra variar, não dá pra falar muito de Deadpool 2, sem cometer spoiler. Portanto..., considerando a eficiência do roteiro (sem enrolação) de Rhett Reese, Paul Wernick e Ryan Reynolds; a excelente direção e ótima coreografia de luta de David Leitch; o notável desempenho do elenco, com Reynolds arrasando novamente, na boa companhia de Brolin e Beets (que rouba um bocado de cenas)..., a nova aventura do falastrão Deadpool, embora tenha um certo ar de melancolia e um “discurso” até catártico sobre a morte e ou o morrer (nada que aborreça o espectador), é diversão certa para quem já se acostumou com esse universo de heróis de HQ em cenas desenfreadas (ôps!) de ação gore-alucinante. Não fica nada a dever ao filme original.

Ah, tem duas cenas durante os créditos finais. Segundo informações na Wikipedia, é improvável um Deadpool 3, já que a intenção da Disney/Marvel é investir em X-Force. Mas, sabe como é, nesse mundo onde a bilheteria é o fiel da balança dos produtores...


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

quinta-feira, 10 de maio de 2018

Crítica: A Noite do Jogo


A Noite do Jogo
por Joba Tridente

O cinema é feito de grandes e pequenos prazeres..., e também de prazer nenhum. E nem sempre é questão de estado de espírito durante a sessão. Tem mesmo a ver com argumento, roteiro, elenco e direção, que somente em mãos certas são eficazes. Como é o caso da sensacional comédia A Noite do Jogo (Game Night, 2018).


A Noite do Jogo é uma deliciosa surpresa de qualidade cada vez mais rara no entretenimento humorístico hollywoodiano. A comédia adulta e excêntrica, protagonizada por um elenco notável, ótimo roteiro de Mark Perez e brilhante direção da dupla John Francis Daley e Jonathan Goldstein, gira ao redor de um grupo de amigos que semanalmente se encontra para se divertir com jogos de tabuleiro e também comer salgadinhos, bebericar e jogar conversa fora. 

No entanto, a noitada tranquila..., que sempre acontece na casa do romântico casal Max (Jason Bateman) e Annie (Rachel McAdams), para onde se dirigem Kevin (Lamorne Morris) e Michelle (Kylie Bunbury), também casados, e o tolo Ryan (Billy Magnussen) com suas namoradas, ocasião em que o estranho vizinho policial Gary (Jesse Plemons) é propositadamente esquecido..., está prestes a mudar, com a chegada de Brooks (Kyle Chandler), o irmão mais bonito, mais empreendedor e mais bem sucedido de Max, propondo um jogo inédito valendo o seu belo Corvette Stingray. A proposta de Brook é simular o sequestro de um dos participantes, deixando pistas pela casa. Porém, assim que ele acontece, a confusão está armada, já que nem tudo é o que parece, tanto para os personagens quanto para o espectador, nessa trama inteligente e hilária envolvendo máfia, bandidos, policiais, atores e pessoas comuns se divertindo em busca de um prêmio. (Não assista ao trailer!!!)


É bom lembrar que, com sua bem dosada mistura de comédia de erros com thriller, excelente ritmo e ação alucinada (na maior parte) pastelão, A Noite do Jogo tem nada a ver com o também divertido Jumanji: Bem-vindo à selva e ou o enfadonho Jogador nº.1. A sua plataforma é de outro nível. A sua pegada é mais adulta e bem mais ousada, ao brincar de brincar com a metalinguagem cinematográfica, fazendo inesquecíveis citações de atores, personagens e cenas de filmes de ação e violência. E mais, além de não subestimar a inteligência do espectador, a sua trama perspicaz consegue a proeza de iludir o público (sobre o que é real ou falso) até o final da narrativa. (Não assista ao trailer!!!)


Despretensiosa e instigante, A Noite do Jogo, com suas histórias entranhadas umas nas outras, é uma comédia de erros que funciona não apenas pela engenhosidade do roteiro, mas por envolver prazerosamente o espectador em uma trama irretocável.., até mesmo a cenografia é um trunfo. Fazia um bom tempo que eu não ria tanto. O seu humor é genuíno e para todos os gostos: humor negro, humor bobo, humor chulo, humor pastelão, gags visuais geniais..., com sequências antológicas (de chorar de rir), como a da extração de uma bala.  (Não assista ao trailer!!!)


Enfim, quanto menos você souber do surpreendente enredo, maior a será a sua satisfação e muito mais intensa a sua imersão nessa história maluca e cheia de reviravoltas até a sequência final que acompanha os créditos. O elenco, que inclui Sharon Horgan, na pele de Sarah, a acompanhante da vez de Ryan, está afinadíssimo e pra lá de descontraído. Cada ator/personagem tem o seu tempo de brilho na tela, mas quem rouba todas as cenas é Jesse Plemons. Se gosta de uma comédia astuciosa e realmente engraçada, não perca. Ah, e o mais importante: Não assista ao trailer!!!



*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

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