quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Crítica: Liga da Justiça


LIGA DA JUSTIÇA
por Joba Tridente

Com a telona de cinema formatando cada vez mais as histórias em quadrinhos, parece que finalmente a sombria DC, assim como aconteceu com a sua concorrente Marvel, está encontrando o foco ideal dos seus heroicos e ou vilanescos personagens, cujo enquadramento mais iluminado começou a surpreender com o ótimo traçado da poderosa Mulher Maravilha (2017).

Pode não ser fácil encontrar o tom exato da linguagem quadrinista no cinema (bem menos custoso se testado em gibis)..., mas é possível. Se bem que, assim como na guerra ideológica na rede social FakeBook, quando se trata de filme de super-herói, mesmo o público mais ciente é capaz de travar guerra de comentários e xingamentos (em alguns sites) por conta do estilo taciturno DC (Esquadrão Suicida) e ou do estilo desenvolto Marvel (Guardiões da Galáxia) das histórias projetadas. Eu, hein!!!

Ainda que cada fã de HQ tenha lá a sua preferência “editorial”, já passou da sessão dele aprender (de uma vez por todas!) que, em cinema, uma história anteriormente quadrinizada (ou não) está sujeita à visão capitalista dos produtores, nem sempre familiarizados com o mundo de fantasia encenado, já que pensam tão somente em cifras e não em multiversos. Mudança de personalidade de herói e de vilão, argumentos tosco e roteiros chochos sempre vão “atender” mais ao mercado do que aos fanáticos. O que não quer dizer que produtores, roteiristas e diretores acertem sempre. Em muitos casos é uma calamidade gráfica.


Liga da Justiça, dirigido por Zack Snyder, que recentemente escorregou com Homem de Aço (2013) e foi ao chão com Batman vs Superman: A Origem da Justiça (2016), tem tudo para recolocar (?) o diretor e a DC nos trilhos do sucesso. A trama de ação e aventura, que teria sido finalizada por Joss Whedon, conta a origem da Liga da Justiça em meio ao ataque do trevoso Lobo da Estepe (voz de Ciarán Hinds), um alienígena que chega a Terra, por um orifício no Céu (com tanto vilão invadindo o planeta através de fendas celestiais, haja camada de ozônio!), à procura de três Caixas Maternas para liberar o seu poder devastador (feito uma Caixa de Pandora), instalar o caos e preparar (?) o caminho para o Darkseid, o tirano de Apokolips. O que o chifrudo Lobo, feliz com a morte de Superman (Henri Cavill), não contava é que o Batman (Ben Affleck) seria capaz de reunir quatro (novos) heróis: Mulher-Maravilha (Gal Gadot), Flash (Ezra Miller), Aquaman (Jason Momoa) e Ciborgue (Ray Fisher) e partir para o contra-ataque. Quanto à participação do Superman na defesa da Terra e na fundação da Liga, você vai ter de assistir pra saber como o Homem de Aço volta à vida e reencontra o seu “rival” Batman (com os seus infalíveis planos “B”).


O roteiro infantojuvenil de Chris Terrio e Joss Whedon tem a simplicidade e a eficiência de uma boa história em quadrinhos, equilibrando habilmente o tempo de aventura, de ação e de humor. As piadas (com algo meio nonsense) e as gags são pontuais e totalmente compatíveis com o enredo leve e principalmente com seus personagens díspares. Embora o Flash seja um bom alívio cômico e roube a maioria das cenas, na velocidade de um raio, o humor sarcástico do Batman não deve ser descartado. O Morcegão tem timing e, feito um Buster Keaton (que faz graça da própria desgraça), está impagável com suas tiradas desconjuntadas. As piadas do herói soturno podem até soar clichê e você achar que ele realmente diria o que diz, mas o que conta é o momento, o contexto em que ele solta as suas inesquecíveis pérolas. Ah, fique atento, tem uma cena íntima (!) do herói noturno fazendo algo que você nunca imaginou ver. O Alfred (Jeremy Irons) pode ser um mordomo de mil e uma funções, mas parece que certas coisas, o milionário Bruce Wayne prefere fazer pessoalmente.


Liga da Justiça tem uma narrativa linear totalmente descompromissada e flui que é uma beleza. A história não cansa e muito menos aborrece o espectador, ainda que o vilão (em CGI) não seja lá grande coisa. O enredo desenvolve razoavelmente o encontro dos heróis em torno de uma causa comum (combate ao Lobo da Estepe e resgate das três Caixas Maternas)..., mas fica a dever sobre o passado “confuso” de Flash, Ciborgue e Aquaman. Há pancadaria e violência (sem sangue), mas a destruição urbana, desta vez, está mais restrita à periferia “desabitada” em um país bem longe dos EUA. O elenco é ótimo e rola aquela química essencial para que o grupo de personagens realmente funcione como grupo, ressaltando a personalidade esdrúxula de cada um. Já no quesito romance, enquanto o Superman e a Lois Lane (Amy Adams) têm direito a seus minutinhos “a sós”, é bom saber que o resto da turma não é assexuada e que pode muito bem rolar futuramente um clima mais quente entre a Mulher-Maravilha e o Batman e ou entre a Mulher-Maravilha e o Flash..., por que não?

Enfim, considerando a abertura bem legal e as duas cenas pós-créditos (prefiro a primeira: Flash vs Superman); a notável direção de Zack Snyder (com a colaboração final de Joss Whedon?); e apesar dos efeitos (games) especiais ficarem a desejar..., Liga da Justiça é realmente um novo farol para a DC. Tomara que continue iluminando as próximas produções com mais humor e menos dramas ou tragédia pessoais!

*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.


Crítica: Liga da Justiça, Ação e Aventura, Super-Heróis, Zack Snyder, Joss Whedon, Henri Cavill, Ben Affleck, Gal Gadot, Ezra Miller, Jason Momoa,  Ray Fisher,  Personagens de HQ,

domingo, 12 de novembro de 2017

Crítica: Victoria e Abdul - O Confidente da Rainha


Victoria e Abdul - O C0nfidente da Rainha
por Joba Tridente*

Histórias palacianas envolvendo monarcas e súditos, quando em boas mãos e sob olhar perspicaz, sempre rendem bons filmes. As maquinações dos bastidores da famosa realeza britânica, com toda pompa e circunstância..., e algum escândalo conveniente (sempre na boca de cena das intrigas), valem ouro.

Em 1997 o diretor inglês John Madden trouxe para a telona o interessante e intenso Mrs Brown, focado na explosiva relação de amizade (próxima ou íntima?) entre a Rainha Victoria (Judi Dench) e o seu arrogante serviçal cavalariço escocês John Brown (Billy Connolly). Um relacionamento (de 1864 a 1883) que, segundo os pesquisadores, teria ido muito além do que se vê no drama (melancólico). Agora, vinte anos depois, é a vez do diretor britânico Stephen Frears  contar, com muita elegância e humor, do convívio afetivo (próximo ou íntimo?) da Rainha Victoria (Judi Dench) com seu devotado servo indiano Abdul Karim (Ali Fazal) na encantadora comédia (quase dramática) Victoria e Abdul - O Confidente da Rainha. Um relacionamento afetuoso (de 1887 a 1901) que, nos últimos anos, também tem dado pano pra manga. Aliás, se alguém que nunca chupou uma manga (a fruta) lhe perguntasse o gosto, o que você diria? A resposta de Abdul para Victoria é inesquecível!


Victoria e Abdul - O Confidente da Rainha, deliciosamente roteirizado por Lee Hall, é “baseado em eventos reais..., na maior parte” e também no livro Victoria & Abdul: The True Story of the Queen’s Closest Confidant (2010), da jornalista Shrabani Basu. A comédia (quase dramática) tem a “leveza” muito peculiar do indiscreto humor inglês, que se torna impagável na boca de Mohammed (Adeel Akhtar, ótimo), o indiano simplório que é “escolhido” para acompanhar o escrevente Abdul (Fazal) até a Inglaterra, para entregar uma moeda cerimonial, cunhada na Índia (sob domínio britânico), à Rainha Victória (Dench), em homenagem ao seu Jubileu de Ouro.

A viagem era pra ser um vapt-vupt: chegar, entregar a medalha e voltar. Mas, o devotadíssimo Abdul acaba despertando o interesse entusiástico da Rainha Victoria e é convocado para lhe servir, por tempo indeterminado, como seu “Munshi”, um professor para lhe ensinar tudo sobre os costumes da misteriosa Índia (onde ela jamais esteve). A surpreendente amizade e intimidade dos dois, assim como aconteceu com Brown (o servo favorito anterior da Rainha), também escandaliza o palácio, provocando ciúmes e intrigas entre funcionários, políticos e membros da buliçosa família real.


Victoria e Abdul - O Confidente da Rainha é daquelas tramas que te envolvem já nos primeiros minutos e não te deixam mais escapar das amarras até os créditos finais. A “doce” ironia dos diálogos de ontem dizem muito das relações internacionais de hoje, sejam elas monárquicas, republicanas, democráticas, muçulmanas..., pois, afinal, como diz Mohammed: “Todos querem alguma coisa!” (do outro para se distinguir do outro). Intolerância, racismo, religião, poesia, sabores e linguagem fazem parte de uma pauta que prima pela independência (e liberdade poética) no desenvolvimento do formidável roteiro e excelência de Frears na direção de uma narrativa muito bem-humorada (às vezes ferina!) e com urdidura digna da mais bela lenda oriental.


Considerando a fotografia e direção de arte impecáveis; a atuação exemplar da adorável Judi Dench (magnífica e generosa) e do expressivo Ali Fazal (com naturalidade e brilho no olhar cativantes); as personagens protagonistas muito bem desenvolvidas (deixando maliciosamente para o espectador decidir o que é real e o que é imaginário na fascinante relação entre a solitária rainha inglesa e seu afetuoso serviçal indiano); o elenco de apoio formidável; o enredo empolgante, com tiradas geniais..., Victoria e Abdul - O Confidente da Rainha, de Stephen Frears, é uma delícia de espetáculo.


Toda via das biografias e fofocas britânicas, porém, quem prefere as velhas verdades sem graça às fabulosas lendas divertidas e sem compromisso, há um bom material especulativo na internet sobre o indiano/muçulmano Abdul Karim e sobre o escocês John Brown. Não é muita coisa, já que a família real inglesa tratou de destruir os diários e a correspondência que os dois trocaram com Victoria. Mas, sabe como é, há sempre um tapete a ser levantado pra se varrer a poeira acumulada!


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Crítica: O Formidável

O Formidável
por Joba Tridente*

Jean-Luc Godard é um cineasta polêmico na vida, na arte e na memória de outrem. No caso, na memória da atriz e escritora Anne Wiazemsky (1947-2017), sua segunda mulher e autora, entre outros livros, das autobiografias Une Année Studieuse (2012) e Un An Après (2015), que falam do seu relacionamento com Godard e que serviram de base para o inspirado filme O Formidável (Le Redoutable, 2017), do diretor Michel Hazanavicius, do fascinante O Artista (2011).


O Formidável, do título (que, segundo o Houaiss, significa aquele “que inspira grande medo, pavor, assustador, aterrador” e ou “que suscita admiração; extremamente belo ou bom; magnífico”) é uma divertida referência ao submarino nuclear francês Redoutable (“temível” ou “formidável”, em operação de 1967 a 1991)..., a quem somos “apresentados”, através de uma narração (off) descritiva, quando do seu lançamento ao mar, na presença do General de Gaulle (1890-1970)..., e que serve como metáfora perspicaz ao relacionamento (em “águas turbulentas”) e a troca de mísseis amorosos e ou frustrantes do casal Anne Wiazemsky (Stacy Martin) e Jean-Luc Godard (Louis Garrel). Aliás, metáforas mixadas a gags sensacionais não faltam aos títulos dos parágrafos da trama e ou aos diálogos mudos dos títulos apropriados das publicações (objetos de cena) em mãos de um ou de outra.


O Formidável não é exatamente uma cinebiografia do também formidável e sarcástico Godard, mas um recorte na vida do charmoso casal, que começa com as filmagens de A Chinesa (1967), estrelado por Anne Wiazemsky, passeia longamente com os dois pelos movimentos revolucionários franceses de 1968, e culmina com a criação do Grupo Dziga Vertov e a realização do filme Wind From the East  (1970).

Ainda que apresente situações ridículas e contraditórias de Godard, ao tomar consciência de que não era tão simples, enquanto celebridade burguesa, ir ao proletariado, se engajar em causas revolucionárias e sair atirando pra todo lado com a sua “metralhadora cheia de mágoa” e ou expor seu ponto de vista (antissemita) em relação aos judeus e o nazismo, Hazanavicius não julga o cineasta, unicamente expõe os fatos como teriam acontecidos, segundo a mídia e Anne. Michel jamais menospreza Godard (que às vezes age feito um personagem cartunesco patético). Quando, por exemplo, o famoso cineasta de Viver a Vida (1962) quer ser a grande onda esquerdista dos movimentos estudantis, que acaba quebrando mansa e despercebida na praia, como qualquer outra, em vez de debochar, ele o mostra como um artista genial, porém genioso e contraditório, arrogante e autoritário, brigando (mais) em causa própria, ocupado (mais) com o tamanho do próprio umbigo, mesmo quando renega toda a sua obra pré-1968.


Num enredo cheio de nuances, o roteirista Michel não abre mão de explorar com competência e bom humor a linguagem cinematográfica inventiva de Godard e de outros mestres do cinema (como Woody Allen) em edição primorosa. Buscando a leveza, em vez do melodrama, ele ironiza até com a provocativa trilha sonora brincalhona que não está nem aí para a efervescência do Maio de 1968, a crise criativa e ou as contradições políticas e cinematográficas de Godard, e funciona (muito bem!) como personagem coadjuvante..., aquele que deveria passar despercebido, mas costuma roubar as cenas (sérias!), alfinetando aqui e ali a história em seus pontos-chaves. Aqui a trilha realmente tem presença e utilidade! Afinal, é muito mais fácil cativar o grande público (inclusive proletários e iletrados) com comédia (ainda que involuntária) do que com tragédia.


Os críticos e cinéfilos amantes radicais de Godard vão adorar odiar, com certeza, o formidável filme de Hazanavicius..., esquecidos (oportunamente) que se trata das memórias da ex-mulher (Anne) do cineasta, publicadas 30 anos depois dos fatos. E se os fatos (que se lê e ou se vê) são frutos da memória, podem conter liberdades poéticas e falhas providenciais..., ou não! O que não diminui o valor literário e ou cinematográfico da obra. No momento, quem poderia confirmar (?) a veracidade do “conturbado” relacionamento amoroso de doze anos do casal (1967-1979), incluindo a trôpega temporada militante no fervor de 1968 (com o hilário viés dos óculos) e do mau-humor do cineasta é o próprio Jean-Luc Godard que, desinteressado da polêmica, teria dito que o filme é “uma ideia estúpida!”. O mais bizarro disso tudo é que os fanáticos godardianos falam do filme como se o que se vê na tela (fatos públicos e ou de memória) fossem blasfêmias ao cineasta franco suíço e até se sentem (aparentemente) mais ofendidos que o próprio (?) Godard.


Enfim, considerando o ótimo recorte cinebiográfico da vida de Anne com Godard, que passa ao largo das hagiografias de artistas imaculados e onde (ainda que citadas) não cabe exaltar a obra do cineasta antes de A Chinesa e ou refletir sobre o seu itinerário cinematográfico redesenhado com o Dziga Vertov, já que o futuro de ambos (na literatura e no cinema) é pano para outras costuras (ou posturas!); a excelência da direção e do roteiro de Michel Hazanavicius; a qualidade do elenco e a admirável fotografia de Guillaume Schiffman; o equilíbrio entre política e cinema, onde a vida do casal de artistas é o fiel da balança, pautado com muito bom humor (e alguma divertida rabugice); as sequências antológicas (a do carro que leva seis passageiros para Cannes é impagável)..., O Formidável só não é recomendado aos fanáticos godardianos ranzinzas.

O grande público, até mesmo quem nunca ouviu falar do premiado diretor Jean-Luc Godard, vanguardista e um dos criadores da Nouvelle Vague..., e ou se lembra da proibição, durante o governo Sarney, do seu controverso filme Je vous salue, Marie (1986), que com o puritanismo de 2017 seria censurado novamente neste Brasil retrógado..., creio, irá gostar e rir um bocado (ou de vez em quando!).  



*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Crítica: Blade Runner 2049

Blade Runner 2049
por Joba Tridente

Em Blade Runner (1982), do britânico Ridley Scott, há um dos mais belos e emblemáticos monólogos do cinema, dito pelo replicante/androide Roy Batty (Rutger Hauer): “- Vi certas coisas que a sua gente não acreditaria. Naves de ataque ardendo ao largo de Orion. Vi raios C cintilando na escuridão junto ao Portão de Tannhäuser. Todos estes momentos vão se perder no tempo, como lágrimas na chuva. Hora de morrer.”. Em Blade Runner 2049, do canadense Denis Villeneuve, não há nenhum monólogo e ou cena equivalente. Porém, há uma magnífica narrativa que faz jus ao clássico/cult ao seguir em frente com a história carismática que encanta os cinéfilos há 35 anos.


Com base em personagens criados pelo escritor norte-americano Philip K. Dick (1928-1982), para o romance de ficção científica Do Androids Dream of Electric Sheep? (Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?), lançado em 1966, em vez de um mundo novo, com gosto molhado de distopia zero e escravos androides de última geração, os roteiristas Hampton Fancher (Blade Runner, 1982) e Michael Green (Logan, 2017) optaram por dar continuidade ao caos de 2019, seguindo a trilha da decadência urbana e diferenças sociais até 2049. Ano em que um recado enigmático (“Você nunca viu um milagre!”) do replicante fazendeiro Sapper Morton (Dave Bautista, ótimo) e a descoberta de um segredo (capaz de abalar o poder constituído) provocam um curto-circuito no cérebro do oficial da LAPD, KD6-3.7 (Ryan Gosling, perfeito) e o levam a desconfiar de que há muito mais em comum entre humanos (que nascem com alma) e replicantes (criados sem alma) do que desejam as autoridades. Obrigado a decifrar a misteriosa fala e desvelar o explosivo segredo, enquanto encontra algum sentido para o seu passado nebuloso, K busca a ajuda do caçador Rick Deckard (Harrison Ford, original), que vive isolado nos escombros de Las Vegas.  


Blade Runner 2049 é uma daquelas pedras raras que, em mãos dúbias, seria apenas poeira nos olhos, mas que, nas mãos certeiras de Denis Villeneuve (A Chegada, 2016), a lapidação precisa a tornou uma peça elegante em cujas facetas refletem antigas e novas ideias sobre o itinerário mecanicista do criador e de suas criaturas no labirinto da consciência humana em prol de uma alma técnica ou lógica. Premissa que lembrou trechos famosos do poético e polêmico Eclesiastes, que teria sido escrito por Salomão: Eclesiastes 1:11. Já não há lembrança das coisas que precederam, e das coisas que hão de ser, também delas não haverá lembrança, entre os que hão de vir depois. 1:18. Porque, na muita sabedoria, há muito enfado; e o que aumenta em conhecimento, aumenta em dor. Eclesiastes 3:1. Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu. 3:2. Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou. 3:3. Tempo de matar, e tempo de curar; tempo de derrubar, e tempo de edificar. 3:6. Tempo de buscar, e tempo de perder; tempo de guardar, e tempo de lançar fora. 3:7. Tempo de rasgar, e tempo de coser; tempo de estar calado, e tempo de falar. 3:8. Tempo de amar, e tempo de odiar; tempo de guerra, e tempo de paz; 3:16. Vi mais debaixo do sol que no lugar do juízo havia impiedade, e no lugar da justiça havia iniquidade. 3:21 Quem sabe que o fôlego do homem vai para cima, e que o fôlego dos animais vai para baixo da terra?


A trama do thriller de ficção científica Blade Runner 2049 é inteligente em suas costuras tecnológicas e amarras humanitárias e certamente provocará as mais diversas leituras..., sejam elas filosóficas (sagradas ou profanas) e ou descompromissadas de “mesa de bar” (por que não?)..., mas sem banalizar o tema: escravização do homem pelo homem ou pela máquina. Ao ampliar o questionamento sobre os “limites” do avanço tecnológico e a decadência moral e social do homem, Villeneuve reverencia o filme de Scott, sem lhe fazer sombra e ou ser sombreado por ele. A época é outra e (na iminência de um o colapso econômico) o melhor é seguir em frente, continuando a história do capítulo anterior, virando a página e movimentando o fotograma parado há 35 anos nas retinas cinematográficas..., ou há 30 anos na história idiossincrásica da humanidade vagueando atônita na película do tempo.


Enfim, considerando a irretocável direção de Denis Villeneuve; o roteiro atual, pertinente em seus questionamentos: Com o avanço da inteligência artificial, o que será dos milhares de anos de evolução humana? Com a evolução tecnológica restará algo de humano em nós..., ou o que fomos também se perderá no tempo como lágrimas na chuva?); a narrativa sem pressa (e sem didatismo piegas!), para total imersão do espectador (jamais subestimado!) e sem (!) a intenção de ser (!) um blockbuster; a empatia dos personagens (como não se emocionar com o destino do replicante Sapper (Bautista) ou não se apaixonar pela adorável holograma Joi, na pele da linda cubana Ana De Armas?) e a excelência do elenco; o clima melancólico e a fantástica cenografia futurista-retrô; a impressionante fotografia de Roger A. Deakins, dos deslumbres noturnos pelas ruas de Los Angeles, apinhadas de seres nascidos e ou criados (despreocupados com suas almas), aos claustrofóbicos ambientes soturnos dos laboratórios de alta tecnologia aos escombros periféricos..., excetuando a insuportável trilha sonora (igual a trocentas do gênero sci-fi) de Hans Zimmer e Benjamin Wallfisch, que range praticamente durante quase toda a sessão, Blade Runner 2049 é um filme que pretendo ver mais vezes para absorver também as minúcias que deixei passar. Uma produção ímpar, contemporânea e totalmente coerente com a cinematografia (até então) impecável de Denis Villeneuve.  

Se é fã de ficção científica reflexiva (tão saborosa quanto qualquer obra do mestre Ray Bradbury) e apaixonado pelo Blade Runner de 1982, não pode perder. Mas recomendo, apenas para refrescar a memória, que reveja antes o filme de Ridley Scott.


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Crítica: Mãe!


Mãe!
por Joba Tridente*

Filme vai e filme vem e lá está novamente o visionário diretor, roteirista e ambientalista Darren Aronofsky dividindo opiniões da crítica e do público com seu thriller psicológico Mãe! (Mother, 2017)..., um filme incômodo e que (só?) ganha sentido quando vira pauta de discussão e todas as suas metáforas são decifradas. Alegorias é o que não falta a esta trama hipnotizante que trata de ambientalismo, amor, devoção, submissão, desesperança, mitologia judaico-cristã, história, misticismo e o que mais a sua leitura desejar, com intensidade e provocação pouco vistas nos cinemas.


A história começa com uma arrepiante abertura evocando o despertar da Mãe (Jennifer Lawrence, magnífica), esposa do criador Ele (Javier Bardem). O casal vive isolado numa agradável casa em meio à natureza exuberante. Enquanto Mãe restaura amorosamente o lar doce lar, Ele busca um motivo substantivo para criar mais um grande poema. Certa noite o estranho Homem (Ed Harris) bate à porta, pedindo pouso. Na manhã seguinte a provocativa Mulher (Michele Pfeiffer) se junta a ele e, na sequência, os filhos (Domhnall Gleeson e Brian Gleeson)..., transtornado a tranquilidade naquele Éden. Este é só o princípio da ebulição que virá com outros buliçosos “convidados” noturnos.

Escrito por Aronosfsky, o roteiro de Mãe! (que guarda referências sugestivas ao O Bebê de Rosemary (1968), de Roman Polanski, conceituais à antropofagia sacra e profana de O Bebê Santo de Mâcon (1993), de Peter Greenaway, à filosofia do amor e do perdão da atual fase de Terrence Malick, iniciada com o irretocável A Árvore da Vida (2011), e ao abismal Anticristo (2009), de Lars von Triers) não é do tipo que se conecta facilmente com o grande público acostumado com as narrativas banais dos filmes de suspense. Sabiamente (!) sem trilha sonora para direcionar o “medo” latente do espectador, o enredo, que traça um paralelo no modo em que o os homens tratam as mulheres e os humanos tratam o planeta, não alivia pra ninguém. É cruel em todos os sentidos. Aliás, este paralelismo entre Homem/Mulher e Homem/Terra, abordado (ou mixado) com competência por Aronofsky, já foi discutido anteriormente pela filósofa e ecofeminista Susan Griffin, em seu livro Woman and nature, de 1978.


Mãe!, que se desenvolve a partir do ponto de vista de Mãe (Lawrence), conduzido pelas esmagadoras imagens de Matthew Libatique, traz cenas fortes e algumas (de violência extrema) bem repugnantes. Faz duras críticas ao machismo, ao egocentrismo e narcisismo. Não deixa hóstia sobre hóstia ao escancarar a fé cega cristã, a devoção sem limites e a hipocrisia dos seus ritos levados ao pé da letra. Apavora ao desnudar as celebridades e seus cultuadores de aparências em sequências de humor negro que seriam cômicas não fossem tragicamente possíveis. Pode não ser um drama convencional de terror, mas algumas cenas, de tão indigestas, podem fazer um(a) espectador(a) mais sensível e ou suscetível deixar a sala.


A princípio, a sessão de 121 minutos me pareceu cansativa e me deixou sem opinião formada. No entanto, ao analisar as idiossincrasias de Aronofsky e me lembrar do vertiginoso último ato, as considerações radicais (?) do roteirista ficaram mais claras (até demais) e me dei conta de que Mãe! está muito além de um apressado simples achismo (gostei! não gostei!) desde o seu belíssimo cartaz, cujo real significado (da amorosa Mãe doando-se toda) só enxerguei após refletir sobre a complexidade e a pertinência do espinhoso script. O que me fez concluir que, após o fascinante Cisne Negro (2010) e o esquecível Noé (2014), o diretor de excelência Darren Aronofsky acertou novamente. Com seu irretocável elenco (Jennifer Laurence está tão fascinante quanto em Winter's Bone/Inverno da Alma, 2010), Mãe! pode não ter o reconhecimento merecido agora, mas provavelmente será considerado cult no futuro.


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

sábado, 2 de setembro de 2017

Crítica: Lino - Uma Aventura de Sete Vidas

Lino - Uma Aventura de Sete Vidas
por Joba Tridente

Uma das minhas grandes paixões no cinema é o desenho animado, também conhecido como animação. Todo ano chegam (de outros países) obras maravilhosas como Kubo e As Cordas Mágicas e A Tartaruga Vermelha..., só pra ficar em duas mais recentes. Por aqui já desembarcaram excelentes produções Argentinas, Mexicanas, Francesas, Canadenses, Inglesas, Alemãs, Japonesas... Os EUA ainda dão muitas cartas e continuam referência técnica e de conteúdo, inclusive, nas animações europeias, mas já com menos vícios.

Desde 1951, com Sinfonia Amazônica, de Anélio Lattini Filho, os artistas brasileiros (na garra e na coragem) vêm trabalhando duro para conquistar um pedaço do saboroso bolo animado que há um bom tempo se espalhou por todo o mundo: Piconzé (Ippe “Ypê” Nakashima, 1973); Boi Aruá (Chico Liberato, 1984); Rocky e Hudson (Otto Guerra, 1994; O Grilo Feliz (Walbercy Ribas 2001); Wood & Stock: Sexo, Orégano e Rock’n’Roll (Otto Guerra, 2006); Uma História de Amor e Fúria (Luiz Bolognesi, 2013); O Menino e O Mundo (Alê Abreu, 2013); Até que a Sbórnia Nos Separe (Otto Guerra e Ennio Torresan, 2013); Guida (Rosana Urbes, 2015).


No dia sete de setembro de 2017, quando se comemora o “Dia da Independência”, no Brasil, estreia nos cinemas a animação Lino - Uma Aventura de Sete Vidas, produzido pela StartAnima (Cassiopéia e O Grilo Feliz), com direção de Rafael Ribas. O filme com muita ação e alguma aventura acompanha as agruras de Lino (voz de Selton Mello), um sujeito tão azarado que, por não ter aptidão profissional alguma, cria uma horrorosa fantasia de gato (vermelho e amarelo) para “animar” festas infantis. Um desastre anunciado! Decidido a dar um novo rumo à sua vida, ele procura os serviços do feiticeiro Don Leon (voz de Luiz Carlos de Moraes) e acaba sendo transformado na fantasia que veste. Como se não bastasse o incômodo, ele vira alvo da policial Janine (voz de Dira Paes), por suposto roubo e sequestro. Agora, pra tentar desfazer o feitiço, Lino e Leon terão de correr pra reunir três ingredientes inusitados, pois o tempo é curto (pra eles, porque, pro espectador, parece uma eternidade!).


Lino - Uma Aventura de Sete Vidas (Brasil, 2017) é daquelas produções que você torce para que dê tudo certo, que seja divertida, que te deixe orgulhoso do cinema de animação brasileiro. Porém, a história vai se esticando enfadonha e você não vê hora daquela chatice, daquele arremedo gringo terminar. É inacreditável que um argumento tão bacaninha (um animador de festas transformado na própria fantasia) tenha resultado num roteiro tão bobo, tão tosco e tão estadunidense. Parece até encomenda-teste de algum estúdio norte-americano acostumado com a mão de obra sul-coreana querendo ver como se saem os brasileños...


Há pouco, quase nada de Brasil na história, cuja referência mais gritante é a animação Monstros S.A (Pixar, 2001), onde uma menininha (Boo) se relaciona carinhosamente com um monstro azul e roxo (Sullivan). Ou será mera “coincidência” que uma menina órfã caia de amores pelo grande e mal-humorado gato vermelho e amarelo e acabe criando muita “confusão”?  Em cena, pra qualquer canto que se olhe, não se vê uma cidade brasileira com a ginga, a malandragem, o jeito de ser da nossa gente..., mas uma american (way of life) city com a maioria dos dizeres em inglês: Start News, Gasoline, One Way, Police, Ice Cream. A hollywoodiana perseguição automobilística (com as indefectíveis batidas!), dupla de policiais idiotas vestindo farda azul, café, piadas imbecis e a fixação por bunda, peido e cocô, não deixam dúvida quanto a matriz, o matiz e o mercado (do) alvo.


O enredo preguiçoso e incoerente, apressado nas soluções fáceis, deve “enredar” crianças pouco exigentes de seis a nove anos. Aos adultos acompanhantes recomenda-se deixar o “Tico” e o “Teco” em casa assistindo tv, para evitar o ronco em trio. Tecnicamente é razoável (não tenho a referência da versão em 3D)..., ainda que falte apuro em um ou outro recorte de personagens e na sobreposição (sem volume, profundidade e sombra) deles em algumas sequências. O desenho dos cenários é bem superior ao traço (sem originalidade) dos personagens que, por não terem nenhum carisma, parecem bem mais feios do que são realmente. A dublagem (pra variar) é equivocada..., tem momento em que não se entende os “diálogos”, o que, pelo todo, não deixa de ser uma benção. Da “trilha sonora” nem vou comentar! Enfim..., uma animação bonitinha, mas sem graça.


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Crítica: Os Guardiões

Os Guardiões
por Joba Tridente

Super-Herói é coisa séria, mas só de brincadeira. Ou quase..., já que alguns foram criados com “más” intenções lá pras bandas da Terra do Tio Sam, onde a maioria vive dividida em dois territórios, Marvel e DC, e em constante pé de guerra. No entanto, o que não querem que você, um aficionado por hqs, saiba é que uma minoria de super-heróis, praticamente desconhecida do grande público leitor, vive espalhada pela Europa, Ásia, América Latina, onde foi criada, e nem sempre suas hqs conseguem cruzar as fronteiras. Cada país tem a sua “liga” de justiceiros, mas dificilmente vão fazer frente ao imperialismo da matriz norte-americana.

Teoria da Conspiração, é? Ora, um balãozinho de repetidos “K” pra você. Teoria da Conspiração! Então me explica como é que até alguns meses atrás, pessoa alguma, fora (ou dentro!) do império russo, jamais tinha ouvido falar da secretíssima equipe Os Guardiões, forjada na quentura da Guerra Fria e, como ficou meio tostada, foi deixada de lado e agora, devidamente customizada, está chegando para enviar os vilões para o lixão? Explica!

As ironias (chistes) acima são apenas para você saber que, se for assistir ao aguardadíssimo Os Guardiões, e decidir vestir um traje DC, social e sisudo, em vez de um traje Marvel, esportivo e divertido, vai quebrar a cara, porque este é um daqueles filmes de ação que (involuntariamente?) nascem com predisposição para o trash. A começar pela cópia, com a estranha dublagem (sem sincronia e fora do tom) e duvidosa tradução norte-americanas. Mas, se é o que temos, manda pra escanteio e dá-lhe pau, que a diversão na montanha russa dos genéricos vai começar!


Os Guardiões (Zashchitniki, 2017), dirigido pelo esforçado e bem intencionado russo-armênio Sarik Andreasyan, baseado no roteiro pra lá de trivial de Andrey Gavrilov, na atual conjuntura narrativa e digital estadunidenses, é daqueles filmes que você ama de paixão e ou odeia com razão. Depende do seu humor e vivência com o nicho trash no cinema e nas hqs. Pelo mundo afora, raros foram os críticos que descobriram, logo no primeiro ato, que não levar a sério um filme de super-herói russo que se leva a sério seria muito mais divertido do que o contrário. Muito menos estressante. Portanto, fique atento, você pode chorar de rir (que é o melhor a se fazer) ou chorar de raiva (perda de tempo que não vai trazer o valor do ingresso de volta).

Então, chega de blá! blá! blá! e vamos logo pro ká! ká! ká! Conta-se que em plena Guerra Fria (EUA x URSS - 1947-1991), o cientista russo Avgust Kuratov (Stanislav Shirin), à frente do programa de segurança nacional Patriot, fazendo uso da manipulação genética em voluntários (?) de algumas das nações que formavam a União Soviética, criou uma geração de mutantes com superpoderes. Com o passar do tempo, sem qualquer ação prática (já que cada um dos impérios ficou se coçando no seu lado), o projeto foi encerrado e as aberrações humanas foram “dispensadas” do serviço (que nunca prestaram).


Nos dias de hoje, o desiquilibrado Avgust, vítima maligna do próprio experimento, reapareceu para se vingar da Mãe Rússia, se apossando do país. Com as forças armadas desfalcadas, a única saída é convocar os autoexilados mutantes do bem para combater o mutante do mal..., desde que se saiba onde encontrá-los, na desunião soviética. É hora da Major Elena Larina (Valeriya Shkirando) e seu um dedicado grupo de internautas mostrarem serviço: Lernik (Sebestien Sisak), capaz de controlar pedras para usar como armas e ou exoesqueleto, medita na Armênia; Khan (Sanzhar Madiyev), com sua velocidade extrema e cimitarras afiadas, presta serviços no Cazaquistão; Ursus (Anton Pampushnyy), que se transforma parcial ou totalmente em urso,  se esconde na Sibéria; Xenia (Alina Lanina), que domina a água e a invisibilidade, trabalha num circo em Moscou. Ah, esses criadores russos e suas analogias.


Se você não quiser estragar a diversão, não queira saber muito mais das habilidades e das ações (em grupo ou individualmente) destes super-heróis que só farão jus à identidade de Guardiões quando trabalharem juntos e (desnecessariamente) uniformizados pela primeira vez. Graficamente, as imagens de Khan e suas cimitarras é o que melhor se enquadra na telona, mas o mais divertido e o meu favorito é o Ursus, principalmente quando totalmente transformado (e equipado!!!). Animal!

Se você for quadrinhófilo, com toda certeza, vai ficar o tempo todo questionando: - Mas este super-herói não lembra aquele super-herói norte-americano do território alegre e ou do território triste? Claro que lembra! Assim como os heróis de uma editora lembram o de outra! E mais, você verá a releitura constrangedora de uma das cenas mais icônicas do Universo DC, que já foi até capa de hq e está presente no pior filme do Batman de todos os tempos, o abominável Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge (2012)..., e se não rir, ao menos vai dizer: Uau! Até tu, Avgust?!


Quanto aos furos, não são muitos maiores e nem muito menores do que os que pululam nos filmes da Marvel e ou da DC. Já quantos aos efeitos especiais..., bem, verdade não seja escondida atrás da Cortina de Ferro, as explosões e os ataques terroristas em Moscou e arredores, não são exatamente espetaculares e tem outros detalhes curiosamente pontuados, na capital russa, que é melhor você descobrir (ou se espantar) por conta própria. Nada de spoiler aqui! Nesse mundo de entretenimento ninguém é perfeito! E no outro?

Enfim, o quê esperar de um filme cujo título Os Guardiões aparece duas vezes na telona? Ou que os atores atuam como se estivessem num drama teatral? O humor involuntário e trash de tudo (enredo, efeitos especiais, diálogos) vem exatamente dessa seriedade russa querendo drama num script genérico que pende (o tempo todo) para uma graciosa (e não assumida!!!) paródia ao heroico imperialismo norte-americano. Quem abarcar, log0 de primeira, esse vento norte que sopra contemporaneidades da Eurásia vai dar boas risadas e se lembrar também dos mockbusters da The Asylum. É capaz até de se emocionar com o discurso clichê de um dos super-heróis: “Os pais não deveriam enterrar os seus filhos!”. Ou com o lamento do vilão: "Vocês não podem me destruir. Eu criei vocês!". Ó dor!


Os Guardiões foi lançado pensando em rendosa franquia mundial. Material pra isso os realizadores tinham, ao criar (do “nada”) personagens interessantes e “originais”, típicos de histórias em quadrinhos estadunidenses (num país sem tradição de hq), para exploração cinematográfica e de bonecos de ação (além de outros derivados). Porém, vacilos no roteiro, direção, efeitos especiais precários, indefinição de público (?) e mercado podem ter colocado tudo a perder. Uma vez que o retorno da crítica e dos espectadores ficou aquém do esperado, não se tem certeza se a parceria com os produtores chineses, para a parte dois (sugerida no pós-créditos), realmente será concluída. Caso aconteça, acredito que muitos dos problemas técnicos e equívocos serão superados.

Assim, se tiver interesse em conhecer este quarteto típico (onde um dos heróis tem a força e a fúria do animal símbolo da Rússia: Ursus), tente esquecer o padrão (matriz) norte-americano do gênero e embarque numa aventura que, embora genérica, tem alguns bons momentos de ação (violenta ou moderada) e muito humor involuntário até na telenotícia final (se é que ela não é uma armação dos tradutores americanos). Não sei ate onde vai a liberdade de expressão na atual ditadura russa, mas se Andreasyan tivesse um jogo de cintura melhor, um roteirista  mais devorador de hqs (para entender profundamente a psicologia dos vilões e dos mocinhos) e um elenco mais espontâneo, arrebentava a boca do balão.


Em 2004, quando lançou o seu inesperado blockbuster russo Guardiões da Noite, ganhando fama internacional, Timur Bekmambetov falou da dificuldade em convencer atores e atrizes a participarem do seu filme. O elenco também falava do desconforto em atuar em uma obra fora dos padrões locais. Tive esta mesma sensação assistindo ao Os Guardiões..., um filme que parece se desenvolver pisando em ovos russos e em ovos americanos. Quais quebrarão primeiro? Por mim, já teria feito uma boa omelete!!!

Nota: Após as ironias sobre super-heróis russos, nos primeiros parágrafos, pesquisando sobre histórias em quadrinhos na Rússia, descobri estas curiosidades: Quadrinhos Russos e Festival de HQ Russa. No site Formiga Elétrica além de material sobre a hq russa Major Grom encontrei o link do ótimo curta-metragem (28 min) homônimo, no melhor estilo/humor Marvel, para apresentar o personagem Major Grom. Ansioso para assistir a versão em longa-metragem do herói!


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

sábado, 26 de agosto de 2017

Crítica: Como Nosso Pais

Como Nossos Pais
por Joba Tridente

Família é um dos temas mais populares, em todos os gêneros, no cinema internacional. Vira e mexe ele também costumar dar as caras e ou as cartas por aqui, depende da direção do vento ou dos fatos midiáticos.

Como Nossos Pais (2017), dirigido por Laís Bodanzky, que escreveu o roteiro em parceria com Luiz Bolognesi, é um drama, praticamente sem alívio cômico, que dá voltas no cotidiano de Rosa (Maria Ribeiro)..., uma mulher estressada com a sobrecarga dos afazeres domésticos e profissionais. Mãe de duas meninas e vivendo uma velada crise conjugal com o marido e pai ausente Dado (Bernardo Vilhena), um antropólogo e ativista ambiental, ela está à beira de um ataque de nervos. Quando parece ter chegado ao fundo poço, num tenso encontro de família a sua mãe Clarice (Clarisse Abujamra) faz uma revelação que lhe tira o chão de vez. Com tantos problemas se acumulando no seu lar conturbado lar, essa bombástica revelação, aparentemente despropositada, será a gota d’água para Rosa rever (seus) conceitos de família..., se quiser encontrar paz de espírito e um lugar no planeta. Como deve ter encontrado Mano (Francisco Miguez), personagem do filme anterior de Laís: As Melhores Coisas do Mundo.


Como Nossos Pais é um filme que atira pra tudo quanto é lado: crise conjugal, familiar, profissional, sexual, política,..., para falar de uma mulher (contraditória) em busca de identidade e realização pessoal. Mas os petardos (alguns gratuitos e sem relevância com o contexto) nem sempre acertam o alvo. E os que acertam trazem um odor um tanto azedo e vicioso que, na “subtrama”, desdenha do papel do homem no casamento de hoje. Seria irônico, não fosse radical. Em qualquer manifestação artística, sempre me pareceu mais fácil um alvo ser atingido com humor (negro) do que com rancor (negro).

O enredo irregular tem muito mais apelo ao público feminino, com pertinentes reclamações à dupla jornada de trabalho da mulher, do que ao público masculino, já que, na visão de Rosa, o homem é menos que nada e ou culpado de todas as mazelas. Na generalização do seu amargurado discurso feminista, diferente da supermulher, que hoje gerencia a família (filhos, casa, trabalho, finanças) os homens são supervilões, velhacos que não merecem crédito algum. Não é à toa que todos os personagens masculinos (ao seu redor) são imprestáveis: o aborrecido irmão Cacau (Cazé Peçanha), o folgado marido Dado (Vilhena) o amante ordinário Pedro (Felipe Rocha), o hipócrita flerte da mãe (Herson Capri) e até mesmo o seu aéreo pai Homero (Jorge Mautner).


Enfim, Como Nossos Pais, tem elenco coeso, com destaque para Maria Ribeiro, Clarisse Abujamra e Jorge Mautner com sua poética filosofia e deliciosas canções. A narrativa tradicional e com boa direção reserva ao menos uma bela sequência (Abujamra ao piano), na justificativa do título que vem da música homônima de Belchior, mas que também (ou mais) poderia ser O Tempo Não Para, do Cazuza. A história, embora redundante na alegoria feminista, tem bons momentos nas cenas conflituosas entre Rosa (egocentrada em suas frustrações) e Clarice (egocentrada em sua felicidade), duas mulheres amarguradas aprendendo juntas a desatar os nós das amarras sociais..., mas perde uma grande oportunidade de “brincar” com o machismo. Com boa dose de maniqueísmo e de (risíveis) estereótipos masculinos, num roteiro que claudica, derrapa, mas segue em frente, Como Nossos Pais, é um filme na média. Abacate com açúcar e limão para o matriarcado vigente.


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

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