sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Crítica: Mãe!


Mãe!
por Joba Tridente*

Filme vai e filme vem e lá está novamente o visionário diretor, roteirista e ambientalista Darren Aronofsky dividindo opiniões da crítica e do público com seu thriller psicológico Mãe! (Mother, 2017)..., um filme incômodo e que (só?) ganha sentido quando vira pauta de discussão e todas as suas metáforas são decifradas. Alegorias é o que não falta a esta trama hipnotizante que trata de ambientalismo, amor, devoção, submissão, desesperança, mitologia judaico-cristã, história, misticismo e o que mais a sua leitura desejar, com intensidade e provocação pouco vistas nos cinemas.


A história começa com uma arrepiante abertura evocando o despertar da Mãe (Jennifer Lawrence, magnífica), esposa do criador Ele (Javier Bardem). O casal vive isolado numa agradável casa em meio à natureza exuberante. Enquanto Mãe restaura amorosamente o lar doce lar, Ele busca um motivo substantivo para criar mais um grande poema. Certa noite o estranho Homem (Ed Harris) bate à porta, pedindo pouso. Na manhã seguinte a provocativa Mulher (Michele Pfeiffer) se junta a ele e, na sequência, os filhos (Domhnall Gleeson e Brian Gleeson)..., transtornado a tranquilidade naquele Éden. Este é só o princípio da ebulição que virá com outros buliçosos “convidados” noturnos.

Escrito por Aronosfsky, o roteiro de Mãe! (que guarda referências conceituais de Roman Polanski: O Bebê de RosemaryPeter Greenaway: O Bebê Santo de Mâcon, Terrence Malick: A Árvore da Vida e Lars von Triers: O Anticristo) não é do tipo que se conecta facilmente com o grande público acostumado com as narrativas banais dos filmes de suspense. Sabiamente (!) sem trilha sonora para direcionar o “medo” latente do espectador, o enredo, que traça um paralelo no modo em que o os homens tratam as mulheres e os humanos tratam o planeta, não alivia pra ninguém. É cruel em todos os sentidos. Aliás, este paralelismo entre Homem/Mulher e Homem/Terra, abordado (ou mixado) com competência por Aronofsky, já foi discutido anteriormente pela filósofa e ecofeminista Susan Griffin, em seu livro Woman and nature, de 1978.


Mãe!, que se desenvolve a partir do ponto de vista de Mãe (Lawrence), conduzido pelas esmagadoras imagens de Matthew Libatique, traz cenas fortes e algumas (de violência extrema) bem repugnantes. Faz duras críticas ao machismo, ao egocentrismo e narcisismo. Não deixa hóstia sobre hóstia ao escancarar a fé cega cristã, a devoção sem limites e a hipocrisia dos seus ritos levados ao pé da letra. Apavora ao desnudar as celebridades e seus cultuadores de aparências em sequências de humor negro que seriam cômicas não fossem tragicamente possíveis. Pode não ser um drama convencional de terror, mas algumas cenas, de tão indigestas, podem fazer um(a) espectador(a) mais sensível e ou suscetível deixar a sala.


A princípio, a sessão de 121 minutos me pareceu cansativa e me deixou sem opinião formada. No entanto, ao analisar as idiossincrasias de Aronofsky e me lembrar do vertiginoso último ato, as considerações radicais (?) do roteirista ficaram mais claras (até demais) e me dei conta de que Mãe! está muito além de um apressado simples achismo (gostei! não gostei!) desde o seu belíssimo cartaz, cujo real significado (da amorosa Mãe doando-se toda) só enxerguei após refletir sobre a complexidade e a pertinência do espinhoso script. O que me fez concluir que, após o fascinante Cisne Negro (2010) e o esquecível Noé (2014), o diretor de excelência Darren Aronofsky acertou novamente. Com seu irretocável elenco (Jennifer Laurence está tão fascinante quanto em Winter's Bone/Inverno da Alma, 2010), Mãe! pode não ter o reconhecimento merecido agora, mas provavelmente será considerado cult no futuro.


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

sábado, 2 de setembro de 2017

Crítica: Lino - Uma Aventura de Sete Vidas

Lino - Uma Aventura de Sete Vidas
por Joba Tridente

Uma das minhas grandes paixões no cinema é o desenho animado, também conhecido como animação. Todo ano chegam (de outros países) obras maravilhosas como Kubo e As Cordas Mágicas e A Tartaruga Vermelha..., só pra ficar em duas mais recentes. Por aqui já desembarcaram excelentes produções Argentinas, Mexicanas, Francesas, Canadenses, Inglesas, Alemãs, Japonesas... Os EUA ainda dão muitas cartas e continuam referência técnica e de conteúdo, inclusive, nas animações europeias, mas já com menos vícios.

Desde 1951, com Sinfonia Amazônica, de Anélio Lattini Filho, os artistas brasileiros (na garra e na coragem) vêm trabalhando duro para conquistar um pedaço do saboroso bolo animado que há um bom tempo se espalhou por todo o mundo: Piconzé (Ippe “Ypê” Nakashima, 1973); Boi Aruá (Chico Liberato, 1984); Rocky e Hudson (Otto Guerra, 1994; O Grilo Feliz (Walbercy Ribas 2001); Wood & Stock: Sexo, Orégano e Rock’n’Roll (Otto Guerra, 2006); Uma História de Amor e Fúria (Luiz Bolognesi, 2013); O Menino e O Mundo (Alê Abreu, 2013); Até que a Sbórnia Nos Separe (Otto Guerra e Ennio Torresan, 2013); Guida (Rosana Urbes, 2015).


No dia sete de setembro de 2017, quando se comemora o “Dia da Independência”, no Brasil, estreia nos cinemas a animação Lino - Uma Aventura de Sete Vidas, produzido pela StartAnima (Cassiopéia e O Grilo Feliz), com direção de Rafael Ribas. O filme com muita ação e alguma aventura acompanha as agruras de Lino (voz de Selton Mello), um sujeito tão azarado que, por não ter aptidão profissional alguma, cria uma horrorosa fantasia de gato (vermelho e amarelo) para “animar” festas infantis. Um desastre anunciado! Decidido a dar um novo rumo à sua vida, ele procura os serviços do feiticeiro Don Leon (voz de Luiz Carlos de Moraes) e acaba sendo transformado na fantasia que veste. Como se não bastasse o incômodo, ele vira alvo da policial Janine (voz de Dira Paes), por suposto roubo e sequestro. Agora, pra tentar desfazer o feitiço, Lino e Leon terão de correr pra reunir três ingredientes inusitados, pois o tempo é curto (pra eles, porque, pro espectador, parece uma eternidade!).


Lino - Uma Aventura de Sete Vidas (Brasil, 2017) é daquelas produções que você torce para que dê tudo certo, que seja divertida, que te deixe orgulhoso do cinema de animação brasileiro. Porém, a história vai se esticando enfadonha e você não vê hora daquela chatice, daquele arremedo gringo terminar. É inacreditável que um argumento tão bacaninha (um animador de festas transformado na própria fantasia) tenha resultado num roteiro tão bobo, tão tosco e tão estadunidense. Parece até encomenda-teste de algum estúdio norte-americano acostumado com a mão de obra sul-coreana querendo ver como se saem os brasileños...


Há pouco, quase nada de Brasil na história, cuja referência mais gritante é a animação Monstros S.A (Pixar, 2001), onde uma menininha (Boo) se relaciona carinhosamente com um monstro azul e roxo (Sullivan). Ou será mera “coincidência” que uma menina órfã caia de amores pelo grande e mal-humorado gato vermelho e amarelo e acabe criando muita “confusão”?  Em cena, pra qualquer canto que se olhe, não se vê uma cidade brasileira com a ginga, a malandragem, o jeito de ser da nossa gente..., mas uma american (way of life) city com a maioria dos dizeres em inglês: Start News, Gasoline, One Way, Police, Ice Cream. A hollywoodiana perseguição automobilística (com as indefectíveis batidas!), dupla de policiais idiotas vestindo farda azul, café, piadas imbecis e a fixação por bunda, peido e cocô, não deixam dúvida quanto a matriz, o matiz e o mercado (do) alvo.


O enredo preguiçoso e incoerente, apressado nas soluções fáceis, deve “enredar” crianças pouco exigentes de seis a nove anos. Aos adultos acompanhantes recomenda-se deixar o “Tico” e o “Teco” em casa assistindo tv, para evitar o ronco em trio. Tecnicamente é razoável (não tenho a referência da versão em 3D)..., ainda que falte apuro em um ou outro recorte de personagens e na sobreposição (sem volume, profundidade e sombra) deles em algumas sequências. O desenho dos cenários é bem superior ao traço (sem originalidade) dos personagens que, por não terem nenhum carisma, parecem bem mais feios do que são realmente. A dublagem (pra variar) é equivocada..., tem momento em que não se entende os “diálogos”, o que, pelo todo, não deixa de ser uma benção. Da “trilha sonora” nem vou comentar! Enfim..., uma animação bonitinha, mas sem graça.


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Crítica: Os Guardiões

Os Guardiões
por Joba Tridente

Super-Herói é coisa séria, mas só de brincadeira. Ou quase..., já que alguns foram criados com “más” intenções lá pras bandas da Terra do Tio Sam, onde a maioria vive dividida em dois territórios, Marvel e DC, e em constante pé de guerra. No entanto, o que não querem que você, um aficionado por hqs, saiba é que uma minoria de super-heróis, praticamente desconhecida do grande público leitor, vive espalhada pela Europa, Ásia, América Latina, onde foi criada, e nem sempre suas hqs conseguem cruzar as fronteiras. Cada país tem a sua “liga” de justiceiros, mas dificilmente vão fazer frente ao imperialismo da matriz norte-americana.

Teoria da Conspiração, é? Ora, um balãozinho de repetidos “K” pra você. Teoria da Conspiração! Então me explica como é que até alguns meses atrás, pessoa alguma, fora (ou dentro!) do império russo, jamais tinha ouvido falar da secretíssima equipe Os Guardiões, forjada na quentura da Guerra Fria e, como ficou meio tostada, foi deixada de lado e agora, devidamente customizada, está chegando para enviar os vilões para o lixão? Explica!

As ironias (chistes) acima são apenas para você saber que, se for assistir ao aguardadíssimo Os Guardiões, e decidir vestir um traje DC, social e sisudo, em vez de um traje Marvel, esportivo e divertido, vai quebrar a cara, porque este é um daqueles filmes de ação que (involuntariamente?) nascem com predisposição para o trash. A começar pela cópia, com a estranha dublagem (sem sincronia e fora do tom) e duvidosa tradução norte-americanas. Mas, se é o que temos, manda pra escanteio e dá-lhe pau, que a diversão na montanha russa dos genéricos vai começar!


Os Guardiões (Zashchitniki, 2017), dirigido pelo esforçado e bem intencionado russo-armênio Sarik Andreasyan, baseado no roteiro pra lá de trivial de Andrey Gavrilov, na atual conjuntura narrativa e digital estadunidenses, é daqueles filmes que você ama de paixão e ou odeia com razão. Depende do seu humor e vivência com o nicho trash no cinema e nas hqs. Pelo mundo afora, raros foram os críticos que descobriram, logo no primeiro ato, que não levar a sério um filme de super-herói russo que se leva a sério seria muito mais divertido do que o contrário. Muito menos estressante. Portanto, fique atento, você pode chorar de rir (que é o melhor a se fazer) ou chorar de raiva (perda de tempo que não vai trazer o valor do ingresso de volta).

Então, chega de blá! blá! blá! e vamos logo pro ká! ká! ká! Conta-se que em plena Guerra Fria (EUA x URSS - 1947-1991), o cientista russo Avgust Kuratov (Stanislav Shirin), à frente do programa de segurança nacional Patriot, fazendo uso da manipulação genética em voluntários (?) de algumas das nações que formavam a União Soviética, criou uma geração de mutantes com superpoderes. Com o passar do tempo, sem qualquer ação prática (já que cada um dos impérios ficou se coçando no seu lado), o projeto foi encerrado e as aberrações humanas foram “dispensadas” do serviço (que nunca prestaram).


Nos dias de hoje, o desiquilibrado Avgust, vítima maligna do próprio experimento, reapareceu para se vingar da Mãe Rússia, se apossando do país. Com as forças armadas desfalcadas, a única saída é convocar os autoexilados mutantes do bem para combater o mutante do mal..., desde que se saiba onde encontrá-los, na desunião soviética. É hora da Major Elena Larina (Valeriya Shkirando) e seu um dedicado grupo de internautas mostrarem serviço: Lernik (Sebestien Sisak), capaz de controlar pedras para usar como armas e ou exoesqueleto, medita na Armênia; Khan (Sanzhar Madiyev), com sua velocidade extrema e cimitarras afiadas, presta serviços no Cazaquistão; Ursus (Anton Pampushnyy), que se transforma parcial ou totalmente em urso,  se esconde na Sibéria; Xenia (Alina Lanina), que domina a água e a invisibilidade, trabalha num circo em Moscou. Ah, esses criadores russos e suas analogias.


Se você não quiser estragar a diversão, não queira saber muito mais das habilidades e das ações (em grupo ou individualmente) destes super-heróis que só farão jus à identidade de Guardiões quando trabalharem juntos e (desnecessariamente) uniformizados pela primeira vez. Graficamente, as imagens de Khan e suas cimitarras é o que melhor se enquadra na telona, mas o mais divertido e o meu favorito é o Ursus, principalmente quando totalmente transformado (e equipado!!!). Animal!

Se você for quadrinhófilo, com toda certeza, vai ficar o tempo todo questionando: - Mas este super-herói não lembra aquele super-herói norte-americano do território alegre e ou do território triste? Claro que lembra! Assim como os heróis de uma editora lembram o de outra! E mais, você verá a releitura constrangedora de uma das cenas mais icônicas do Universo DC, que já foi até capa de hq e está presente no pior filme do Batman de todos os tempos, o abominável Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge (2012)..., e se não rir, ao menos vai dizer: Uau! Até tu, Avgust?!


Quanto aos furos, não são muitos maiores e nem muito menores do que os que pululam nos filmes da Marvel e ou da DC. Já quantos aos efeitos especiais..., bem, verdade não seja escondida atrás da Cortina de Ferro, as explosões e os ataques terroristas em Moscou e arredores, não são exatamente espetaculares e tem outros detalhes curiosamente pontuados, na capital russa, que é melhor você descobrir (ou se espantar) por conta própria. Nada de spoiler aqui! Nesse mundo de entretenimento ninguém é perfeito! E no outro?

Enfim, o quê esperar de um filme cujo título Os Guardiões aparece duas vezes na telona? Ou que os atores atuam como se estivessem num drama teatral? O humor involuntário e trash de tudo (enredo, efeitos especiais, diálogos) vem exatamente dessa seriedade russa querendo drama num script genérico que pende (o tempo todo) para uma graciosa (e não assumida!!!) paródia ao heroico imperialismo norte-americano. Quem abarcar, log0 de primeira, esse vento norte que sopra contemporaneidades da Eurásia vai dar boas risadas e se lembrar também dos mockbusters da The Asylum. É capaz até de se emocionar com o discurso clichê de um dos super-heróis: “Os pais não deveriam enterrar os seus filhos!”. Ou com o lamento do vilão: "Vocês não podem me destruir. Eu criei vocês!". Ó dor!


Os Guardiões foi lançado pensando em rendosa franquia mundial. Material pra isso os realizadores tinham, ao criar (do “nada”) personagens interessantes e “originais”, típicos de histórias em quadrinhos estadunidenses (num país sem tradição de hq), para exploração cinematográfica e de bonecos de ação (além de outros derivados). Porém, vacilos no roteiro, direção, efeitos especiais precários, indefinição de público (?) e mercado podem ter colocado tudo a perder. Uma vez que o retorno da crítica e dos espectadores ficou aquém do esperado, não se tem certeza se a parceria com os produtores chineses, para a parte dois (sugerida no pós-créditos), realmente será concluída. Caso aconteça, acredito que muitos dos problemas técnicos e equívocos serão superados.

Assim, se tiver interesse em conhecer este quarteto típico (onde um dos heróis tem a força e a fúria do animal símbolo da Rússia: Ursus), tente esquecer o padrão (matriz) norte-americano do gênero e embarque numa aventura que, embora genérica, tem alguns bons momentos de ação (violenta ou moderada) e muito humor involuntário até na telenotícia final (se é que ela não é uma armação dos tradutores americanos). Não sei ate onde vai a liberdade de expressão na atual ditadura russa, mas se Andreasyan tivesse um jogo de cintura melhor, um roteirista  mais devorador de hqs (para entender profundamente a psicologia dos vilões e dos mocinhos) e um elenco mais espontâneo, arrebentava a boca do balão.


Em 2004, quando lançou o seu inesperado blockbuster russo Guardiões da Noite, ganhando fama internacional, Timur Bekmambetov falou da dificuldade em convencer atores e atrizes a participarem do seu filme. O elenco também falava do desconforto em atuar em uma obra fora dos padrões locais. Tive esta mesma sensação assistindo ao Os Guardiões..., um filme que parece se desenvolver pisando em ovos russos e em ovos americanos. Quais quebrarão primeiro? Por mim, já teria feito uma boa omelete!!!

Nota: Após as ironias sobre super-heróis russos, nos primeiros parágrafos, pesquisando sobre histórias em quadrinhos na Rússia, descobri estas curiosidades: Quadrinhos Russos e Festival de HQ Russa. No site Formiga Elétrica além de material sobre a hq russa Major Grom encontrei o link do ótimo curta-metragem (28 min) homônimo, no melhor estilo/humor Marvel, para apresentar o personagem Major Grom. Ansioso para assistir a versão em longa-metragem do herói!


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

sábado, 26 de agosto de 2017

Crítica: Como Nosso Pais

Como Nossos Pais
por Joba Tridente

Família é um dos temas mais populares, em todos os gêneros, no cinema internacional. Vira e mexe ele também costumar dar as caras e ou as cartas por aqui, depende da direção do vento ou dos fatos midiáticos.

Como Nossos Pais (2017), dirigido por Laís Bodanzky, que escreveu o roteiro em parceria com Luiz Bolognesi, é um drama, praticamente sem alívio cômico, que dá voltas no cotidiano de Rosa (Maria Ribeiro)..., uma mulher estressada com a sobrecarga dos afazeres domésticos e profissionais. Mãe de duas meninas e vivendo uma velada crise conjugal com o marido e pai ausente Dado (Bernardo Vilhena), um antropólogo e ativista ambiental, ela está à beira de um ataque de nervos. Quando parece ter chegado ao fundo poço, num tenso encontro de família a sua mãe Clarice (Clarisse Abujamra) faz uma revelação que lhe tira o chão de vez. Com tantos problemas se acumulando no seu lar conturbado lar, essa bombástica revelação, aparentemente despropositada, será a gota d’água para Rosa rever (seus) conceitos de família..., se quiser encontrar paz de espírito e um lugar no planeta. Como deve ter encontrado Mano (Francisco Miguez), personagem do filme anterior de Laís: As Melhores Coisas do Mundo.


Como Nossos Pais é um filme que atira pra tudo quanto é lado: crise conjugal, familiar, profissional, sexual, política,..., para falar de uma mulher (contraditória) em busca de identidade e realização pessoal. Mas os petardos (alguns gratuitos e sem relevância com o contexto) nem sempre acertam o alvo. E os que acertam trazem um odor um tanto azedo e vicioso que, na “subtrama”, desdenha do papel do homem no casamento de hoje. Seria irônico, não fosse radical. Em qualquer manifestação artística, sempre me pareceu mais fácil um alvo ser atingido com humor (negro) do que com rancor (negro).

O enredo irregular tem muito mais apelo ao público feminino, com pertinentes reclamações à dupla jornada de trabalho da mulher, do que ao público masculino, já que, na visão de Rosa, o homem é menos que nada e ou culpado de todas as mazelas. Na generalização do seu amargurado discurso feminista, diferente da supermulher, que hoje gerencia a família (filhos, casa, trabalho, finanças) os homens são supervilões, velhacos que não merecem crédito algum. Não é à toa que todos os personagens masculinos (ao seu redor) são imprestáveis: o aborrecido irmão Cacau (Cazé Peçanha), o folgado marido Dado (Vilhena) o amante ordinário Pedro (Felipe Rocha), o hipócrita flerte da mãe (Herson Capri) e até mesmo o seu aéreo pai Homero (Jorge Mautner).


Enfim, Como Nossos Pais, tem elenco coeso, com destaque para Maria Ribeiro, Clarisse Abujamra e Jorge Mautner com sua poética filosofia e deliciosas canções. A narrativa tradicional e com boa direção reserva ao menos uma bela sequência (Abujamra ao piano), na justificativa do título que vem da música homônima de Belchior, mas que também (ou mais) poderia ser O Tempo Não Para, do Cazuza. A história, embora redundante na alegoria feminista, tem bons momentos nas cenas conflituosas entre Rosa (egocentrada em suas frustrações) e Clarice (egocentrada em sua felicidade), duas mulheres amarguradas aprendendo juntas a desatar os nós das amarras sociais..., mas perde uma grande oportunidade de “brincar” com o machismo. Com boa dose de maniqueísmo e de (risíveis) estereótipos masculinos, num roteiro que claudica, derrapa, mas segue em frente, Como Nossos Pais, é um filme na média. Abacate com açúcar e limão para o matriarcado vigente.


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Crítica: A Torre Negra

A Torre Negra
por Joba Tridente

Uma coisa é certa, se as obras do escritor norte-americano Stephen King são sucesso em todo o mundo, as adaptações cinematográficas nem sempre agradam aos fãs e ou mesmo ao autor. Eu nunca li nenhum de seus livros, mas já vi muitas versões no cinema. Enquanto espectador, evidentemente sem condições técnicas de comparar um e outro, gostei da maioria.

Quando me interesso por algum filme (para crítica/cabine ou não) busco o saber o mínimo possível, apenas a informação básica, para não me deixar influenciar por diretor, roteirista, elenco..., nem vejo trailer (cada vez mais com spoiler). Sobre A Torre Negra, que finalmente chega aos cinemas, li a interessante sinopse há alguns anos, quando se cogitava uma adaptação franquiada para cinema e tv. Foi assim, curioso e sem ter lido uma linha sequer da série de (por enquanto) 8 livros (1982-2012) e ou da adaptação para os quadrinhos da Marvel (2006-2017), que fui conhecer a versão do diretor e roteirista dinamarquês Nikolaj Arcel.


A Torre Negra (The Dark Tower, 2017), co-roteirizado por Arcel, Anders Thomas Jensen, Akiva Goldsman e Jeff Pinkner, é um filme fantasia de ação e aventura infantojuvenil programado para iniciar no cinema uma história de ficção científica/western que vai terminar na tv, em forma de série complementar. Bem ao contrário da minissérie IT (1990), sucesso na tv e que ganhou um remake cinematográfico com estreia prevista para o mês de setembro.

A trama de A Torre Negra gira ao redor do adolescente Jake (Tom Taylor), que desenha (muito bem!) os seus frequentes pesadelos sombrios, onde aparecem um Homem de Preto/Walter (Matthew McConaughey), uma Torre Negra e um Pistoleiro/Roland (Idris Elba). Jake busca um significado para as imagens de terror que o perseguem noite a noite, mas todos dizem que é fruto da sua imaginação. O garoto, acreditando numa iminente catástrofe desenhada, decide pesquisar por conta própria e acaba descobrindo um Portal que o leva até a Terra Média (num plano paralelo e de língua inglesa). Neste lugar, uma das paisagens lúgubres dos seus pesadelos e que (pelas reminiscências) pode ser a Terra de pós-apocalipse, ele encontra o Pistoleiro Roland, que trava uma batalha (secular?) com o Mago Walter, ansioso para destruir a Torre Negra (que mantém o equilíbrio do Universo) a fim de implantar o seu Império de Trevas. Não está na hora desses vilões serem mais criativos, não?! Um Pistoleiro movido pela vingança e um Mago movido pela ganância. No meio desse imbróglio, uma misteriosa Torre Negra, contornada por um garoto dotado de poderes psíquicos raros: “o brilho”..., que pode interessar a ambos.


Além da previsibilidade (mesmo desconhecendo a fonte) nas ações e reações, o filme é apressado e sem profundidade em seu enredo rasteiro. Não há tempo para empatia e ou antipatia pelos personagens egocentrados e vivendo apenas o seu presente: Roland e Jake (unindo pistola e mente) para derrotar Walter, que, por sua vez, quer matar o (imune) Pistoleiro e usar o garoto para destruir a enigmática Torre Negra. Nessa lenga-lenga de gato e rato, cabe ao público juntar algumas citações que vão quicando pela trama e encontrar lógica numa história trivial que “relaciona” a Espada Excalibur do Rei Arthur com a Pistola Automática de Roland, mas deixa os seus personagens sem passado.

Saber mais sobre Jake, Roland e Walter, sem a obrigação de ler os oito volumes (por enquanto!), faz muita diferença. No entanto, fragmentada e claudicante, a narrativa é desenvolvida como se todo espectador estivesse familiarizado com esse inusitado universo (paralelo ou futuro?) onde há até um vilarejo multiétnico (analogia à Arca de Noé?). Pelo que tenho lido (dos aficionados da série de Stephen King), muita coisa aconteceu antes e depois dos “eventos do filme” com estes mesmos personagens que (nos livros) são muito mais do que aparentam (na telona). Mas, então o final não é o final? É melhor eu seguir em frente também!


Hoje em dia, com os filmes ultrapassando a duas horas, para contar história de no máximo 1h30, é curioso que um enredo “baseado” em uma série de oito longos romances caiba numa narrativa de 95 minutos. Porém, qualquer que seja o comentário que se faça ao “thriller” juvenil, é bom levar em conta que os próprios realizadores deixaram claro que esta não é uma adaptação fiel à série de livros de King, mas uma mera sequela (tipo prévia?), aproveitando alguns personagens numa história não oficial, que deverá ser aprofundada na série de tv.  Se bem que, pelo que se especula, não há consenso se A Torre Negra, o filme, é sequel e ou prequel de alguma franquia vindoura...

Enfim, diante de uma adaptação que pode soar a pipoca fria sem sal e com muita pururuca ou refri quente, quem espera um thriller de arrepiar os pelinhos da nuca, vai ter de se contentar com o cansativo tiroteio (sem sangue) coreografado do Pistoleiro (o tiro mais interessante, inclusive, com o itinerário da bala certeira, está inteiro no trailer) e duas piadas legais no “ato” final. O trio de atores protagonistas é bom, mas o script é de doer. Os efeitos especiais “econômicos” também não ajudam. Os dois ou três monstrengos, de tão primários, são risíveis. Não assustam. Não convencem! Nem eles sabem o que estão fazendo na Terra Média.


A minha impressão foi a de assistir a mais um mirabolante filme se super-heróis, só que obscuro e de baixo orçamento, com personagens sem personalidade e nenhum carisma, onde o Walter seria uma espécie de Dr. Estranho do mal: “Pare de respirar!” e o Pistoleiro um coadjuvante qualquer do bem, com o seu código de honra: “Eu não miro com a minha mão, miro com o meu olho! Eu não atiro com a minha mão, atiro com a minha mente! Eu não mato com a minha arma, mato com o meu coração!”. Um filme (ou seria apenas um teaser?) que promete muito, mas te entrega praticamente nada. Roda, roda, roda e avisa que vai continuar em outro lugar, qualquer hora dessas.

Porém, toda via da leitura, como seu público alvo é o pouco exigente juvenil, que está nem aí para roteiros rebuscados e não vai precisar incomodar o Tico e o Teco, se descolar os olhos do celular, esse conto simplório (bacaninha em algum momento), com começo, meio e fim, pode até agradar. Já aos adultos e leitores assíduos de King, sei não...



*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

domingo, 20 de agosto de 2017

Crítica: Bingo: O Rei das Manhãs

Bingo: O Rei das Manhãs
por Joba Tridente

O palhaço é um personagem que tanto provoca risos quanto medo em crianças e adultos. A coulrofobia (medo de palhaços), que não escolhe público, é bem mais comum do que a maioria das pessoas imagina e ou admite. A arte do improviso praticada por palhaços, quando compartilhada com a plateia, geralmente apavora porque tira qualquer espectador (medroso ou não) da sua zona (poltrona) de conforto, pois não se sabe quem será escolhido para “saco de pancada” numa situação ridícula. Os mais tímidos (quanto mais inocente mais constrangimento!) entram em pânico, suam frio, só de pensar em ser vítima da imprevisibilidade de um ator de cara pintada e em trajes estranhos e de quem é impossível conhecer as reais intenções. É esse instinto que liga o alerta e faz com que muita gente fique longe de circos, teatros e até mesmo de festinha infantil. Nem mesmo a psicologia tem resposta para este medo antigo.

São muitas as histórias que invocam a presença deste ilustre personagem nas páginas literárias e de hq, nos palcos de teatro e ópera, nas telas de cinema e de tv, em situações nonsense, lúdicas, tragicômicas ou macabras. Raramente se conhece ou se reconhece o ator (ou atriz) por trás da máscara, em ação no palco ou no picadeiro, à vezes tentando cumprir a máxima que diz: mesmo quando quer chorar o palhaço é “obrigado” a fazer a plateia sorrir com palhaçadas ou humilhações.


Esse hahaha! todo é apenas para iniciar as minhas considerações ao filme Bingo: O Rei das Manhãs, de Daniel Rezende, que traz para a telona de cinema a história desveladora do artista Arlindo Barreto, que (fantasiado) foi um fenômeno de popularidade na telinha da tv, nos anos 1980, ao dar corpo e alma ao famoso palhaço Bozo e (por questões contratuais) obrigado a manter-se incógnito. Tudo o que o artista de teatro, cinema e tv mais desejava era ser reconhecido pelo seu trabalho, dar autógrafos, ser cumprimentado na rua, ser orgulho da família e principalmente do filho ("Você é o único pai que brinca com todas as crianças, menos comigo!")... O sonho do ator Arlindo Barreto, que acreditou ter tirado a sorte grande ao ser selecionado para interpretar a versão tupiniquim do palhaço americano criado nos anos 1946, por Alan Livingston (1917-2009), acabou virando pesadelo quando, envolvido com drogas, ele perdeu o controle da sua vida e da sua arte. Arlindo foi o Bozo de 1984 a 1986 e chegou a dividir o palco/picadeiro e o personagem com o cantor Luis Ricardo Monteiro.


A biografia de Arlindo Barreto daria um documentário e tanto, assim como deu o desconcertante e melancólico artigo O Palhaço de Deus, de Raquel Freire Zangrandi para a edição 15 da Revista Piauí (2007), que despertou o interesse de Rezende pelo ilustre personagem. Para quem tem dificuldades com as entrelinhas, nunca é demais lembrar que Bingo: O Rei das Manhãs é “apenas” inspirado na vida de Barreto. Assim, qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas e com fatos relevantes sobre os bastidores da televisão brasileira nos anos de 1980, terá sido mera "coincidência"..., ainda que qualquer espectador antenado detecte Bozo em Bingo/Augusto Mendes (Vladimir Brichta); os canais televisivos Rede Globo na prateada Mundial e SBT na iniciante TVP; a apresentadora Xuxa em Lulu; as atrizes Márcia de Windsor em Marta Mendes (Ana Lúcia Torre) e Angelina Muniz (Tainá Müller) em Angélica; a diretora do programa Bozo, Elisabete Locatelli, em Lúcia (Leandra Leal); o dono da marca Bozo, Larry Harmon, em Peter Olsen (Soren Hellerup); e, no rebolado, Emanuelle Araújo encarnando a única personagem que não precisou trocar de nome: Gretchen


A vida intensa (teatro, filmes pornográficos, tv, evangelização) e polêmica (drogas) de Arlindo Barreto, como pode ser “lida” na internet, é mote para um dramalhão piegas. Porém, em mãos habilidosas de Bolognesi e de Rezende, o que até então era espalhafatoso “virou ficção” lapidada com esmero e muito bem enquadrada, pelo fotógrafo Lula Carvalho, num drama tragicômico que conta os percalços da vida do ator Augusto Mendes (Brichta) em busca de fama e dinheiro.

Mendes, que é separado da atriz Angélica (Muniz), passa por dificuldades financeiras e se divide em cuidados para com o filho Gabriel (Cauã Martins) e a mãe Marta (Torre), vê a sua vida mudar drasticamente ao ser escolhido para o papel de Bingo, um palhaço americano, animador de auditório infantil, que será franqueado no Brasil pelo canal TVP. Toda via do sucesso, no entanto, quando maior a fama (anônima) e a grana, maior o seu afastamento da família, em busca de prazeres fáceis (drogas e mulheres). Porém, como tudo que sobe fácil pode cair com estardalhaço, um dia o destino colateral decide cobrar a conta..., ou o dízimo!


Bingo: O Rei das Manhãs é um filme corajoso e que não se pauta por nenhum exibicionismo visual..., recurso muito usado hoje em dia para encobrir falhas ou falta de roteiro. É intenso, direto e acertadamente amoral. Nota-se que Daniel Rezende ama a história que está contando. Assim como seus protagonistas (Brichta e Leal), acredita no argumento de perdição e ou de redenção dos seus personagens e deixa a narrativa fluir divertida e incômoda, na base do "a vida como ela é" e ou era nos ("perdidos") anos 1980. Não julga e (mestre!) sabe exatamente a hora certa de cortar as cenas para não ser atropelado pela pieguice grudenta do gênero. Pelos deuses da sétima arte, o que é aquela sequência do aniversário de Gabriel?


Daniel Rezende, premiado com o Bafta e indicado ao Oscar, em 2003, pela montagem de Cidade de Deus (2002), desta vez deixou o ofício de montador nas mãos, também experientes, de Marcio Hashimoto (será que teve muito trabalho para editar?) que entrega uma obra nada redundante. Elenco competente, com participação especialíssima do grande Domingos Montagner (1962-2016), na pele do palhaço Aparício, que dá aulas de palhaçada ao Augusto/Bingo; direção de arte admirável na reconstituição de época e curiosidades sonoras da “década perdida” fazem do espetacular (e por vezes ferino) Bingo: O Rei das Manhãs um dos melhores lançamentos cinematográficos do ano. Um filme que emociona e faz a gente pensar no quanto a vida é cheia de “pegadinha”! Uns se dão bem, outros recorrem ao Amém!


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Crítica: Uma Família Feliz


Uma Família Feliz
por Joba Tridente
    
Uma vez que as animações que estreiam por aqui são dubladas em português (até por celebridades), poucos são os espectadores que se dão ao trabalho de saber a origem delas..., possivelmente imaginando que, por conta do título e trilha sonora em inglês, só podem ser made in USA. Outra contribuição ao equívoco é que, diferente das animações asiáticas, principalmente a japonesa, não é fácil para a criançada (público alvo) ou mesmo adulto distinguir alguma originalidade nos traços e conteúdos das produções europeias e latinas que, por questão de mercado, procuram se aproximar cada vez mais da “matriz”. Como, por exemplo, o curioso desenho animado alemão Uma Família Feliz (Happy Family, 2017), baseado no best-seller homônimo do premiado escritor e roteirista David Safier.


O enredo de Uma Família Feliz, dirigido por Holger Tappe, a partir da levíssima adaptação da novela, feita pelo próprio Safier e Catharina Junk, gira ao redor da disfuncional família Wishbones (Wünschmann, no original), formada por Emma, que tem uma livraria dispendiosa, Frank, escriturário que cumpre horas extras, Fay, a filha adolescente rebelde sem causa, e Max, o caçula nerd. Certa de que os Wishbones precisam urgentemente discutir a relação, Emma decide levar a estressada família a uma festa à fantasia. Porém, por conta de um apaixonado e galanteador Drácula, a família dá de cara com a bruxa Baba Yaga e cada um deles é transformado no personagem que veste: Emma em Vampira, Frank em Frankenstein, Fay em Múmia e Max em Lobinho. Daí, na caçada à bruxa, para reverter o feitiço, cada um enfrentará, em situações hilárias, seus próprios demônios: crise de identidade, medo, agressividade, relacionamentos, bullying, assédio, estudo..., no que chamamos de jornada do herói.


A mistura bem humorada de mitos europeus de Contos de Fadas (Baba Yaga) e de Contos Góticos (Vampiros, Lobisomem, Múmias, Frankenstein) dá a Uma Família Feliz ingredientes sólidos para o desenvolvimento de uma paródia repleta de ação e aventura e romance numa trama (terrir) que diverte educando a criançada e alertando os adultos sobre a possessividade nos relacionamentos amorosos e familiares. O que vai fazer muito espectador repensar seus conceitos é a motivação do “vilão” Drácula para o seu grande “ato de vingança” contra a humanidade. É algo até banal, entre homens e mulheres, mas doentio e na medida para sessão de psicanálise.


Com notáveis referências ao seriado americano Os Monstros (1964-1966) - onde Lily, a matriarca, é Vampira, o seu marido Herman é Frankenstein e o filho Eddie é Lobinho - e (inclusive nos traços) aos ótimos Hotel Transilvânia 1 (2012) e Hotel Transilvânia 2 (2015), o roteiro alterna assuntos adultos e infantojuvenis, em linguagem simples e de fácil compreensão para qualquer espectador. Apesar do tema “lúgubre”, Uma Família Feliz é engraçado, as gags são legais, e a edição é muito boa. Por falar em humor, nem todo mundo vai gostar da piada escatológica (ao gosto dos americanos), mas muita gente vai rir de uma cena pastelão inspirada na briga entre um mal-humorado super-herói verde e um egocêntrico vilão espacial, no filme Os Vingadores (2012).


Embora reconhecíveis de outras produções (ou por isso), os velhos personagens que desfilam jovialidade na saga de Uma Família Feliz, podem ser visto como se (atores) estivessem representando um novo texto, numa história contemporânea. Entre as figuras mais interessantes estão a impagável Múmia do Faraó Imhotep (que rouba todas as cenas), as adoráveis Baba Yaga e hippie Cheyenn e o charmoso “vilão” Drácula. Aliás, as sequências das Múmias (Imhotep e Fay) no deserto são antológicas.

A direção de arte é bastante observadora na paleta de cores. Indo na contramão dos coloridíssimos filmes infantis, opta por tons mais naturais e que variam conforme o segmento vivido pelos personagens na cidade, no deserto e ou no fantástico castelo futurista do sedutor Drácula. Afinal, é um filme de monstros disfuncionais e não de graciosos duendes.


Enfim..., ressaltando a ironia do título Uma Família Feliz, já que, na verdade, o que salta aos olhos é o cotidiano de uma família infeliz precisando desesperadamente encontrar a felicidade..., ainda que o seu alvo seja o entretenimento juvenil, esta é uma daquelas animações que podem surpreender o público adulto por causa do conteúdo familiar bem intencionado e, por vezes, ousado subtexto, ao tratar de relações conjugais. O seu estilo pode até não ser dos mais originais (ao apostar nas referências televisivas e cinematográficas), mas apresenta uma excepcional qualidade gráfica e um convincente 3D de profundidade e de avanço sobre a plateia. Um espetáculo com belas metáforas para toda a família refletir sobre seus próprios percalços.

*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

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