sexta-feira, 21 de julho de 2017

Crítica: Em Ritmo de Fuga

Em Ritmo de Fuga
por Joba Tridente*

A ideia para o filme de ação Em Ritmo de Fuga, a mais nova audácia cinematográfica do diretor e roteirista inglês Edgar Wright, teria entrado em ebulição lá nos idos de 1994 e testada, por ele mesmo, no interessante videoclipe Blue Song, da Mint Royale, em 2003. Deu tão certo que a sequência de abertura do filme, praticamente, reproduz os primeiros minutos do vídeo musical.

Na verdade, Em Ritmo de Fuga (Baby Driver, EUA, 2017), de Edgar Wright, pode ser visto como um longo videoclipe híbrido e ou um musical híbrido, já que toda a narrativa (incluindo diálogos) segue o compasso de alguma música (em medley pop, rock, funk, soul, blue) que está sendo ouvida (e raramente comentada ou compartilhada) por Baby (Ansel Elgort), o jovem motorista do CEO do Crime, Doc (Kevin Spacey). Embora pareça não fazer parte da Ordem Criminosa, o monossilábico Baby tem motivos para estar o tempo todo com fones de ouvidos e a serviço de Doc..., que o tem como um talismã da sorte, já que é um motorista excepcional.


O que não quer dizer que, com sua cara de bebê, o rapaz seja unanimidade entre os assaltantes profissionais..., por razões que você vai descobrir quando der de cara com os psicopatas homicidas Griff (Jon Bernthal), Bats (Jamie Foxx) e Buddy (Jon Hamm)..., contratados por Doc, conforme a especialidade do assalto. Baby sabe que, quando se estaciona na garagem do crime, tem que estar preparado para todo tipo de avaria (material, física, moral) no “veículo” próprio e ou alheio. No entanto, toda via de fuga congestionada, enquanto não consegue se desviar desta rotina marginal, ele cuida do velho pai adotivo Joseph (CJ Jones) e busca se envolver com a graciosa garçonete Debora (Lily James), que se lamenta de ter tão poucas músicas com o seu nome e sonha sair estrada afora sem destino e sem olhar para trás...

Com seus curiosos cortes elípticos e sequências dignas (ou típicas) de musicais, enquadramento inusitado e perseguição automobilística bem coreografada, Em Ritmo de Fuga, que deve cair nas graças principalmente do público adolescente, poderia até ser considerado um drama romântico leve, não fosse o crescendo (estilizado e ou explícito) da violência que explode incômoda no ato final. Embora o humor (nonsense) negro busque lapidar a ação pesada (inda que o roteiro insinue novas rotas e os personagens em trânsito tenham um quê caricatural dos personagens da Gang do Motor, que animavam os reclames do Lubrificantes Bardhal, nos anos 1960), a violência pode soar repetitivamente clichê (que faz parte do gênero policial) e até cansativa.


A história do bom sujeito que comete erros na juventude e busca a redenção não é novidade no cinema..., o que lhe dá “originalidade” e valoriza a argumentação é a linguagem narrativa. E o provocador Wright, que surpreendeu os cinéfilos com Todo mundo Quase morto/Shaun of the Dead (2004), Chumbo Grosso/Hot Fuzz (2007), Scott Pilgrim Contra o Mundo/Scott Pilgrim vs. the World (2010), O Fim do mundo/The World's End (2013) sabe muito bem como customizar uma velha história para que ela pareça novinha na tela. Tanto, que tem feito um bocado de críticos especular se há (ou não!) referências ao menos a dois ótimos filmes: Drive (2011), de Nicolas Winding Refn, e The Driver (1978), de Walter Hill, cujos scripts guardam alguma semelhança. Tem sobrado até para o recente musical La La Land: Cantando Estações (2016)..., provavelmente por conta do toque de fantasia que enreda o jovem casal sonhador em meio aos rá-tá-tá-tás das metralhadoras...

A trilha sonora que embala, do prólogo ao epílogo, Em Ritmo de Fuga (embora não tenha a grande maioria das letras traduzidas, como é comum no Brasil) é coprotagonista na trama. Ela é a sombra sonora compilada, a consciência sincopada que dá ao protagonista Baby o senso de direção no alucinado ballet automobilístico pelas avenidas de Atlanta, ou numa caminhada dançante pelas calçadas do bairro, ou num rodopio na companhia do velho pai e na troca de confidências com a garconete (de contos de fadas) Debora. Aliás, como disse lá em cima, tudo soa musica neste louco thriller melódico: tiroteio, corrida, batidas, copos de café, diálogos, mesas etc...


Enfim..., considerando que os diálogos são bem econômicos (inclusive no conteúdo: Nos conhecemos antes, certo? Eu não sei. Você ainda está vivo, certo? Sim. Então acho que nunca nos encontramos.); que o elenco é excelente e as performances (cartunescas) divertidas; que a fotografia (!) a edição (!) e a trilha (!) estão em perfeita e invejável sincronia; que o roteirista e diretor britânico Edgar Wright continua realizando entretenimento de qualidade e (ainda) nem aí pra “filme cabeça”; que o enredo é enxuto (os percalços de um jovem motorista a serviço de uma gangue de assaltantes) e que, violência à parte, tem um charme (e ingenuidade romântica) dos filmes policiais dos anos 1950..., quando sai da sessão especial tinha achado Em Ritmo de Fuga apenas bacaninha, mas quando comecei a me lembrar de detalhes, para escrever a crítica, me dei conta de que o filme de ação musicalizada é muito bom! Um filmaço!

*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

quinta-feira, 6 de julho de 2017

Crítica: Homem-Aranha: De Volta ao Lar


Homem-Aranha: De Volta ao Lar
por Joba Tridente*

Esta mais recente versão cinematográfica do Spider-Man poderia, tranquilamente, ser chamada de Spider-Teen, pois traz o personagem (amigo da vizinhança) mais adolescente que nunca, aos 15 anos, querendo se firmar como herói (para qualquer serviço), depois do brevíssimo “estágio” com os Vingadores em Capitão América: Guerra Civil (2015). Mas Peter Parker (Tom Holland) sabe que não é tão fácil quando parece, já que está naquela complicada fase juvenil: nem criança e nem adulto..., cheio de “boas” intenções quem nem sempre combinam com imaturidade, timidez, paixão amorosa, deslumbramento, ambição. E como se não bastasse, seus atos de bravura e heroísmo estão sendo monitorados pelo chefão Tony Stark (Robert Downey Jr.), para saber se ele pode ou não integrar o grupo de super-heróis.


Homem-Aranha: De Volta ao Lar (Spider-Man: Homecoming, 2017), dirigido por Jon Watts, cujo título pode ser “referir” tanto à HQ de 1984, quanto à Marvel e ou ao lar da Tia May (Marisa Tomei), no Queens, em Nova York, após a impagável participação do aracnídeo em Guerra-Civil, é um filme em que os fãs adolescentes vão se reconhecer na jovialidade (e insegurança) do amado personagem.

Escrito por um sexteto (Jonathan Goldstein, John Francis Daley, Jon Watts, Christopher Ford, Chris McKenna, Erik Sommers), o roteiro passa ao largo do surgimento do Homem-Aranha, da morte do Tio Ben e da “tumultuada” retomada da série em O Espetacular Homem Aranha (2012) e O Espetacular Homem-Aranha 2: A Ameaça de Electro (2014), de Marc Webb. Tudo por um (novo) recomeço mais adaptável à grade de eventos na expansão do universo marvelianos, onde o aracnídeo será um dos atrativos com seu bom-mocismo e humor involuntário.


Por enquanto, no compasso de espera para integrar a trupe dos Vingadores, o adolescente Peter Parker, segue com os estudos na multiétnica Midtown School of Science and Technology, onde é admirado pelo nerd Ned Leeds (Jacob Batalon), seu melhor amigo, por Liz Allan (Laura Harrier), seu interesse amoroso, pela ativista Michelle (Zendaya), e rechaçado pelo invejoso Flash Thompson (Toni Revolori).

Já o garoto Homem-Aranha, aprendendo a dominar um uniforme de última geração (fabricado pela TS), além de socorrer a vizinhança (deixando uma boa bagunça no caminho, com seus voos desastrados), tenta burlar a vigilância de Happy Hogan (Jon Favreau), motorista/guarda-costas de Tony Stark (Robert Downey Jr.), para investigar e coibir as estranhas atividades do comerciante de armas Adrian Toomes (Michael Keaton). Mas, o quê pode fazer o pequeno grande Homem-Aranha quando nem mesmo o Homem de Ferro (Downey Jr.) acredita no surgimento do ameaçador Abutre (Keaton)..., um vilão vingativo que (pode se dizer) é “cria” do ambicioso megaempresário armamentista Toni Stark? Ir à luta com as suas teias e coragem.


O roteiro de Homem-Aranha: De Volta ao Lar é simples (mas não simplório!) ao explorar a vida dupla de Parker num período complexo de formação da identidade, época em que o adolescente está buscando conciliar a rotina de estudante (enfrentando o bullying colegial) com o deslumbramento do chamado à responsabilidade, com os poderes recém-adquiridos e não totalmente domados. Além de um bocado de gags e piadas visuais (nem todas funcionam), em tempos de conturbação mundial, a história traz também, em seu subtexto, questionamentos interessantes (em diálogos ferinos!) e pertinentes sobre vilania e monopólio de armas. Indagações (subliminares) com a “leveza” de uma tonelada no dedão do pé e que, fora deste “contexto brincalhão” de aventura juvenil, realmente dá o que pensar...


Considerando a excelente atuação de Tom Holland (que não fica devendo nada ao Tobey Maguire) e a boa performance do elenco; levando em conta que artistas e ou espectadores não vão ter do que reclamar da cota de etnias na telona; vendo que a violência, comparada aos filmes do gênero, é moderadíssima em destruição; lembrando que há sequências divinas, envolvendo Peter e Tia May (a última é desbocadamente antológica), e de ação (como as do barco e do avião) muito bem resolvidas; reconhecendo que as breves participações do Capitão América (Chris Evans) são muito mais divertidas do que as do Homem de Ferro; salientando que o Abutre (de Keaton, ótimo) é um interessante vilão (com causa própria) e que Jon Watts tem poucos vacilos na direção; admitindo que os efeitos especiais são bem bacanas..., a começar pela abertura especial (em IMAX) ao som do clássico Spider-Man Television Theme; sentindo que o clima crush entre Peter e Liz não passa de paixonite estudantil; concordando que o filme prioriza as novas gerações (adolescentes), mas sem esquecer os velhos fãs, e pensando que a mistura de ação e aventura com comédia adolescente (a la John Hughes) funciona..., Homem-Aranha: De Volta ao Lar realmente me surpreendeu positivamente. Pode ter lá uma ou outra referência (à saga), mas ganha, e muito, em originalidade! Pelo menos até aqui, é um bom recomeço!


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Crítica: Meu Malvado Favorito 3


Meu Malvado Favorito 3
por Joba Tridente*

Sete anos depois de tentar roubar a Lua; adotar as adoráveis órfãs Margo, Edith e Agnes; se casar com a agente Lucy e entrar para o seleto time da Liga Anti-Vilões (AVL), o ex-malvado Gru está de volta para viver dias de grandes surpresas: é demitido da AVL, por não conseguir capturar o vilanesco Balthazar Bratt; descobre que tem um charmoso irmão gêmeo chamado Dru, um playboy exibicionista cheio de “más” intenções..., e, de quebra, ainda conhece um dos mais bem guardados segredos de família sobre o seu desconhecido pai.

A esta breve e suficiente sinopse junte muita ação, algumas boas piadas e gags inteligentes, mais ação e momentos fofos, mais um bocado de ação e “violência-cartum” e moderada dose de vilania vintage e ou retrô, tipo oitentista..., e você tem o divertido Meu Malvado Favorito 3 (Despicable Me 3, EUA, 2017).


Em Meu Malvado Favorito 3, dirigido por Pierre Coffin, Kyle Balda e Eric Guillon, os roteiristas Cinco Paul e Ken Daurio não alteram a saga de  Gru e sua estranha família, que agrega também os amorais Minions..., apenas acrescentam novos (e bons) elementos para que ela siga em frente sem comprometer as duas histórias (de sucesso) anteriores. Foi assim também com o Meu Malvado Favorito 2. Agora, além de pais superprotetores, o casal de agentes Gru e Lucy só não dá trégua para os vilões. Principalmente para o complexado Balthazar, um ex-prodígio mirim da tv que perde o posto de protagonista num seriado maluco, quando vira adolescente, e (adulto) decide se vingar dos espectadores (que o esqueceram) e de Hollywood (que o dispensou) com um plano mirabolante (que lembra as tramas trash da Asilum e seriados de monstros japoneses).


A animação tem tudo para agradar a todas as faixas etárias, principalmente pelo seu ritmo alucinante (comum em filmes de super-heróis) para desenrolar e costurar num bom epílogo as quatro tramas paralelas em distintos níveis de ação e aventura: a da vingança de Balthazar que, com seu extravagante figurino com ombreiras, bigodão, estilo musical e dança a la Michael Jackson,  age como se estivesse vivendo nos anos 1980; a do “afetadíssimo” (na horrorosa dublagem brasileira) Dru, irmão “perdido” de Gru, num estilo meio steampunk; a da garotinha Agnes e o seu amor pelos unicórnios, num dos momentos lúdicos de intensa beleza e nonsense; e a da revolta dos Minions que, ansiosos por uma maldadezinha (ou travessura), vão mais uma vez cair na estrada e acabar fazendo homenagens hilárias a produções como Sing - Quem Canta Seus Males Espanta (2016) e Amor Sublime Amor (1960). Ah, entre outras marcantes referências cinematográficas e televisivas estão Star Wars - O Império Contra-Ataca (1980) e Pantera Cor de Rosa (1963).


Enfim, Meu Malvado Favorito 3 deixa a pieguice de lado, e fala naturalmente da complexa convivência em família, das sempre bem-vindas fantasias infantis e dos percalços e mágoas (profundas) no meio artístico, com o descarte (mais comum do que se imagina) de atores e atrizes que já não rendem tanto dinheiro quanto os estúdios esperam deles..., tema também já desenvolvido em diversas ficções para adultos, como em o perturbador Mapa para as Estrelas (2014), de David Cronenberg. Mas não se preocupe, no desenho a linguagem da narrativa é básica e cômica (ou seria irônica?) e ao alcance de todos os públicos. Não tem nenhuma lição de moral, ou sequer jornada do herói (será que jornada do vilão conta?), mas tem uns toques bem bacanas sobre responsabilidades.


Com sua técnica irrepreensível; trilha sonora (que não incomoda!!!) pop; roteiro redondo; excelente direção e personagens (ainda) cativantes; sequências geniais (e ousadas) como a da mãe do Gru (ela é que sabe viver, viu!) à beira da piscina (se cuidem, conservadores!)..., se é fã da franquia, acho que vai gostar! Bem, se não é fã, vai gostar também! Pode não ser tão arrebatador quanto o primeiro Malvado, mas continua um bom programa e um saudável escracho do princípio ao fim.


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Crítica: A Múmia

A MÚMIA
por Joba Tridente*

Conta-se que, lá nos idos de 2014, o Dracula Untold (Drácula: A História Desconhecida), da Universal, era para ser o prólogo de um novo selo-franquia, o Dark Universe, dedicado ao resgate de monstros clássicos dos “primórdios” do cinema e do estúdio. Mas, com o vampiresco fiasco e apostando na memória curta do espectador, bombardeada por tanto filme-catástrofe de super-herói, a Universal esperou a poeira baixar para lançar um novo e ambicioso prólogo ao seu projeto: A Múmia (The Mummy, 2017)..., cuja missão é tirar dos túmulos de celuloide o Frankenstein, a Noiva do Frankenstein, o Van Helsing, o Lobisomem, o Homem Invisível, o Fantasma da Ópera, o Monstro do Pântano...


Como quem assistiu aos trailers (que só vi depois da sessão especial) já sabe tudo o que vai acontecer no drama de ação e aventura, pois 80% da trama estão lá (em desavergonhado spoiler), não há muito a dizer sobre a sinopse. Mas, caso saiba nada a respeito: ..., lá pras bandas do conflituoso Oriente Médio, o corajoso militar e ladrão de túmulos ou vice-versa Nick Morton (Tom Cruise) e o seu medroso parceiro Chris Vail (Jake Johnson), numa de suas ambiciosas empreitadas, são surpreendidos pelos terroristas do Estado Islâmico (os inimigos da vez!) e salvos por um explosivo pelotão do exército inglês, que causa a abertura de uma antiga tumba. Com a chegada providencial da arqueóloga Jenny Halsey (Annabelle Wallis), ficamos sabendo que o mausoléu guarda (ou prende!) a urna com o corpo da renegada princesa egípcia Ahmanet (Sofia Boutella), enterrada viva por cometer crimes hediondos.


Paralelamente, em Londres, operários do metrô encontram uma imensa sepultura de Cruzados (aqueles truculentos soldados do exército católico que matavam, escravizavam e roubavam quem não aceitava a religião do seu deus do amor). O que o túmulo inglês tem a ver com a tumba egípcia? Pela coincidência (?), tudo! Pela lógica (?), nada! Porém (sem ele não tem história!), no voo para a capital inglesa, onde o sarcófago será aberto e a múmia estudada pelo Dr. Henry Jekyll (Russell Crowe), chefão da organização secreta Prodigium, um grave acidente na aeronave desencadeia “estranhos” (e reciclados) acontecimentos. Aí, está armado o pandemônio (de sempre?), com o desfile de mortos-vivos e vivos-mortos, monstros, fantasmas etc...

Com seus três “prólogos” de apresentação (Antigo Egito para a princesa Ahmanet; Oriente Médio para os ladrões Nick e Chris; Londres para o (médico e monstro) Dr. Henry Jekill), A Múmia, cuja história foi escrita por três autores e o roteiro por mais três, é um verdadeiro balaio de ratos trançado com gaze elástica costurada com finas teias de aranhas. Após os “prólogos”, a claudicante ação em Londres, se resume nos pífios argumentos do Dr. Henry (sabe-se lá como ainda está vivo!): “desenterrar o mal para estudar o mal e (assim) combater o mal”. Entendeu? Não importa, já que nem mesmo a presença da secular múmia se justifica neste clube de ambiciosos (é claro!) vilões. Acredite, não há sequer um personagem bom (ou íntegro) nessa história descerebrada. Todos, além de rasos, são maus. A única coisa que interessa a cada um deles é a riqueza, o poder. Se for preciso matar (e está na cara que é!) para dominar o mundo (!), faz parte do pacote “macabro”.


Apesar do que disse acima (e ou por isso) A Múmia, dirigido por Alex Kurtzman, é um filme de terror infantojuvenil que não assusta nem criança do fundamental. Toda via do barulho infernal, no entanto, se não estiver com o phone do smart no ouvido, um jovem pode até pular da poltrona, com os indefectíveis áudio-sustos explodem tímpanos, que ressuscitam até mosca morta. Apesar da intenção, A Múmia não provoca medo algum. As piadas (ou gags) são horríveis. Risível mesmo, só a malfadada tentativa de parecer trash e ou filme “B”.


Tom Cruise passa praticamente o filme inteiro com cara de basbaque, olhos estalados, como se não tivesse a menor noção do que está fazendo em cena. Até aquele meme do Travolta confuso é mais dramático e emocionante. Já a “arqueóloga” Jenny, de Wallis, parece estar ali só pra cumprir cota (e ser salva), assim como Brie Larson, a “fotojornalista” Mason, em Kong - A Ilha da Caveira. Se o insípido Dr. Jekill, de Crowe, não está claro a que veio..., é melhor você concluir por conta própria a “importância” do bobalhão Vail, de Johnson. O filme só não é um desastre total porque tem uma ou duas sequências razoáveis. Se bem que a do avião “gravidade zero” parece sobra de Missão Impossível. Por que só umas duas? Ora, porque a maioria vai lhe parecer já vista em alguma sala de cinema, na tv e ou na telinha do seu pc.


Enfim, considerando que A Múmia não vai muito além de vitrine para o vaidoso ator e dublê Cruise mostrar a sua invejável forma física de atleta; que a melhor performance (e personagem!) é a de Sofia Boutella (Ahmanet); que nem só de boas intenções se faz um filme original (com velhos personagens) de terror ou suspense; que fazer humor não é contar piada chula (de orgasmo de 15 segundos) ou múmia falar inglês “porque é uma língua de fácil domínio”; que seria interessante saber a opinião Robert Louis Stevenson (1850-1894) sobre a “imortalidade” de seu personagem Dr. Henry Jekill (Será que o Victor Frankenstein tem algo a ver com isso?); que os diálogos são um horror (ôps!); que a história infantojuvenil é apenas a convencional (ressuscita-se uma múmia (do mal!) mas não se tem domínio sobre ela); que o triângulo amoroso Ahmanet/Nick/Jenny é um quadrado (não conto!) e tosco..., acho que o público alvo, que não gosta de dar muito trabalho aos seus neurônios, pode até gostar da pancadaria sem sangue mas com muita poeira (ou seria cálcio?) de ossos quebrados.

Quanto a mim, acho o press-book, com as informações sobre a produção do filme e as “revelações” da paixão da equipe (desde criancinha) por monstros, muito melhor!


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Crítica: Alien: Covenant

Alien: Covenant
por Joba Tridente

Há 38 anos, Alien, o Oitavo Passageiro, de Ridley Scott, aterrorizou plateias em quase todo o mundo terrestre. Depois, a cada retorno, o monstrengo foi se tornando tão vulgar e chato que, nas suas últimas aparições, até em dupla com outro alienígena, o Predador, não provocava sequer um arrepio no inverno. Então, nos idos de 2012, Scott achou que, 33 anos depois, devia ele mesmo resgatar a sua “cria” alienígena em um prólogo denominado Prometheus, que, a princípio, não seria o prólogo de Aliens (1979), mas que acabou sendo. Com sua especulação metafísica sobre a origem, os meios e o fim do homem, o resultado foi decepcionante.  Ou como ironizou a mídia especializada e grande parte dos espectadores: Prometheus prometeu e ficou na promessa!


Após cinco anos de muita conversa atravessada nos bastidores, eis que vamos reencontrar Ridley Scott, mais uma vez querendo assustar a sua fiel plateia com as conveniências alienígenas em Alien: Covenant (Alien: Covenant, 2017). O drama de ficção científica, com alguns aborrecidos sustos sonoros, além da pretensa discussão filosófica sobre criador e criatura, que reverbera por toda a trama (fala do androide Davi (Michael Fassbender) para o seu criador Peter Weyland (Guy Pearce): - Você procura o seu criador. Eu estou olhando para o meu! Você vai morrer. Eu não!), narra as desventuras (é claro!) da tripulação da aeronave Covenant que, a caminho do planeta Origae.6 (levando 2000 colonos), é despertada para resolver uma grave avaria no veículo. Sim, as espaçonaves terrestres, dependendo do engenheiro, sempre dão problemas no espaço, onde nenhum pedido de socorro será ouvido, e todos os tripulantes, habilitados ou não para o serviço técnico, vão ter de se virar para consertar a nave, se quiserem seguir viagem rumo a um mundo onde o homem jamais esteve...


Continuando, além de alguns humanos, como o capitão Oram (Billy Crudup) e a segunda no comando Daniels (Katherine Waterston), faz parte da tripulação o simpático androide Walter (Michael Fassbender), uma réplica gentil do androide psicopata Davi (Fassbender), que sumiu ao final de Prometheus. Acontece que, diferente de um pedido de socorro, a bela canção Take Me Home, Country Roads, de John Denver (1943-1997) pode ser ouvida no espaço. E como a curiosidade mata o rato, já que o planeta de onde chega a canção está a uma semana de viagem e o Origae.6 a sete anos (em crio-sono), nada melhor que fazer uma visitinha e, se a terra for boa, encurtar a viagem, trocando um paraíso pelo outro. Nem é preciso dizer que o paraíso vai virar o inferno, com a chegada dos ansiosos e descuidados humanos. Daí, é só acompanhar o rotineiro pega-pega (ou fura-fura) entre alienígenas e humanos, contar mortos e feridos e apostar em quem sobreviverá! Ah, e adivinha quem é o responsável pela emissão da música-isca pelo espaço?


Para quem conhece toda a série do metálico alienígena cabeçudo que baba ácido, incluindo as tolas parcerias Alien/Predador, Alien: Covenant é apenas (ou tão somente) mais do mesmo e (pior!) com muito menos terror, suspense, tensão e muito mais previsibilidade. Não importa a quantidade e ou variedade de Aliens de Scott (aqui vai do microscópico ao gigantesco), os ataques são explosivamente iguais e, com certeza, continuarão se repetindo nos próximos (três?) filmes. Assim, diante da tradicional (e bocejante) sandice humana, não é difícil saber quem tentará salvar o dia, (despertando a força que não sabia ter) e quem (excetuando o androide?) estará ali apenas para boi de piranha, digo, bucha de alien (tipo os camisas vermelhas da série televisiva Star Trek).


Enfim, considerando que o “suspense” infantojuvenil de “sustos” sonoros, deve agradar aos fanáticos espectadores pouco exigentes; que o “roteiro” simplório tem menos falhas que Prometheus, mas continua perdido no espaço do gênero e (talvez por isso?) subestimando o público com sequências insensatas (idiotas?) ou piegas; que a “pegada” gore está mais é para o trash; que a reflexão religiosa (fé cega e pagão imolado) é inócua; que o elenco é ótimo, porém seus personagens (excetuando Davi/Walter) são rasteiros e emotivamente imbecis; que a produção impecável e os excelentes efeitos especiais não são suficientes para maquiar a falta de criatividade, inclusive na direção..., Alien: Covenant (apesar da belíssima cena da aula de flauta entre androides) é um presente de grego. Tire suas dúvidas por conta própria..., vai que gosta!

Nota: No YouTube tem dois prólogos, criados por Ridley e seu filho Luke, que não estão em Alien Covenant: O primeiro tem a ver com o final de Prometheus e o segundo com a hibernação dos astronautas. Não são spoiler e não comprometem o filme. Você pode assistir agora e ou depois. Legendas em espanhol.


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

terça-feira, 9 de maio de 2017

Crítica: Paterson

PATERSON
por Joba Tridente

A boa arte literária nasce bruta e o escritor vai burilando as palavras, assim como o pintor apura as pincelada e o cineasta os fotogramas..., o que não quer dizer que seja regra. A arte depende do olhar do artista no processo de compreender e verbalizar o mundo ao seu redor..., o que não quer dizer que seja regra. A arte não precisa ser representação fiel da realidade, pode ser interpretação, especulação e ou mera metáfora..., o que não que dizer que seja regra. Pois a (re)leitura da arte dependerá (e muito) do nível intelectual do espectador.

Jim Jarmusch é um roteirista e diretor que foge à regra. E como foge! Suas obras são originais e únicas na exploração do cotidiano com suas reflexivas banalidades. Em seu cinema casual, tudo flui com uma naturalidade absurda (tanto na caracterização dos personagens quanto no desenvolvimento dos diálogos), sem jamais cair no ridículo da caricatura. À margem do cinemão e sem dar a mínima à cartilha dos clichês hollywoodianos, Jarmusch surpreende onde a maioria (obediente à cartilha) falha. É que quando se sabe o quê e como dizer, o universo inspira o script. E ou conspira a favor!


Paterson (Paterson, 2016), seu filme mais recente, é de uma beleza desconcertante. Poético do princípio ao fim, os versos do enredo compõem e se recompõem, no recorte de uma semana, ao redor de Paterson (Adam Driver, excelente), um pacato e sensível condutor de ônibus em Paterson (Nova Jersey, EUA). A magia já começa aí, cidadão e cidade compartilhando nome: um, querendo fazer parte da história local; outra, querendo o reconhecimento de suas celebridades na história local.


Ao cativante Paterson, que tem como ídolo e referência literária o escritor americano William Carlos Williams (1883-1963 - na internet há farto material sobre este autor modernista genial), todo material em seu caminho (embalagens, placas, locais, até conversa de passageiros) serve de inspiração para seus poemas, compostos diariamente durante o itinerário do velho ônibus pelas ruas de Paterson e anotados em um caderno. No final do expediente, quando regressa ao lar, ele troca confidências com a jovem esposa Laura (a belíssima Golshifteh Farahani), que ainda não encontrou o seu lugar no mundo profissional, revisa seus versos, passeia com o cachorro, bebe um chope com amigos e volta pra casa... 


No dia seguinte o mesmo rito: se ocupar poeticamente com o que parece banal aos olhos grosseiros e nem se dar conta da sua rotina que foge à rotina dos seus amigos e conhecidos que não mudam o “discurso” de amor e dor. É fascinante ver (e ouvir) o seu processo criativo, o seu método de lapidação das palavras, de desconstrução e de ressignificação das imagens que lhe inspiram..., e também o seu temperamento para lidar com pequenos dissabores que, por vezes, o tangenciam.


Considerando que Paterson é um maravilhoso conto sobre o fazer poético; que é um delicioso exercício literário para escritores e ou mero leitores saborearem verso a verso, até o inquestionável ponto final, uma semana de trabalho e lazer na companhia de um simpático motorista de ônibus apaixonado por poesia e de sua mulher às voltas com as cores preta e branca; que os poemas de Paterson (escritos pelo poeta americano Ron Padgett) são tocantes e desveladores, assim como a poesia japonesa (Haiku e Tanka); que essa belezura em tons sépia e ou ocre, muito bem escrita e interpretada e fotografada (Frederick Elmes), dificilmente será vista pela massa ignara que não consegue pensar além do tombo, digo, do combo pipoca/refri/celular..., o público seleto pode ir tranquilo para se emocionar e desfrutar o excelente momento, com a certeza de que ainda existe vida inteligente e muita poesia nos arredores de Hollywood... 


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

domingo, 30 de abril de 2017

Crítica: Colossal

Colossal
por Joba Tridente

Ficção científica é um tema que sempre ganha uma ferventada no cinema. O que não quer dizer que toda ebulição na telona seja de qualidade e satisfaça ao paladar de todos..., já que são poucos os roteiristas e diretores dispostos a melhorar os ingredientes da tradicional receita no cardápio do gênero.

Colossal (Colossal, 2016), escrito e dirigido por Nacho Vigalondo, é um drama(lhão) de ficção científica divã-psicoterápico que tem tudo para dividir grogues (e esquecíveis) opiniões, principalmente entre os jovens adultos, seu público alvo. A trama, com prólogo em Nova York, miolo numa cidade interiorana estadunidense qualquer, e epílogo em Seul, na Coréia do Sul, pode causar indisposição aos mais suscetíveis. É que o diretor espanhol aproveita a cenografia (e a mística etílica) para misturar, numa coqueteleira de boteco, ingredientes clichês, como alcoolismo, amor, sexo, frustração, vinganças, traumas, egocentrismo, vazio existencial..., na busca de um drink original (de alto teor alcoólico) que suba à cabeça norte-americana e descambe na cabeça sul-coreana. Haja enxaqueca!


A ressaca, digo, a narrativa (que abre com um brevíssimo pré-prólogo de 25 anos atrás, em Seul) segue os passos zonzos da alcoólatra Gloria (Anne Hathaway, com peruca horrorosa que parece que vai se soltar a qualquer momento), uma blogueira desempregada (?) e dispensada pelo namorado Tim (Dan Stevens), que deixa Nova York para morar numa casa literalmente vazia, no interior dos EUA. Ali ela reencontra um colega de infância, Oscar (Jason Sudeikis), que é dono de um bar e lhe oferece emprego de garçonete, e conhece os seus amigos Garth (Tim Blake Nelson) e Joel (Austin Stowell). Para variar, o quarteto passa o dia e a noite bebendo todas e comendo nada. Em território country, nada mais propício que um clima junkie. Será?


Numa manhã, após os goles da noite, Glória (onde estou?) fica sabendo do ataque de um gigantesco monstro, em Seul, que deixa mortos e muita destruição. Algum tempo depois e uns goles a mais, ela se dá conta de que o mostrengo é um avatar que repete todos os seus gestos. E, para a sua surpresa, o “Monstro Glória” não está sozinho, um enorme robô, que é o avatar do seu patrão e amigo Oscar, entra em cena e começa a participar do jogo absurdo. Seguem-se, então, diversas sequências bobas e ou violentas (nos dois lados do planeta), diálogos toscos e redundantes (relacionados à situação de sexo, romance, ego, bebida, possessividade) que acrescentam pouco à trama claudicante. É melhor parar por aqui, já que estas informações básicas estão na sinopse e nos trailers e não quero cometer spoiler das respostas que, com paciência sóbria, você vai ter no catártico terceiro ato. Uma coisa é certa, até lá você vai ficar pensando: Por que Seul e não Pyongyang (na Coréia do Norte), Washington e ou Madri? Será que o excelente cinema da Coréia do Sul tem algo a ver com o quebra-quebra? Calma! Mas fique atento no que anda bebendo!


Vigalondo, que caiu nas graças da crítica com seu excelente Crimes Temporais, de 2007, e a dividiu com o econômico (bota econômico nisso) e preguiçoso Extraterrestre, de 2011, por ter ficado mais na esfera da comédia (sensual e surreal) de costume do que propriamente na da ficção científica (com seu OVNI fixo), que alguns críticos (em vez de desdenhar) preferiram metaforizar sobre a estupidez humana..., não vai muito além com Colossal, um filme de fantasia em que (dependendo do seu estado de espírito ou de embriaguez) o argumento pode lhe parecer bem mais interessante que o resultado (juvenil tardio) final.  


A produção, que segue o modelo de baixo custo, com poucos atores, é uma mistura (a princípio curiosa) de vídeo game de ação e violência com drama(lhão) de vícios e “romantismo”. Porém, ainda no primeiro ato (quando começa a ganhar plataforma e delinear personagens), parece que algo está meio fora de ordem e lugar. E essa impressão bocejante persiste nos dois atos seguintes, uma vez que o devaneio do roteiro não se mostra lá muito acessível a todo espectador-joystick, apaixonado ou não por game e ou gente. O bocejo talvez se justifique pela falta de humor (nem sorriso amarelo e nem humor negro), de gags realmente engraçadas e ou de personagens que provoquem alguma empatia. Talvez! Tudo bem que, como cantou John Lennon na belíssima Nobody Loves You (When You're Down And Out): “Ninguém te ama quando você está por baixo”, mas, cá pra nós, os quatro personagens bebuns são dose..., bem desagradáveis e difíceis de se amar.


Enfim, considerando que bebida no fígado alheio é café forte sem açúcar; que quando não se entende trechos do enredo, metaforiza e deixa pra lá; que os efeitos especiais são bacaninhas; que a culpa pelos personagens malas sem alça não é do ótimo elenco; que apesar da vocação para algo bem interessante (como se vê no epílogo), a história é um psicodrama assim-assim; que o jubiloso final pode ser um recomeço (com ou sem gelo?)..., Colossal, que com sua trama quimérica (para jovens adultos) parece querer homenagear os escritores Charles Bukowski (1920-1994) e William Burroughs (1914-1997), não ficaria mal com o título Colossal Delirium Tremens...



*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

terça-feira, 18 de abril de 2017

Crítica: A Família Dionti

A Família Dionti
por Joba Tridente

Sinopses e trailers podem ser pegadinhas de mau gosto e ou podem surpreender positivamente a quem costumar dar muita importância para ambos..., já que nem sempre fazem jus ao filme e ou vice-versa e ou vira e desconversa.

Pela sinopse (raramente, só se distraído, vejo trailer) o longa-metragem infantojuvenil A Família Dionti, parece interessante em sua proposta de dialogar com o realismo mágico (ou fantástico), que na literatura brasileira se destacam o mineiro Murilo Rubião e o goiano José J. Veiga: A Família Dionti narra a fantástica história de um pai (Josué) e seus dois filhos, Kelton, de 13 anos, e Serino, de 15, que vivem em um sítio no interior de Minas Gerais. A mãe não mora mais com eles, pois derreteu de amor, evaporou e partiu. Enquanto todos os dias sonha com a volta da mulher a cada chuva que cai, Josué (Antônio Edson) cuida dos filhos com olhar atento, preocupado com a possibilidade de que tenham herdado o dom da mãe. Serino (Bernardo Santos) é seco e chora grãos de areia e Kelton (Murilo Quirino), ao se apaixonar por Sofia (Ana Luiz Marques), uma garota de circo, literalmente se liquefaz de amor.


Promissor, não? Num interior bucólico, lá pra bandas de Dores da Vitória e de Angustura, beirando um atalho mineiro de Guimarães Rosa e uma trilha mato-grossense de Manoel de Barros, a história desta família singular que comunga sonhos molhados e pesadelos secos que, de uma hora pra outra, podem se desmanchar ao vento e ou ao sol, tem início com uma chuva madrugadora que Josué espera que traga de volta a sua amada esposa e mãe dos meninos. E daí, como a imprevisibilidade da chuva, a vida segue lerda, num cotidiano de pouco fazer ou contornar: a rotina na escola “branca” de Kelton; o desejo de Serino por uma bicicleta nova; os afazeres de Josué em casa e na olaria; as histórias de circo da itinerante Sofia; a iminência do inusitado...


É sempre bom quando narrativas diversas desvelam o que inda há de belo e natural, Brasil afora e adentro. Toda via da beleza das locações, no entanto, A Família Dionti (Brasil, Inglaterra, 2015), com roteiro e direção de Alan Minas, exagera um pouco ao trazer toda a lerdeza interior de quem mora no bucólico interior para o melancólico exterior do público da cidade grande. Por vezes a lerdeza do lugarejo atemporal, onde cabe o cotidiano de quem se prende ao passado e de quem almeja um futuro longe dali, é tanta que chega a extrapolar a tela e a dar soninho no espectador mais ansioso.

Num cenário comercial em que raramente um filme brasileiro moldado para o público infantil chega às salas de cinema, há que se saudar o bonito e bem intencionado A Família Dionti, mas há, também, que ressaltar que a premiada produção não está isenta de falhas. A certa altura (quando a história começa a perder o interesse?) alguns escorregões saltam aos olhos e outros passam batidos nos vacilos da direção de arte, da continuidade, da trilha sonora, dos efeitos especiais, da edição, das performances...


A Família Dionti é um filme de recortes, de pequenas cenas (ilustrativas), nem sempre bem costuradas pela linha narrativa. Algumas cenas, na verdade, são totalmente descartáveis. Há as sequências encantadoras, como a do velho e suas abelhas, as interessantes, porém mal resolvidas, como a do mágico, sua mulher e a flor, e ainda as aborrecidas, como as do consultório médico. Na trama leve e pueril, com toques românticos, tem poesia e tem prosa sertanejas, nem sempre no mesmo diálogo. O realismo mágico é servido em diversas plataformas (circo, bonecos, pessoas)..., já o humor, ninguém sabe e ninguém viu, se é que algum dia passou pela região. Não é que a gente do lugar seja triste, não é isso, mas na história não tem passagem (gag ou piada) alguma engraçada ou que provoque algo mais que um sorrisinho amarelo. Nem mineiro da roça é tão contido assim.


Pelo resultado final, considerando que (na minha leitura de adulto) mesmo com cenas curtas a disritmia faz a narrativa claudicar; que o argumento é excelente, mas o roteiro e a direção nem tanto; que os personagens centrais são razoáveis e os coadjuvantes, como o médico charlatão Dr. Waldomiro Carls (Gero Camilo) e a funcionária do Conselho Tutelar, Doroteia (Neila Tavares), são tão caricatos que, com suas caras e bocas e trejeitos, os atores estão mais é para vilões de abomináveis “espetáculos infantis”; que o humor faz uma falta danada..., A Família Dionti é um filme mediano. Se foi premiado duas vezes pelo voto popular em festivais de cinema (Brasília e Lisboa), deve então agradar ao grande público.

Ficou curioso? Arrisque-se! A minha é apenas uma opinião que não precisa coincidir com a sua. E se assistir, traga o seu ponto de vista para cá!


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

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